18.3.26

CXX

Fontaines D.C., “Roman Holiday” (live on KEXP), in https://www.youtube.com/watch?v=x7VxmeXXMj4


While they’re snuffing out hopes, and they’re blotting suns 

they claim to know the form in which genius comes (…).


Teria as ideias salgadas – ou, havia quem avançasse a hipótese, deixara salgar as ideias e agora elas estavam com bolor. Parecia um carnaval puído a verter vinho sobre as palavras cansadas, corroendo-as a partir das margens até atingir o magma profundo. Foi ultrapassado pelo tempo e não deu conta. Agora estava na borda da prescrição, com o prazo de validade quase esgotado.

Talvez fosse uma conspiração do vinagre e tivesse azedado. Não se diga do azedo do vinagre que seja o seu opróbrio, que na gastronomia há assídua boa conta sobre as propriedades aciduladas dos preparados avinagrados (a correção impôs-se com subtileza, não foi preciso berrar a palavra certa – acidez – em substituição da errada – azedume). 

Podia arregaçar as mangas – que figura de estilo despropositada, arregaçar as mangas deixa os antebraços à mostra, nos dias que correm a elevada quantidade de agentes agressores que contaminam o ambiente é uma ameaça à saúde pública. Continuando: podia arregaçar as mangas para lidar com a acidez das palavras tomadas pelo avinagrado; ou podia, apenas, recorrer aos compêndios da gastronomia como a metáfora protetora para corrigir a decadência anunciada pelo sintoma de acidez que havia tomado conta das palavras e das ideias que elas possibilitavam.

Já podia contrapor a acusação inicial: se havia defeito a pender sobre as ideias, não era por serem salgadas (ou por terem sido propositadamente salgadas ao longo do tempo). É de bom tom não ter de lidar com imputações que são tiros ao lado. Já chegam as outras, que atingem a matéria nevrálgica e que diminuem, como se pertencessem a um ataque de ordem pessoal. Rejeitado o pleito inicial, talvez nem tivesse de dedicar muita atenção ao que sobrava: serem aciduladas as suas ideias pode não ser uma matéria diminutiva, ele há quem se deleite com o avinagrado de preparados que vêm da cozinha.

Marcou conferência de imprensa para as cinco da tarde (aqui não há hora do chá imperativo). Não queria que continuassem a apoucá-lo sem razão aparente que não fosse um arbitrário desejo de contribuir para a destruição da personalidade com a mediação de pretextos. Um pretexto, identifica-se. E depois rebate-se, com a persuasão das palavras diligentemente apuradas. Sejam ácidas ou não.

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