20.3.26

CXXII

Noiserv, “This is maybe the place where trains are going to sleep at night”, in https://www.youtube.com/watch?v=L5STwfCs6g4


Just try the best you can, if you fail in the end you will try again 

take a walk in self-defence.


(Na véspera do Dia Mundial da Poesia)

James Bond nunca daria um poema. Sobre as suas costas de herói fabricado, as palavras seriam como chuva ácida: mascarravam tudo onde caíssem, infecundas para a poesia. Se um cientista do cinema fosse revistar as muitas vidas vividas dentro da mesma personagem, o literato teria de suplicar para deixar por conta da fantasia o que não cabe na poesia.

James Bond é só uma personagem. Uma máscara inventada para extrair um império da letargia a que o tempo o condenou. Um entretenimento, porque às vezes as pessoas precisam de aliviar a cabeça quando entram numa sala de cinema (não é por acaso que a palavra “entretenimento” vem à tona). Os puristas da poesia depressa avançam para o palco, reclamando para a poesia uma condição que não é compossível com o ludismo que fantasia no limiar das impossibilidades.

Mas a poesia só o é quando veste pose solene, como se os cânones obrigassem a conferir a linhagem heráldica que a eleva a um patamar distinto? Como os que estudam a Política reclamam a omnipresença do político (“tudo é político”, argumentam), não se pode da poesia dizer que tudo pode encerrar um ângulo poético, mesmo o que, à primeira vista, esteja nos seus antípodas? Não se pode estabelecer que o poético seja decantado por cada olhar e que essa subjetividade impeça a consumação de determinismos sobre o poético?

Por este andar – dir-se-á – James Bond é um hino à poesia. Como uma central nuclear, um aterro sanitário, a música daquele músico que vence aos pontos no estatuto da irritação pessoal, ou o político mais execrável – ou como tudo e alguma pessoa a que se queira dar corda da subjetividade e encontrar-lhe um regaço poético. Nem que seja por antinomia: é poético o que está nos antípodas de uma central nuclear, de um aterro sanitário, da música daquele músico que vence aos pontos no estatuto da irritação pessoal, ou do político mais execrável. Ou de tudo o que não é representado por James Bond, porque a personagem bebe inspiração num estatuto sobre-humano que o torna imbatível, mesmo que contra ele fosse atirado um exército inteiro. 

A poesia é quando mexemos nas palavras até conseguirmos mexer com o sangue até então letárgico. A poesia é quando congeminamos a musicalidade das palavras e as viramos do avesso para terem um sentido singular. A poesia é quando a lemos e guardamos para memória futura, como vestígio intemporal. Ou o que queiramos que ela seja, agora talvez e no futuro possivelmente já não. Desde que haja poesia e ela sirva de remédio para deixar em hibernação as horríveis feições do mundo, temos um tesouro à medida das nossas mãos.

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