25.3.26

CXXV

The The, “Sweet Bird of Truth”, in https://www.youtube.com/watch?v=azysyU_Rr1g


I don’t know what’s wrong or right

I’m just a regular guy, with bottled up insides

I ain’t ever been to church or believe in

Jesus Christ

but I’m praying that God’s with you when you die.”


Despe a batina, o cura maldito. O corpo cheio de cicatrizes – e não era por fetichismo, como em alguns dementes que cultivam a indecência dos sacrifícios corporais porque uma epifania, sob a forma de alucinação, os convenceu de que a divindade que veneram exige que os seguidores se castiguem como prova de devoção. É um transtorno, não o despir do cura aberrante, mas a exposição da religião a estigmas forçados, tão hermenêuticamente descabidos, sem se perceber que uma divindade bondosa não pode exigir o recalcamento dos fiéis. 

O cura esconde-se do corpo refletido no espelho, antes de cobrir o espelho com um cobertor mesmo à mão. O corpo disforme terá sido o efeito não colateral de quem difunde o obscurantismo, de quem propaga a fé alicerçada na castração da liberdade dos seguidores, de quem impõe aos outros o que não consegue respeitar. O cura aconselha austeridade carnal. Aconselha a delação dos hereges, que, não podendo ser condenados em processo sumário pelos embaixadores (soi-disant) da divindade, ficam à mercê da sua vingança implacável.

Mas o cura é feito de sangue e carne e ossos e desejos. Mortifica-se com a proximidade das paroquianas, de algumas delas, quando o contacto físico quase se proporciona. A culpa não é das divindades, é das paroquianas, quais diabos (de saias) à solta. Se as divindades fossem interpretadas segundo a incomensurável bondade com que as pintam, seriam as primeiras a aplaudir o hedonismo dos corpos que não resistem a outros corpos. Foram os exegetas da divindade, os seus embaixadores (soi-disant) na Terra, que adulteraram o saber divino e imputaram uma carga pecaminosa aos prazeres motivados pelas coreografias dos corpos. Foram eles os primeiros a ditar a castração mental dos curas. Uma proclamação arbitrária se imporia sobre a natureza incalculavelmente carnal das pessoas, curas incluídos. 

O cura precede a vergonha da vergonha que traz no corpo. Deixa cair o cobertor que omite o espelho. Não se amedronta – afinal, é o seu corpo, o único que a vida consagrou. Já prometeu, em juras repetidas, meter gelo no desejo que o condena ao pecado. Mesmo com aquele corpo, o pecado não se afastou dele. Até agora, dobrou os braços impantes. Esses são intervalos em que se dedica à sua condição humana e deixa que as fragilidades nasçam com a manhã. 

No resto do tempo, finge. E pune, a eito, os que duvidarem dos mandamentos, fingindo que a divindade é o que não é.

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