Chet Faker, “A 1000 Ways”, in https://www.youtube.com/watch?v=q1trgx8xnvo&list=RDq1trgx8xnvo&start_radio=1
“A thousand ways
to get to know you (…).,”
Eu sei que a cidade tem segredos. Sei que a cidade fala nas entrelinhas das ruas crismadas com nomes de mortos. A cidade esconde pedaços isentos do meu olhar. Acabamos por ser um pouco forasteiros na nossa cidade.
Às vezes, apetece perguntar à cidade se revela um segredo, um apenas. Mas a cidade remete-se ao silêncio feito com o rumorejo ateado pelo burburinho diurno e pelo mistério que toma conta da noite, quando as pessoas começam a rarear nas ruas. A cidade quer que os segredos continuem a ser segredos – é da natureza dos segredos serem inacessíveis, ou deixam de ser segredos.
Um dia, perguntaram se era justo que a cidade se sentasse em cima dos segredos inconfessáveis para reter um trunfo contra a pervicácia das pessoas. As pessoas, incomodadas com o acosso da cidade refugiada nos segredos, começavam a sentir a vingança da cidade. Não é assim que as pessoas e a (sua) cidade tecem os fios de um contrato de pertença. As pessoas queriam que os segredos caíssem desse estatuto; era preciso que a cidade fosse um livro aberto e deixasse os segredos à mostra para as pessoas poderem exercer a reciprocidade com um sentimento todavia indistinto perante a cidade.
No tear intrincado dos segredos por contar, a cidade dominava as pessoas. Parecia que a cidade repousava nas máscaras exibidas, como se provocasse as pessoas que se afogueavam para saber dos segredos escondidos atrás das máscaras. Alguém acusava a cidade de manter viva a maldade sobre os seus habitantes, como se ela dispusesse de uma vingança sempre em lume brando. As pessoas queriam saber por que a vingança estava em lume brando; que mal teriam imposto à cidade para ela se rebelar e manter escondidos os segredos?
Talvez a cidade quisesse dizer que os segredos lhe pertencem, que não podem ser partilhados com as pessoas. A cidade pode querer sinalizar que, embora muito do que ela é se deva à linhagem dos seus residentes, conserva um reduto que a distingue das pessoas. Uma identidade própria, que se deve à vontade própria da cidade por ser independente da vontade das pessoas que são suas curadoras.
Eu sei que a cidade conserva escondidos os seus segredos. Eu sei que não quero saber dos segredos da cidade, porque os segredos das pessoas são tutelados às escondidas dos outros.
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