23.3.26

CXXIII

dEUS, “Let’s See Who Goes Down First” (live at Budapest), in https://www.youtube.com/watch?v=S5vgwaUwtPk


Now we all know the world is dying 

and expenses multiplying 

but you could try to take it easy too (...).”


E se começasse a partir da casa da chegada? Voltava atrás, seguindo o caminho do avesso para saciar a curiosidade sobre a casa da partida, ou avançava sem saber do caminho por diante, mesmo que ele escondesse um precipício?

Os escombros invisíveis são um revólver surdo apontado à nuca. A prescrição das almas não transige com o desconhecimento do tempo e dos lugares. Se a casa da chegada fosse a casa da partida, haveria sempre alguém a avançar do avesso. Como se as convenções gramaticais e as almofadas dos sentidos fossem estilhaçadas e houvesse quem avançasse para trás enquanto outros recuavam para a frente. 

Os sinais indevidos amontoam-se, resguardados pelos usos e costumes, dogmas que não admitem contestação. O papel obediente de cada um é participar do enraizamento dos usos, mecanicamente: as pessoas, guiadas pela pose obediente, limitam-se a cumprir os usos e contribuem para que os usos sejam mais incontestáveis a cada dia que se soma. Ninguém poderá dizer, com total certeza, se a casa de chegada é mesmo a casa de chegada. Os equívocos podem esconder o contrário do que são. Muitos passam ao lado da antinomia dos sentidos e dos significados que trazem agarrados à sua obediente pose. 

Se a sublevação dos espíritos se condensar num punhado de palavras, a questão do que é uso e sua contestação desaparece. Deixa de haver costumes que não admitem contestação. Deixa de haver aqueles que se amotinam contra os usos estabelecidos, porque não lhes cabe saber da existência de usos nem de se candidatar ao lugar de párias. Sem o chão atapetado pelos esteios autoinvestidos, aquele chão, que é a zona de conforto em que muitos se refugiam para intolerarem os desvios que abalam a obediência, sobra o espaço vital em que nidifica o lugar individual. 

Dispensem-se os usos que sideram a autonomia, apascentando o ser, castrando-o. Não interessa saber se o pórtico corresponde à casa da partida ou à casa da chegada. Cada um usa a sua bússola e escolhe de onde parte e para onde vai. Sem o ardiloso arnês dos que se dedicam a ludibriar a imensa mole humana como se fossem mesmo seus tutores.

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