26.3.26

CXXVI

Genesis Owusu, “Stampede”, in https://www.youtube.com/watch?v=69nnHQVl40g


“Snatch a crown from a king, then I tell you where I spat (...).”


Tirava partido da maré alta. O peito cheio de coragem. O dia começava com paredes debruadas a ouro, violinos aveludados entrando pelos ouvidos, o sentido prazer vindo de uma voz que deseja que o dia seja bom, a voz da sereia que acorda vizinha. A maré alta descomprometida é a maresia que entra pelos poros como se fosse o perfume de que a pele precisa. 

Não queria saber que à maré alta se sucede a maré baixa. Uma metáfora pode ser interrompida se a continuidade abalar o seu significado quimérico. Se a maré alta é um corpo cheio de intenções, um mapa exaurido de poluição humana, a maré baixa não traduz o seu contrário. É apenas uma maré que vazou e deixa à mostra os despojos da maré alta: por aqueles lugares que o mar deixou vago ondearam impressões animadoras habilitadas pela maré alta. A maré baixa não é a metáfora dos destroços deixados pela devastação da maré alta. Porque a maré alta não é uma devastação.

Se os corpos não resistissem à força gravitacional do mar, seriam possivelmente o fermento das marés. Levados pelas correntes, aprenderiam a repensar o que fosse preciso durante a sua estadia à mercê do mar. De alma lavada pela maré alta, dariam à terra no epílogo da maré alta. O seu último ato, antes de serem depostos pela baixa-mar, era deixar no areal os corpos retemperados que tivessem sido alojados pela maré alta.

O exílio da maré-alta não é um contratempo. O mar fortifica. Nele se refugiam os que precisam de um intervalo na pertença a um lugar terrestre. Os corpos precisam de levitação para a lida dos dias. A maré alta suspende os minutos que pertencem a lugares que dissipam a levitação dos corpos. 

Se a convocação de Poseidon assustar os que temem o mar, devolvidos a terra pelo medo do mar tempestuoso que dita a rebelião das ondas, fica adiado o exílio temporário sob os auspícios da maré alta. Os que não temerem a voz tonitruante de Poseidon ficam em terra, quase na bordadura do mar, a apreciar o mar encapelado. Sonham em ser posse temporária do mar, como se não temessem a força devastadora das ondas que se esmagam umas nas outras e contra as rochas limítrofes. Como se uma maré alta tomada de assalto por uma tempestade de Inverno fosse um momento heurístico. 

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