In Público, 05.03.26, p. 41.
“O say can you see, by the dawn’s early light,
what so proudly we hail’d at the twilight’s last gleaming,
whose broad stripes and bright stars through the perilous fight
o’er the ramparts we whatch’d were so gallantly streaming?”
Os aldeões contemplam o obus semienterrado num baldio às portas da aldeia. Contemplam, talvez aliviados por o obus, ao falhar o alvo, ter caído em lugar desabitado. Estão aliviados por não terem ficado estarrecidos se o obus tivesse a precisão desejada por quem o lançou.
A fotografia podia ser lembrada como o exemplo de um tremendo falhanço. A maldita tecnologia que cede sofisticação às armas letais, avivando a natureza sangrenta e desumana da guerra, fracassou com este obus. Foi em vão, o seu lançamento. Não causou vítimas, não despedaçou edifícios, não provocou pânico entre as pessoas do lugar destinado a ser o destino da arma mortífera.
A grelha de leitura deve ser virada do avesso. O erro, o tremendo erro de cálculo que fez despenhar o obus em terra de ninguém, vaticina um êxito desarmante. Desarmante, porque o erro de cálculo que fez cair o obus foi como se tivesse operado a sua desativação. Foi uma arma perdida para o beligerante e um ganho incomensurável medido pelas vidas poupadas e pelos edifícios que não ficaram reduzidos a estilhaços. Na História das guerras, as armas transviadas são um logro apenas para quem as ativou. Ao falharem estrondosamente o alvo, tornam-se um sucesso para o resto das pessoas.
Para os aldeões, o obus semienterrado em terra de ninguém devia ser motivo de celebração. Se fosse às autoridades do lugar, aquele obus ficaria imortalizado ali mesmo, intacto, sem qualquer intervenção humana, como mnemónica de como se pode louvar uma arma mortífera quando ela falha clamorosamente. Como metáfora de um erro que se transforma numa dádiva. Aquele pedaço encardido de metal afundou-se no próprio fracasso. Esse fracasso foi uma oferenda para as pessoas que, infundadamente, teriam sido atingidas se o obus não tivesse sido um erro transfigurado em sucesso.
Para quem observa através de uma lente humanista, os arsenais são sempre deploráveis pela desumanização que encerram. Só se abre uma exceção para aquelas armas que foram vítimas de anomalias e, falhando no propósito intrínseco à sua ativação, poupando as vidas das vítimas sem nome que tivessem sido apanhadas no caminho, se transformam em celebração.
Só se celebram as armas que tiveram a sorte de falhar no seu propósito. Essas, como mal menor, que sejam erguidas em monumento.

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