30.3.26

CXXVIII

James Blake, “Trying Times”, in https://www.youtube.com/watch?v=Jg6ngjH2tCc


“I’m breaking, I hide it well

‘cause I can’t afford to replace the shell

and the anxious end up alone

‘cause there are far too many things we can’t control.”


Não custa ser figurante. Descer à rua e passar como anónimo entre os anónimos é uma dádiva. Dispensa-se o incómodo de ser escrutinado pelos olhares curiosos que atiram o olhar, como quem exclama: “conheço-te”, atuando como intrusos, como se entrassem na pele de uma figura pública e a colonizassem por dentro.

A assimetria deve ser dolorosa para os que não são figurantes. Ser passado em revista pelos olhares inquisitivos e não poder devolver a cortesia, porque as muitas pessoas que o conhecem da praça pública são desconhecidas, cava o desequilíbrio. Estas personalidades não podem dar um passo em falso se estiverem expostas aos olhares alheios. Não podem ter um gesto inaceitável para quem é figura pública, ainda que o mesmo gesto passe sob o manto da indiferença se for da autoria de um figurante – mais uma prova do tratamento desequilibrado em detrimento da figura pública. Elas são das maiores vítimas da democracia. Ajudando a confirmar que a igualdade é uma miragem. Os que não são figurantes deviam protestar em favor da igualdade que fosse aplicada em seu benefício.

A revelação da pública condição é como uma expropriação do ser por efeitos da pública exposição. Deve ser um grande incómodo só de perceberem que os anónimos que circulam em contramão sabem o seu nome. Um dos bens maiores é passar na rua sem ser interpelado pelo próprio nome. O anonimato é um bálsamo que as figuras públicas gostariam de ativar se pudessem aplicar o tempo retroativamente. Ou se pudessem fazer descer sobre elas um véu que as extraísse do conhecimento público, quase como se pudessem ser fantasmas para garantir a sua privacidade.

Os aspirantes a figuras públicas manteriam a aspiração se soubessem das dores da notoriedade? Por mais que haja quem viva imerso na imensidade do eu e considere que o podem agigantar se se tornarem figuras públicas, só a inexperiência (por ignorarem os efeitos corrosivos da exposição pública) ajuda a compreender que mantenham a teima em subir a escadaria do conhecimento público.

Saber que ninguém sabe o nome próprio é uma das bênçãos maiores nestes tempos em que se multiplicam as hipóteses de visibilidade pública. Ser figurante não custa mesmo nada.

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