Echo and the Bunnymen, “Lips Like Sugar” (live in Liverpool), in https://www.youtube.com/watch?v=l3oTFqf-8qA
“Lips like sugar
sugar kisses (…).”
O cliente nem sempre é bem-vindo.
As portas abocanham os clientes que se propõem. O espaço interior é a metáfora desarmada das boas-vindas: ao contrário dos espaços comerciais de requinte, que têm admissão reservada e filas de chineses à espera no exterior do estabelecimento, os outros não são elitistas. A política de porta aberta é sinónima da sua linhagem democrática. Os que nidificam no elitismo e discriminam pelo preço, exigem que se toque à campainha.
A política de portas abertas não significa que os clientes sejam sempre bem-vindos. Há clientes corteses, que sabem respeitar a loja e os empregados, não os tratando como se fossem meras figuras servis que devem satisfazer todos os caprichos do cliente. Mas há os execráveis, que maltratam os empregados e desrespeitam a mercadoria, apenas porque lhes apetece, ou porque nasceram em berço que não soube respirar a boa educação, ou porque não respeitam quem, como eles, trabalha.
Os clientes podem nem sempre ser bem-vindos porque os empregados da loja podem não estar momentaneamente bem-dispostos ou porque um súbito acesso de mau humor deles se apoderou, levando-os a embirrar com o cliente, até possivelmente cortês demais. Ou então, ao testar a paciência do empregado com os sucessivos caprichos e a marcha atrás do cliente, ele deixa de ser apreciado e as instruções da gerência são para dispensá-lo da condição de cliente. Há clientes que mais vale a pena não o serem. O custo de aturá-los não compensa o atrativo da faturação, que é o cerne do negócio.
Quem vier por bem será bem tratado – a menos que a indisposição tenha tomado conta do empregado e este não queira a canseira de aturar um cliente exigente, que entra em detalhes sobre a mercadoria e suplica, indigentemente, um desconto em cima do desconto, o desconto do cliente especial que, todavia, é a primeira vez que põe os pés no estabelecimento comercial. Os clientes evitáveis não são sempre bem-vindos. Sê-lo-ão aqueles que forem convertidos pela mediação paciente do empregado, que lhe dobra o braço teimoso que propende para o capricho, levando-o a comprar até mais do que tinha previsto (e sem descontos suplicados). Quem não vier por bem não pode ser bem tratado, sob pena de os maus-tratos recaírem sobre os empregados que não são pagos a peso de ouro para aturarem a clientela execrável. O que seria uma injustiça atroz e antidemocrática.
Digam, então, se o princípio não pode ser estendido às casas particulares.
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