Nick Cave and the Bad Seeds, “Red Right Hand” (live at Later with Jools Holland), in https://www.youtube.com/watch?v=FsggKgp4w9Y
“On a gathering storm comes a tall handsome man
in a dusty black coat with a red right hand.
He’ll wrap you in his arms, tell you that you’ve been a good boy
he’ll rekindle all the dreams it took you a lifetime to destroy (...).”
Se o mundo causa tanta repulsa, se está tão desfalcado que as casas de apostas apostam que não tem remédio, por que trazes as notícias no bornal de todos os dias?
Esta era a questão existencial que destemperava o momento. Há contradições que são acidentais. São o simples jogo das peças que se encaixam em ações não intencionadas, mas as suas dores sentem-se na mesma. Mas há contradições que são contraintuitivas. Traduzem a propensão para um certo masoquismo: o observador atento exerce a sua observação a partir de um bem situado posto, farta-se de esboçar esgares de desaprovação sobre o que observa, impacienta-se com os disparates dos Homens, anota a falta de memória que trava o conhecimento da História e de como isso agrava muitas entorses sucessivamente cometidas, protesta contra a má rês humana que aquece em lume-brando o pessimismo antropológico mais do que confirmado.
Nem assim a sede de conhecimento se sujeitava a um terapêutico torniquete. As novas eram sistematicamente de má linhagem. Se tropeçava numa boa nova, depressa a armazenava entre as coisas irrisórias, que ainda mais depressa passam a pertencer ao rol das coisas esquecidas. Eram as más novas que cativavam a atenção. Diziam que era exímio numa espécie de roleta-russa que o desanimava quanto às esperanças tituladas pela espécie humana. A cada bala disparada, o som da engrenagem do revólver fazia subir a velocidade do coração: não é que fosse a sua integridade física a estar em causa caso saísse na roleta-russa uma bala artilhada; era o quotidiano da espécie, mergulhado numa angústia sem redenção.
Os dias assim passados, com rotineiras e não periódicas atualizações do desestado do mundo, de como acontecimentos untados por nuvens plúmbeas e pútridas se somavam, eram um exercício pungente. Um módico de desacreditação da humanidade e dele próprio, que não tinha a ilusão de se poder furtar aos nós górdios da espécie.
Um dia prometeu: hoje não vou acompanhar a voragem do mundo lá fora, vou-me exilar dentro de mim e mergulhar em leituras de livros que sejam o desaprendimento da humanidade tal como se encontra. Nem que seja só por um dia, para experimentar. Oxalá conclua o dia sem sentir a falta de perceber como caminhamos diligentemente para um abismo sem remédio.
Sem comentários:
Enviar um comentário