10.3.26

CXIV

Radiohead, “The National Anthem” (live Reading and Leeds), in https://www.youtube.com/watch?v=hTzRliW3iFs


Everyone 

everyone around here 

everyone is so near (…).


(Depois do filme, “A Morte de Belle”, de Benoît Jacquot)

Por mais que se enraíze a pedagogia política que ajuda a cimentar o regime, os sintomas de descivilização acabam por fazê-la cair em saco roto. 

Um exemplo (dir-se-ia: desexemplo) é quando a turba irada faz uma espera organizada à porta do tribunal por querer fazer “justiça” (insista-se nas aspas) pelas próprias mãos a um criminoso da pior espécie que ainda vai a julgamento. Outro exemplo é quando um ainda não suspeito de um crime, sujeito a forte reprovação social, sobre o qual se abate um manto de suspeições por fundamentar, sem, contudo, dar origem a uma acusação. E de como a sociedade dos bons costumes, aquela que reage por estima, segundo os maus preceitos do “cheira-me que”, reage com frieza ao suspeito que não o chega a ser, isolando-o num canto onde ficam escondidos os que devem ter cometido um crime, sem que, por enquanto, se confirmem as provas que atestem aquele estatuto. Como se fossem condenados a uma hibernação cautelar que os acantona num lugar que os demais, as “pessoas de bem”, devem evitar.

A reação epidérmica que encosta às cordas quem não chega a ser tratado como suspeito é um sintoma de como os alicerces que instruem a cidadania ficam em banho-maria. Muitas pessoas esquecem a teoria que esforçados procuradores do regime ensinam, escorregando para um comportamento que não confirma o princípio da inocência até prova em contrário. As pessoas substituem-se aos profissionais da investigação policial e tiram as suas próprias  conclusões apressadas. Ao início, dirigindo apenas olhares desconfiados que esfriam o contacto até entre os conhecidos. Depois, com a mobilização de uma turba covardemente escondida no anonimato que julga antes do tempo, condenando ao desterro social quem nem sequer é acusado pela Justiça.

Por mais que se enraízem os substratos da civilização, o sangue em ebulição de gente dominada por emoções e que depressa escreve a sua sentença pessoal, desautoriza a civilização em que dizem vivermos. Podemos ser Homens das cavernas mesmo no mais belo palco onde (se diz que) passeia a diligente civilização.

Ainda bem que não existe um registo de sintomas de descivilização a ser averbado nos cartões de cidadão. Se não, as dores com as provas materiais de descivilização dariam para falar de um pré-apocalipse dessa civilização.

Sem comentários: