28.5.26

Confidências de um estranho em causa própria (short stories #510)

Morrissey, “The Boy With the Thorn in His Side” (live at the Hollywood Bowl), in https://www.youtube.com/watch?v=xqzXgMzkqvM

               Não sei de cor os chapéus em que caibo. Se a manhã for um pressentimento de calor, juro que farei uso das roupas de inverno (nem que fique em casa a tirar partido de um potente aparelho de ar condicionado que comprei a prestações há dias – ia dizer “atrás”, a seguir a “há dias”, mas travei a tempo). Todas estas luas loucas que fizeram tirocínio para terem cores diferentes dão trabalho aos conservadores encartados – ele há lá direito de as luas passarem a ter cores diferentes do alvo luar a que estão acostumados? É como as bandeiras. Quando estão a aguardar a sua vez, não magoam ninguém. Depois de hasteadas, há de haver alguém que, às escondidas, cuide de somar umas pichagens ultrajantes que poderiam ser levadas ao Ministério Público para o levantamento de um auto por ofensa aos símbolos nacionais (ó coisa mais rica, que não admite a heresia de quem deles quer mofar, deixem a liberdade de expressão reservada ao baú do esquecimento). Quando passo o dia na rua, por mim passam quase tantos estrangeiros quanto concidadãos meus, já me dei ao trabalho de fazer a aferição estatística em tempo direto. Descobri que tenho mais em comum com os turistas. Talvez porque gosto de viajar e de turistar como os turistas que nos visitam, pese embora circule, de boca em boca, uma desconfiança metódica e provavelmente xenófoba que verte olhares diagonais e desconfiados sobre os turistas aluados. Há tanta gente que se apregoa cosmopolita e depois salta para o outro lado da rua para não entrar em choque frontal com os muito cosmopolitas turistas que contribuem para o (nosso, diria, se dele tirasse algum partido) produto interno bruto. Depois, ao anoitecer, tenho a companhia ora de sonhos, ora de pesadelos. Os primeiros acontecem em terras forasteiras. Os segundos evocam aquele deputado de extrema-direita que deixou de caber no fato e gesticula desmesuradamente como se estivesse na taberna, e o outro, da esquerda moderna e bem-pensante, que tem a mania, só porque sim, que é o mais fino da turma dele.

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