Kiasmos, “Squared” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=zIkU1WoiD24&list=RDzIkU1WoiD24&start_radio=1
Um grito de horas trespassa as nuvens que acompanham a manhã. As palavras que duram enquanto o grito se sente são ininteligíveis. Demoram-se na sua nudez implícita enquanto o grito se apodera das veias, como se fossem assaltadas por um sismo interior.
A maresia que se começa a sentir pode amortecer a dor que tomou conta da alvorada. É costume a maresia anestesiar os sentidos, inebriados com um efeito lisérgico que ilide os sobressaltos contínuos de quem é dado pertencer ao mundo como está feito. Não é do lado de fora que está a tempestade. Se a maré se congemina no sentido certo, os efeitos telúricos do sangue tumultuoso são aplacados, como se um sortilégio acabasse por rimar com o dia.
Nessa altura, até se pode dispensar a morte favorável: de dentro parte o movimento heurístico que destrona os agentes exteriores que tencionavam deitar máscaras avulsas sobre o rosto espontâneo. Depois, a desoras, um arraial de adjetivos vem poluir o silêncio que se queria estrutural. Entre as perdas haverá um proveito a celebrar: ao inventariar os descaminhos involuntários, torna-se possível atestar os proveitos.
Os maneirismos que povoam o tempo presente embaciam a lucidez. Impedem o escrutínio do que entra na coluna das perdas e na coluna dos proveitos. Só o silêncio estrutural habilita a lucidez necessária para saber situar um paradeiro. Só do criterioso sindicar dos efeitos das coisas medram as paisagens límpidas, despojadas de nuvens que possam embaciar o olhar.
Nenhumas são as perdas se a mira for feita a um dia que se diga ter sido pleno. A métrica do dia não é costurada por vontades exteriores. Tanta subjetividade desata o nó que trava as resoluções que estão em falta. Um dia pode ser pleno mesmo que não tenha sido. Sem que isso seja uma farsa. Até revolucionários da melhor cepa acabam por usar gravata.
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