26.5.26

O elefante saiu da sala (sobre línguas destravadas e como (nada) fazer para as travar)

Blur, “The Universal” (live at Wembley Stadium), in https://www.youtube.com/watch?v=KHqIsP4EXdE

Há palavras que, quando se emancipam da boca, parece que não fizeram estágio no cérebro. Fuzilam os seus titulares, gente encartada na arte de arranjar conflitos diplomáticos ou grandes zangas, por terem dito o que disseram no tempo em que foi dito, atingindo pelo caminho um punhado de vítimas inocentes.

É da natureza do Homem ter afinidades com o elefante, por mais improváveis que pareçam. Se a inspeção for feita com critério, chegar-se-á à conclusão (pelo menos os antropocêntricos) que é o elefante que partilha algumas características da natureza humana. Para notório lamento de alguns varões, as semelhanças entre o paquiderme e o humano não vão mais longe e excluem outras partes anatómicas que teriam muito préstimo para marialvas frustrados.

Está errado o anexim que atesta que pela boca morre o peixe. Atendendo às vezes em que o elefante estraga a sala ao abrir a boca, não é um exclusivo dos peixes. O diagnóstico, por ser exagerado, é suscetível de um desconto. Quem se auto-atropela no manuseio das palavras e sai de cena embrulhado numa má figura, apenas cai na vergonha, o que está muitos degraus abaixo de perder a vida. Haverá alguns excêntricos que preferem que a vida seja sepultada a terem de passar pela vergonha de quem fez tristes figuras perante os olhos públicos. Mas são uns poucos, que cometem uma dupla ignomínia: como se não fosse suficiente a desastrosa escolha de palavras, são capazes de jurar que não se importam de morrer. 

O elefante precisa de sair da sala para dizer o que lhe aprouver. Ninguém exerce censura sobre ele. Continua a usufruir de liberdade de expressão, mas os danos do seu exercício são contidos porque, ao sair para a rua, as palavras que forem ditas dissolvem-se na imensidão do espaço aberto. No meio de uma praça ampla, por mais que grite a sua falta de atributos para pesar as palavras, ninguém o ouve. Ou todos o evitam, porque ainda se pensa que são orates os que se dedicam a puxar da palavra para falarem sozinhos.

Se o palco montado for estimado com precisão, empurrar o elefante para fora da sala é uma censura virada do avesso. Não lhe é vedada a palavra, quando ele sai para a rua; mas se ninguém o ouve, extingue-se o efeito útil das suas palavras, o que equivale a uma censura indireta.

O elefante não se importa. Aqueles que nos impedem de fazer fraca figura merecem sempre um panegírico. 

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