25.5.26

Partir pernas e outros ossos, para (incrivelmente) dar sorte

Royal Blood, “Lights Out”, in https://www.youtube.com/watch?v=ZSznpyG9CHY

No teatro, há o costume de desejar que as pessoas envolvidas numa peça partam uma perna para que tenham sorte. Era interessante fazer o exercício arqueológico desse uso, para compreender o que teria levado alguém a desejar algo tão doloroso como sinónimo da sorte que a trupe precisa para que a peça seja um sucesso. Às vezes, temos de fazer força para que algo que não queremos que aconteça esteja no nosso radar sem que o possamos evitar. Não sei se o costume de desejar pernas partidas como figura de estilo que aquiesce a sorte no teatro teve essa origem.

(Podia perguntar à heroína do momento, a inteligência artificial, mas este espaço está isento de invasões de artificiais inteligências).

Pode-se recuar um pouco mais: a obrigação de desejar sorte a quem queremos bem (e não tanto) é uma cortesia enraizada nos costumes da boa ordenação social. Não desejamos o mal aos outros; pelo contrário, queremos que eles fiquem contentes com as suas empreitadas. Da mesma forma que nos cai bem que os outros se preocupem com as nossas demandas e que os votos de boa sorte sejam palavras que aquecem a alma, é-nos devido um exercício de reciprocidade. Desejamos boa sorte porque também nos desejaram, e ainda vão desejar, uma sorte boa.

(Não chega “sorte”? É preciso cair numa tautologia e somar “boa” à “sorte”, como se alguma sorte houvesse que fosse má?)

Atrás do véu da cortesia social, as palavras escondem um significado do qual não nos podemos esconder. Os imperativos de cortesia não anulam o efeito das palavras usadas como suas fórmulas operativas. Quando alguém deseja sorte a outrem, é porque essa pessoa precisa dela, sem a qual, possivelmente, o resultado da empreitada em que se mete será um logro. Se as pessoas que partem em demanda de uma demanda estão seguras de si, dispensar-se-iam de lhes ser creditada tanta sorte avulsa. Como se o esquecimento de endereçar os votos de boa sorte, ou a distração que desvinculou a atenção para outro lugar, fosse uma fulminante condenação ao azar.

A superstição é irracional, mas ele há tantas e tantas coisas na natureza humana que não se libertam desse (assim considerado pelos bons costumes) anátema, que destratar a superstição acaba por ser irrelevante. Quem mexe com a sorte e o azar exporta-se para atos e modos exteriores. Não se dominando os imponderáveis que podem adulterar a sorte (e o azar), as boas normas de conduta social mandam que se deseje boa sorte para esconjurar os possíveis fantasmas que possam hipotecar a demanda.

Um dia destes, ainda alguém se lembrará, por interpretação extensiva, de desejar um tumor como sinal da sua interior convicção de que o destinatário é merecedor de sorte. Sem que se continue a perceber como pode um tumor rimar com sorte. Se a superstição não fosse um inferno que nos coloniza, dispensar-se-iam estas bizarrias. 

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