La Unión, “Lobo Hombre en París”, in https://www.youtube.com/watch?v=Y2SwrG5qHEE
Os procuradores dos tempos modernos, aqueles que tudo aceitam sacrificar no altar da competitividade, detestam empates. Por sua vontade, é obrigatório proclamar um vencedor. Imersos na língua de trapos que convoca as pessoas a competir umas com as outras, como se voltassem a ser selvagens, combatem os empates como se fossem piores do que perder.
Para eles, um empate é nivelar por baixo. Um incentivo aos medíocres para se esforçarem apenas o necessário para impedir que outros sejam vencedores. Encantados com a exaltação do mérito dos que singram (sem ser importante dedicar atenção aos meios que servem para singrar), os detestadores de empates são os autores de um código de conduta que ensina como ser vencedor e como derrotar, com a força do braço, se preciso for, os empatas que aparecerem pelo caminho.
A teoria do desempate é um panegírico à competitividade sem freio que nos coloca no limiar do Homem selvagem. Para travar o passo a um empate que parece inevitável, os procuradores dos tempos modernos promovem os meios necessários para que alguém seja declarado vencedor. Um vencedor atira os outros para o empoeirado lugar onde vegetam os derrotados (mesmo que, noutra circunstância e noutro tempo, os papéis se invertam – o que conta é glorificar um vencedor, seja quem for). À tanta pressão para entronizar vencedores – suspeita-se que, muitas vezes, sejam vencedores forjados apenas porque um empate é o pior dos cenários –, corresponde uma lição bem estudada que convence as pessoas de que o empate é próprio dos fracos.
Não se deve ceder à tentação do discurso fácil que arregimenta multidões adeptas. Vem algum mal ao mundo se alguém for fraco? Se uma pessoa a quem é colado o rótulo de fraco consegue bater o pé ao forte, a seu crédito joga o empate que seja levado à conta de vitória. Não há empates que soam a triunfos? No desporto dos desportos, o xadrez, um elevado número de jogos termina com um empate técnico, sem que alguém proteste contra os empatas. Para aquele que esteve encurralado e se evadiu dessa posição, um empate é o selo da sobrevivência que era tida como improvável. É um empate com todo o sabor a vitória.
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