17.9.26

Se o petróleo está caro, anda a pé (dores da conjuntura em dó maior)

Dead Can Dance, “Anywhere Out of the World”, in https://www.youtube.com/watch?v=Q06XcYzVjas

Andam os ianques aos tiros como os sucessores dos persas e o estrangulamento de um estreito por onde navega muito petróleo tem atirado o preço da prima matéria-prima para a estratosfera, dando corda à inflação que costuma ser boa para os orçamentos dos Estados e má para toda a demais gente. 

Dispendioso que está o petróleo, os combustíveis que dão o mantimento essencial aos veículos seguiram a mesma tendência. Tudo encarece, porque tudo, ou quase, é transportado por estrada e os camiões de elevada tonelagem só sabem beber gasóleo (cinicamente, o combustível que mais envenena a atmosfera). O efeito dominó varre a economia de uma ponta à outra e os dias amanhecem sequestrados pela carestia que trepa a cada dia que passa. A inflação começa a morder até ao osso.

Se protestas pelo preço dos combustíveis, deixa o governo em paz que não foi o governo que invadiu os outrora persas, nem foi ele a estrangular um tão estratégico estreito marítimo por onde navega tanto petróleo. Não venhas insistir na ladainha do IVA que devia ser diminuído, como se o governo decidisse subsidiar os contribuintes de cada vez que pegassem na mangueira do combustível, enquanto os mais necessitados, que não têm o luxo do automóvel próprio, se isentam desta regalia. Nem menos invoques o país do lado, que de exemplo não tem nada.

Em vez dos lamentos profissionais a que te queres dedicar, interioriza um anexim que o povo (dizem: tão sábio) legou à cultura popular. Não te esqueças que se não te é dado ter a ajuda de um canídeo para caçares, contenta-te com o felino que esteja à mão (até porque os felídeos são exímios caçadores, de melhor cepa do que os canídeos – e ao sabê-lo por mote próprio, darás um contributo para desfazer um indefensável mito popular; o povo é assim, paradoxal).

Em assim sendo, mentaliza-te dos recursos que os teus disponíveis recursos, os que ainda não foram sorvidos pelo vulto da inflação, possibilitam. Se o orçamento emagreceu e és forçado a desviar réditos para prioridades urgentes, deixa a carripana a descansar e passa a andar a pé. Assim como assim, as adiposidades acumuladas nos últimos anos podem começar a ser derretidas com as caminhadas. Sabes lá se não te pouparás a isquemias possivelmente fatais.

Eis outro paradoxo dos tempos modernos: a carestia de vida é amiga da saúde das pessoas. Para de protestar, ou preferes encomendar-te ao desviver súbito?

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