Nine Inch Nails, “Gone, Still (Dream of Collpase Rework)”, in https://www.youtube.com/watch?v=hYNOLTDKpL8
Desaparecem os vestígios atravessados na paisagem, como se dissolvidos fossem pela erosão do tempo. Muitos são os que se entregam à nostalgia tirânica. Desinteressam-se do vento que se alimenta do tempo corrente: dizem que desse tempo não levam nada para aprender.
As algemas franqueiam uma fortaleza. Têm consciência disso, mas recusam um movimento que contrarie a moldura do passado, não o querem esconjurar. Olham de frente para o vindouro à espera da maioridade do dia que atravessa o presente e cansam-se da incerteza desse tempo. Não querem estar sitiados por uma moldura que desconhecem.
Já ouviram dizer que perder a pele no passado é das perdas maiores. Se for intencional, é um paradoxo: só conhecem o passado, essa é a sua zona de conforto. Olham para trás pelo canto do olho, até o campo de visão assim devolvido ser uma nesga. Por mais que ouçam, em jeito de advertência, para não olharem para trás, é o que melhor sabem fazer. Empenham toda uma vida que está ainda por servir. Se fosse revogado o medo do futuro, não procuravam no mundo conhecido.
Um dia alguém perguntou à confraria dos historiadores das suas próprias vidas se concordavam estar sob a égide de bandeiras que invocam o passado, sem se esquecerem que hinos e bandeiras são um atavismo próprio de quem faz o salvo-conduto do passado, um tempo que já só interessa aos arquivistas e aos cientistas que selam a História dessas circunstâncias. Ninguém soube responder. Ninguém quis responder. Fingiram.
O cavalo selvagem passou a correr no campo de visão. Não abrandava o trote, parecia fugir de um espectro que o amaldiçoava. A árvore centrípeta estava no caminho do corço jovem que bebia água no riacho que ainda sabia ao degelo. Os corpos moviam-se em uníssono, como se tivessem feito o tirocínio de uma coreografia. Tinham de se convencer a não olhar para trás. Contudo, tinham medo de se arrepender. Omitiam da pele o tempo sensível. Não se entregavam a esse risco. A redenção é sempre para os outros, não queriam ser assaltados pelo sobressalto de quem se entrega a esse violento ato interior.
Somos nós, assim teimosos, os responsáveis pelo adultério do tempo.
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