29.11.10

Medo da água têm os gatos


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Uns americanos apresentaram uma teoria que desaconselha o banho diário. Faz mal, dizem eles. E não é necessário. Eis o raciocínio que prova a inutilidade do banho de todos os dias: dantes, quando os nossos avós e bisavós e por aí adiante trabalhavam na terra, é que o banho era um imperativo de todos os dias. Agora que somos modernos, citadinos e temos trabalhos sedentários, para que vamos entregar a pele e o cabelo ao desprazer da água, do sabonete e do champô?
Retrocesso civilizacional? Mais outra campanha dos fundamentalistas do ambiente, agora tão preocupados com a exaustão dos recursos aquíferos do planeta? Ou “este hábito foi criado pelas empresas de produtos de higiene para aumentarem lucros”? (Portanto, mais lenha para a fogueira do infame capitalismo, noutro capítulo da interminável teoria da conspiração que nos faz reféns do grande capital que se abarbata de lucros à custa dos ingénuos consumidores.)
Às vezes, quando meto os pés ao metro, não é agradável sentir o odor corporal alheio de alguém que calhou em estar ali ao lado. Ou olhar de frente para alguém que passa na rua com os cabelos desgrenhados – mas desgrenhados não por ser modismo juvenil, desgrenhados por deles (cabelos) andar ausente a água e o champô. Bem sei que um individualista não questiona as opções dos outros indivíduos. E depois entrávamos naquela infindável discussão sobre as fronteiras da liberdade individual (a minha termina quando colide com a dos outros, esse limite tão volátil). Por cima dessa teórica discussão: incomoda-me o mau cheiro corporal.
Os defensores do banho-quando-lhes-apetece evocam os corpos encardidos de terra dos avós e bisavós que trabalhavam na agricultura para provar que não é necessário o banho diário. Ignoram que os avós e bisavós, mesmo com os corpos encardidos de terra, não eram adeptos do banho diário. Por essa ordem de ideias, como hoje tão pouca gente trabalha na lavoura e somos tantos a viver em cidades supostamente higiénicas e temos trabalhos sedentários, talvez chegasse um banho semanal, vá lá, quinzenal.
Não percebo esta fobia ao banho. Eu não consigo funcionar sem passar o corpo pelo chuveiro a debitar água quente. Retomo aquele assombroso argumento dos trabalhos sedentários que provam a inutilidade do banho diário. Ou seja: não transpiramos no caminho para o trabalho; não suamos as estopinhas em tarefas que exigem mais do corpo; nem da epiderme se libertam suores quando o cansaço do fim do dia transporta o corpo até casa. Dia atrás de dia, os corpos embrulhados nos vestígios do insuportável suor deitam-se nos lençóis que recebem toda a sudação corporal. Imagino como deve ser desagradável um corpo meter-se à cama e sentir o odor pestilento das camadas de sarro que foram sendo deitadas nos lençóis. Haja quem consiga viver numa pocilga.
O imaginário popular convencionou que os gatos é que têm medo da água. Afinal descobre-se que há uns humanos, se calhar muitos humanos, que têm a mesma aversão. O que atesta a injustiça das sentenças lavradas pela pena do povo. Os gatos, uma e outra vez, vítimas da ignorância popular. E o povo, autista, a apontar aos bichos a sua própria propensão para o desasseio. Todavia, a cada um o inalienável direito a escolher a sua higiene. Um dia destes têm que acabar com o estigma da falta de banho, a crer neste movimento que vem lá das Américas. Então, um famoso maestro português já não podia ser motivo de chacota.

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