12.3.13

À vista de pássaro


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Queria ser Ícaro. Bater as asas e emproar-se nas nuvens montadas no céu azular. Planar de olhos fechados, ir para onde o vento quisesse. Num voo asado, fugir dos vales monótonos. Abeirar-se dos promontórios que pareciam, vistos das planícies, beijar o céu tomado por um teto de nuvens. Queria siar de repente, desenhar uma rasante ao arvoredo calmo, respirar o ar do campo sem avistar casario por perto, escalar as serranias íngremes contemplando a coreografia de rochas alcantiladas num equilíbrio instável. Porque, afinal, tudo é equilíbrio instável.
Queria ser Ícaro para saber os segredos da paisagem. Prometeria entoar loas à traça campestre do casario remediado, fugir dos altos edifícios que colonizaram as cidades. Haveria se ser, num dia que fosse, o lugar-tenente da ruralidade que sempre negara. Às coisas na sua mudança, às coisas na sua antítese, proclamaria um hino inteiro. Não era o mudar pelo mudar. Que as mudas impróprias, aquelas que se entretecem com a hibernação das rotinas, campeiam em lúgubres achados de onde se não avista partida fácil. Só queria ser Ícaro para levantar os pés do chão, perder o contacto com o chão pela duração do remígio.
Guardou o segredo para o seu âmago. Dispensava reprovação alheia. Não queria que lhe dissessem que a alienação não remedia maleitas. Havia noites em que se deitava sonhando com as asas que desejava ter. Dito de outra forma: admitia que estivesse em superação das dores da desocupação. O tempo repetia-se, banal quando não achava serventia para ele. Os relógios eram tiranos nessas ocasiões. Apetecia boicotá-los, da imaginação nidificando um impotente nada. Era quando se deitava a tramar o fantástico. Era quando metia as mãos nas algibeiras dos sonhos, dos sonhos de sentidos sentinelas, e se fazia Ícaro. Os lugares que pareciam cárceres tinham de ser devastados da geografia mental. Empunhava as asas do Ícaro que os sonhos tutelavam e partia em voos sem cartografia, em voos que eram errâncias deleitosas.
Quando aterrava, eram os lençóis seu leito. Não se consumia pela deceção, nem insultava os sonhos que fermentaram ilusões enquanto os sentidos se anestesiavam pelo sono idílico. Aceitava o que era. Fosse temente a deus e as preces de agradecimento ecoariam pelo quarto em seu recolhimento.

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