10.9.10

E se o camarada Fidel estiver surpreendentemente lúcido?


In http://www.freakingnews.com/pictures/37500/Fidel-Castro-and-Marilyn-Monroe-37710.jpg
dias duvidei – como, aliás, sempre duvidei – da lucidez do senescente camarada Fidel. Foi quando ele descobriu que Bin Laden, apesar de ser o terrorista mais procurado pelos serviços secretos dos Estados Unidos, está a soldo deste país. Hoje vou desmentir o mau diagnóstico anterior. É que o camarada Fidel deu uma entrevista onde confessou a falência do modelo comunista. Teve a honestidade de afirmar que não era um modelo exportável para outros países porque nem sequer tinha dado provas em Cuba.
Não posso fugir a um imperativo prelúdio: o que se segue pode soar a desonestidade intelectual. Se há dias pus em causa a sanidade mental do ex-que-ainda-pensa-que-é-líder-cubano quando inventou aquela fantasiosa teoria da conspiração, hoje aplaudo a coragem de ter, por fim, conseguido proferir palavras sensatas. Pelo menos para os meus gostos pessoais. Daí que não consiga resistir a ovacionar Fidel – lá haveria de vir a primeira vez. Ora tudo isto leva a reconhecer que a mudança de opinião sobre a sanidade mental do camarada cubano vem a reboque das conveniências pessoais. É deste Fidel que eu gosto.
Imagino o dia atormentado que os camaradas comunistas passaram quando esbarraram nas contundentes declarações do seu ícone. Adivinho a primeira reacção: isto não passava de uma farsa montada pela comunicação social imperialista. Só podia ser uma dessas maquiavélicas distorções de que só os capitalistas são capazes, isolando uma frase do contexto para pôr o camarada Fidel a renegar todo o passado em que foi protagonista e, pior que isso, a renegar um valioso ingrediente do património genético do comunismo. Sacanas dos capitalistas e protofascistas, que não perdem uma ocasião para denegrir a religião comunista.
À medida que os detalhes iam sendo conhecidos, os camaradas mais teimosos persistiam na intransigência: o camarada Fidel não quis dizer o que se propala aos quatro ventos (para gáudio de todos os fascistas – ou seja, de todos que não sejam comunistas ou, pelo menos, de uma esquerda qualquer). Outros apóstolos da doutrina, sem estarem tão cegos pelas vendas dogmáticas, foram ao encontro desta reacção: Fidel até pode ter afirmado o que afirmou, mas não é para ser levado a sério. Um comunista a sério nunca renega a doutrina. E Fidel está doente. Talvez a doença retire discernimento. Portanto, desvalorizem-se aquelas declarações tão a preceito de todos os inimigos do comunismo (e são tantos).
O que me regalava a existência é que o camarada Fidel estivesse fino que nem um cacho de uvas a jeito da vindima. Era como se o papa celebrasse uma homilia especial só para anunciar que deus não existe. Bom de mais para acreditar. Continuo a ter para mim que o camarada Fidel nunca bateu bem da cabeça. Não é agora, mirrado pela doença terminal, que de repente os circuitos internos passaram a funcionar de maneira exemplar. O Fidel que há dias revelou ao mundo a identidade secreta de Bin Laden não é o mesmo Fidel que ontem sentenciou a morte do comunismo. Temos que juntar a esquizofrenia aos padecimentos actuais que consomem o ditador. (Ia a colocar “ex-ditador”; porém, um ditador nunca perde a condição, mesmo quando já não tem o poder nas mãos.) Ou é Alzheimer, por causa desta súbita variação de personalidade (reforçada pelo dedo apontado ao Irão por ter um paupérrimo arsenal nuclear).
Da dúvida não nos livramos: qual é o Fidel que vale, qual é o que está com alguma lucidez? Ou, talvez, a interrogação que importa é a seguinte: porque damos atenção ao camarada Fidel?

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