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Os que muito criticam um certo
“pensamento único” denunciam a “captura” do poder político pelo poder
económico. Tudo gravita – argumentam – à volta das grandes empresas. A prova
está nos custos da austeridade que veio pôr-se, qual garrote, à nossa garganta:
os mais pobres e os reformados suportam o fardo maior; as grandes empresas, e
sobretudo os bancos, esses imperadores da ganância e da malvadez, passaram
incólumes. Noto que os denunciadores do tal “pensamento único” são os autores
de um novo pensamento único, totalitário como qualquer pensamento único, que
desabrocha na pendência da democracia. Quem com eles não for de braço dado é sumariamente
atirado para as catacumbas da anti democracia. E ainda se arvoram campeões da tolerância.
Mas talvez o diagnóstico não condiga
com a grelha de leitura dos novos fautores deste pensamento único. O dia era de
greve dos transportes e as imagens da televisão, pelos noticiários da manhã,
invadiam os olhares com o caos das cidades sequestradas pelos grevistas que não
tiraram os autocarros, os comboios, os metros e os cacilheiros das respetivas
garagens. Os rostos dos utentes, ansiosos pela chegada de um comboio, fosse a
que hora fosse, era um retrato vivo das greves. Quem diz que os capitalistas é que
mandam nunca viu o caos das greves, em particular de uma greve dos transportes.
Quase tudo fica sitiado. As pessoas que precisam de transportes públicos para
irem trabalhar, ou não vão ou chegam atrasadas (ou acordam de véspera para não
chegarem com atraso).
Os sindicatos é que mandam nisto
tudo. É um poder espúrio, destruidor. Conseguem que a população dos transportes
públicos fique esbulhada. Ato contínuo, desembaraçam-se das responsabilidades. Os
utentes não se devem insurgir contra os grevistas. Se o governo lhes fizesse a
vontade, não havia greves. Os utentes impedidos de usar os transportes públicos
devem atirar a fúria para cima do governo. Só faltava os governos cederem à
chantagem dos sindicatos para estes transformarem um poder destrutivo em poder
construtivo.
(Uma Avoila qualquer, sinistramente
proclamou a seguinte lição: quando os trabalhadores dos transportes públicos
fazem greve, acautelam os seus interesses e também os dos utentes. Não sei se
posso entender esta lição como um convite aos utentes impedidos de frequentarem
transportes públicos: não vão trabalhar, fiquem a descansar. Um programa de
intenções, a dita Avoila.)
Pelos olhos continuavam a passar as
imagens caóticas da greve. Ocorreu discernir o seguinte: não são os
endinheirados, nem a classe média que pode usar transporte próprio, os mais
afetados pela paralisação dos transportes públicos. São os remediados que usam
os transportes públicos. E ocorreu-me, pois, intuir que estes são os visados pelas
greves dos transportes públicos. Desenganei-me. Se algum jornalista com dois
neurónios ligados perguntasse às Avoilas por aí se não se incomodam por a greve
apoquentar a sua (potencial) base eleitoral de apoio, logo endossariam as
responsabilidades da greve ao governo do momento que não quis fazer a vontade
dos sindicatos. É uma política de terra queimada.
Aos académicos que conjuram contra o capitalismo, e ao-outrora-ministro-de-Cavaco-que-agora-lidera-o-Comité Económico e Social que descobriu que o poder político foi “capturado” pelo poder económico: talvez fosse tempo de admitirem que os sindicatos é que mandam nisto tudo.
Aos académicos que conjuram contra o capitalismo, e ao-outrora-ministro-de-Cavaco-que-agora-lidera-o-Comité Económico e Social que descobriu que o poder político foi “capturado” pelo poder económico: talvez fosse tempo de admitirem que os sindicatos é que mandam nisto tudo.
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