20.11.13

Fora do aquário

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Desambientação. Como seria se os peixes transbordassem do aquário. Transbordar, se entendido como uma forma de transgressão, receberia os aplausos dos amantes da fecundidade que destoa com a rotina. Mas nem a todas as luminosidades correspondem fruições dos sentidos. Há presentes envenenados. Ambientes que parecem feéricos, onde muitos aspirantes adoravam habitar, mas meros lodos onde os pés se arrastam.
Uns, iludidos com os holofotes, com a luminosidade atrelada à artificialidade inata, insistem e voltam à casa da partida. Não dão conta como é artificial este ambiente. Outros, enamorados pelo engodo da visibilidade, incautos que não suspeitam das dores da perda de anonimato, emprestam-se ao ambiente fora do aquário e habituam-se à pungência. Fazem de conta e ambientam-se. Inventam defesas que os protegem contra as aleivosias do artificial ambiente. Mas há outros, empurrados pelas circunstâncias, ou desapossados do anonimato por vontade a si alheia, que são órfãos em terreno hostil. São os peixes que transbordaram do aquário, ou os peixes retirados ao seu natural habitat e que esperneiam, com as energias que ainda sobram, contra a desambientação a que foram forçados.
Uns são vítimas do ambiente que é um punhal metido fundo na carne. Exauridos de sangue, perecem no ambiente que lhes é corpo estranho. Outros ensaiam movimento adaptativo. Emulsionam o reflexo condicionado, imitando os autómatos que sobrevivem em modo anódino. Servem como circenses elementos que alimentam a bazófia dos protagonistas. Aprendem a respirar fora do ambiente para o que foram nascidos. Confirmam os preceitos da biologia adaptativa. Tornam-se num ser que já sabe viver fora do aquário. Engrossam o exército, o cada vez mais numeroso exército, do ambiente fora da água.
Os que capitulam ao exercício adaptativo pagam, se preciso for, bilhete de regresso ao aquário de onde foram resgatados. São os que capitulam e entretanto souberam resistir à provação da sobrevivência. Uma vez devolvidos à agua a que pertencem, não lhes interessam os juízos de valor. Não são algozes do ambiente deslocado que experimentaram. Ditam infausta a experiência, mas reservam-lhe um irrelevante estatuto. Limitam-se a olhar para dentro de si e a contemplar a água morna e límpida onde se alojam. O resto, não importa.

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