5.8.14

O dia não está a preceito que se tire o chapéu do armário


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Se chove, é porque o chapéu não tem utilidade para te protegeres da chuva fora de época. Se o estio arregaça as mangas e dispara um clima africano fora do lugar, é porque o chapéu te queima os miolos e perde serventia. Quando a chuva extemporânea incomoda os veraneantes, a poucos é dado interrogar se no inverno também não há dias soalheiros e ninguém se queixa que o inverno já não seja como dantes. O descontentamento sem freio é malsão. Tens de virar as coisas do avesso, mesmo quando te parece impossível ver as bainhas aos bolsos. Por que que te importunas se o chapéu fica no armário? Por que não serenas com as circunstâncias que vêm como legado do que é sempre aleatório, e fazes delas um estremecimento que abala as convenções? É que – sabes? – um cárcere não é apenas um lugar medonho com altas ameias a impedir as fugas de dentro para fora. Um cárcere pode nascer dentro de nós. Se o tempo nunca está a preceito para o chapéu que cobiças pôr na cabeça, o mal não será do tempo; o mal andará nas veias que transportam o teu sangue fervente. As intempéries tanto podem ser tempestades como dias seguidos de sol. O chapéu não pode ser refém do clima, ou das convenções que compões acerca do clima. O chapéu é a tua emancipação. Enverga-o quando te apetecer. Mesmo que a combinação destoe do paradigma da moda do momento, que essa é a menor das inquietações que te deve consumir. Entroniza o chapéu quando te apetecer. Para seres príncipe ou súbdito, dono das ideias ou seguidor de um pensamento, matinal observador da natureza ou noctívago sem peias – o que quiseres. Mas não percas as medidas de ti mesmo. Se não, acabas sitiado nos tentáculos dos outros, ou do complexo pensamento que te atabalhoa.

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