19.7.18

Um político tem de ser tão popular ao ponto de se confundir com quem representa?


Nine Inch Nails, “Sunspots”, in https://www.youtube.com/watch?v=zVUtghCDCA0
Parecem estar na moda os exageros afetivos dos altos dignitários, a sua emulsão entre os demais – como se essa osmose fosse critério determinante para a representatividade e, logo, para aferir a legitimidade dos eleitos. A moda, recente, começou com Marcelo. A presidente da Croácia terá sido sua aprendiz e tomou-lhe o gosto durante o campeonato do mundo de futebol. A senhora abraçava-se a tudo o que lhe aparecesse pela frente, multiplicava-se em sorrisos que se entaramelavam, no caso dos seus compatriotas que tinham acabado de perder o jogo, com uma dose presidencial de comiseração. Parecia íntima do presidente francês, que, ali ao seu lado e sendo testemunha da função, não pôde ficar atrás (apesar do exibicionismo de Macron ter sido, por paradoxal que seja a expressão, moderado).
A comunicação social e a voz popular estão encantados com a presidente da Croácia. Li algures que logo a seguir ao fim do jogo e à cerimónia de entrega de prémios, o nome da presidente da Croácia era o mais pesquisado no Google. Há uma excitação coletiva com a simpatia desarmante e com a lhaneza da senhora presidente. Devem ser os mesmos que se excitam com a perene presença de Marcelo no espaço público e de como Marcelo se mistura com o povo, como não nega uma selfiea quem a solicite, como tem opinião sobre tudo e mais alguma coisa (e, ainda por cima, repousando na sua imensa autoridade intelectual filiada no estatuto de catedrático e nos anos que passeou a prosápia como comentador na televisão). Não sei se a presidente da Croácia é assim quando exerce a presidência entremuros. Só sei avaliar a performance a que o mundo assistiu via televisão, mercê da equipa croata ter avançando até à final do campeonato.
Tenho reservas sobre este estilo. Admito que, entre nós, e em defesa do estilo presidencial (digamos) extrovertido de Marcelo, haja quem recue às calendas para evocar o mau exemplo do seu antecessor – e o péssimo exemplo será caução para o estilo desbragado de Marcelo, por antítese. Cavaco foi um péssimo exemplo. Até há quem lhe chame múmia e o epíteto depreciativo não calha mal. Mas nem oito, nem oitenta. Um representante dos cidadãos não precisa de se misturar com eles para provar a sua legitimidade. Não precisa de ser um entre muitos. Não há nesta afirmação nenhuma entorse ao princípio da representação que é esteio da democracia. Se um político reuniu a maioria dos votos, não é obrigado a ser um entre os demais. Por esta bitola, qualquer dia governa-se por sorteio (bem sei, há uns progressistas da ciência política que defendem a possibilidade no contexto do incremento qualitativo da democracia).
Não estou a sugerir que os altos dignitários abusem da pose de estadista. Ele há alguns exemplos que soam a farsa quando se adota a pose de estadista. Paulo Portas é o paradigma. Cavaco não o chegou a ser, por causa dos sucessivos dislates comunicacionais e da pose hirta que não é necessariamente sinónimo de pose de estadista. Marcelo parece não saber que ser estadista não é misturar-se com o povo. Imagino os pesadelos para a logística de segurança, quando Marcelo se mistura com o povo, fala de perto com o povo, oferece o rosto a sucessivos ósculos do povo e se predispõe às intermináveis selfies(ao ponto de se perguntar, em tom jocoso: quem é que ainda não tirou uma selfie com “o” Marcelo?).
É tudo uma questão de medida. A voz popular não gosta de políticos antipáticos e que estão a léguas do carisma. Prefere os políticos simpáticos, que cultivam a proximidade com as pessoas comuns. Mas isto é paradoxal: tenho por manifesto que a maioria das pessoas são antipáticas; se são antipáticas, como podem elogiar um estilo presidencial que faz da simpatia o seu cartão de visita? A ultrapassagem das medidas é um exagero que corresponde à adulteração do que se deseja exteriorizar como comportamento. Simpatia excessiva leva a questionar se é genuína, ou apenas um ardil para atrair o povo. (Quem não consegue fazer de conta que é simpático, mesmo quando não lhe apetece?) Há imagens da presidente da Croácia a festejar no balneário, abraçando-se a jogadores em cuecas. Um dia destes, Marcelo ainda é apanhado numa reportagem ao submundo da prostituição de rua. Não quero imaginar o que Marcelo poderá fazer à frente das câmaras.
A denúncia da embriaguez da popularidade dos políticos não é uma manifestação de conservadorismo. É desconfiar que tanta genuinidade, tanta afinidade com o povo, não passa de um embuste. No caso de Marcelo, trata-se de um estilo algazarrado, destemperado, circense, numa palavra, populista. Não é de admirar. Desde que entrou em funções, Marcelo começou a campanha eleitoral para as próximas eleições presidenciais.

Sem comentários: