3.6.26

Truz, truz, vem aí o demónio

Gorillaz ft. Mark E. Smith, “Delirium”, in https://www.youtube.com/watch?v=yw8ftPahxAg  

Na linha do sobrolho, voluteiam sombras sem nome. As pessoas tremem de medo. As sombras sem nome nunca foram boas conselheiras. Algumas pessoas aproveitam para regressar à História e aconselhar os outros, aqueles que de História dispensaram o conhecimento, a com ela se travarem de razões.

O medo é um acinte que leva a franzir o sobrolho. A gravidade da ameaça intuída não contempla a possibilidade do sorriso. Só os frívolos, ou os lunáticos, é que teriam o desligamento que os pusesse de acordo com sonoras gargalhadas. Os que não põem de parte a hipótese de dias prostrados pela vontade dos vultos que se emancipam das sombras, censuram os frívolos (ou os lunáticos) que desvalorizam a ameaça que pende. 

À ameaça que pende, respondem com o medo também pendente. É da massa humana: os contratempos que adulteram o sangue, levando-o à ebulição própria de quem sente a sobrevivência em causa, desatam um medo racional. Mesmo que as sombras que esvoaçam e anunciam foices mortíferas estejam cativas de conspirações, o medo sobrepõe-se. É como se quisessem prevenir os apocalipses que podem rimar com o porvir e aforrassem o medo como se fossem espadas prontas a esgrimir se os vultos vierem bater à sua porta.

– Truz, truz, aqui estamos nós, os vultos que aferroam os vossos sobressaltos, como se fôssemos vampiros prontos para beber o vosso sangue em ebulição

Os vultos que adejam são versáteis. Variam de acordo com as diferenças das pessoas que sofrem sonos sobressaltados com o estigma de um vulto que está preparado para locupletar o seu sossego. O que são fantasmas terríficos para uns, motiva a indiferença a outros. O que para estes constitui um medo capaz de povoar pesadelos medonhos, não cativa a atenção dos outros. Para todos, há sempre um som que ecoa em surdina, como mnemónica do medo de que não se podem desligar: “truz, truz”, como onomatopeia dos vultos que os escolheram como presas. 

É um medo racional: as pessoas aprenderam, na sua própria história e com a História de todos nós, que não podem baixar a guarda. A propensão para a ingenuidade não pode fazer concessões aos sobressaltos que desarrumam uma vida. O medo é o mediador entre elas e as ameaças que sobre elas pairam. Para não ficarem desprotegidas quando ouvirem o “truz, truz” medonho a ressoar às suas portas.

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