11.6.26

Uma ideia sobre a idade (short stories #512)

The Fall, “What About Us?” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=_godSE6RJy0&t=155s

           Os parênteses são muito úteis. Ativam as intermitências que interrompem o curso do tempo. Não fica mal para aqueles que precisam de ludibriar o tempo, travando a sua marcha que se traduz no avanço da idade. Às vezes, tudo depende de saber encontrar um parêntesis e ativá-lo devidamente. Suspende-se a contagem do tempo e a idade sofre um revés, mas um revés que entontece pela dilação do tempo à mercê. Fala-se em retardamento da idade, confirmando-se que a idade, à medida que avança, é um anátema, uma sublevação contra as capacidades de outrora. Nessa descontinuidade, é como se habitássemos no exílio do tempo, ou como se o tempo tivesse deixado de contar como conta fora destas simulações. Simula-se o tempo. O exercício pode ser válido sem que o tempo físico se detenha; é só inventariar empreitadas que recomendem uma idade diferente da averbada, num aproveitamento retroativo do tempo que apenas se faz sentir no presente. Cobra-se do tempo a usura pretérita de que foi procurador. O parêntesis aditivado é uma vingança deformada sobre o tempo. Todos sabem que o tempo não satisfaz os caprichos mundanos dos que gostavam que ele obedecesse a um ritmo vagaroso. Cabe-nos travar as causas que fingem um tempo diferente. Não passa de um fingimento. Mas há fingimentos que são toleráveis, quando estão ao serviço de uma causa que os legitime. O problema é que o tempo não se adia por todo o tempo. Nem no seu fingimento ardiloso, que não é eterno. Quando o parêntesis vertido ao pescoço do tempo prescreve, os esforços que o aldrabavam revelam-se venais. O tempo pode desabar com toda a sua contundência. Para participar do entendimento de que não devemos ser devedores de dívidas invencíveis. Os seus juros somam-se à usura que o tempo não perdoa. 

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