New Order, “Your Silent Face” (live at Hacienda), in https://www.youtube.com/watch?v=0tly9uwbb8Y
Passos Coelho deve dormir mal todas as noites.
Todos temos direito às nossas preferências, e as preferências políticas não escapam a esse princípio. E todos temos o direito de expressar a divergência quando for o caso. Deve haver modos, um código de conduta que não abandone a cortesia, ou, de outro modo, o debate político torna-se insuportável e corre-se o risco de causar uma fratura exposta entre a política e os cidadãos, com custos para a qualidade da democracia. Há pessoas que têm responsabilidades especiais. Antigos primeiros-ministros situam-se entre elas. Não é a mesma coisa eu chamar prostituto(a) a um(a) político(a) – sendo certo que não me livro do merecido enxovalho – e um ex-primeiro-ministro vir a público fazê-lo.
Passos Coelho é um exemplo de esquizofrenia política. Um séquito numeroso espera por ele, dando corpo ao sebastianismo inacabado que atrasa o nosso devir. Mas Passos não admite que as suas repetidas aparições públicas façam parte de uma estratégia que o coloca no centro do palco político. Ao mesmo tempo, Passos valida anticorpos cada vez mais acirrados, mobilizando os seus opositores num nostálgico consenso que os une acima das divergências. Os anticorpos também crescem à direita, as pessoas começam a não ter paciência para aturar o rancor e o ressentimento que transbordam por todos os poros de Passos.
A mais recente diatribe foi acusar políticos que fazem concessões ao populismo de serem “prostitutos sem carácter”. Na altura em que estas palavras foram ditas, Passos estava sentado ao lado de Ventura, o campeão nacional do populismo. Contudo, a imprensa exercitou os dotes hermenêuticos para ler as palavras de Passos nas entrelinhas: o remoque era para o primeiro-ministro que, em tempos, foi seu fiel escudeiro no parlamento. As pessoas zangam-se no seu percurso de vida e sabemos de amizades fortes que foram destroçadas por mal-entendidos ou por caminhos que se separaram por mil e uma razões. Não vem mal ao mundo que Passos se dedique a dar assíduas alfinetadas em Montenegro. Se são apenas ajustes de contas ou uma indisfarçável sede de protagonismo para colocar Passos na rampa de lançamento para suceder ao atual primeiro-ministro, o futuro o dirá.
O exposto acima é um (longo) exórdio sobre o que me chamou a atenção. Passos acusou alguém de ser um “prostituto sem carácter”. Não vale a pena perder latim com a elegância de quem assim se refere a um par seu – não, Passos não está politicamente inativo, como provam as suas constantes aparições e a atenção sanguínea que a comunicação social dedica às suas palavras. O que me importa é a confissão de Passos: ele perceberá de putas, ao ponto de revelar que as há “sem carácter”, pelo que se pode inferir que também as há “com carácter”.
Os plumitivos, como é habitual, passaram ao lado do mais significativo e ninguém perguntou a Passos pelos critérios que permitem distinguir uma puta com carácter de uma puta sem carácter. Sem esses termos claramente delimitados, torna-se mais difícil para o destinatário das palavras bombásticas (nós, não o visado por elas) perceber a gravidade da acusação. Quais são os traços típicos de uma puta sem carácter? O que precisa de alcançar para transitar para o estatuto de puta com carácter?
Tem a palavra Passos Coelho, agora também catedrático em putaria.
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