Ólafur Arnalds, “New Grass”, in https://www.youtube.com/watch?v=Aoh2hFXU8VM
Os profetas que encenam o futuro, para além do logro de reivindicarem a seu favor um oráculo qualquer (o que funciona como agravo), vaticinam decisões imperativas. Protestam contra os timoratos que ficam presos às teias da indecisão. Os que não conseguem tomar decisões, por medo ou hesitação, são atacados como se deles emanassem os grandes males do mundo.
Podiam ser condenados, estes profetas malignos, pelo simples delito de invasão da vontade do outro. As decisões são um reduto de quem as tutela. Poder-se-á argumentar, em socorro dos que ajuízam a capacidade decisória alheia, que somos gregários e que há decisões (muitas, porventura) que não pertencem apenas à vontade de quem as toma. Como dependemos uns dos outros, os juízos sobre as decisões ficam abertos à intervenção (benévola, assume-se) de quem possa bulir com essa decisão.
Os benévolos julgadores das decisões dos outros podem reclamar contra a inércia de quem devia ter tomado uma decisão, pelos danos causados pela inatividade. O adiamento da minha decisão, ou a decisão de não tomar nenhuma decisão, pode ser daninho para outros que possam ser atingidos pelos efeitos da minha não-decisão. Assim se justifica a sindicância contínua que devemos exercer sobre as decisões dos outros.
O protesto de quem se amotina porque alguém não tomou uma decisão é ilegítimo. Sobretudo se for invocada a covardia ligada à incapacidade ou à falta de vontade de tomar uma decisão. Preferem que uma decisão tenha a sua madrugada, mesmo que os efeitos sejam catastróficos. Para eles, uma não-decisão é sempre pior do que uma decisão que terraplana o bem-estar do próprio e de outras pessoas apanhadas pelo caminho.
Estes profetas têm de ser denunciados. Primeiro, um mal maior é sempre maior do que mal algum. Por maior que seja o mal imputado a uma não-decisão, até prova em contrário esse é um dano menor do que o mal documentado por uma decisão.
Segundo, uma não-decisão acaba por se tornar numa decisão, o que anula a legitimidade de quem se mobiliza para atacar os indecisos (se outros argumentos não fossem suficientes). Se eu decidir nada fazer nada, essa não-decisão é uma decisão. Anulando, à partida, o palco a que sobem as sumidades carregadas de moralismo com a onerosa missão de escrutinarem as decisões dos outros e que se abespinham quando esbarram numa não-decisão.
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