12.6.26

Siameses

Gorillaz ft. Black Thought, Ajay Prasanna & Anoushka Shankar, “The Sad God”, in https://www.youtube.com/watch?v=fQE0FnpfqQo

As cortinas descem sobre o entardecer. Como se fosse uma fronteira, entre a senescência de um dia tardio e as juras que despontam com a aurora da noite. Dizem que há sempre uma alma gémea. Mas é um logro descobrir um forasteiro a nós que seja a nossa imagem simétrica. O que faríamos com uma alma assim siamesa?

Os olhos viram-se do avesso e procuram as bainhas. Mergulham no avesso de si mesmos, decantam as fragilidades, os encantos, a pouca matéria invejável, um imenso rol por conta do que se convencionou chamar pecados. Fica a alma suja à mostra, sem esperar por redenção. Apenas os vestígios puídos que sobram da diligência do passado, as veias permeáveis a sindicâncias alheias. Se não for pela interior digressão da alma própria, será pela descoberta da alma siamesa.

O processo pode ser heurístico. Aqueles que escolheram um espelho generoso, que de si devolve uma pródiga imagem, que são perseguidos por um estado de negação que os impede de assistir à auto-decadência. A descoberta de uma alma siamesa pode ser o gatilho para o desvio heurístico. A alma siamesa devolve o sentido puro da alma reproduzida. Como se o sujeito estivesse sentado na plateia de um grande cinema, habitado apenas por si mesmo, assistindo a um filme a preto e branco que reproduz o avesso das suas memórias.

Fora disso, tropeçar numa alma siamesa pode ser didático. Há fragilidades, pecadilhos, toda uma matéria que não é invejável e que volta a ser sopesada. Desta vez, com a vantagem de o ser de fora para dentro. A alma siamesa pode ensinar que as fragilidades, os pecadilhos e toda a matéria invejável (ou alguma dela) coabitam com o sujeito num estado de extravagância. O exagero no diagnóstico será uma defesa própria contra a imodéstia, um refúgio que justifica os fracassos que se inscrevem no livro de memórias. Passá-los em revista amortece o diagnóstico destemperado. E ajuda a recuperar um sentido de estima que tinha sido erradicado por excesso.

Depois disso, a alma siamesa dissolve-se como o nevoeiro que se eclipsa na manhã que amadurece. Cumprindo o seu propósito.

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