22.9.26

Salve-se quem puder (short stories #524)

Death Cab for Cutie, “Stone Over Water”, in https://www.youtube.com/watch?v=qdG-kUW5ZjM

           Tábua de salvação para quem disser salve-se quem puder. Rompe-se o dique do pensamento e ideias desenfreadas, até as que roçam a impopularidade extante, anarquicamente descarrilam. As pessoas, mesmo as que estejam de boa vontade e satisfaçam os requisitos da inocência, ficam à mercê deste aluvião de ideias quase todas desconhecidas. Como têm medo, berram: “salve-se quem puder, salve-se!” Mas as ideias em forma de desabamento tomam conta dos lugares onde há pessoas e arrematam-nas sem pedirem licença. Mesmo que não queiram, passam a ser vassalas dessas ideias. Passam a defender o que dantes nem sabiam existir. Nesta conversão patenteada por demónios sem paradeiro, esquecem-se de quem eram. Passam a ser mazelas ao dantes dominante, terçam as suas espadas como exército ao serviço dos novos colonizadores contra a modorra que torpedeava a vontade sem saberem. Estão convencidos que encontraram uma tábua de salvação. Compensou a súplica pela salvação (mesmo que desordenada: salve-se quem puder – quem não pôde foi devorado pelas ideias vorazes que abateram quem a elas resistiu). Para memória futura hão de sobrar os exilados que conseguiram fugir a tempo da maré avassaladora, os que conseguiram responder a tempo ao salve-se quem puder sem ficar à mercê das ideias que foram tomadas como bússola. Esses, de memória futura, serão os guerrilheiros que se amotinam contra a maré que embaciou as ideias alternativas; em vez disso, foram tomadas como rivais, e as ideias dominantes não sabem distinguir alternativo de rivalidade, nem sabem reconhecer que a rivalidade não exclui a concorrência. Não bocejam em serviço, precisam estar de atalaia contra enxertos das ideias que agora não têm concorrência no mercado oficial das ideias. Interiorizaram o seu particular salve-se quem puder. A opulência das ideias em contrabando deixa-os numa insónia letárgica. Se não fosse assim, seriam engolidos pelas ideias tentaculares, sem terem tempo de acabar de dizer “salve-se qu...”.

Sem comentários: