24.1.13

Os Himalaias que há em nós


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- Sabias que o sal todo está na superação, naqueles instantes em que parece que nos transcendemos? Sabias, como nos atletas que aspiram ao olimpo, que há uma altura em que bifurcamos pelo lema “citius, altius, fortius”?. Estava frenética, parecia sob o efeito de hipnóticos, os olhos quase se furtavam às órbitas enquanto as palavras saíam de enxurrada e fartamente audíveis.
- Isso que me dizes traz água no bico. Ao que vens?, reverberou, observando os esgares irrequietos da amiga.
- Tenho andado a pensar...isto...não sei...compomos uma passagem efémera e depois somos mero pó. Custa-me pensar que não deixamos proezas lembradas pelos vindouros.
- E já te ocorreu que todos os que fizeram, fazem e farão a ficha técnica da humanidade não podem ter tamanha pretensão? Mal sufragou a interrogação, fez menção de se desinteressar da conversa.
- Dos outros, dos seus padecimentos e sufrágios interiores, não me compadeço. Os meus são vinagre aspergido em feridas por cicatrizar. As dores, sinto-as eu. Há algum mal em deixar o meu nome debruado numa rua qualquer? Há algum mal em alinhavar pela ousadia?, afivelando um olhar entumecido ao notar o desinteresse da amiga. Que se apressou a corrigir o passo:
Tu podes fazer o que te apetecer. E eu, hás de convir, posso achar uma toleima o que estás a dizer. Mas diz lá ao que vens, que não estou a achar o fio à meada.
- Quero ter um rasgo de criatividade, fazer algo que não tenha sido jamais feito, espalhar o perfume da bondade e tornar a humanidade um bocado melhor. Desligar-me das materialidades, interiorizar sentimentos que cultivam a espiritualidade, meter os pés a uma peregrinação interior que desfaça os nós da frivolidade. Quero ter os meus próprios Himalaias debaixo dos pés e sentir orgulho. Mas não pelo orgulho que se confunde com narcisismo; orgulho, por sentir que houve muita gente a ganhar sorrisos pela bondade que conseguir gravitar à minha volta. E depois quero morrer, velhinha e só, esquecida por todos, mas banhada na gratificação maior de saber que o mundo lá fora não é um promontório de sofrimento e injustiça. Depois, quando fechar os olhos pela derradeira vez, já nada importará.
E ela, enquanto ouvia o monólogo arrebatado da amiga, encolheu os ombros. Da pretérita vez que afiara gumes por uma excitação semelhante, deambulara pelas montanhas bolivianas atrás de um guru espiritual de que agora já nem o nome se lembrava.

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