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Mote:
Não somos domados pelo tempo exaurido. Em nós, o tempo é uma oportunidade que se
desvenda.
Outra vez o tempo. Aprovamos as
incógnitas quando os dedos amaciam os cabelos do tempo de que ainda não fomos
testemunhas. Às vezes, sentimos a alvorada amedrontada pelo que haja de sobrar
do tempo vindouro. Parece que queremos esquecer o futuro antes de ele tomar o
seu lugar. Se o fazemos, decaímos em nossas fragilidades. Como se tudo que
importasse houvesse contado para os livros onde apenas se emolduram as
memórias.
E, todavia, há árvores que ainda
prometem as suas flores vicejantes. Pássaros que hão de nascer, ciciando os
seus cantos que povoam a paisagem com cores frondosas. Se os olhos se acanham
no indomável refúgio interior, eles recusam os dias por diante. Mas esse
refúgio não é indomável. Não é se quisermos que o não seja. As pétalas
incensadas emprestam ardor ao tempo que se caleja em nossos dedos. Metemos os
pés ao caminho e devolvemos as cores ao tempo que vem com a nossa respiração.
De que temos medo?
O medo é a tirania do tempo. A sua
semântica umbrosa, que sequestra os braços, fraqueja no tecido enrugado das
cicatrizes que perderam serventia. Deixamos a teimosia esvoaçar em arpejos, a
teimosia que rejeita a caução dos tutores das penumbras do tempo que se quer
assim, indolente como as árvores caducas. Mas falamos mais alto. E ao falarmos
mais alto somos arquitetos do tempo que se anuncia. Por mais que pertença ao
cardápio das impossibilidades, somos nós, pelas nossas mãos entrelaçadas, a
domar as coléricas ondas do mar que compõem o destempo.
O medo é um vestígio do tempo que não
interessa. Do tempo exaurido. Sejamos curadores do tempo incógnito, sejamos os seus
maiores filantropos. E deixemos ao tempo vindouro a nossa deposição das
incógnitas. Deixemos que esse tempo seja imarcescível. Com a nossa marca indelével,
quadros pintados exultando sua harmonia, poemas dedilhados em uníssono,
paisagens olhadas pelos olhos em furiosa demanda de conhecimento. Deixemos que
a posteridade seja o tempo por nós abraçado.
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