29.5.13

A idade que nunca temos


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Ainda o corpete do tempo.
Ganha espessura a névoa que nasceu delgada. E, contudo, por entre as finas gotas que compõem a névoa levanta-se um auspicioso esplendor. A claridade esbarra, furiosa, contra o rosto que se meteu por dentro da névoa. Os relógios poltrões, os que ditam o avanço dos ponteiros na cadência convencionada, os segundos compondo-se à razão de sessenta num minuto, são aldrabões que furtam o tempo leniente. E nós, o rosto emprestando-se à sofreguidão da névoa, olhamos para todos os quadrantes do tempo, acima e abaixo, à direita e à esquerda. E julgámos, em prematuro epílogo, que fomos penhores de todos os tempos sabidos.
Agora que a claridade descontamina o olhar, e que uma constelação de paráfrases ideais voga no espaço do pensamento, percebemos que fomos penhorados ao tempo em todas as suas dimensões. Andámos em contramão com o tempo de cada vez que quisemos a idade que nesse tempo não era nossa. São dores que sobram no distanciamento dos períodos que foram tiranetes outrora? Esses prantos são um destempero. A idade que nunca tivemos não é a idade que temos. É uma bênção que embala ilusões dos lugares verticais e do tempo vertical em que ousámos andar. Talvez as uvas maduras pendidas sobre os cachos protetores sejam o mote cobiçado. A lucidez que despontou acusa as idades que quisemos ter a destempo.
O tempo não pode ser um corpete. É um vistoso campo de flores que serve de tradução à hipérbole da existência. Não contam os pretéritos que resguardam servis evocações sem utilidade. Nem contam os pés metidos em fados que ainda não foram visitação, o tempo ainda ausente gritando a impossibilidade vertida num sonho pueril que é um quarto vazio. Nas idades que nunca tivemos fomos outra dimensão de um eu que nunca fomos nós. Alquebrámos as dívidas com o presente desgastado em inalações do tempo inventado nas idades que nunca tivemos.
Agora, a idade é esta. Agora, os pontos cintilantes que preenchem a escuridão do céu são a cartografia irrecusável. Não é fado, nem sequer um desfado, que a água derramada no tempo presente quer compor. É apenas a idade que nos é indultada.

1 comentário:

20689 disse...


"(...)Crescemos demasiado tarde para os deuses e muito cedo para o Ser. O homem é um poema que
O Ser começou (...)"
(Martin Heidegger)