18.6.14

O incendiário era um vulto

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Conspirava. Era o seu bálsamo. O seu habitat natural. Congeminava as profanações piores que a imaginação podia tecer só para atrapalhar quem fosse colocado no radar de vítimas. Não tinha complacência. Às vezes, quando umas ligeiras dores de consciência o aquietavam, perguntava pelos seus pergaminhos, que os não julgava condizentes com a bondade que tantos querem como mantimento da espécie. Ato contínuo, embebia-se da mesma frieza de espírito que o tornava maestro da malícia cometida sobre o próximo ou o não tão próximo.
Não dava o rosto nas congeminações maléficas. Escondia-se no anonimato. Manobrava entre as sombras, para que ninguém o visse a torpedear o sossego de quem surgisse pela frente. Não importava que as vítimas fossem escolhidas a dedo ou fossem inocentes apanhados no meio do fogo perdido de uma peleja que lhes não dizia respeito. Queria-se sossegar: lá fora, onde a selva é desabrida, não há inocentes. Todos somos culpados de alguma coisa. Imberbes os que julgam a bondade dos homens, que a bondade é do domínio da ficção; líricos os que se dão à inércia, dizendo que à maldade de uns não se deve responder com a maldade dos outros, ou um dia ardemos enredados na nossa coletiva loucura.
A hipocrisia não o fazia corar de vergonha. Ao contrário: era uma arte sublime, só praticável pelos que se amestraram nas táticas castrenses próximas da arte da guerra. No limite – julgava o incendiário sem remissão – estamos todos em estado de guerra. Mesmo que não usemos armas de fogo. Podemos apenas atear fogos. Fogos de diversa igualha. Uns, pequenos, só para atordoar adversários, ou para marcar posição e não sermos incomodados. Outros, devastadores, para destruir quem for um embaraço. Usando máscara para não ser reconhecido, pois o disfarce é garantia para continuar a vingar no meio. Ou passando entre os pingos da chuva, ou como só aos vultos é dado a alcançar quando não afrouxam na ardilosa tarefa de passarem sem serem vistos entre duas penumbras.

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