17.9.15

Mel azedo

Morphine, “Honey White”, in https://www.youtube.com/watch?v=GsQB4vc2jQc
Falava-se de impossibilidades quânticas: corria de boca em boca que havia um mel que não adocicava, como se fosse possível ao vinho ser vinho ser ter antes fermentado. Dizia-se que era feito por umas abelhas malsãs, vítimas da manipulação genética, abelhas sem ferrão e, todavia, incapazes de fazerem medrar um mel com o seu principal atributo. Nem os apreciadores de coisas amargas conseguiam consumir o mel azedo. Provavam-no e, depressa, o esgar de enfado mostrava a inépcia do mel.
Tempos depois descobriu-se, por acidente, que uma tribo de um lugar recôndito da África subsaariana adotou o mel azedo na dieta. E também se descobriu que se azedassem (literalmente) o leite, os habitantes da tribo deixavam de ser intolerantes à lactose. Mais se descobriu, ainda: o leite de cabra (que vinha de uma aldeia próxima) misturado com boiões de mel azedo dava origem a um queijo sublime. Passou a ser exportação da tribo para todo o mundo. Pago a peso de ouro. Pois nem o mel azedo era abundante, nem a produção de leite daquela espécie de cabras era coisa que se visse (era quase só para a autossubsistência das tribos nas imediações).
Os felizardos que amesendavam na companhia do queijo inesperadamente gourmet ficavam embebidos de dotes artísticos – foi outro achamento bizarro. Os artistas de variadas artes, em sabendo do predicado, estavam dispostos a pagar este queijo a preço de ouro, se preciso fosse. Depressa descobriram que a inspiração só funcionava nas pessoas que nunca foram artistas; ou que, na melhor das hipóteses, os dotes artísticos revelavam-se em arte diferente daquela de onde vinham os artistas.
Os cientistas gastaram as pestanas e espremeram as equações para encontrar explicação para a teia de causalidades. Nunca chegaram a conclusões – até porque, em pouco edificante competição de egos, digladiaram-se com virulência na praça pública, dizimando a sua reputação. Os políticos acharam solução bastante: primeiro, começaram por proibir a importação do queijo quimérico. Alegando que, mercê da incógnita deixada pelos cientistas, o produto tinha de ser equiparado a estupefaciente. O que foram fazer os políticos! Montou-se um mercado negro do queijo de mel azedo fora dos limites proibitivos das autoridades. Que decidiram atalhar a eito: seriam formadas brigadas para exterminar as abelhas geneticamente transformadas que produziam o mel malquisto.
A páginas tantas, os mercados subterrâneos já tinham enxames clandestinos de abelhas destas. As outras drogas perderam mercado e os habituais traficantes, através de testas de ferro, até queriam coligar-se com as autoridades para dar caça aos guardadores destes enxames. E nunca as artes, todas as artes, tiveram produção tão prolixa.
(Ou então, inebriados pelo queijo, tudo passava por arte e tudo o que fosse arte era magnífico.)

1 comentário:

Douglas Álisson disse...

Olá, gostei muito do blog!
Também tenho um onde coloco algumas de minhas poesias.
Poderia visitar? :D
http://wordsbyalonelyguy.blogspot.com.br