1.5.06

Rambos de trazer por casa

Reportagem especial no Iraque. O repórter da RTP especializado em “cenários de guerra” passeia-se entre as paredes apertadas da embaixada lusitana em Bagdad. À mostra do homem da câmara, seu parceiro na distante paragem, o colete anti-bala. Sinal da perigosidade da função, de como o jornalista se expõe ao tracejado mortal das balas perdidas em terra de ninguém. O repórter marcial anuncia o alvo da reportagem: o corpo de segurança do pessoal da embaixada.

Ao longo da reportagem, ouvimos as vozes do punhado de militares que tratam da segurança do pessoal diplomático. São poucos, mas muito bons, chegam para as encomendas. Só se ouvem as vozes. Fazem gala em aparecer de cara tapada. Fiquei curioso: será que os terroristas de Al Zarkawi, a filial local da pérfida Al Qaeda, vigiam as notícias que passam na RTP? Será esta a explicação para o zelo securitário dos gorilas da embaixada, a ponto de terem o extremo cuidado de não revelarem a sua identidade facial?

Estes pequenos sinais tudo esclarecem: o terrorismo é um conglomerado que se espalha como praga de cogumelos, estirpe venenosa. Se os terroristas até vêm a RTP, é porque têm uma central de informações que se dedica a visionar o que é transmitido pelas centenas, senão milhares, de canais televisivos mundo fora. Quando se pensava que estes terroristas viviam na idade das cavernas, afinal têm à mão o último grito da tecnologia. Ou então a Al Qaeda está disseminada pelos quatro cantos do mundo, com embaixadores secretos em todos os países. Está explicado o zelo dos gorilas lusos. Recearam que a reportagem fosse vista pelo embaixador da Al Qaeda em Lisboa. E que as fotografias dos rostos dos militares fossem transmitidas por e-mail para o quartel-general de Al Zarkawi.

Pousei no solo, depois do devaneio que me fez pensar que o franchising de Bin Laden tem ramificações no cantinho ocidental da Europa. Nem que por ofício de apaziguamento interior o faça, na interiorização de que é impossível cruzar-me nas ruas de Lisboa com um anónimo cidadão a soldo da rede terrorista. Regresso à terra, para tentar perceber porque os Rambos de serviço na embaixada em Bagdad teimam em aparecer de rosto encoberto. “Questões de segurança”, diriam logo, expeditos, se o diligente repórter se tivesse lembrado de dirigir a pergunta, diria, sacramental para qualquer pessoa que estivesse a assistir à reportagem (menos para o jornalista).

Ora, descontando a remota possibilidade de serem reconhecidos pela população local após a emissão da reportagem (meliantes do terror incluídos), resta uma hipótese: não querem ser reconhecidos como a tropa de elite que tem o pesado fardo de missões de segurança que fazem lembrar a parafernália de filmes ao jeito da saga “missão impossível”. Aqueles Rambos de trazer por casa não queriam ser reconhecidos na rua como os “Rambos de trazer por casa” que orgulhosamente ostentam essa condição. Perturba-os pensar que vão sossegados na Rua Augusta e um rapaz de doze anos se vira para a mãe, alto e bom som, dizendo “mamã, olha aquele herói de Bagdad!”. Lá se ia o sagrado anonimato, o ingrediente para o sucesso de missões planeadas ao milímetro, sempre com a previsão de cenários alternativos não se dê o caso de haver mudança de circunstâncias.

Ainda não estou convencido. Na entrevista fiquei a saber que este corpo de elite, a nata da nata, tem no cadastro as missões mais problemáticas nos teatros mais difíceis. Gabam-se de nunca terem sofrido uma baixa – medalha que nem os serviços secretos de países poderosos ostentam garbosamente. Sempre intervenções no estrangeiro, para garantir a segurança dessa vaca sagrada que dá pelo nome de “interesses nacionais”. Só uma abjecta teoria da conspiração pode congeminar uma intrincada teia de interesses que boicote a acção desta tropa de elite quando actua cá dentro. Quem acredita que a revelação da identidade facial destes Rambos domésticos pudesse beliscar a sua função? Por acaso receiam que possam ser incomodados se as caras de poucos amigos, cabelo rapado e nariz de boxeur fossem desnudadas dos turbantes que envergavam? Na imaginação delirantemente febril, acreditam que algum concidadão demente iria perturbar a sua vida depois da revelação da identidade?

Se as respostas forem afirmativas, então apetece lançar outra interrogação: e de que têm medo estes invencíveis Rambos? Serão, afinal, meros Rambos de trazer por casa?

3 comentários:

Lusitano82 disse...

Tem talento para escrita...de ficção!o Escreveu sobre algo de que não percebe...absolutamente NADA!! Acredite que é bem capaz de já se ter cruzado com pessoas ligadas a organizações terroristas...ETA inclusive, no centro de Lisboa. Mas como preferiu devanear nos seus comentários, disparando disparate atrás de disparate, dou-lhe o desconto...afinal opiniões são opiniões e valem o que valem...a sua Zero!! Tapar a cara não é nenhum reavivar de PIDE/DGS ...é um acto de reserva da intimidade pessoal e segredo profissinal imposta pela instituição e entidades a proteger! Além de ser um acto de bom senso por parte dos elementos. Essas suas fantasias com homens musculados, de cabelo rapado e nariz boxeur tão um pouco longe da verdade...existem, mas estes elementos primam pela discrição, passam despercebidos, ou deviam! Pois é...já pode voltar ao seu mundo de faz de conta e ter essas fantasias com Rambos

Lusitano82 disse...

Tem talento para escrita...de ficção!o Escreveu sobre algo de que não percebe...absolutamente NADA!! Acredite que é bem capaz de já se ter cruzado com pessoas ligadas a organizações terroristas...ETA inclusive, no centro de Lisboa. Mas como preferiu devanear nos seus comentários, disparando disparate atrás de disparate, dou-lhe o desconto...afinal opiniões são opiniões e valem o que valem...a sua Zero!! Tapar a cara não é nenhum reavivar de PIDE/DGS ...é um acto de reserva da intimidade pessoal e segredo profissinal imposta pela instituição e entidades a proteger! Além de ser um acto de bom senso por parte dos elementos. Essas suas fantasias com homens musculados, de cabelo rapado e nariz boxeur tão um pouco longe da verdade...existem, mas estes elementos primam pela discrição, passam despercebidos, ou deviam! Pois é...já pode voltar ao seu mundo de faz de conta e ter essas fantasias com Rambos

PVM disse...

Caro Lusitano82:
Muito obrigado pela sua amável opinião.
Pelos vistos, quem tem fantasias com homens musculados não sou eu (não é isso que depreende do meu texto).
Volte sempre que quiser para aprender com opiniões que valem zero.
As minhas saudações
PVM