27.5.16

Atualização

The Dream Syndicate, “Medicine Show” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=k6_MLzj_l7A
I
Manda os pés para o lugar onde as águas do mar bordejam o areal. Ou manda-os para um miradouro de onde consigas ver uma paisagem sem fim. Manda os pés para onde te convocar um repasto de modernização, para onde haja subsídios que sustentem a mudança. Vais ver que os ares diferentes, em cadenciado movimento de oxigenação do pensamento, são medicinais. Dir-se-ia providenciais, para não te achares metido dentro da pequenez de ti e seres o primeiro a ditar o cansaço da tua pessoa. (É que, a seguir a ti, outros poderão vir a decretar o mesmo.)
II
Não incenses os livros que deixaram marca no teu devir, antes de o conheceres. Pois um livro não se destrói – não cometas esse crime capital. Procura novas literaturas. Novos autores. Procura novas formas de escrita. Novos enredos, onde possivelmente a criatividade te deixe sem gota de sangue perante a imprevista trama congeminada. Abre, de par em par, as janelas às narrativas que os novos tempos inauguraram. E vai com essas neófitas narrativas.
III
Convence-te que regressar a lugares já visitados é uma usura do tempo. Evita as revisitações, sob pena de te sentires sitiado por uma nostalgia que sela a vacuidade do tempo pretérito (não do tempo em si; da insistência em evocá-lo). Pega num mapa e deixa o dedo indicador percorrê-lo, detendo-se nos lugares que nunca tiveram os teus olhos como testemunhas. Reinventa-te nesses novos lugares demandados. Cresce de mão dada com os rudimentos que eles têm para te legar. Por mais velho que te sintas, não há tempo a perder no processo de crescimento. Na aprendizagem imorredoira.
IV
Embolsa as palavras gastas. A descoragem timorata. As indecisões que coíbem os movimentos. Embolsa, também, preconceitos – os que admites e aqueles de que vieste em caçada depois de demorada exegese interior. Embolsa o feitio que tens como iracundo. Mete os olhos no tapete que se ajoelha sob os teus pés, menoscaba o tempo que não rima com o conhecimento atual. Recusa as algemas que projetas vindas do exterior, mas que são o produto da incapacidade para lidares com aquela parte de ti que julgas ser insuportável.
V
Assina um contrato. Contigo mesmo: atualiza-te. Num arrebatamento constante, como se uma lareira não perdesse a chama vivaz mesmo não sendo nutrida há tempo longo a esta parte.

26.5.16

A intermitência de um ainda

Orelha Negra, “A Sombra”, in https://www.youtube.com/watch?v=kXaZGjLKWbg&spfreload=5
Diz-se “ainda” para meter um archote entre dois tempos. Diz-se “ainda” como ênfase da descontinuidade do tempo. Diz-se “ainda” porque não colhe a perenidade das coisas que decorrem no processo dos consumos. Diz-se “ainda” como promessa das coisas futuras, num processo de intenções de as ter entre as mãos num dado tempo ainda por haver. Diz-se “ainda” em conjunção negativa ou em conjunção positiva: diz-se “ainda” quando o terreno conhecido parece esvair-se debaixo dos pés; diz-se “ainda” quando um propósito que depende do tempo vindouro ainda não foi inventado.
O “ainda” é um ontem que não está esquecido, ou um amanhã sem provimento enquanto o “ainda” não encontrar a sua vocação. O “ainda” é uma intermitência do tempo. A ponte entre dois tempos diferentes, cimentados pelo “ainda” que se intromete entre eles. Devolve as pessoas à noção da exiguidade das coisas, quer das que se acham resguardadas entre as mãos, quer das que pertencem ao emblemático coagir das intenções futuras. Diz-se “ainda” quando não se capitula perante o conhecimento que vem a propósito. Diz-se “ainda” para selar uma ambição que destrava os nós embuçados num tempo que se conhece, ou para um tempo que pertence – ainda – às trevas do desconhecimento.
Ao dizer “ainda”, o tempo fica suspenso. É como se um relógio original convocasse os deuses das deliberações e registasse em livros notariais as promessas alinhavadas pelo “ainda” que se disse, enquanto o relógio retém os seus ponteiros. Todos os “ainda” que rebentam na boca escolhem a ousadia do desassossego, desautorizam a inércia que prolonga o tempo numa sucessão infindável de repetições, dando cais de abrigo à monotonia. Dizer “ainda” é um combate contra a mesmice. Mas dizer “ainda” pode conter um paradoxo, se o “ainda” que se diz, em sintonia com a distração do enunciado, prometer uma posteridade que se enlaça com o pretérito de que se quer afastamento. Manda o razoável que se diga um “ainda” de cada vez, sem misturar as diferentes dimensões do tempo.
Dizer “ainda” é uma transigência com a ambição do ser. Interrompe o tempo achado, comprimindo-o contra um seu intervalo à procura de obter uma definição diferente do tempo, ou um tempo redefinido.

25.5.16

Mangas arregaçadas

Pond, “Midnight Mass” (Live KEXP), in https://www.youtube.com/watch?v=Axx9MIh4fNM
De mangas arregaçadas, que o tempo poltrão não se recomenda. Pois a inércia é uma história fatal, um estorvo para os incómodos em fruição pelo medo do que seja. Por mais que seja sedutor cruzar os braços e deixar que as coisas tomem o seu curso, sendo delas passageiro sem vontade. Não é modo de ser que apalavre encómios. É um luto sem sentido, uma contumácia de si mesmo.
Por isso, as mangas arregaçadas despedaçam a servidão ditada por um diadema tentacular. Os olhos demandam várias partidas e em todas elas há frutos pendidos à espera de serem colhidos, árvores que precisam de poda heurística, caminhos obstruídos que carecem de força braçal para serem outra vez caminhos em sentido pleno. Ou outra empreitada qualquer, daquelas que estejam pendentes na hipoteca do tempo procrastinado, ou daquelas que se soerguem nos dedos de um momento. As mangas arregaçadas em homenagem ao sentido volitivo do ser, ao irredutível namoro pela obra que se pensa e se vai fazendo, ao conhecimento insaciável, à imperativa sagração do amor, a tudo que seja credor de serventia.
A janela do tempo desarma as peias que a mantém encerrada numa agonia dilacerante. As mangas arregaçadas ajudam a polir a janela corroída pela fuligem. Ajudam a apertar os parafusos em falta, sem os quais a janela não consegue ganhar préstimo. Por demorada que seja a função, sem arreliar a paciência que resulta metódica. As mangas arregaçam-se para fazer a obra nascer. Para, depois da obra nascida, contemplar a claridade que invade o quarto escancarado pelas janelas abertas. Para beber o mundo lá fora e dar um lote de si mesmo a um mundo ávido de conhecimento.
Sem as mangas arregaçadas, somos penhorados pela letargia. Somos posse de uma hibernação consumidora da alma. Com as mangas arregaçadas devolve-se a essência do ser, que se embebe na grandeza que há na alma. Com as mangas arregaçadas, o mundo lá fora transfigura-se num mundão. E somos capazes de presumir que temos uma estatura do tamanho do mundão. Os braços à mostra, operários incansáveis em preparos para absorver cada partícula do ar, cada pixel da paisagem, cada aroma das palavras, cada sensação intraduzível em palavras fermentadas na sublimidade dos sentimentos que importam.