2.9.14

Uma tesoura muito afiada

In http://3.bp.blogspot.com/-tO3_AU3QPVA/TiW6768AgrI/AAAAAAAAAHM/zSAWJjhh7A4/s320/tesoura_sangue1.jpg
As tesouras estavam com as hastes abertas, até ao máximo que a flexibilidade deixava. Uma tinha ferrugem. A outra parecia nova. Mas era a primeira que cortava a preceito. Talvez tivesse sido amolada há pouco tempo. A nova, talvez por ser nova, ainda tinha as lâminas por estrear. Não estava adestrada para a função.
E a função, naqueles propósitos, exigia uma tesoura muito afiada. Uma tesoura que não deixasse aparas, pois os vestígios eram prova dos danos semeados algures. Era daquelas coragens cheias de tibieza. Falava como poucos. Enchia o peito de ar e prometia devastação por onde passasse, polémica com quem fosse antagonista, terramotos de emoções, pois não deixava as coisas pela metade. Mas na altura de deixar o seu selo, preferia o anonimato. Preferia as palavras ambíguas, porque era menos custoso deixá-las preparadas para serem entendidas nas entrelinhas. Por isso precisava de uma tesoura muito afiada. Para pegar nela em luvas de pelúcia, esquartejar onde lhe aprouvesse e deitar-se no remanso da noite sem a aflição que era a sua vidinha desinteressante. Precisava que a tesoura afiada deixasse remorsos. Não era um acesso de bondade, nem cuidava de apalavrar o arrependimento; era só para se esquecer da sua triste existência. Por isso procurava desdenhar dos outros. Fazia gala em ridicularizá-los. Empenhava o melhor latim e a pérfida estratégia para fazer mal aos outros. A tesoura cuidava da função.
Era como se a tesoura fosse espetada com um golpe seco e fundo. Pelas costas, como convém a estes corajosos de latrina que se escondem na bravura que não pode ser (por falta de aviso) contraposta pelas vítimas. Afiada a tesoura na mó do merceeiro, não demorava a fazer estragos. Atacava sem que as vítimas dessem conta. Quando metia a tesoura na carne das vítimas, abria as tenazes e rodava-as de um lado para o outro, o mais fundo que conseguisse. Era um golpe fatal. Excitava-se com o sangue a esvair-se.
Paramentava-se a preceito. Escolhia a melhor roupa. Depois da barbárie, ensanguentava a fatiota como medalha da proeza. A tesoura não ficava enfaixada no corpo da vítima. Não podia deixar provas da aleivosia. Mas o mais importante era guardar a tesoura, o sublime troféu que trazia dos corpos inanimados de quem era algoz. Era troféu e promessa de novas maldades. Essas, que eram ânimo para o sono que já não era contumaz.

1.9.14

Da dissolução

The Jesus and the Mary Chain, "Cracking Up", in https://www.youtube.com/watch?v=X0Y-VEk7ATs
Bendita herança do tio ancião. Agora que começara o fartote de dinheiro, começou a dedilhar o mapa dos excessos. A primeira resolução foi deitar fora o relógio – todos os relógios, esses tiranetes que o aprisionavam à medida do tempo. Depois, deixou de ser preocupar com o trabalho. Estava nas tintas para as malsãs prédicas moralistas dos parentes e dos amigos de antanho. Queria, doravante, ser como um carro em permanente despiste. Sem regras. Experimentar o que nunca a decência impostora deixara experimentar. Às horas que fosse, sem horários, sem convenções, sem planos desenhados com uma burguesa caneta de tinta permanente em papel de almaço deitado em cima de um estirador.
Começou a anotar os excessos no mapa dos excessos criado para o efeito. Descuidou-se na aparência. Se havia dias que não apetecia cumprir os rituais da higiene, deitava-se à negligência. O dinheiro abundava e começou a reparar em companhias que medravam do efémero nada. Havia gente que frequentava o mesmo bas fond e que depressa desaparecia de circulação. Acontecia passar horas a fio em conversa com essas pessoas. Muitas vezes, quando dava conta da sua súbita falta, nem sequer se lembrava que tinham um nome. Passou a não saber onde dormia. Passou a não saber com quem acordava – e com quantas pessoas acordava, todos imersos nos mesmos suados lençóis, numa censurável promiscuidade, se ainda respeitasse os cânones moralmente corretos.
Os excessos tudo alimentavam. Erupções de criatividade, lavradas em papel sujo e amarrotado. Esquecimentos que fermentavam na senescência da memória encardida pelas drogas várias. Por vezes, pisava o risco da ilegalidade. Dera consigo a fugir da polícia. A partir montras só porque embarcara na vertigem do protesto contra o sistema por estar acompanhado de certas companhias. O caderno dos excessos engrossava. Pelo meio, duas ou três idas ao hospital, que o organismo recaía ao passar pelo crivo dos excessos. Os amigos de antanho não se lembravam dele – ou era ele que se tinha afastado, já não se recordava bem onde era o início.
Às vezes, eram tanto os excessos, com cicatrizes que demoravam a sarar, que prometia deixar a dissolução em todas as suas variedades. Mas o mapa dos excessos, volumoso que era, tinha ainda muitas páginas em branco para anotar.

29.8.14

O desamor parideiro


Anna Calvi & David Byrne, "Strange Weather", in http://www.youtube.com/watch?v=ylBZmqY0Oag
Ele olhava por cima do pôr-do-sol. Podia ser que uma centelha inesperada fugisse ao ocaso e se mantivesse acesa, a iluminar a noite. Porque tinha medo da noite. Temia que a noite viesse fértil em fantasmas. E que os fantasmas recordassem os sobressaltos havidos e pusessem à superfície as obscuridades que tinham deixado de importar. Para a noite não ser importunação, punha-se de atalaia. Era como se tivesse a noite pela trela, para ela não embotar um módico de alívio que ganhara com tanto custo. A noite não ia pela noite fora sem freio. Quando a alvorada sondava alguma claridade no céu, os olhos capitulavam e decaiam no sono. Vestido e tudo, onde calhasse. Durante esse sono, sonhava que o desamor teimoso era um destempero do acaso. Olhava para os pares de namorados por onde andassem embrenhados em romance. Não conseguia reprimir a cobiça. Porque, para além da noite, a solidão também o atemorizava. Julgava que era um acosso de generosidade (julgava-se prolixo em generosidade, e nunca achou que o mal fosse do juízo que fazia de si próprio). O pressentimento da solidão não era porque a solidão fosse a patologia, com relâmpagos letais a adejar sobre a sua cabeça. Como tinha uma elevada consideração de si, julgava que a sua companhia era um bálsamo para quem dela fosse colher as flores orvalhadas no regaço. Para mal de todos os pecados, à elevada consideração de si contrapunha-se a autoestima sem lugar. Navegava em equívocos. Fruía as esperanças de que o tempo vindouro fosse propício. Não se incomodava com o desamor parideiro. As coisas haveriam de mudar. Era o ocaso que o dizia, nas entrelinhas, enquanto o sol se esvaía por um buraco da agulha algures na geografia do firmamento. As vozes que sussurravam entre as esquinas das ruas estreitas confirmavam-no. A fertilidade parideira do desamor tivera já o seu epílogo. Oxalá a infertilidade medrasse o seu contrário. Com a largueza do tempo por diante.

28.8.14

Maré alta


Sétima Legião, "Sete mares", in https://www.youtube.com/watch?v=NmlDjghuTsw
Não, o mar não é timorato. Nem nós. À nossa beira, os marinheiros intrépidos, de quando ir ao mar era uma demência, são meninos do coro. Tomemos o mar em nossas mãos. Sejamos os feitores das marés. Sulcamos as ondas, que se atemorizam diante de nós, para as afeiçoarmos com as mãos aveludadas. Cinzelamos as correntes que moldam as profundezas do mar. Somos intermediários do clima que faz em terras tão distantes umas das outras. Quando é preciso, vertemos a fúria nas tempestades que agigantam o mar. E deixamos a nossa magia na beleza que entroniza o mar, seja na alvorada quando o mar se amacia na ausência de vento, seja quando os ventos moderados desarranjam as águas que se amotinam na ondulação agreste, seja ao anoitecer quando o vento amaina, talvez cansado de tanta correria, e o mar lhe serve de leito. Não falemos de mares, porque as convenções dos oceanos diferentes são um ardil da geografia. Há um só mar, os oceanos todos ligados entre si. Um só mar. De que somos timoneiros. Guardamos todos os faróis, todos os cais onde vêm repousar os navios que militam no mar, os fiordes noruegueses, as ilhas exóticas, os mares gelados ou os de águas tépidas. Mandamos o mar ser o arquiteto da paisagem. Chamamos as marés a nós, somos o relógio que as comanda. Mandamos recuar o mar para deixar à mostra os segredos que tem nas rochas que beijam as areias quando as águas desertas as deixam nuas. E mandamo-lo regressar, em forma de maré cheia, quando queremos que as altas ameias fiquem escondidas pelo espelho de água – tal como os segredos que resguardamos no nosso covil. Pela grandeza do mar oxigenamos a alma. Devolvemos gotas da nossa grandeza que tornam o mar ainda maior. Sobre ele repousa o sortilégio das palavras que ousamos dizer, com a força dos pulmões cheios ou num sussurro escondido do luar que reluz no céu escuro. E fazemos tudo desde a janela que é nossa escotilha sob o mar.

27.8.14

Mais valia acertar na lotaria


In http://sometimeshere.blogs.sapo.pt/arquivo/Lotaria%20Nacional.jpg
O Malheiros escreve às terças-feiras no Público. É o (em rigor: um dos) César das Neves da extrema-esquerda que chega às páginas dos jornais. É faccioso. E moralista – como adora escorrer lições de moral aos outros que vão por ideias diferentes das dele, a quem são imputados, por adivinhação mestra, comportamentos malévolos. Talvez o Malheiros fique sossegado, no seu cantinho, a imaginar que os que são diferentes dele, por quem destila um ódio patológico, têm comportamentos que incensam a censura da sua altiva moralidade. Ontem o Malheiros sacou do coldre mais uns bitataites argumentativos. A propósito do – diz ele – ódio da “extrema-direita económica que governa o mundo ocidental” à igualdade. Para o Malheiros, a dita extrema-direita é sinónimo do neoliberalismo. É uma redução simplista que deve convir à pequena cosmovisão que navega na sua cabeça, como se confundir a árvore com a floresta fosse método aceitável para quem tantas lições de como fazer jornalismo decente prega aos novos encartados. No resto da prédica, o Malheiros dispara vários tiros sobre os “neoliberais”. Acertam todos fora do alvo. Porque o Malheiros está convencido que os “neoliberais” estão a soldo dos grandes interesses do capital. Está convencido que os grandes capitalistas são gente malvada que se compraz com a pobreza dos outros. Está convencido que os capitalistas conspiram contra os trabalhadores, que os querem submeter a uma indigência atávica. Está convencido que os horrendos capitalistas leram os clássicos do liberalismo (mas ele continua a chamar-lhes “neoliberais”), onde recolheram o catecismo que professa a desigualdade. Está, ele próprio, convencido que leu esses clássicos. Se muito, tê-los-á treslido. Pois o Malheiros não acerta uma. Dando o benefício da dúvida de que apedeuta não seja seu predicado, sobra a hipótese de o Malheiros estar a falar do que não sabe. Puxa galões à fértil imaginação (que podia fazer furor, talvez, no ramo da literatura de ficção) e esgadanha uma série de frases sobre o que ele acha que são e pensam os que ele detesta. Antes lesse, para não fazer fraca figura. Antes o Malheiros adivinhasse a lotaria, ou o euromilhões. Para depois vermos a sua pródiga generosidade em ação.

26.8.14

A marcha do orgulho


In http://www.jcnet.com.br/banco_imagem/images/prisioneiros%20Ucrania%20-%20reuters.jpg
A indignidade das guerras, ou de todas as vezes em há homens em discordância que decidem humilhar os que se lhes opõem. Não é laudatório da história da espécie. Nuvens mais sombrias podem acastelar-se, um dia, e a sequaz intolerância genética será o punhal que sela a extinção da espécie. Às vezes, parece que a humanidade está sitiada numa autofagia demencial. Aproveita-se o tempo para ultrajar o adversário (que, nestas alturas, arrosta com um infausto substantivo: inimigo). Vi rebeldes pró-russos a obrigarem prisioneiros de guerra a marchar nas ruas, para gáudio dos organizadores da marcha e do seu séquito, agrilhoados uns aos outros, num ato de humilhação pública. Dizem as notícias que terminada a marcha dos tristes humilhados, vieram camiões lavar as ruas por onde tinham marchado, contrariados, os prisioneiros de guerra. A humilhação quebra os adversários. Torna-os moles, mas avilta a vitória de quem assim consegue triunfar. A humilhação não é o lacrau dos vencidos, é a exibição de fragilidade dos que forçam os outros à marcha da humilhação. Um oxalá: sempre que houvesse marchas de humilhação, os submetidos à covardia (dos que no momento estão entronizados no poder) pudessem ter força anímica para responder com um comportamento insólito. Os prisioneiros de qualquer guerra não deviam desfilar de rosto fechado, olhos semicerrados apontados ao chão, consumidos em sua vergonha, humilhados nos andrajos que trazem em cima do corpo, ultrajados pelos insultos da horda que triunfalmente os apouca. Deviam ostentar um sorriso lhano, um brilho nos olhos, a cabeça emproada, o queixo acenando em tom de agradecimento a cada insulto proferido pelos transeuntes em exultação. Não deviam dar o braço a torcer aos torcionários que os empurrassem para a marcha da vergonha. Nem que desconfiassem que, feita a desfeita aos algozes, depois pudessem sofrer sevícias como paga pelo contratempo. Mas saberiam, nem que tal fosse fraca recompensa, que no final das contas a marcha da humilhação tê-lo-ia sido para os funestos carrascos.

25.8.14

E o Prof. Boaventura virou rapper


In https://www.youtube.com/watch?v=xciJlb4aVmI
O vídeo já tem algum tempo. O que me entristece, por saber que demorei tanto tempo até ser recompensado com esta autêntica graça divina: o Prof. Boaventura a esgalhar uma estrofes em ritmo rap. Como se fosse um palimpsesto de si mesmo, virando-se do avesso (ou apenas tentando), vestindo a pele de um MC de gema. E se digo que foi uma graça divina, não é porque um golpe do destino fez diluir o meu ateísmo militante: é que o Prof. Boaventura “canta”, repetidamente, qualquer coisa que tem a ver com J. Cristo. Mas também não é essa a razão da aparição quase divina diante dos meus olhos. É que este vídeo é uma preciosidade. Dá azo a muitos trocadilhos. O mais evidente seria afirmar que, por fim, o Prof. Boaventura encontrou a sua vocação. Mas nem isso pode ser afirmado. Diria, ao invés, que o Prof. Boaventura nos legou, talvez, a sua melhor contribuição desde que é alguém no espaço público. Não propriamente a performance artística que julgava encetar, mas outro género de performance para a qual já se suspeitava que estava mais talhado: de tanto rir que até o estômago me doía, ao ver em loop as imagens do Prof. Boaventura a escangalhar um rap, dei comigo a pensar se a vocação legítima do catedrático de Coimbra não são outras artes, circenses. Quanto à estética da coisa estamos falados. O Prof. Boaventura esforça-se por mostrar uma imagem de modernaço, tão modernaço que inova ao ponto de um académico ser inspiração de uma música rap e ele próprio intervir na cantoria. Que me perdoem os discípulos (os imensos discípulos da sumidade), mas o Prof. Boaventura é um peixe fora de água no rap. Talvez no circo, talvez. Como havemos de convir, é uma opinião (a minha, esta), da qual apostaria o meu parco património em como o séquito do Prof. Boaventura discordaria, excitados que estariam a sorver as imagens e a voz afinada do rapper septuagenário (outra inovação no meio artístico mundial). Não estranho a discordância. O séquito está habituado a reiteradas genuflexões a tudo o que o Prof. Boaventura debita, seja em forma de prosa, na oralidade e, sabe-se agora, no transcurso da sua vida artística que se projeta para a posteridade em cores promissoras. Não estranho: também em tempos se fez um musical sobre a vida de J. Cristo.