25.8.16

Da perícia em matéria de arrozes (de acordo com o compêndio do bispo das sumidades mui letradas)

Interpol, “Slow Hands”, in https://www.youtube.com/watch?v=LNBJSei0XV0
Elejam um assunto: digamos, em matéria de gastronomia, tanto entendível como a arte de preparar iguarias, como a expedita diligência para descobrir casas onde os repastos são zelosamente preparados e o palato afirma o deleite em amesendar. Há sempre um bispo, em representação, por sua vez, das sumidades embebidas em distinta erudição, que é pulcro no Olimpo do conhecimento e destila farta e irrebatível ciência.
Em tratando-se da preparação de iguaria, ai de quem proteste saber-se ungido de dotes superiores; depressa leva com a negação da pretensão, mesmo que o bispo das sumidades não tenha ainda passado a boca pelo repasto preparado por outro, dele nem sequer admitindo que possa ser rival à altura na preparação do dito. Em tratando-se de esquadrinhar a geografia em demanda das mais afamadas casas de pasto (fama, contudo, só garantida com o penhor do bispo em apreço), ai de quem conteste o mosaico constante da seleção e ofereça alternativas onde o cliente saia com superior gratificação palatal. Não se admita tal despautério, pois as credenciais ostentadas não se exibem por mero acaso, ou como produto de uma qualquer soberba do dito bispo. (Ou, em caso de ser mesmo um exercício de autoconvencimento, que ninguém tenha o topete de forçar o bispo a admiti-lo, não vá uma apoplexia ser infortúnio do bispo protestado.)
Os mui letrados bispos de coisas várias são de uma igualha só idêntica à dos piores próceres da intolerância. Tomam-se de elevados créditos para se sobreporem ao conhecimento dos outros, mesmo que, à partida, o seu conhecimento sobre o conhecimento dos outros seja apenas um imenso desconhecimento. Espumando um acinte talvez próprio de quem não sabe conviver com ideias diferentes, próprio de quem despreza as virtudes de uma discussão aberta e sem o espartilho de estar à nascença destinada a ter vencedor (a discussão).
Dir-se-ia que os bispos, e o respetivo testa-de-ferro, se distinguem dos outros, os que querem remetidos ao lugar de suseranos, pela adiposa dose de auto-estima em que se banham. A julgar pelo diapasão certo, talvez seja o seu contrário: de gente tão assertiva e tão diligente na obnubilação de quem lhe oferece réplica, dir-se-ia tratar-se de gente torpe, frágil e com problemas de afirmação pessoal. Gente que sobe aos píncaros de um espelho feito à sua medida e se julga possuída de uma estatura maior do que a ausência do espelho revelaria.

24.8.16

Vagar

Sigur Rós, “Varúð”, in https://www.youtube.com/watch?v=TCDGlGK2aaQ
E se tudo fosse fruído vagarosamente? Com a devida apreciação do tempo consumido, para que não houvesse a impressão que fragmentos do tempo se perderam entre os dedos. Para ser permitida a devida contemplação, a função de trazer de entre as nuvens os fragmentos que a observação apressada não permite agilizar. Não é indulgência do tempo próprio da época estival, em que se concebe o tempo no seu arrastamento, sem dele derivar a vertigem que tudo consome, nem um espelho frenético que decompõe em parcelas avulsas o tempo que acaba por se esvair entre as mãos.
Passamos tão depressa por quase tudo que temos uma noção efémera da própria existência. É como se vivêssemos dentro de um relógio apressado, um relógio que ditasse a entorse do tempo e o fizesse transbordar das medidas acertadas pelas convenções. Às vezes, julgamos que este é o critério imperativo porque uma vida é sempre necessariamente breve (mesmo quando, para os padrões da duração da vida, é longa).
Somos glutões. Do tempo e do que dentro dele podemos fazer, ver, ler, visitar, experimentar, contracenar nos sentidos. Queremos que tudo seja depressa. Numa avidez que distrai os sentidos. Frequentemente, somos pouco mais do que espetadores frugais. Estamos pouco tempo numa cidade desconhecida; passamos depressa por museus; saltamos de lugar em lugar porque estamos ansiosos por conhecer muitos lugares ainda desconhecidos; lemos depressa, porque a lista de leituras em espera é obesa; temos conversas breves, porque somos devedores de conversas com outras pessoas; enjeitamos a perseverança do tempo, mesmo quando admitimos que o vagar é o método para reter as impressões que, de outro modo, são superficiais.
Não aprendemos. Continuamos remetidos à bitola da voracidade. E a desprezar o vagar que nos traz conforto, que estende as baias mentais além das fronteiras imprimidas pela normalidade. Soubéssemos distinguir as classes de acordo com a sua importância, saberíamos que a qualidade rende mais do que a quantidade. Consagrar o vagar é deixar emergir este princípio. Reconhecê-lo, mesmo quando depois as mãos pragmáticas o retorcem, é um começo. Pois, tal como os idealistas do vagar ensinam, tudo se faz devagar e com critério.

23.8.16

O livro fechado

Jane’s Addiction, “Jane Says” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=Z0hFQdEUQKM
Não paravam de dizer que um livro fechado não tem préstimo. Que o livro fechado era a antítese de um livro. Nunca perguntaram, todavia, se o livro era um perene encerramento sobre si mesmo, como se proibisse de se revelar aos olhos curiosos, ou se não havia olhos curiosos para transitar pelas páginas do livro. Não se sabia a resposta, simplesmente.
Até a haver resposta cabal, o que sobrava era o livro fechado, virgem aos olhos curiosos. Um maço de folhas diligentemente articulado em forma de livro, com capa e título, como é norma entre os livros. Ninguém sequer sabia se as palavras dentro do livro rimavam com o título. Ele às vezes há fautores de palavras que surpreendem ao sobreporem um título improvável ao livro que, depois de lido, não encontra correspondência com o título. Mas nem sequer essa empreitada estava em causa. Quem deitou os olhos no livro não ficou com um registo do título na memória. Apenas a impressão – e aqui a palavra vinha ao de cima com toda a vivacidade – de que o livro nunca tinha sido desfolhado. A impressão de que o livro contava uma história que nunca fora vista por leitor nenhum. Talvez um livro inútil, de acordo com as pretensões liminares de alguns. Se assim fora, eles eram culpados desse estado de coisas. Se o livro esteve em suas mãos, ou pelo menos ao alcance dos olhos, sem terem as suas palavras sido digeridas, esses não leitores eram responsáveis pela virgindade que contaminava o livro.
Mas esta discussão era outra inutilidade, porventura de maior jaez do que povoar o livro com o opróbrio da inutilidade. Pois não há livros que possam estar destinados a este ultraje. Mesmo os que se empoeirem em estantes ou em livrarias sem terem o uso da leitura. O livro fechado é um oráculo sobre uma curiosidade que ficou por saciar. Não se sabe as cores das palavras por dentro do livro, os sortilégios que possam conter, a trama, ou se se trata apenas de um livro-tese, ou de um livro sem preparos de literatura mas que, todavia, empresta uma finalidade a quem o lê.
O livro fechado é um segredo com cortinas de ferro. Um autor que fica por descobrir. Às vezes, é o melhor desiderato de um livro. Porque o autor quis, em paradoxal exercício, reservar o livro dos olhos outros. Em assim sendo – perguntarão os perplexos – que finalidade teve o autor ao dar o livro à estampa? A resposta: fazer com que o livro fechado que o autor é seja um pouco menos fechado a partir da sua possível abertura em forma de livro. Mesmo que seja para o livro continuar perenemente fechado.