16.11.18

O corso anatómico


Mão Morta, “Gumes (Parte V – O Rei Mimado)”, in https://www.youtube.com/watch?v=aDYSB_3K9Dk
- Um dia destes, vi da janela um mendigo a salvar um cão de morrer atropelado.
- Não quer dizer que o mendigo tenha bom coração.
- Essa agora!
- Salvaria o mendigo uma pessoa, se em vez do cão fosse a pessoa a correr o risco de atropelamento?
- Como posso saber? Parto do princípio que sim, o mendigo que salva um cão está disposto a salvar um humano.
- Não tires conclusões precipitadas. O mendigo pode ser um insurgente contra as trapaças que a humanidade (e o mundo em geral) contra ele conspirou. Se for o caso, o mendigo mais depressa socorre um animal que uma pessoa.
- Não posso concordar. Primeiro, estás a partir de uma suposição. E não sabes se ela tem fundamento. Segundo, estás a intuir um comportamento como consequência do pressuposto que tomas como válido. Há mais complexidade, muito mais complexidade. O que transtorna o teu raciocínio linear.
- É possível. Muitas vezes, até os teóricos cujos nomes ficaram imortalizados partem de modelos simplistas para explicarem uma teoria. Propositadamente simplistas, para poderem formalizar o raciocínio.
- Aqui trata-se de um simples ato humano. Tu não salvarias o cão se visses que estava na iminência de ser atropelado?
- Depende. Se pusesse em risco a vida, reprimia o instinto. Fora disso, talvez fosse movido por um impulso de salvação do cão.
- Não respondas já, ainda não tirei as medidas todas aos pressupostos da hipótese. Aqui vai o dado importante: não punhas em risco a tua vida (na salvação do cão).
- Provavelmente, socorrê-lo-ia. Não me peças para dançar ao som de hipóteses. São tantas as vezes em que teorizamos sobre um comportamento e as contas saem furadas, fazemos o contrário do que teorizamos. 
- Concordo. Mas não abdicamos de cerzir uma teia onde cristalizam os comportamentos esperáveis.
- Mesmo assim, não vou dizer que faria uma coisa ou o seu contrário, ou uma hipótese intermédia. 
- Lembro que, lá atrás, foste tu que mergulhaste na complexidade das suposições, o que é, deveras, do foro da teorização.
- Dou-te a razão. Nunca foste atraiçoado por uma incoerência?!
- Esta anatomia terçada, em que se sopesam argumentos diferentes, parece uma discussão montada em palcos diferentes. De alguma forma, um diálogo, não digo, de surdos; mas um diálogo impossível, porque as vozes operam em diferentes frequências.
- Insinuas que não estou ao teu nível?
- Ou o contrário: eu é que não estou ao nível em que colocaste o diálogo. Não te abespinhes! Pergunto de outro modo, para alijar sensibilidades extremadas (pois pareces ter um complexo qualquer contra os canídeos...): se fosse uma pessoa a correr o risco de atropelamento, ias em seu socorro?
- Respondo o mesmo: depende das circunstâncias. Não cometeria a tolice de avançar para a estrada se a salvação determinasse um risco para a integridade física, ou até a morte.
- Voltamos aos pressupostos que instruem as hipóteses: não corrias risco nenhum; era uma questão de ganhos, apenas – caso avançasses para a rua e tirasses, digamos, a pessoa distraída da frente do carro conduzido por outra pessoa distraída.
- Agora quem complexifica és tu...
- E que farias?
- O que me fosse dado a fazer na altura. O que agora responder é irrelevante. Se for para apaziguar consciências (sobretudo a tua...), diria que corria a salvar o cidadão. E muito provavelmente, o cão também. Se me queres tributário da honestidade, não estou capaz de assegurar que, perante o caso concreto, seria a minha decisão.
- Concluímos que não adianta hipostasiar, deixar o pensamento percorrer as muitas variáveis equacionadas. A prática é, definitivamente, adversária da teoria.
- Quase sempre. 
- Pobres os filósofos. É por essas e por outras que os filósofos são tão menosprezados.

15.11.18

Teoria geral da indecisão (short stories #68)


Dead Can Dance, “Act II – The Mountain”, in https://www.youtube.com/watch?v=7em5haBGxz4
(Para ler como o avesso do texto anterior)
                  Um mar, um mar interminável, de indecisões. As dúvidas em cascata entrando pelos olhos como água purulenta. As decisões, procrastinadas. Eram muitas variáveis a entrar nas equações sobrepostas que fervilhavam no palco onde uma decisão se impunha. Muitas vezes, quase decidido a tomar uma decisão, fazia marcha-atrás. Não se sabia se era medroso ou apenas escrupuloso. O que se sabia é que não tolerava más decisões. Tinha medo que elas o fossem antes de decidir sobre que decisão devia tomar. Era como se trouxesse a tiracolo um oráculo com a presciência ideal para sufragar, em dotes de antecipação, o que seria arroteado pela decisão que fosse tomada. Nunca lhe disseram – e ele não terá aprendido – que os oráculos são de aprendiz de feiticeiro, um esoterismo à má maneira dos esoterismos. Continuava sitiado pela indecisão. Uma simples vírgula fora do lugar era estorvo bastante para hipotecar todo um texto. Andava com a vírgula para trás e para a frente, ora a suprimindo, ora a colocando de volta ao lugar que tinha no início da demanda, e não dava o texto por rematado. Em cima da secretária, um amontoado de papeis amarrotados, todos com resoluções inacabadas, decisões à espera de decisão, textos tão rasurados que nem ele percebia, entre a inextricável mancha de texto, o que estava escrito. Vivia afogueado pelo estigma do malogro. Odiava saber que uma decisão podia ser errada. Odiava mais se a decisão arrastasse vítimas inocentes (queria crer que era altruísta). Foi passando pela vida sem grandes decisões de que se recordasse. (Não cabem na contagem as decisões rotineiras, do quotidiano.) O deserto de decisões estava na inversa medida dos arrependimentos que o asfixiavam. Perguntava sempre às divindades se uma decisão recusada não era fértil pasto do arrependimento. As divindades retribuam com indiferença, não devolvendo resposta – o que ampliava a perplexidade que o consumia como um miasma indisfarçável. Um certo dia, pediram-lhe para decidir se, diante da encruzilhada, tomavam a estrada da direita ou a estrada da esquerda. Não tivesse sido levado à força pelos amigos, ainda hoje estava na raiz quadrada da encruzilhada a fazer contas de cabeça.

14.11.18

Má tradução (short stories #67)


Little Dragon, “Sweet”, in https://www.youtube.com/watch?v=VzONcZR3438
         Não pensou duas vezes. E gabava-se. Era como se as decisões repousassem em cima do joelho – e o joelho fosse a parte mais nobre do corpo humano (no que à racionalidade diz respeito). Invariavelmente, traduzia mal as circunstâncias. Era mau intérprete dos acontecimentos, inebriado pelo febril estado de quem não tem tempo para os digerir. Era mau intérprete porque não conseguia ser elástico na gestão do tempo e do pensamento. Ainda por cima, gabava-se: era proeza a velocidade supersónica com que fazia aterrar as decisões. Não conseguia aprender com os erros, convencido que a palavra arrependimento tinha sido banida do (seu) vocabulário – e sem a lucidez necessária para não atalhar conceitos, incapaz de perceber que arrependimento não quadra com a humildade de aprender com as lições pretéritas. A má tradução de tudo começava no diagnóstico. Errado o diagnóstico, acendia o rastilho de uma prescrição também errada. Do altar onde campeavam as (suas) más traduções, empilhava-se um amontoado de equívocos. Sê-lo-iam ao olhar imparcial de um observador exterior. Não era o seu caso. Tinha sempre certezas milimetricamente desembainhadas para todos os pleitos que se colocassem. E, todavia, quem estava de fora, ao menor contacto com o (seu) caso de estudo, percebia a falta de rigor na análise, a incandescência que contaminava a reflexão, a voragem sem freio, a mercê dos instintos, a teimosia em dar dois passos atrás para avançar um pequeno, mas sólido, passo. Os erros eram sempre no exterior dos seus limites. Infalível. Era o paradoxo último da má tradução que tomava conta dele. Não esperava. Dizia: “não tenho tempo”. E, contudo, o que mais sobrava era o tempo, desocupado de outras empreitadas. Um dia, alguém teve a insensata ideia de lhe pedir a tradução de um texto. Assim como assim, orgulhava-se das quase duas décadas que passou a trabalhar no estrangeiro, dizia-se fluente no idioma. Quem encomendou a tarefa acabou a dizer mal da vida. A tradução, feita numa brevidade impressionante, estava repleta de erros. E assim se perdeu um negócio, à conta da superficial entrega a tudo do volúvel campeão das más traduções. 

13.11.18

Dialeto (short stories #66)


Ryuichi Sakamoto, “Rain”, in https://www.youtube.com/watch?v=8tKfYwc4zxA
          Um desenho – ou uns sinais com o selo do olhar – seriam suficientes para apalavrar os sentidos. Seriam o dialeto exclusivo. Penhor de gramática própria, volúvel, enquistada nas regras ditadas pela vontade do momento. As cores teriam significado. H0je, pois amanhã poder-lhes-ia ser atribuído outro significado. O silêncio não seria silêncio. Seria um silêncio tradutor de palavras ricas, um dialeto com aspirações a idioma. Vocabulário feito de signos, gestos, partituras onde musicais estrofes veem vertidas, viagens por lugares nunca demandados, sons guturais da natureza, fotografias numa exposição, o frio e o calor orquestrados pelo clima, a expressividade de um gato que fala através de nós, os códigos sociais de que queremos exílio. Nem que fosse um dialeto restringido à exiguidade das duas pessoas que fundimos ao sermos posse do amor. Já sabemos que há impressões que valem mais que as palavras que possam ser inventariadas. Já sabemos que, por vezes, nos detemos à frente da alvura da folha e as palavras não a querem tingir, pois a alvura da folha encerra em si o paradoxal oposto do vazio que os observadores diriam ser o caso. No dialeto, acastelam-se os sonhos que são sonhados por dentro de sonhos, em palimpsestos com marca registada. Não cuidamos do vento desassisado que ecoa nas árvores, fazendo-as pender assustadoramente. O vento tem vontade própria; a que quadra com a nossa, e imperial, vontade. Inventamos um dialeto para dar corpo à vontade que triunfa por dentro de nós. À vontade do que seja arregimentado pela vontade de que somos tutores. Desse modo emprestamos as cores às estações. Batizamos cidades com a nossa presença. E até a chuva, pretérito imperfeito para a maioria, é uma mercê que contratualizamos em passeios junto ao mar. O mar é testemunha do nosso dialeto. De como damos os braços ao amplexo em que somos uníssono. Por mais idiomas que soubéssemos, nunca nos seria dado a aprender o dialeto de que fomos autores se não o tivéssemos cerzido com as nossas mãos. Não é legado; é um pedestal onde deitamos a sumptuosidade que somos, e esse é um nada maior que todos os mundos juntos. E matamos os fantasmas contumazes, as bermas contaminadas por onde nossos pés se recusam a andar, no gregário estiolar que é, em paradoxal circunstância, viveiro do sublime que somos nós. Pois somos o dialeto de que fomos inventores. 

12.11.18

Antologia (short stories #65)


Einstürzende Neubauten, “Nagorny Karabach”, in https://www.youtube.com/watch?v=hd-6WweqD0Y
          O guarda-livros, tenente empossado das memórias, desconfia das luzes garridas. Talvez seja o murmúrio das violetas levantadas pelo vento, um aroma ardiloso. Talvez sejam as equações não resolvidas a adejar sobre o peito aberto. Os livros estão à espera. Em estantes milimetricamente iguais, armazenados por ordem alfabética. À espera de quem deles se queira servir e provar do conhecimento farto. Cuidam os anciãos do manjar tão cuidado por gerações e gerações. Os livros imortalizam-se. Falam pelas gestas registadas, são delas prova – ou contraprova, quando livros dissidentes rompem com o estabelecido. O guarda-livros está de atalaia. Precata-se contra os fogos ateados constantemente por iconoclastas da incultura. As cinzas, que seriam os despojos desses fogos, evocam o obscurantismo sua lavra. Combinam-se os dizeres alegóricos em mentais manifestações que protestam contra a analogia do medo. O conhecimento é o antídoto do medo. A sua fonte primacial. Talvez nunca se tenha dado conta que há mais páginas de livros do que gente a povoar o planeta. Contudo, os lamentos são ciciados em cada esquina. Através dos lamentos, desfila um cortejo de medos: diz-se que há conhecimentos medonhos, outros que semeiam os rudimentos do medo nos sonhos aprazados. Não se enganem as pessoas: só tem medo do medo quem se refugia do conhecimento, quem patrocina esoterismos sem esteios, ou puras conspirações que fermentam na superstição. Os olhos bem abertos são uma bênção. O tirocínio dos fortes. O guarda-livros chega ao fim do turno. Vai para casa: passou a vez ao sucessor, um discípulo que desde tenra idade se encantou com estantes labirínticas repletas de livros. Porém, não se deita sossegado. Não sabe como vão ser as gerações que estão para vir. Aviva-se o medo pela ideia, contumaz, da apatia em contágio, cavalgando no dorso inerme de uma multidão. O desinteresse pode ser fatal. Dará lugar a um deserto de guarda-livros. Se ninguém proteger os livros, ficamos amputados de uma dose de leão da identidade. O guarda-livros desconfia que é o programa de intenções de alguns pederastas desossados de cultura, embebidos na frivolidade da espuma dos dias sem rasto.

9.11.18

3.500 cm³ (short stories #64)


Rosalía, “Malamente (cap. 1: augurio)”, in https://www.youtube.com/watch?v=Rht7rBHuXW8
Era pedestal, o pergaminho (ele preferia usar “pedigree”, para dar a entender que sabia idiomas). Absolutamente imperativo encontrar comparações, portanto, fazer uma projeção para o exterior e intuir as dissemelhanças. Tinha sempre de sair por cima, triunfante na hermenêutica comparatística. Ato contínuo, era como se estivesse tomado por uma embriaguez colossal, as imagens todas distorcidas, sem dar conta (efeitos do ébrio estado mental): era como aqueles bem-parecidos que se fitam demoradamente ao espelho, num onanismo ufano, encomendando às limalhas do pensamento a observação da superior condição do ser cuja imagem era devolvida pelo espelho. Até que o sortilégio das ilusões, em comandita com um estado de pré-alucinação, fizesse crer que a imagem devolvida pelo espelho era maior do que a imagem nele projetada. E, pobre alma, o desfile de orgulhos não tinha proporção: se não vivesse acantonado na ilusão de si mesmo, se não fosse fautor de um auto-desenho desmedido, teria a humildade de reconhecer que as proezas (se as houvesse) eram esparso retrato de si. Era tudo o seu contrário. Todavia, sentia que era a enseada por onde entrava uma aura só ao alcance dos predestinados. E enquanto os pés se metiam ao desconforto de um caminho alcantilado, à medida que subia a montanha tinha de si a ideia que era maior do que o estatuto seu. O olhar projetado no firmamento, e em sendo o firmamento um plano inclinado sobre o olhar, introduzia o vício de perspetiva. Ninguém o desmentia. Uns, por desinteresse (ele que se amanhasse na altura de recolher os estilhaços, depois de cair em si e reparar que era um eu muito longe da imagem que de si tinha). Outros, porque se entretinham com as alucinações variegadas. Ele tinha ambições volúveis, mas o denominador comum era a ousadia. Fazia lembrar aqueles vaidosos que ostentam motor de dimensões generosas e depois não sabem o que fazer com tamanha volumetria. Um dia, um amigo, em estando desavindo com a manhã e o resto do mundo, deixou cair: “essa cilindrada não é para qualquer um. Só os habilitados a conseguem domar. Desengana-te: não é, manifestamente, o teu caso.” E ele, teimoso com a desinvenção de si mesmo, desviou o assunto, acusando o amigo de inveja e de má-fé. Alheado dos pergaminhos da existência, nem a inconfidência do amigo (um lampejo de realidade) subtraiu a serenidade do sono.

8.11.18

Panteão (short stories #63)


Mitski, “Nobody”, in https://www.youtube.com/watch?v=qooWnw5rEcI
Para os tementes da morte, a palavra panteão devia ser proscrita do vocabulário. Os panteões são a sublimação dos cemitérios, quando os cemitérios continuam a ser lugares de romagem aos mortos. Os tementes da morte não querem saber de cemitérios e, por maioria de razão, de panteões. Admita-se que alguns haja que não querem saber de cemitérios, mas não se importavam de ter morada definitiva no panteão. São os ensimesmados que, da mesma forma que anseiam por um lugar na toponímia local, ou uma estátua póstuma (pois as estátuas só fazem sentido se forem póstumas), poderão alinhavar no estirador de seus sonhos a pertença ao escol que tem acolhimento no panteão. O mal é que o panteão estaria sobrelotado. Obras de ampliação do panteão seriam necessárias, talvez torná-lo mastodôntico. O que amputava a simbologia do panteão, banalizando a sua pertença: era como se esta fosse uma terra de sucessivas gestas de ilustres, numa vulgarização dos ilustres, ou da redefinição da apertada malha que cauciona a pertença ao panteão. Não é desconfiança dos méritos dos concidadãos, das várias gerações que se sucedem no pano da história. Entre o escol, só uma minoria é que tem as portas do panteão franqueadas. Subverter os critérios de aceitação não é o produto da democratização dos elegíveis: a democracia não serve para tanto, melhor se falando em banalização. Faz lembrar aquele catedrático que quer tanto apertar a malha de admissão dos candidatos a catedráticos, para não se esvaziar o estatuto (e as genuflexões devidas, na sua maneira de ver) das catedráticas figuras. Por mim, não quero panteões. Não quero lugar reservado na toponímia da cidade. Não quero reconhecimento. Prefiro o anonimato. Andar nas ruas sem ser reconhecido. Que incómodo dever ser sair à rua e notar que muitos são os rostos que se deitam sobre o nosso, em sinal de público reconhecimento, em invasiva interpelação de quem ganha o dia só porque saudou um famoso. Só quero que o meu pessoal panteão seja a imensidão do mar, o leito das minhas cinzas. (E será que já tenho menos medo da morte, ao admitir a possibilidade de um privativo panteão com a escala do mar?)

7.11.18

Betão armado (short stories #62)


Rufus Wainwright, “Sword of Damocles”, in https://www.youtube.com/watch?v=wmUVy43tqw4
          A metalurgia de um navio mercante: a pele pétrea que se deita aos contratempos que esperam no mar alto. A pele com a cor do ferro, enferrujada que esteja, mas pétrea. Somos o peito armado que se entrega na armadura contra os impropérios do tempo, contra as vociferações engalanadas, servidas no parapeito do dialeto que se esconde em delicodoces, mas ardilosas, fórmulas. Temos de ser o antídoto contra os assaltos que não gritam a sua presença ao mundo. Betão armado, no intraduzível espectro que cobre as possibilidades conhecidas e se precata a desfavor das coisas avulsas que descompõem o horizonte prometido – das circunstâncias que não têm lugar no mapa. Não capitulando às tonitruantes ameaças que semeiam o medo. Não capitulando aos cantos de sereia que escondem o vocabulário escorreitamente soez. Não transigindo com os mares que se encapelam com as facilidades em moda. Pois é o betão armado humana condição (por paradoxal que pareça). Podemos arrumar no corpo a indumentária do betão armado e, todavia, permanecer altares visíveis de uma imensa fragilidade. O betão armado serve para esconder as fragilidades. É um manto de retórica que se oferece aos covisembainhados na alçada da heresia. Se não envergarmos o betão armado, estamos à mercê das implacáveis contradições que são o pasto fácil para a decadência – a irremediável decadência. Estamos à merce dos que terçam armas contra heresias. Não quer dizer que o betão armado seja infalível. Depende do artífice que congeminar o betão armado necessário, da proporção dos ingredientes que entram na sua composição, e da torrente que se esmaga contra o peito (pode ser que o betão armado se estilhace, cedendo à pressão da torrente). Em solilóquio soletrado, num murmúrio discreto, emancipam-se as palavras quiméricas que se investem no betão armado requisitado. Precisamos de proteção contra os sobressaltos, contínuos ou não, que desaguam à porta. Não precisamos se não das palavras quiméricas, traduzidas em betão armado, para tudo o resto ser indiferença.

6.11.18

Mecenato (short stories #61)


Morrissey, “Back on the Chain Gang”, in https://www.youtube.com/watch?v=q_hInzyYN3o
          Com quantas espadas se terça uma paz? Dizia-se: a noite encerra os sortilégios refugiados em sombras insondáveis. São essas sombras que contêm a nitidez das palavras que soam a quimeras. Fala-se de bondade. Fala-se. Também se murmura que se pratica pouco a bondade. Começam as efabulações sobre a ética. Sempre sobre a ética que é exterior a quem assim se entrega a irrisórios exercícios de teorização. Nunca será uma interiorização, esse exercício; aí, a ética cabe sempre impecável, que nem a luva à medida da mão feita a seu tamanho. Volta-se a aduzir a bondade. Com uma interrogação de permeio: importa saber o adjetivo que é o matrimónio da bondade? Fala-se de bondade intrínseca; e de bondade que é um instrumento para outros fins, para pessoais fins (a bondade oportunista). Estão no mesmo patamar? Soerguem-se, outra vez, as batutas da parcial avaliação. A resposta é: depende: se somos nós a praticar a bondade, ou se ela é adestrada pelos outros. Respetivamente: é sempre bondade desinteressada, espontânea, dir-se-ia, bondade em estado puro; é quase sempre bondade indireta, bondade para atingir propósitos que apenas dizem respeito ao bondoso de circunstância. Não há nada como a parcialidade dos juízos feitos. Compõe-se a maravilhosa sonata dos duplos parâmetros. Se um atributo nos é creditado, tem um significado, merece um aplauso; se é imputado aos outros, o significado é diferente, em patente desvalorização em relação ao que se nos atribui. Talvez não interessem os qualificativos; talvez apenas importe o substantivo (bondade), atirando para o reduto da desimportância o adjetivo que seja sua parceria. O que deve ser estimado é o resultado depois da bondade: o recetor dela fica em melhor estado? Em caso afirmativo, teçam-se os louvores à bondade, não cuidando de indagar se é bondade em estado puro ou apenas bondade interessada (exercício em que se mergulha numa perda de tempo que podia ser gasto noutras empreitadas proveitosas, como a bondade). Faz lembrar o mecenato: há patrocínios a manifestações de artes que servem para emprestar uma aura de entidades culturalmente empenhadas a quem as financia. Isso interessa? Importa saber se os mecenas percebem alguma coisa de arte (e da arte que financiam), ou apenas que, através do mecenato, a arte tem lugar?

5.11.18

Instituto nacional de meteorologia (short stories #60)


Kate Bush, “Running Up That Hill”, in https://www.youtube.com/watch?v=wp43OdtAAkM
(Construído com base numa conversa acontecida. O resto é ficção. Mas ficção que encaixa com um protótipo do real: na falta de assunto, desvia-se para o tempo que faz – ou para a falta que o tempo faz.)
- O que dizes a este tempo? Finalmente, a chuva.
- Digo que é o tempo certo para este tempo. O outono estava em atraso.
- Não tenho nada contra a chuva. Só me incomoda que na semana passada andávamos em mangas de camisa e nesta semana o inverno chegou em peso.
- Tens razão. O outono continua em falta. Até à semana anterior, estava colonizado por um verão em final de estação. Agora foi suplantado por um arremedo de inverno que, de acordo com as cartas meteorológicas, chegou do ártico.
- Isto para as gripes vai ser um ver se te avias...
- Há sempre agasalhos à mão de semear.
- Se calhar, as pessoas estavam mal-habituadas ao verão que entrou pela carne do outono dentro.
- Têm sempre a opção de se informarem. Vejam os boletins meteorológicos. Noto, pela maneira como algumas pessoas andavam na rua quando o tempo se virou do avesso, que não passaram os olhos nos boletins meteorológicos. Ainda há dias vi um turista em camisola de manga curta, calções e chinelos. Estavam dez graus!
- Tu acreditas nos mais velhos, que dizem que estes outonos e invernos são uma amostra tímida do que eram no passado?
- Diz-me primeiro, para me situar: os mais velhos têm que idade?
- Setenta para cima.
- Por causa dessa diferença etária, não posso falar por eles. Quando eles evocam essas memórias, eu ainda não era nascido.
- Alinhas na teoria do aquecimento global?
- Não digo que não, nem digo que sim. É um assunto para peritos. Eu não sou. Não tenho dados. Posso confiar na voz dominante, que confirma o aquecimento global. Ou preferir a dúvida metódica, se alinhar com os que desconfiam do politicamente correto e advertem que a teoria do aquecimento global é politicamente motivada.
- Fiquei sem perceber a tua posição.
- Também eu. (Enquanto sussurrava, em comodato com o pensamento, que a conversa desinteressante – e não o era tanto assim, pois a meteorologia era fenómeno que cativava o seu interesse – já tinha expirado o prazo de validade.)