23.1.19

História sobre uma história: a estrela de rock and roll que tomou cocaína para engatar uma hospedeira


Underworld & Iggy Pop, “Bells and Circles”, in https://www.youtube.com/watch?v=bd6aJ35UTP8
A estrela de rock and roll atira-se ao fascismo higiénico que proibiu o tabaco dentro dos aviões. Nostálgico, evoca “os anos de ouro da aviação comercial”, quando a aviação ainda não tinha sucumbido aos dogmas do fascismo higiénico e o ar dentro de um avião era uma imensa nebulosa que fundia o fumo de cigarros variados. Até se lembra quando os passageiros encontravam cinzeiros nos braços dos bancos. Agora, voar é um aborrecimento. Tudo hermeticamente higiénico e, todavia, o ar artificial dentro dos aviões continua nefasto para a saúde. Em contrapartida, as pessoas mais nervosas não se podem refugiar no efeito calmante do tabaco.
A estrela de rock and roll lembra-se de um voo em que ficou siderado com a beleza de uma hospedeira. Como a descreveu, uma mulher alta, arquétipo da beleza americana. Para ganhar coragem para meter conversa com a hospedeira, desembrulhou um grama de cocaína e consumiu-a já com os cintos apertados. Era para libertar o verbo e derrotar a inibição. Algo não bate certo: faz parte do imaginário, uma espécie de mito urbano (sem a parte do mito), que as estrelas de rock and roll não esbarram em dificuldades quando fazem adejar o charme sobre o sexo feminino. Em regra, um estalar de dedos garante uma conquista. A estrela de rock and roll teve vergonha. Talvez refém da sua feiura, ou considerando-se uma pessoa desinteressante, socorreu-se de um estimulante para desbloquear a vergonha. Ou então, meter conversa com a hospedeira lúbrica foi o pretexto para consumir um grama de cocaína antes de o avião levantar voo.
A estrela de rock and roll conta a boa notícia: a hospedeira anuiu e escrevinhou, à pressa, o número de telefone num papel, entregando-o em mão à estrela de rock and roll. Depois, a má notícia: inebriado pelos efeitos psicotrópicos da substância inalada, depois de aterrar, e talvez já em si, deu conta que tinha perdido o papel onde estava escrito o número de telefone da bela hospedeira. Arrependeu-se, já a destempo: a cocaína não era melhor do que a hospedeira – atestou a estrela de rock and roll. Literalmente, ficou a ver aviões.
(Altura em que feministas abespinhadas se insurgiriam contra o topete de comparar uma mulher com cocaína, protestando contra a “mercadorização” da mulher. Ou, como no poema de Ana Luísa Amaral (“Incomparáveis receitas”), “Dizem que não se deve comparar humano/a coisas ou sabores.”)
A estrela de rock and roll escorregou para a especulação gratuita. Como pode o músico dar por adquirido que a cocaína era pior, se não chegou a conhecer a hospedeira? A estrela de rock and rollter-se-á arrependido de ser tímido. Ou então, de ter arranjado um pretexto para desembrulhar um grama de cocaína antes de o avião levantar voo. A cocaína teve as costas largas.

22.1.19

Cem histórias a contar (short stories #91)


Mler Ife Dada, “Sinto em Mim”, in https://www.youtube.com/watch?v=R8VWUvSI57A
          Do insistente inventário, um cálculo com efeitos posteriores. Dizes que queres que te contes histórias. Cem histórias. Não colocas prazo, o que me sossega. Agora sei que tenho de honrar a promessa. Contar-te-ei as cem histórias. Hei de reunir as personagens a preceito, os enredos que merecem assentamento no estuque em que se compõem as histórias. Hão de ser histórias sem tédio, prometo. Talvez, algumas histórias com intensidade, digamos, filosófica (porque agora deu-me a mania da filosofia). Mas histórias que não se enredem em labirintos inextrincáveis. Já agora, enredos não emaranhados em vocábulos quase sem uso, nem em gramática gongórica. Verás, desde este ponto de vista, que não é fácil a empreitada a que vou meter mãos. Quero conseguir histórias despretensiosas. Não serão lições de vida – não sou ninguém para alinhavar histórias de vida. Não serão preceitos com moralidade a tiracolo; já aprendemos, na vida que levamos, que as moralidades se estilhaçam com o menor tremor do chão em que assentamos. Cem histórias. Ou mais. Se, pelo caminho, continuares a inspirá-las, quer pela tua presença em mim, quer apenas porque ao estares do meu lado produzes um efeito catártico e as palavras não se encomendam à mudez. As histórias podem ser levemente autobiográficas, ou remeter para um imaginário que medra no fermento do meu pensamento. Admito que será mais o segundo caso – e não o digo por pudor, ou por ser desconfortável a exposição que acontece quando um laivo de autobiografia se enxameia numa história. As histórias serão um arpão que se enlaça com as diferentes menções do tempo. Sem recusar as palavras meãs e as que reivindicam palcos mais altos. Sem recusar recursos estilísticos e o apelo a metáforas, sem pôr de lado as linhas que se leem nas entrelinhas e as palavras que são frontais. Sem fechar as janelas que se antepõem na moldura de uma história em ebulição. Umas vezes, com os olhos claros, despejados, evocando as medidas sem limites que se sobrepõem à costura das histórias. Outras vezes, a personificação de um rosto melancólico que não se esconde no fingimento de si mesmo. Mas sempre histórias. Cem – ou as que forem precisas para sermos atores primeiros num processo dialógico infinito. Revejo os planos: vão ser muito mais do que cem histórias.

21.1.19

Nunca deixes o olhar


Mr. Herbert Quain, “Let Me Figure This”, in https://www.youtube.com/watch?v=jkO0aNZvTDk
Que o abismo não te emudeça. Pois o abismo é uma fábula da imaginação, sem correspondência com a matéria em que os corpos assentam. Continua com o olhar sagaz à procura da chave do tempo, das barreiras ao melífluo, do olhar compreensivo com a geografia em que se entretece o pensamento. Não descuides a crítica, por assanhada que seja; ao menos, é espírito crítico que medra na cumeada do pensamento, e não a apatia a que somos convidados, o moderno sucedâneo das ditaduras, das ditaduras que se sobrepõem ao pensamento descomprometido.
Nunca deixes que o olhar deixe de fazer o seu caminho. Sem agenda, sem ser tutelado por modas, não transigindo com a morfologia inerme dos que pressentem um apascentar oportuno da turba. Nunca deixes se não que o olhar veja o que lhe apetece. Pois é dessa liberdade que se compõe a grandeza do mundo, para a qual ofereces um modesto contributo através da grandeza que te é própria.
Não deixes que o olhar se hipoteque. Que sobre ele se vertam as cortinas baças. Ou que seja açambarcado pelo fardo pesado que é tácito ao coevo. O teu olhar tem de permanecer vívido, incisivo, construtivamente crítico, para depurar os vestígios em que não se reconhece e melhor saber o lugar a que pertences. Dá ao olhar o máximo do mundo que puderes recrutar. Dá-lhe páginas incontáveis, narrativas inesperadas, versos emoldurados para memória futura. E deixa que o olhar se congemine nas arcadas largas, onde os limites se fundem com os deslimites de ti. 
Não deixes de atuar sobre o teu olhar. Estás numa posição paradoxal: é o olhar que te traz os testemunhos válidos, depois da decantação exigível; mas não sabes se o olhar cumpriu os requisitos da imparcialidade, não sabes se um olhar não totalmente descomprometido não contamina o teu pensar. És influenciada por ele e sobre ele tens de atuar, numa discreta e constante vigilância. Para o olhar não acabar tresmalhado num lugar exíguo, não frequentável, pútrido – o que, em muitos casos, pode corresponder aos lugares que te são dados a conhecer na maior parte do tempo.
Não deixes o olhar decair na indiferença. Não o deixes fugir para lugares domados por vultos, onde campeiam as desalmas. Não deixes que o olhar seja menos do que a voz nítida que desembacia as incertezas perenes. E não deixes que o olhar caia pelo precipício que é o lugar habitual de que somos residentes. Cumpre o teu olhar e inventa os lugares outros, verticais a estes a que os sentidos se emparelham. Para aprendermos a desenhar estrofes em conjunto.

18.1.19

Ou tudo ou tudo


Interpol, “Pioneer to the Falls” (Live for BBC Radio 6 Music), in https://www.youtube.com/watch?v=oeqhWLKJB9I
Subida a parada, o mastro não chegava para hastear a ousadia desfraldada. Não podia haver lugar aos contratempos nas equações que se sobrepunham no papel exposto. O franco desembaraçar dos impedimentos só podia desaguar num opúsculo vibrante, recreativo, fecundo, uma obra-prima. As duas hipóteses reconduziam-se a uma só: tudo estava preparado para sair a ganhar. Não havia meio-termo. Nem o cenário oposto. Porque não é de apocalipses que consta a ementa gravada a talha dourada. 
Dizia-se que os sonhos são um ardil de que só se dá conta quando pertencem à fornalha onde se incineram as desesperanças. Desta vez, não. Desta vez, tudo haveria de dar certo, o desenlace como desejado. Não seriam advérbios de modo orquestrados em salões conspirativos dando a volta ao mundo só para travar o passo ao desejo. Não seriam vultos medrando em sua hipocrisia travando o desiderato. O convencimento era a ignição do resto. Abraçado à perseverança do ser, um autêntico estado de alma, inderrotável.
Nas narrações vindouras, ficaria o selo intemporal do conseguido. Mas era cedo para começar a escrever história no futuro. Sempre alguém, de supersticiosa cepa, podia advertir que o azar pode espreitar, o malfadado, com seu impaciente bafo de contradição. Não era preciso dar crédito à advertência: estava tão seguro, que tais imponderáveis não subtraíam o sono. A visitação consecutiva de frases marcantes que desfilavam na paisagem mental ajudava a consolidar o convencimento do esperado. 
A meio do caminho, foi assaltado por uma hesitação. Apesar de nunca ter pressentida tão certa uma aspiração, interrogou-se se chegava a tinta farta do convencimento do esperado. Outra coisa podia ser o lado oposto do labirinto em que se metera. O que se espera hoje nem sempre é selado no cúmulo do tempo determinado como mapa que transige com o resultado desejado. Nesse caso, já não podia formular, com a determinação de quem é couraça, que é tudo ou tudo.
Foi a tempo de resgatar a postura ambiciosa. Era mesmo tudo ou tudo, sem lugar a alternativas. Teve medo. Nunca soubera a que sabia este grau de certeza à prova de contingências. Tinha a noção das variáveis que fogem ao seu domínio, de como as contingências, inesperadas como são, podem gorar um resultado esperado. Não esquecia como sempre rematara as demandas com uma sucessão de interrogações que obstavam respostas terminantes. Mas não desta vez. Não era o palco das tergiversações, das perguntas metódicas, que estava em causa. Era tudo ou tudo.   

17.1.19

Ainda o tempo (e não é o meteorológico)


This Mortal Coil, “I Come and Stand at Every Door”, in https://www.youtube.com/watch?v=KoDEVKlaW_A
Este bizantino desacerto, como se as pernas não estivessem em sintonia com o chão e os pés fossem sombras cambaleantes. A espuma que se desprende na extremidade das ondas desfaz-se no paredão gasto. O vento moderado arrasta os nódulos da espuma até aos bancos do jardim sobranceiros ao paredão, constituindo anfiteatro de excelência sobre o mar. 
Passam dois idosos na companhia de seus cães, agasalhados contra as agruras do inverno (cães e idosos). Sentado na bifurcação entre o rio terminal e a embocadura do mar, fecho os olhos e sinto como se estivesse a ouvir uma música dominada por violinos. Que metódico esgar faço ao rapazola estouvado que, na companhia de adolescente feminina a condizer, treslouca o espaço circundante com a sua gritaria? Antes gostasse do som do silêncio; mas não naqueles preparos, que o sol raro do inverno quis conhecer este dia e as pessoas, sedentas de sol, saíram à rua e o burburinho é prova indesmentível. 
Levanto o olhar, fazendo menção de me apropriar do espaço que se deita para além da linha do horizonte. São estas demandas abstratas, consumíveis na vacuidade de palavras amontoadas, que me deixam paradoxalmente revigorado. Não quero ser refém do lugar-comum. Não pretendo a distinção pública de nada. Só quero ser tutor das palavras na ordem em que ascendem ao pensamento. Não é tarefa pouca.
Sob a minha direita, um pescador dormita. Não dá conta do fio de uma das canas que balança vigorosamente, sinal de ter arpoado um peixe e parece ser de envergadura. Não o vou acordar. Não tenho o direito de acordar quem mergulhou no seu sono, mesmo que o peixe se consiga soltar do anzol na frenética luta pela liberdade e o pescador lamente a perda de tamanho pecúlio. Ou, talvez, a minha inépcia seja uma tortura para o peixe, que rebate o anzol com a força que tem e se consome no sangue exaurido. Não me interessa o dilema. Não me interessam os dilemas, pelo menos naquela altura de torpor – e se tenho direito ao torpor, como todos arregimentam o seu quinhão de preguiça! Oxalá o pensamento tivesse um descanso. E deixasse de vogar, errante, de apeadeiro em apeadeiro, ao deus-dará. 
Detenho o olhar na margem contrária do rio, no leve declive que levanta a paisagem desde a orla do rio até ao seu epílogo, antes de mergulhar noutro vale. Vem à ideia a imagem de um cobertor verde deitado sobre o chão. Se dizem que as árvores são os pulmões que nos saciam o oxigénio, aquele cobertor não é o sufixo de asfixia. O caudal do rio corre, apressado, para o mar. Traz no seu dorso os vestígios do oxigénio aspergido pelo arvoredo. O salitre, lugar-tenente do mar, cuida de se apropriar dessas partículas, transformando-as na maresia quimérica que toma conta de entardeceres e de manhãs brumosas. E esta amálgama parece rimar com o meu torpor, contra o desejo baço de levitar o céu translúcido que desfila sob meu olhar cerrado. Não me empenho ao amanhã, isso é coisa certa.
Levanto-me e continuo a caminhar. Quase consegui pensar no tempo sem bastião sem mencionar a palavra “tempo”, ou uma palavra sua aparentada. 

16.1.19

A crise da crise (Ou: a crise está em crise)


Radiohead, “Recknoer” (Thumbs down version), in https://www.youtube.com/watch?v=8OS1U8LjjZw
(Ato primeiro: simulacro de defesa do otimismo irritante e da magnífica gesta que é excessiva na portugalidade que somos)
As provas abundam: a crise, palavra que muitos desafortunados teimam em inscrever num quadro de perenidade, está em crise. A felicidade devia ser determinada por decreto. Só os mal-intencionados e os incorrigíveis pessimistas (a par com os que medram na desgraça congénita) não reconhecem as boas águas em que navegamos. A crise entrou em crise e os que estão habituados a porfiar na crise ficaram a braços com uma intrínseca crise – a que tomou conta deles próprios. Fazem lembrar abutres, de atalaia à espera da primeira oportunidade em que os céus se tingem de nuvens negras, para pressagiarem nuvens ainda mais plúmbeas. Alimentam-se da crise e só sabem viver com o pano de fundo sombrio da crise. Se ocorre o horizonte se limpar das excrescências que são nefastas para o bom viver do povo, abespinham-se, contraem-se nos seus músculos turgidos, acordam contrariados por causa do tempo soalheiro que veio em substituição do seu habitat natural. 
A crise da crise é a meta-análise de um sentir sorumbático, depressivo, talvez nos despojos da falência de (mais) um sebastianismo, uma orfandade advinda de crises pretéritas. Estas personagens azedam na melancolia paradoxal que se entabua quando tudo faria crer que os sintomas apontassem em sentido contrário. Quem não gosta de um palco livre do estigma da crise? Só os que se habituaram a conviver com a crise, saltando de crise em crise, até que intuem que a crise é o estado constante que nos reduz à incapacidade de sermos alguém que olha o porvir com um sorriso descomprometido, de alguém que desaprendeu a usar a palavra “esperança”. A crise da crise é a crise que está em crise. Para infortúnio dos ascetas que nidificam na crise. Manter este comportamento é produto de má-fé (por não admitirem que a crise está em crise), ou patologia incorrigível.
(Ato segundo: a defesa de honra dos visados no ato primeiro)
Os ventos não sopram sempre favoráveis. O clima não é uma constante. Nem as marés. Nada é constante e tudo se expõe à contingência. No movimento oscilante que são os ciclos, devia-se tirar partido das lições da história. Pode a crise ter suspendido as suas funções. Aproveitem-se os ventos contagiantes que sopram de outras latitudes e que aspergem bons efeitos. Não seja, contudo, dada caução à falácia do otimismo irritante. Os bons ventos podem desviar para outras latitudes – ou, pura e simplesmente, hibernar por período indeterminado. Nessa altura, os otimistas irritantes não se poderão esconder em pretextos ou ardis argumentativos. Terão de reconhecer que a crise da crise não foi um sintoma de que a crise estava em crise. Não será a crise que esteve em crise; foi apenas uma descontinuidade na crise.
É compreensível que, na intermissão de duas crises, se distinga o clarear dos rostos e um módico de otimismo tome conta do tabuleiro onde se dispõem as peças do jogo. Adulterar a lógica embebida numa historicidade indesmentível é um logro. Da mesma forma que os otimistas irritantes preconizam a felicidade ditada por decreto, não seria má prática prever, em leis criminais, a punição dos que vendem, a destempo e com a promessa de ser imorredoiro, o que de bom existe e que, está provado pela história, não dura para sempre.
Pois é de crise em crise que o mundo tem avançado. E prosperado. 

15.1.19

Epistemologia do filho da puta


Idles, “Mother”, in https://www.youtube.com/watch?v=BuQG6_evFc8
Não é preciso sermos filólogos para termos a impressão de como a língua (o idioma) é maltratado com uma frequência assustadora. Não é por erros ortográficos, ou de sintaxe, ou do mau uso da gramática que este texto vem ao caso. Trata-se do emprego desenquadrado de étimos e expressões, com consequências não antecipadas por quem é responsável pelo uso indevido. 
Um insulto assíduo é dirigirmos ao insultado a noção de que sua excelência é filho de uma meretriz. Ao chamarmos filho da puta, não damos conta do seguinte. Primeiro, muitas vezes desconhecemos a identidade da progenitora, pelo que o risco de cometermos uma injustiça (e uma injúria) é elevado. Segundo, mesmo que tenhamos conhecimento do paradeiro da senhora, não podemos afiançar (regra geral) que a dita se dedica ao mercado da venda de prazeres sexuais. Arriscamos, outra vez, o insulto gratuito e sem fundamento fático, com a agravante de estarmos a pisar o limiar do ilícito, pois insultar alguém por algo que essa pessoa não é pode constituir o crime de injúria. Terceiro, mesmo que as duas hipóteses anteriores não se confirmem, e a senhora mãe do insultado se dedique à prostituição, acusar o insultado de ser o que ele é não pode representar um insulto. Se o propósito é o vitupério, pecamos por defeito. 
Porventura o mais frequente é a expressão “filho da puta” ser usada como lugar-comum do insulto, sem se poder fazer uma interpretação literal das palavras contidas no insulto. Quando se diz a alguém que essa pessoa tem o inditoso fardo de ter sido gerado por alguém que vende o corpo aos prazeres sexuais de outrem, estamos a admitir (provavelmente, com uma elevada dose de erro à mistura) que o insultado foi concebido por uma meretriz e que esse é um facto da sua história de vida que o deixa menoscabado. Ora, pode acontecer que o filho não tenha renegado a mãe, pelo que acontece, outra vez, o insulto acertar ao lado. Ou pode dar-se o caso de a senhora não ser aquilo que o insulto identifica e, nesse caso, o ultraje atinge duas pessoas (pelo menos): o insultado que é filho de uma senhora que, afinal, não tem os “maus pergaminhos” (no entender das convenções sociais estabelecidas) que vêm de arrastamento com o opróbrio. 
Não seria mal pensado termos travão na língua quando não reprimimos o instinto de chamar a alguém filho da puta. Na maior parte dos casos, estamos a ofender mais a mãe do insultado do que o insultado. O tento na língua é recomendado para não errarmos no alvo da ofensa (se for determinante proferir o insulto, caso em que se conclui não estarmos serenos dentro da nossa identidade e nos prestarmos a convulsões escusadas). Se chamarmos filho da puta a alguém, o maior ultraje não repousa na pessoa do insultado, mas da sua mãe. E, quantas vezes, a senhora, em não sendo aquilo de que vem acusada no ínsito do insulto, não tem culpa de ter parido um canhestro, nem é responsável pela personagem soez em que ele se transformou.

14.1.19

Rádio sem pilhas (short stories #90)


Pond, “Daisy, in https://www.youtube.com/watch?v=Ap2gStsDZZo
          Sem veleidades: o rádio perdeu as pilhas. Ficou confinado ao silêncio. Esquadrinhou a casa toda à procura de um jogo de pilhas de substituição. Por mais que virasse as gavetas e as prateleiras do avesso, não havia pilhas. Não havia rádio. Sobrava o silêncio. Podia pegar num livro, que os havia, e muitos, empilhados nas prateleiras, e prontos para serem estreados. Dava-se o caso de não apetecer ler um livro. Ou ligar a televisão – que não precisava de pilhas –, ou sair de casa e ir às compras ao supermercado (para comprar um jogo de pilhas de substituição), ou outra qualquer coisa. A pura vontade era sintonizar o rádio. Quis recordar os tempos da infância e escolher uma estação em onda curta, daquelas em que o ruído de fundo se sobrepunha ao resto, tornando o resto quase ininteligível. Será que ainda havia onda curta? Não podia tirar as teimas. Especulou. Podia resolver a demanda se se vestisse a preceito (que o dia estava invernal e não convidava a sair) e fosse à loja mais próxima comprar um jogo de pilhas de substituição. Resignou-se a lutar contra a teimosia. Queria algo que não era possível, ausentes as pilhas de substituição. A curiosidade ficava para segundas núpcias – quando o mau tempo amainasse, ou quando dobrasse o persistente cabo da má vontade que o toldava e saísse de casa para comprar as pilhas necessárias. Ou se a vontade fosse calibrada e a teimosia se esquecesse da interpelação sobre a sobrevivência da onda curta. Ficou a olhar para o rádio. Um objeto inanimado. Não é que perca esse atributo quando, dotado de pilhas ainda a uso, debita as emissões captadas na onda média, na onda curta, ou na moderna frequência modulada. Sem pilhas, o rádio não tinha serventia. Enquanto estivesse sem pilhas. Enquanto a teimosia em não sair de casa fosse o obstáculo à vontade que parecia entronizada. Talvez não fosse. Sem admitir, tratava-se de um acesso de mau feitio, quando se martiriza a si próprio por causa das coisas que teve à sua mercê e, entretanto, as perdeu. Assim como assim, o rádio sem pilhas sempre era um objeto decorativo.

11.1.19

Os arrumadores de almas


In the Nursery, “To the Faithfull”, in https://www.youtube.com/watch?v=z7I2Vy3T_Bo
Os cotovelos tinham por base a mesa onde repousava a singela jarra que abrigava um punhado de flores silvestres. A água a caminho de se tornar baça. Uma ligeira névoa de fumo circulava a meio da sala, mas não dava conta do fumador. Uma mulher com rosto cansado entrou na sala, as olheiras acentuadas afundando o olhar e, ao mesmo tempo, sublinhando a melancolia. Pediu um café e esperou em pé. 
Lá fora, começou a chover. Um aguaceiro brusco, inopinado. Acompanhado por vento que, de um momento para o outro, se tornou vendaval. As pessoas fugiam, procurando refúgio. Um guarda-chuva voou, a vítima mais recente da intempérie sem pré-aviso. A mulher terminou o café e desfez os planos: tendo ficado em pé, à espera do café, talvez estivesse com pressa de ir à sua vida; a tempestade súbita mudou os planos. Aguardava junto à saída, com alguma impaciência, que a tempestade desse tréguas.
As flores silvestres, como que animadas pela feérica tempestade, saíram da murcha condição. Dir-se-ia que também queriam espreitar, pelo pescoço da jarra, o ribombar do vento que soprava em violentas rajadas, disparando bátegas de chuva. A paragem do autocarro do outro lado da rua estava apinhada. As pessoas procuraram refúgio para não serem atropeladas pelo temporal. Três dessas pessoas atravessaram a rua e entraram no café – era mais confortável o abrigo do café e, vistas as coisas, a paragem estava sobrelotada, as pessoas acotovelando-se umas nas outras para não serem inundadas pela desbragada procela que se pôs. 
Outra vez sem pré-aviso, a chuva e o vento suspenderam a atividade. Havia algum lixo pelo chão, talvez arrancado aos pertences de um caixote de lixo que ainda não fora recolhido. Uma nesga de luz irrompeu, caiando a água vertida sobre as ruas, um rio acetinado que atapetava o asfalto. Parecia a retaliação do sol contra as nuvens fortemente acasteladas que legitimaram a recente tormenta. Num braço de ferro entre sol e nuvens, que se digladiam continuamente pela usurpação do céu. A mulher ensonada saiu do café, já não podia esperar mais na sua impaciência visível. 
As três pessoas que encontraram refúgio, voluntariamente exiliadas da paragem do autocarro de onde fugiram como fogem dos lugares amontoados, sentaram-se em mesas separadas. O homem septuagenário tirou um jornal de dentro da gabardina encharcada. O jornal salvou-se (a gabardine era impermeável). Chamou o empregado de mesa, que continuava a exibir o mau-humor inato apesar das sucessivas chamadas de atenção do proprietário do estabelecimento, que já perdeu clientes à conta da impertinência do rapaz. O idoso pediu, friamente, um café e um pastel de nata, sem dirigir o olhar para o rapaz. Este vociferou, em surdina, “ao menos podia usar se faz favor”. A semi-surdez do cliente foi a sorte do proprietário do café.
Um mendigo entrou no estabelecimento. Dirigiu-se ao balcão. Pela rotina dos gestos, parece habitual. A senhora que tira os cafés e despacha o restante expediente entregou-lhe um saco com várias embalagens. O homem acenou, em tom de agradecimento. O idoso que lia o jornal desviou o olhar e chamou o mendigo, depondo na mão um punhado de moedas (as que tinha na algibeira). O mendigo repetiu o gesto de agradecimento, balbuciando uma semi-palavra que denunciou a mudez. 
Olhou para a rua, tirando uma bissetriz através da jarra onde as flores silvestres novamente afocinharam em seu decaimento. Os excessos da breve tempestade estavam corrigidos. A água tinha sido enxugada. A paragem do autocarro estava vazia. E já não passavam autocarros há vinte e três minutos.

10.1.19

Máscara (short stories #89)


Plastic People, “Riding High on Acid”, in https://www.youtube.com/watch?v=Y3WBdUb7WbI
          Uma máscara esconde o eu genuíno, ou é apenas a proteção exigível contra as contingências do mundo? Um manto não diáfano desce pela colina e estende um nevoeiro que embacia o olhar. Todos éramos atores, pois ao simulacro do outro correspondia, como resposta imperativa, o simulacro do eu. Tudo acabava por se desenrolar dentro de um palco onde desfilava um cortejo de máscaras – ou o palco que se desmembrava em múltiplos palcos, como palcos que emergiam dentro do palco anterior e as máscaras obedeciam ao mesmo ritmo palimpséstico. A certa altura, de tanta complexidade, já não seria possível saber se uma máscara era apenas a exigível reconfiguração do eu perante os desafios do mundo exterior, ou se era a segunda, a terceira, a quarta reincarnação da máscara inicial. Tudo sendo um acumular de sucessivas camadas sedimentando-se umas nas outras, a cada uma correspondendo uma máscara diferente. E qualquer pessoa, aprisionada na sua memória finita, perdendo o rasto das máscaras primevas, já não primordiais – como explicava o esquecimento. Neste estado de coisas, e perante a vulgarização das máscaras, refeitas as coordenadas vigentes, já ninguém prescindia de máscaras (no plural). Já não fazia sentido se não olharmos uns nos outros através das máscaras, até das máscaras indeléveis que se fingiam através do rosto aparentemente não disfarçado. Já ninguém reconhecia rostos não ornamentados por máscaras. As máscaras passaram a ser o rosto visível. Já ninguém sequer retirava a máscara antes do deitar. A osmose entre rosto e máscara deixara de ser um problema. E nem as demandas heurísticas, sobre a perda de genuinidade à mercê das máscaras, pareciam ter sentido. A normalidade tinha sido redesenhada. O vínculo ao fingimento dera caução à substituição dos rostos por máscaras. Até no dicionário: a palavra “rosto” fora banida. Em sua vez aparecia a palavra “máscara”. Mesmo os nascituros conheciam o mundo através da máscara que traziam à nascença. E todos eram atores. Num palco imensurável, com várias estratificações, com várias máscaras a preceito das circunstâncias. Parecia que deixara de fazer sentido reclamar a genuinidade. As máscaras passaram a ser o selo válido do genuíno.