5.12.19

Don’t play with me a game that you will win


Balthazar, “Fever”, in https://www.youtube.com/watch?v=z2X2HaTvkl8
Terçam-se as armas no tabuleiro onde se dispõem as peças, e o jogo espera. Antes do jogo e já se terçam as armas. Ninguém tem medo de perder. Ninguém tem medo de se precipitar contra a moldura do jogo e jogar as peças antes do tempo. O jogo joga-se antes mesmo de começar.
Quem vai ganhar o jogo que pressente o jogo? Talvez seja a pergunta mais irrelevante que se possa formular nos preparativos para o jogo que vai ser a contar. Parece que o jogo válido é o que tem lugar antes de o jogo começar. Um jogo antes do jogo nunca deixou de ser um jogo sem folha de serviço. É um jogo a contar para o troféu do nada. E, contudo, parece um jogo de morte. As forças esgotam-se e os intérpretes parecem consumidos por uma loucura que os cega, indiferentes ao jogo que conta. 
As estratégias também contam. As estratégias entretecem-se num jogo à parte, lateral ao jogo a contar. Sopesam-se nos ardis dos adversários. Esboça-se uma autêntica teoria dos jogos. Um dos adversários dá um passo para deixar um engodo ao outro. Supõe que este tem capacidade para antecipar o gesto e dá um passo que é oposto do que julga ser o gesto antecipatório do adversário. Não consegue contar se este antecipa como deve ser o seu gesto antecipatório. Enredam-se numa teia de suposições e de adivinhações do gesto do adversário e da sua reação antecipatória aos gestos do outro. A certa altura, já não sabem o seu próprio nome, tantas as hipóteses desdobradas em milhentas hipóteses em cascata. É o jogo inútil: as elucubrações exaurem as forças e os adversários perdem as referências, as próprias e as que julgam ser as do outro, quando começa o jogo a contar.
Um dos intérpretes vai a jogo, ao jogo a contar, a roçar os limites da decadência, tantas as forças consumidas no estéril jogo prévio ao jogo a contar. Diz coisas sem sentido. Parece prostrado. Não esconde o desânimo. Dá a entender que sobram poucas forças para ir a jogo. A sua aparência parece sinalizar a mão estendida na direção do adversário, como quem convoca a compaixão do outro. É como se estivesse a suplicar para o outro não jogar um jogo que sabe estar ganho, à partida. Como se estivesse a proclamar a sua falta de comparência. O adversário expande o sorriso. Sente o odor do triunfo antes de o jogo ter começado. Não contempla a hipótese de transigir com o adversário, no gesto de compaixão rogado. Será implacável. Espera uma vitória contundente, num jogo que não terá demora.
A imagem do desequilíbrio é uma farsa. O gesto do intérprete que veio a palco exangue, como se estivesse derrotado antes do começo do pleito, foi propositado. Um disfarce. Uma cilada, para convencer o adversário da desigualdade de forças no tabuleiro. Para que este se convencesse que a vitória estava garantida. Mas o jogo foi virado do avesso. Num golpe de asa, o que de si fez uma imagem de derrotado assestou um golpe certeiro, duro, que desfez a nada a reação do sequaz da altivez que já contava as favas da vitória. Inerte e perplexo, já nem se levantou do tabuleiro.
Fez-se a profecia: era melhor o outro não jogar o jogo que sabia à partida estar ganho.  

4.12.19

Sobre a pele em cima das coisas (short stories #178)


Llama Virgem, “Portugrall”, in https://www.youtube.com/watch?v=V3PColi1-nc
          Não é preciso o avental. A pele deita-se sobre as coisas que o mundo encomenda à fertilidade. A pele precisa de saber como é a pele dessas coisas. A pele precisa de saber como é pele nessas coisas. E elas não enjeitam os poros macios que sobre elas se deitam. Da fusão resulta o quimérico observatório de onde se compõem as estrofes altivas, não simuladas, genuínas. Essas estrofes evaporam os fumos temíveis que podiam ser a fraqueza de tudo, não fossem os poderes lisérgicos das estrofes. Elas contêm o predicamento da pele heurística. Sobem à boca de cena com a mesma voracidade de um vulcão, mas sem a sua força catastrófica. Em vez dos homéricos e inúteis gravames do porvir, sobem a palco os intérpretes desinteressados, despojados de roupas e sem pudor da nudez, as suas peles como o sol genesíaco sem espera. As coisas do mundo ganham um banho de pele. Já não são inertes e frias entidades sem nome. Ganham a vida da pele que sobre si se deita. De repente, às coisas assim ungidas vem um reflexo de vida própria, por osmose – por bem-vinda contaminação da longanimidade da pele em si deitada. À pele assim benfeitora fica o gesto de humildade. Não reclama créditos. Não reclama um púlpito que é a negação do ato cometido. As gentes ficam a saber, sem precisarem de tutela escolar, que não somos fadados para o egoísmo. Sabem que se formos desinvestidos do narcisismo que é o tenebroso ardil dos espelhos, temos a safra maior que é o autorreconhecimento. A pele continua a ser a mesma. Ainda que tenha dado de si uma importante parte às coisas que há no mundo merecedoras do seu proselitismo. E as coisas, embebidas nas cores garridas da pele nelas embebida, são reinventadas por dentro da sua bondade.

3.12.19

Boa noite, senhor Adriano


Moullinex & Xinobi, “Azul”, in https://www.youtube.com/watch?v=ZK-Y2g14Fng
É só mais um dia. Um dia, o que passou. Olhas para as horas precedentes e parece que foste passageiro de uma vela hasteada contra o vento vadio que vinha do mar. Dirias que pouco lembras do dia, mas trazes o odor da maresia colado ao corpo. Se escrevesses um diário, ou se tivesses por hábito inventariar os factos que se destacam da monotonia restante, dirias que foi um dia puído. Não ficaria anotado a cor viva nas faldas da memória.
Nem sentes cansaço, ou sono, como é habitual a esta hora já avançada do dia, quando o dia entra na senescência e, por mérito da noite, se enlaça com o dia seguinte, nascente na mesma noite soturna que serve de túmulo ao dia que se apresta a ter demarcação num estuário ao acaso. Não te apetece recolher aos aposentos, como é habitual. Não darás engodo à rotina com que gastas as derradeiras horas do dia a convocar o sono. Apetece-te ser observador dos espécimes que vagueiam na noite. Os boémios e os não boémios, para notares a diferença entre os que tiram partido da noite para dela fazerem a barriga da vida e os outros, mergulhados na noite por necessidade. Apetece-te ser observador da falência do dia.
Sais a horas impróprias – é o teu relógio biológico, interno, a protestar. Não sabes por onde vais. Vais, apenas. Seguindo o chamamento da noite, em seu feérico exemplar atribuído aos marinheiros destas marés. Sempre soubeste que não eram marés ao teu jeito. Não desistes da encomenda. É só mais um dia. Não sabes se foi um dia mau, ou um dia bom. Olhas para o relógio: o dia decai nos seus últimos suspiros. Ficas à espera do seu final, quieto, à entrada de uma estação do metro na companhia de um segurança, que balbucia linguagem codificada (e castrense) ao intercomunicador. 
(Só conseguiste perceber aquelas palavras, talvez de alívio – por serem sinónimo de fim do expediente –, em que o segurança comunica que só faltam três minutos para fechar o acesso à estação.)
Já é um minuto depois da meia-noite. O dia foi deposto e, em seu lugar, fala um dia acabado de nascer. Ao dia sucede um dia. Não notas diferença. A noite é a mesma, as pessoas que voluteiam nas ruas são as mesmas, com os mesmos rostos e a continuação das mesmas frases. Se ao menos se confirmassem as convenções e, com a meia noite a mostrar-se nos relógios, o dia vindouro rasgasse do calendário a folha correspondente ao dia sepultado, talvez as coisas fossem diferentes. Talvez não repetisses, vezes sem conta, “é só mais um dia. Um dia com as dores próprias de um dia repetível.” O que querias é que os dias não tivessem um rosto visível. Que fossem, irrepetíveis.
Já são três horas e dezasseis minutos do dia novo. Soa demasiado epistolar o anúncio da hora desse modo. Admites: sempre foste muito solene. A começar contigo. “Oxalá não fossem as fraturas do pretérito as faturas que levas a peito” – resmungaste, audivelmente, sabendo que o responso saíra de ti para voltar à procedência. 
Estavas quase em casa, sem ter sido de propósito. Entraste no prédio e o porteiro acordou, estremunhado, de um sono imprevisto. Que incómodo! A tua chegada tardia assustou o porteiro. Passaste a mão pelo ombro do porteiro e disseste: “boa noite, senhor Adriano”. Desconfiaste que a noite do senhor Adriano, em princípio uma noite em branco, ia ser melhor do que a tua.

2.12.19

Compêndio da caça aos gambozinos (manual de iniciação à desarte da política para infantes)


Mão Morta, “Oub’lá” (ao vivo), in https://www.youtube.com/watch?v=_G9rML3yFxs
Sabem a cor da transparência? Sabem quando foi a última vez que o pai natal escanhoou a barba? Sabem a que sabe a água da chuva? Sabem compor a equação que resolve o segredo da caixa de Pandora? Sabem como são concebidos os dragões? Sabem desenhar um gambozino? 
Vamos a isto: vamos à caça de gambozinos. Levamos, como cicerones, gente muito importante que foi escolhida para nos representar. Chamam-se “políticos”. Vocês, queridas crianças, vão ser guiadas pelo tabuleiro onde se joga a política. Não estranhem que os vossos olhos sejam vendados: temos de confiar naqueles que foram escolhidos para nos representarem. Têm de ir às cegas, como se estivessem a jogar à cabra-cega: o que se espera, é que consigam descobrir gambozinos, só com o tato. 
Bem-vindos à política no des-esplendor do que vocês, queridas crianças, serão figurantes (quando deixarem de ser crianças).
A certa altura, vão perceber que serão deixados sozinhos numa mortalha onde apenas conseguem ver escuridão. Não podem protestar: além de terem vendado os olhos, também vos vendaram a boca – e as mãos, para serem perfeitas marionetas que não conseguem importunar os figurões que vos deixaram sozinhos, entregues à vossa sorte. Alguns poderão conseguir desembaraçar-se das cordas lassas que prendem as mãos e, ato contínuo, soltam-se da venda que vos silencia a fala. Esses vão protestar por socorro, que a venda que anula a visão não a conseguem desatar. Possivelmente terão medo. Ninguém vos informou se os gambozinos são criaturas temíveis ou sociáveis, se mordem e podem causar dor, ou se se afeiçoam a quem os encontra. 
O jogo dura muito tempo. Com o tempo, habituam-se à condição de invisuais. Continuam, por este tempo todo, a não conseguir tatear algo que se pareça com um gambozino. Mesmo que o conseguissem, não saberiam se era um gambozino: ninguém vos ensinou o que é um gambozino; não podem saber, ainda por cima mergulhados numa cegueira involuntária, se algum dia conseguirão chegar ao contacto com um gambozino. 
Com o tempo a passar, começam a esquecer-se da razão do jogo. Começam a esquecer-se que estão a jogar um jogo. Habituam-se às trevas. O cenário para onde foram atirados, sempre escuro, passar a ser o vosso normal, como se se tratasse de uma contínua noite ártica no inverno. Já não sabem sequer que “gambozino” pertence ao vocabulário. Continuam a jogar à caça de gambozinos, só que não sabem que essa é a vossa função. 
Com o tempo, pode acontecer, mas apenas aos que consigam resgatar um mínimo de lucidez, que intuam que são vocês, já não petizes, mas gente adulta e devidamente formada e informada por autorrecreação, que são os gambozinos. Sabê-lo-ão quando o calendário anuncia uma eleição. E entre as eleições, por serem vítimas de uma carnificina disfarçada de pomposa retórica, da autoria dos que julgavam ser os gambozinos. 
Afinal, vocês é que são os gambozinos, presas fáceis nesta caçada. Uma vez constituídos gambozinos, não conseguem deixar de ser gambozinos. A menos que consigam mudar de barricada e entrar para a elite que parte à caça de gambozinos.

29.11.19

A pança do papagaio


Propaganda, “Dr. Mabuse”, in https://www.youtube.com/watch?v=px4xHQd9h14
Prosápia. Discurso, abundante, que condensado se reduz a um pouco mais do que nada (em sendo usado critério generoso). Um centro do mundo, contrariando as leis da física e o desempenho da mediocridade. O papagaio faz o que sabe fazer melhor: pa-pa-guei-a. Ninguém o avisou que o papaguear não está em alta na bolsa dos predicados.
O espelho está belo. O espelho; não é o que o espelho reproduz quando a imagem do papagaio aparece à frente. A confusão de juízos prova a ausente lucidez, ou um incorrigível apedeuta que não sabe interpretar o que lhe chega aos sentidos. Interioriza: bela é a imagem reproduzida pelo espelho. A sua imagem. O espelho é uma matéria inerte, que só ganha vida quando um ser vivente se oferece ao espelho para que este prove a sua serventia. Às vezes – convinha que o papagaio soubesse – é a matéria inerte que corporiza a formosura. Isto a partir do pressuposto, ainda à espera de prova cabal, que a formosura traz o mundo pela trela.
O papagaio, contudo, disfarça a pança. Ou melhor: disfarça o olhar que às vezes descai sobre a proeminente pança. Está convencido que possui uma silhueta invejável, como se estivesse à disposição das passerelles onde a moda desfila nos corpos dos invariavelmente maldispostos manequins. Está convencido do seu elevado estalão intelectual, quase erudito. Há um mundo a percorrer o imaginário do papagaio e o mundo lá fora. E um enorme hiato a distanciar as duas mundivisões.
Do alto da sua imaginada posição centrípeta, o papagaio imagina-se pajeado. Não interessa que o séquito não seja numeroso. Contenta-se com a existência de um séquito, a prova de vida da sua centrípeta posição. Às vezes, a atenção dos outros é convocada pelo trunfo da vitimização. Muita gente comove-se com os desafortunados que assim se apresentam. Porventura, por solidariedade de casta: serão os mesmos que não hesitam em papaguear o papagaio se for a sua vez de se considerarem vítimas do ultraje, da infâmia, de perseguições infundamentadas, ou de injustiças só remediadas se uma vaga de fundo, com a ajuda do clamor popular, demover o imponderado fautor da injustiça.
Talvez seja a pança que impede o papagaio de interpretar o mundo fora da sua insólita construção alucinante. Como se tudo no universo concorresse a favor dos propósitos do papagaio. É a pança mental que previne a hermenêutica a preceito. 
Ele há gente que tropeça nas armadilhas que julga tecidas para apanhar os outros em falso.

28.11.19

Carrossel (short stories #177)


Django Django, “Default”, in https://www.youtube.com/watch?v=DDjpOrlfh0Y
          Como tudo começa – como tudo começou: o arbítrio jogado contra as paredes caiadas de equidade. À espera de um sinal – à espera de uma demanda, não de uma resposta. Ao alto e a baixo, as voltas que se repetem: o carrossel. A vida, assim entretecida no invulgar lampejo, espelho refratário que devolve a reprodução de imagens que se reproduzem umas às outras. Como tudo começa: um instinto que se emancipa dos freios da vontade, o instinto jogado contra a teia onde se congemina a vontade. À espera de um atestado que desconvoque os sobressaltos havidos – à espera de um artesão que estabeleça um sismo poderoso, tecendo o epicentro da alma à prova de quase todos os medos. Um socorro discreto, à espera do fim do labirinto: como tudo finda, a incógnita que perpassa as densas camadas da névoa que penhora o entardecer. Não vão às lágrimas as perpétuas comiserações que ameaçam a hipoteca das almas: como tudo finda é uma interrogação em aberto, permanentemente em aberto. A voz insubordina-se contra a quietude do tempo, a macieza que discorre entre os prados lânguidos onde os olhares se demoram no nada. Insubordina-se e, porém, não sabe sobre o que se torna insubmissa. Ninguém sabe se os olhares que se demoram no nada são titulares da lúdica viagem num carrossel montado algures, talvez num prado lânguido perdido no meio de um nada. Parece que o fim se confunde com o começo. O olhar é virado do avesso. Tenta perceber se as coordenadas estão invertidas, para alcançar se o fim não é o começo e o contrário. Demora-se na função, o olhar inquisitivo. Percorre as labaredas que compõem o espaço entre os nós desatados, meticulosamente. Percorre-os como se estivesse montado na sela do mundo, como se fosse entronizada a vontade, cada vez mais imperatriz. No fim, continuou sem saber onde estava o começo e onde começava o fim. Não se deixou tomar pela angústia. Ao menos, sentia-se vivo.

27.11.19

Pergunta de retórica (ou algo mais do que isso): o que separa da extrema-esquerda os meus amigos de direita que se insurgiam contra a extrema-esquerda e agora se enamoraram pela extrema-direita?


DIIV, “Doused” (live on KEXP), in https://www.youtube.com/watch?v=_-3JsOU27Tg
Não gosto deste tempo político. Deste tempo social. Ferve um caldo fétido de radicalização que não é bom presságio. Sabemos, da História, o que acontece quando ferve o caldeirão do radicalismo. Alguns, cada vez mais numerosos, não saberão, pois não se importam com as lições passadas sobre as consequências da radicalização; ou acreditam, ingenuamente, que agora é diferente e a radicalização (de que são intérpretes) é benigna.
Fico ainda menos sossegado quando vejo a deriva radical de uns quantos como (no entender deles) justificada reação à radicalização que se lhes opõe desde a trincheira contrária. À direita, parecia estabelecida a insignificância de movimentos radicais desde o fim da segunda guerra mundial. Os últimos anos testemunharam o recrudescimento de radicais de direita, numa amálgama (populistas, alt-right, nacionalistas, conservadores extremados, tradicionalistas saudosistas, religiosos convertidos à política e políticos contaminados pela religião fanatizada, e extrema-direita pura) que serve de pretexto para que certos sectores que medram num radicalismo oposto protestem um estatuto de “normalização”, consentâneo com o desfazer da imagem de radicalismo que lhes estava colada à pele. À esquerda, os radicais foram passando com alguma condescendência embebida na sociedade, sem o mesmo julgamento a que foram sujeitos os radicais de direita (nazis e fascistas) após o fim da segunda guerra mundial. Agora, que o medo tem o rosto do radicalismo de extrema-direita, a extrema-esquerda quer que reconheçam o seu rosto seráfico.
Tenho amigos que me habituei a ver situados entre a direita moderada e o centro-direita. Nos últimos tempos, em coincidência com a deriva radical à direita, tenho visto alguns desses amigos entusiasmados com movimentos que se afastam da direita moderada e do seu património genético. Vejo-os de braço dado com personagens pouco recomendáveis, com eles farejando políticas que atropelam aquele código genético. Ainda não percebi se esses meus amigos saíram agora do armário, finalmente representados por movimentos de direita radical ou de extrema-direita (quando antes não existiam ou eram irrelevantes), ou se também decaíram na lógica de radicalização que destila dos poros destes movimentos. 
Lembro-me que alguns desses meus amigos se abespinhavam com o radicalismo de partidos e personagens situados na extrema-esquerda. Percebo-os: também me abespinha esse radicalismo e dele tenho medo. O que me diferencia desses meus amigos, é que tanto me intimida o radicalismo à esquerda como o radicalismo à direita. O que me distingue desses amigos, é que estendi o cordão sanitário da extrema-esquerda à amálgama de radicalismos que se entrincheirou à direita. Consigo discernir as diferenças de conteúdo entre os dois géneros de radicalismos. Para mim, contudo, é mais importante ter a lucidez de reconhecer que entre eles não há diferenças metodológicas.
O que me deixa inquieto, é evocar esses amigos no pretérito, vê-los furiosos com a ostensibilidade do radicalismo alojado na extrema-esquerda, vê-los vaticinar sobre o mal que sobre nós se abateria caso uma destas extremas-esquerdas (ou a sua coligação) nos governasse, o mal que daí resultaria para as liberdades e para os valores com que nos habituamos a conviver como esteios de um regime político todavia repleto de imperfeições. Agora, vejo-os a perfilhar ideias que se reconduzem a métodos que não se distinguem do que dantes abjuravam. Um dia destes, um desses amigos perguntava-me, em jeito de pergunta de retórica: “se pode haver gente de extrema-esquerda, por que não posso defender estas ideias que tu dizes serem de extrema-direita?” Respondi que não vejo diferença entre um radical de direita e um radical de esquerda – o que serviu para que esse amigo, com alguma ira de permeio, me tivesse atirado para as imediações da extrema-esquerda. 
Estas palavras não são um ultimato aos meus amigos que descaíram para o radicalismo de direita. Eles têm direito ao seu pensamento, às opções e às opiniões que lhe sejam consequentes. São da mesma estirpe dos radicais de extrema-esquerda. Os tais que, há uns anos, eram por eles vilipendiados. Todos temos o direito de mudar de pensamento, de opinião e de posição. Ou de permitir que esse pensamento, opinião e posição venham à superfície depois de anos de encobrimento. Ainda estou para perceber qual das hipóteses é o quadro que tenho aberto diante do olhar. 

26.11.19

Estreito


FKA Twigs, “Cellophane” (live at Later...With Jools Holland), in https://www.youtube.com/watch?v=r7cd9XpCAIc
Eis a varanda de que se falava. Os fiordes cavam fundo o mar constrangido e do estreito avista-se o mar depois, que se abre como se os braços oferecessem muita generosidade. O mar exala um odor intenso, este mar que, por estar constrangido, metido entre os fiordes como se fossem um colete-de-forças, se amansa com o beneplácito da inclinada massa de terra que se eleva a partir do lugar onde é bordejada pelo mar. 
- Temos os pés no navio que nos oferece a descoberta. O estreito é o passaporte. Parece que os fiordes crescem depois do estreito. 
- Faz lembrar, com as devidas diferenças, Vila Velha do Rodão, as Portas do Tejo.
- Com as devidas diferenças...
E assim ficaram, boquiabertos, o olhar inclinado à altura da inclinada massa de terra que irrompe do mar, como se viesse do nada e ao tudo aspirasse. De tanta inclinação do olhar, já doía o avesso do pescoço. O estreito parece ter sido feito à medida do navio. Quase é possível tocar nas paredes da montanha que descem do fiorde em direção ao mar calmo. 
(Também se podia dizer, em formulações alternativas: que o navio é que foi feito à medida do estreito; e que as paredes da montanha se elevam a partir das profundezas do mar, ali consideráveis, se não o navio ficava retido nos baixios.)
O estreito consagra a proximidade com a terra que cinge o modesto braço de mar que teve a ousadia de romper as rochas. O comandante anuncia, num inglês perfeito, que este é o lugar onde os passageiros estão mais próximos da massa de terra que compõe o fiorde. O navio sossega, agora que se avista o fim do estreito. Sentia-se alguma inquietação do navio por estar tão próximo das paredes do fiorde. Sentia-se tensão como parte da banda sonora de que faziam parte o rumorejo dos motores do navio e o silêncio dos passageiros, em contemplação da singularidade da paisagem. O comandante entoa, vagarosamente, o nome do estreito. Não se percebe sequer a primeira letra do nome que dá nome ao estreito. Não é preciso. Retém-se a imagem do estreito, que fica guardado na memória como um estreito que tem um nome impronunciável no idioma local.
- Temos de voltar a passar pelo estreito?
- Não sei. A lógica manda dizer que sim. Não creio que haja outra passagem para o mar aberto de onde viemos.
- Tiramos fotografias depois? Não aprecio esta luminosidade.
- E se não regressarmos por este caminho?
- Tens razão. Vou tirar umas fotografias enquanto é tempo.
Horas depois, já anoitecera, o navio fez-se ao cais numa pequena localidade de pescadores. Desembarcaram. Era o fim do percurso tendo o mar como leito. O resto, seria diferente, por terra. Não voltariam ao estreito.
(A não ser que repetissem a viagem, o que não era seu critério.)

25.11.19

Depilação


Davendra Bahnart, “Baby”, in https://www.youtube.com/watch?v=9gROYU2j-40
Sente o vento pela cauda. O vento sem peias a rondar o pescoço, na atalaia que não causa apoquentação. As sombras nem sempre são vultos e estes não se disfarçam quando pressentem a necessidade de acossar alguém. Se, em vez dos medos, os poros se compuserem na irrepreensível malvasia onde se colhem os verbos cheios, o destempo não será a medida militante e todo o céu amparado nas mãos cauciona a prova dessa colheita. O vento pela cauda está a preceito. Empurra o corpo para o devir. E não é abismo.
Diz: 
podes-me ajudar: podes absorver o sangue desta ferida. Com a boca. 
Os corpos adiantam-se à véspera ansiosamente esperada. A paisagem não foge nos interstícios do tempo, não foge nem que os corpos estejam metidos dentro de um comboio de alta velocidade. Faça-se da meditação o templo que escuda a moderação. A pele está fria, fria como o inverno que tomou o dia de assalto. São invariáveis os sobressaltos das horas contumazes, porque não é possível fazer inventário dos seus fautores. À medida que a pele arrefece e a quietude se contagia à paisagem, a lucidez desembaciada sobe à cumeada dos sentidos.
Mal forem emalados os pertences, antecipando a próxima mudança, sente-se um vórtice no céu da boca, paradoxalmente adoçando a boca. A mão passada pelos poros secos e frios quer dizer que eles só têm saudades das quimeras de que vão ser autores. Ao pretérito, vão buscar apenas os fragmentos emoldurados numa certa historiografia conjunta, lida a quatro olhos num livro publicado nas suas memórias. Diz: 
é preciso saber que a vontade não se sitia, não se intimida com os escombros em que a memória sucumbe. A memória tem os seus mecanismos que depuram o que não interessa reter na mântica gasta, sem servidão, da memória. Fale-se da memória seletiva, que não é fragilidade; é um artefacto cuidadosamente elaborado pelos que se constituem servidores da sua própria ventura. Um artesanato sem preço.
Memória seletiva. É como se houvesse uma depilação da memória e as partes puídas fossem desmatadas, até ficar um terreno agora fértil, pronto a ser ocupado pelos ingredientes que as atribulações do futuro trazem como caução. Ou então, granjeiam-se os campos por onde apetece deixar ir os corpos e depois colhem-se as flores que são a safra deste pecúlio.

22.11.19

Periferia (short stories #176)


Santigold, “Disparate Youth”, in https://www.youtube.com/watch?v=mIMMZQJ1H6E
          Tenho um visto permanente que dá acesso ao miradouro sobre o estuário, onde o estuário se alarga e se confunde com um mar interior. Vejo os olhos que me veem. Não nos cruzamos, porém. Vemo-nos, apenas. São olhares estranhos que indagam sobre os deslimites de si, o eu que não se conforma com alguns aspetos próprios da espécie. É como no estuário, a água doce do rio funde-se com o mar salgado que nele adentra. Às vezes, a tradução dos idiomas estranhos é dispensável. Um rosto consegue falar por mais que mil palavras que sejam proferidas. É quando se sente uma certa periferia a pertencer aos limites do ser. Não é paradoxal. Os cânones são castradores: o que se contém dentro das fronteiras do ser é o que lhe pertence; o que se situa no seu exterior, nem que seja nas proximidades do que é periférico, pertence aos deslimites. É território estranho, insondável; muitas vezes, adverso, não está confinado às extremas que balizam o eu. Como acontece quando o conforto da alma procura o miradouro sobranceiro ao largo estuário, a periferia protesta um salto no vazio, um salto do eu para fora de si, sem arnês. A periferia é colonizada aos poucos, alargando-se os domínios do ser. Sem temer que a periferia colonize o eu: o ato volitivo que se dedica à sede de conhecimento é incomensurável, não é permeável à tomada de posições pela periferia. A dialética entre o eu e a periferia não é hostil. É construtiva. Porque há periferia a rodos, não se corre o risco de invadir domínios alheios quando o eu demanda a sua periferia. Em caso de dúvida, o critério é a consulta ao registo predial. Ficamos a saber que periferias estão por ocupar. No apetite incontroverso pela desmedida do ser, ao cabo do duro combate perseverante contra o ardil do ensimesmamento, até que a periferia que adjaz seja o território novo, edificante e fecundo, que o eu tem para oferecer. A si mesmo.