18.6.18

Um rosto à chuva


Massive Attack, “Dissolved Girl”, in https://www.youtube.com/watch?v=GAiceRuLX1I
Perdido do tempo, numa errância escolhida em metódica tentativa de recriação, o rosto sob a chuva contínua. Sem dar conta. Era como se não estivesse uma intempérie – ou como se o tempo tivesse ficado dentro de um parêntesis, à espera de um chamamento vertido pela chuva. O rosto assim exposto à chuva era a metáfora de um rosto (talvez de todo o resto) que precisava de ser lavado sob os auspícios da chuva heurística. 
As gotas de água escorriam pelo rosto, abundantemente. E nem assim se sentia incomodado, ou tentado a procurar refúgio. Não seria como o gato vadio, talvez apanhado a meio da chuva inesperada, que aguardava por vez debaixo de um carro para regressar ao covil onde era melhor a guarida contra a chuva destemperada. Estava nos antípodas do gato. Ele não era vadio (a linhagem era célere em desmenti-lo). E, sem medo da chuva, queria que o rosto ficasse alagado pela chuva que não cessava de cair. 
Com o corpo ensopado, prosseguiu a errância. Não tinha ideia para onde ia. Só queria estugar o passo e caminhar, caminhar a eito, em sintonia com a chuva noturna que tornara a cidade quase deserta. Pensava: como as pessoas têm medo da chuva. Protegem-se dela. Não querem ficar com a roupa molhada, desconfortáveis, a jeito de uma gripe inoportuna. 
(Ou talvez não fosse assim de todo: a crer nas conspirativas teorias dos bastiões do patronato, os trabalhadores são poltrões e não se esforçam no trabalho. Se tiverem a oportunidade de ficar em casa, desfalcando as fileiras do seu emprego, não hesitam. De vez em quando – prossegue a teoria – uma pequena mazela, curável com um par de dias de cama e com medicamentos a preceito, vem a calhar para oxigenar do ambiente e das exigências do trabalho. Ao interiorizar a argumentação do patronato, e ao ver como estavam quase ausentes as ruas naquela noite tempestuosa, deduziu que a teoria não colhe. De outro modo, ter-se-ia cruzado com mais gente de rosto como ele à chuva, ao mesmo tempo que teciam suas preces para uma gripe moderada os acometer depois do período de incubação.)
Mas não eram estas observações que importavam. A roupa, de tão molhada, deixava à sua passagem um rasto de água que se misturava com as abundantes poças alimentadas pela chuva contínua. Mas o rosto – e talvez todo o resto – sentia-se revigorado, como se toda a água caída do céu fosse um manancial de rejuvenescimento. Andou horas a fio nestes preparos, candidato a uma gripe descomunal. Até que, já madrugada ia alta e a chuva começava a dar os primeiros sinais de abrandamento, foi derrotado pelo cansaço. Sentia-se frio, desconfortável, ensopado até aos ossos. Mas reencontrado por dentro, mercê da chuva paradoxalmente bonançosa. A gripe que viesse à vontade.

15.6.18

Um lugar honesto para estar?


Flat Worms, “Pearl”, in https://www.youtube.com/watch?v=HA7AU95C_zU
- Fugimos da verdade. É a sina de que não podemos fugir.
- Como se afigura a impossibilidade de tutelarmos a verdade?
- Talvez pela sua indefinição. Se pegares num retrato e não consegues encontrar moldura a preceito...
- Nesse caso, o mal estará na incapacidade das molduras. Poderá não haverá uma que esteja a feição do retrato. 
- E como pode um retrato sobreviver se não estiver ornamentado por uma moldura?
- O retrato pode dispensar moldura. São as coisas simples que reúnem um módico de subsistência.
- Parece-me que fica órfão, o retrato. Numa casa, quando as pessoas expõem fotografias, elas têm sempre uma moldura. Torna-se a ossatura do retrato.
- Nem tudo se resume a essa simplicidade. Pensa num quadro: se ele não tiver moldura, aparece descarnado aos olhos de quem o veja. Expõe-se em toda a sua imensa nudez. Não pode haver mais transparência, maior franqueza.
- Esse lampejo de transparência pode não passar de um ardil. Parece voyeurismoao contrário,voyeurismoporque quem se expõe em toda a sua transparência ambiciona a redenção. O exibicionismo disfarça outros padecimentos.
- E se for assim? Não é melhor a franqueza de descarnar até as coisas mais inconfessáveis, do que pretender ser apenas o fingimento de si mesmo?
 - Esses arrependidos convolam-se por uma razão qualquer. Não é suficiente a transparência como ato de redenção. Precisamos de saber porquê, para a franqueza ser completa.
- Não posso concordar. Esse processo é maiêutico. Diz respeito a processos interiores que têm de ser alheios ao conhecimento exterior. O que importa é o fim do processo. A transparência que desagua no humilde descarnar de si mesmo.
- Possivelmente não passa de um limitado ato de resgate, como se houvesse a necessidade de limpar do espelho qualquer mácula herdada do passado. Não tenho a certeza que seja um ato inteiramente honesto.
- Entramos noutro domínio: como se pode captar, com rigor, a honestidade dos atos de outrem?
- Podemos ser nós a julgá-lo.
- Como? Quais são os artefactos à tua disposição para julgar os insondáveis meandros do interior dos outros quando eles exteriorizam um sinal que nos pretende convencer da sua honestidade?
- É um jogo de comparações. Entre atos e palavras. Compulsando, pelo meio, a confiança de que essa pessoa é credora.
- Esbarras num duplo problema. A começar pelo fim: os maus pergaminhos deixados pelo pretérito devem ser uma perene espada sobre a cabeça de uma pessoa? Não têm o direito a reclamar um crédito mínimo de redenção? Segundo – e insisto: como é possível ajuizar com total justiça a conformidade entre atos e palavras proferidos por outros? Admito que seja possível compará-los. E que, muitas vezes, as pessoas trazem às costas um mar de incongruências. Mesmo assim, nunca nos será dado a saber se essas incongruências não são propositadas, um jogo de espelhos que esconde diferentes camadas. Podemos querer parecer o contrário do que somos sem que isso seja uma desonestidade. Se a proteção contra o exterior o impuser...
- Segundo o teu argumento, não podemos julgar a honestidade dos outros?
- É uma empreitada insuperável.
 - Termos em que podíamos concluir, desta nossa conversa, que a honestidade é indeterminável.
- Se a projetares sobre a individualidade que te é exterior, sim, é indeterminável. Não podemos viver por dentro dos outros. Só tens duas hipóteses: ou confias nos outros (em quem queres confiar), ou abdicas dos julgamentos a propósito da honestidade dos outros.
- Passamos a ser ilhas, desse modo. Desligados uns dos outros.
- Podes ver a questão nesses termos. O custo desta hipótese é menor do que a alternativa de ensaiar julgamentos sobre a honestidade dos outros.
- Resta-nos mergulhar sobre o interior de cada um de nós.
- Porventura. Com uma dificuldade em acréscimo: se decapares as sucessivas camadas do pensamento, podes chegar a um ponto em que interrogas a tua própria honestidade. A certa altura, o significado da palavra. No limite, a inteligibilidade do conceito. Dirás: não sobra nada, seremos cada um de nós rodeados por um deserto.
- Recuso-me a laborar nesse apocalipse. Que serventia teria sermos alguém se esse fosse o palco montado?
- A resposta cabe a cada um de nós. Só a cada um de nós.

14.6.18

A opereta dos loucos


Joe Goddard, “Music Is the Answer”, in https://www.youtube.com/watch?v=bwPLvt6BFPg
Ostracizam os loucos. São arrumados a um canto, desprezados na haste da sua loucura, seres aberrantes que divergem dos cânones. Alguns, são internados em hospícios. E, contudo, gente mais perigosa, não tida como louca, continua a sua missão, impassivelmente, com o beneplácito dos preceitos em que se costuram as bainhas da (soi-disant) “normalidade”. 
Dizem que os loucos não guardam a totalidade do pensamento consigo. Dizem que são ininteligíveis. Dizem que são perigosos porque desafiam a antítese da loucura, a consistência lógica que – dizem, também – é o mastro a que se agarram as pessoas obedientes à metodológica “normalidade”. E, todavia, vejo à volta tanta gente desapossada de lógica, gente que não é sujeita ao aquartelamento que isola os loucos, pois é tida como não louca por tantos quantos, assim também autoconsiderados, os isentam do vexame. Gente que treslê o que diz e o que faz e não admite a possibilidade de tresler. Gente na política, no desporto, na economia, na academia, na sociedade (para aqui chamada apenas a que tem a usura de visibilidade pública), na rua. 
Não são os “loucos normais” que importunam – os loucos assim determinados e deixados à margem pelos demais. São os “normais loucos”, gente que disfarça a loucura, por vezes criminosa, apócrifos na passeata ufana pelas ruas públicas. A acrimónia com que desdenham dos “loucos normais” é pergaminho pouco recomendável. A pose de superioridade serve de mote à troça dos “loucos normais”. Os “normais loucos” escondem-se atrás de um falsário véu de sanidade, corrompendo o que tocam pela vileza de métodos, por transfigurarem os métodos em função dos fins (que tudo podem sacrificar, até a honradez própria, se preciso for), abusando da insolência de quem mostra o contrário do que diz e continua orgulhoso dos factos e das palavras, sem admitir o contrassenso. São mitómanos sem vergonha, transformando em verdades as mentiras a eito em que mergulham. Gente inescrupulosa. Falsários do vocabulário, ao serem tutores da sua adulteração. E o que é alguém que adultera o vocabulário, se não um louco contudo não tido como tal (por causa do viés dos cânones aplicáveis)?
Os “loucos normais” estão trinta degraus acima dos “normais loucos”. Primeiro, porque admitem a loucura e não se refugiam em ardis para a desmentir, nem caem em auto-negação. Depois, os “loucos normais” conseguem chegar à criatividade, ausente nos demais. Por dentro do seu pensamento vogam os corredores complexos de que medra um rico manancial de recriações do estabelecido, uma visão diferente, vedada aos olhos da “normalidade”, que tantas vezes consegue destruir os óbices que se colocam ao entendimento das coisas. Os “loucos normais” são genuínos. Não precisam de se esconder atrás de cortinas ou de palcos rombos para mostrarem uma coisa diferente da que são. 
Tudo joga a favor dos loucos. Às vezes, diante da pobreza que é militante estalão dos transeuntes da sociedade, apetece deixar todos os destinos nas mãos dos loucos. Uma quase  certeza aspira a sê-lo, na aposta dos resultados: pior, não seria.

13.6.18

O tiro errado


Eels, “Fresh Feeling”, in https://www.youtube.com/watch?v=rAePtI2LAvA
Pode um instante hipotecar o futuro, dissolvendo-o numa simples memória do que podia ter sido se não fosse o ato que tomou conta do instante. Um gatilho premido sem querer; ou o mesmo gatilho premido intencionalmente, na suspensão do tempo que não cauciona a lucidez. O projétil atravessa o espaço que medeia entre o revólver e a vítima, atravessando-o como se fosse possível ser em câmara lenta, ou como se o tempo quase se suspendesse durante o trajeto da bala. É possível que o verdugo reveja o futuro naqueles breves instantes que, por transitarem em câmara lenta, sabem a eternidade. É possível que a vítima seja assaltada por um paradoxal sentimento de quem está dividido entre o pânico de se saber alvejado numa fração de segundo e a demora, inerente à câmara lenta, que admite um breve rememorar da vida até àquele momento.
A bala é a intermediária. Um simples mensageiro. Esculpe o ar com a sua velocidade vertiginosa, letal, todavia atravessando em câmara lenta, muito lenta, o espaço entre os pontos A e B (respetivamente, o verdugo que dispara a arma e a sua vítima, intencional ou acidental). Se ao menos a bala pudesse estabelecer o feixe de sensações que invadem o verdugo e a vítima, talvez perdesse força, ganhasse vontade própria e se desviasse do lugar a que pertence a vítima – que deixaria de o ser. Talvez fosse um súbito golpe de vento a moldar a trajetória do projétil e o verdugo se safasse da prisão e a vítima pudesse ver o dia seguinte para contar a fortuna com que pôde contar. 
Ou então, o tiro é simplesmente errado porque não era para aquela vítima. Uma confusão de identidades, um acesso de loucura de quem tinha a arma na mão, um tiro meramente acidental, o que seja. Apanhando a meio da existência a vítima que não devia ter sido arrolada para aquela condição. O tiro é errado (outra hipótese), apenas porque as armas são uma das maiores provas de estultícia. Um arremedo de poder, exercido no exato momento em que a arma é exibida e amedronta quem está no ponto de mira, levando-o a fazer o que de outro modo não faria, sob a coação do estipêndio de uma bala mortífera trespassar o seu corpo. Um tiro é sempre errado (dirão os puristas, em benefício de causa:  a menos que seja em autodefesa), pois supõe que uma disputa se pode resolver sem a intermediação da razão, apenas com recurso à força bruta de uma bala.
O tiro é errado. Sempre errado. Até quando erra o alvo, no provavelmente não intencional desvio de rota que previne males maiores. Em assomo de ingenuidade, um desejo lírico para memória futura: oxalá todas as armas fossem confiscadas durante a noite, quando toda a gente está a dormir e ninguém dá conta de serem seus coldres assaltados. Oxalá se deixasse de falar de tiros errados – pois todos os tiros são, de uma maneira ou de outra, um erro. Oxalá se falasse, apenas, dos tiros desembainhados por Cupido. 

12.6.18

Correr a favor do tempo


Nils Frahm, “Says”, in https://www.youtube.com/watch?v=dIwwjy4slI8
Oxalá o tempo não fosse adstringente, uma maçada que irrompe contra a vontade consagrada. Oxalá o tempo não fosse uma escassez que se devolve em forma de contratempo. Dizemos, em puro desperdício de forças, que somos matéria volúvel à mercê das veleidades do tempo despótico, e não percebemos que pensamentos destes apenas conseguem tornar o tempo um lugar ainda mais exíguo. Não devemos ser nós a fazer do tempo um santuário de ambiguidade.
Impõe-se novo critério. Os relógios deixarão de ser uma espada a adejar constantemente sobre o pulso tomado pelo terrível medo do tardio. A medida será outra: nunca é tarde para nada, nem nunca é tempo sequer para sermos sitiados pelo apressar (que deixa de ser um imperativo). Deixaremos de correr contra o tempo. É uma empreitada frívola. À partida, condenada ao malogro. O tempo não é uma vulgar quimera a quem se pode torcer o braço. Não tem serventia correr contra o tempo, pois nem toda a força imaginável o consegue deter. A ilusão que se desembainhe – a de curvar o tempo à soberania da nossa vontade – assegura a extemporânea demissão do ser. 
Passaremos a correr a favor do tempo. Teremos o tempo como aliado. Sem a permanente conceção da sua efemeridade. Sem sermos tomados pela totalitária opressão que interroga a brevidade do tempo. Passaremos a ser o braço que ajuda a mover o tempo. No milagroso recobro onde se resguarda a serenidade da alma, protegida contra as adversidades que são a adulteração de tudo quando se legitima a ideia que somos fautores de um tempo diferente do tempo. Talvez se corrermos a favor do tempo conseguimos o sortilégio de o ter do nosso lado. A noção de correr contra o tempo é uma empáfia, que se contrapõe ao eterno relógio de onde somos apenas um ingrediente sem visibilidade. Essa será a nossa grandeza: temos as camadas do tempo nas nossas mãos, sabemos de que tecido são compostas, e só nós é que instruímos o tempo assim concebido.
Se soubermos correr a favor do tempo, não somos consumidos pela vertigem de que somos perceptores ao darmos conta da sua fluidez. Nos diferentes mecanismos do pensamento, descobrimos os lugares onde se caucionam os estamentos paralelos do tempo – o tempo em sua pluralidade. Ao corrermos a favor do tempo, descobrimos, finalmente, que o tempo é uma palavra plural. E, enfim, envelhecer deixará de ser uma opressão.

11.6.18

Quem quer ser demónio?


Nick Cave and the Bad Seeds, “Stagger Lee”, in https://www.youtube.com/watch?v=Nbe5RERDh4k
Mote: Fora a matemática, dois negativos não dão um positivo.
As cominações todas contra os demónios que se ajuramentam demónios nas veias ferventes das pessoas. Das pessoas ditas bondosas. Os barítonos dos sentidos não deviam admitir a entorse das coisas, e os demónios só teriam lugar como entidades ilegítimas. Não é o caso. Transitam nos mesmos lugares. Ora disfarçados, ora como se fossem agentes secretos a soldo de interesses inconfessáveis, com o fito de sussurrarem o mal aos ouvidos de pessoas imparciais, conjurando-as, alistando-as entre o escol de que fazem parte. 
Os demónios não têm sonos fáceis. Debatem-se com as consciências, o lado oculto que não conseguem vencer. Os demónios chamam demónio à consciência que intimida a maldade de que são fautores. Alguns demónios, procurando combater os interiores demónios, resistem ao sono. Intuem que uma íntima fração do chamamento para o oposto do que congeminam vegeta nos corredores insondáveis da consciência imprevista a que convencionaram chamar demónios. Pressentem que a insónia enfraquece os demónios que são a sua antítese: um demónio não tolera concorrência interior. Ainda está para saber se o exercício tem provimento. Numa espiral sem fim, o demónio que consome um demónio tem de prestar contas ao seu avesso. E assim sucessivamente. Até já ser possível jogar com as conotações, nem fazê-las corresponder a um dos múltiplos lados em que se representa a identidade. Em sucessivas camadas, numa luta que se terça com armas entrelaçadas, os demónios desfazem-se em palimpsestos de si mesmos.
Neste vale infecundo, ninguém sabe quem é quem. Podemos ter juízes que são sacripantas, meliantes transfigurados em sacerdotes, profetas de nada convocando-se para o estuário de rios sem foz, ascetas maravilhados com a fauna devastada, piras onde incensam pecados fora de prazo, pescadores que nunca viram o mar, orientadores de almas que não sabem gramática. Ninguém sabe se um demónio é demónio, ou se é um farsante, provocador irremediável, disfarçado de demónio só para ser olhado como detonador de terramotos que fazem tremer as ameias do estabelecido. 
No fervor deste caos, não há identidades consagradas. Não se sabe quem são os demónios. No improdutivo enigma, um demónio pode conseguir matar um demónio e, contra a sua vontade, purificar a alma que não busca redenção. Antes seja um lugar sem estribeiras, os olhares vertidos em aquários de água contaminada, pois as ambições não se medem em alqueires conhecidos. Nem um demónio, por matar um demónio, se contenta com a redenção que não pediu.

8.6.18

Dissidente


Interpol, “Obstacle 1”, in https://www.youtube.com/watch?v=OC5zHACynR4
Nunca faria parte de um clube que me aceitasse como sócio”, Grouxo Marx
Para provar que nem sempre são as antinomias que movem montanhas e nem sempre as ideias se congeminam na antítese daquelas que constituem abundante motivo de desagrado e de desidentificação: serão mais as vezes em que a dissidência tem costura nas bainhas dos que seriam meus cais pela ordem natural das coisas (e o que é a “ordem natural das coisas?”), do que em relação aos que estão nos antípodas. Só assim faz sentido a dissidência. Não se pode ser dissidente de algo a que nunca se pertenceu.
Não adianta ser encostado à parede e assegurarem a minha pertença a qualquer movimento ou ideia, ou o seguimento de um determinado guru. Acontece frequentemente, depois de ter construído um par de frases que são o protesto contra uma posição, ou uma ideia, ou uma pessoa que não são património em que me reveja. Ato contínuo, naquele raciocínio binário que, de tão enviesadas vistas, diz muito sobre a estultícia de quem o pondera, sou colado ao outro lado da barricada. Como se apenas houvesse dois lados da barricada; admita-se que seja o critério mais confortável para a multidão, tudo arregimentar numa coisa e no seu contrário, como se não houvesse um vasto território intermédio com a capacidade para albergar tanta gente que não será território sobrelotado. Este vasto deserto, o território intermédio, é um sinal da confrangedora letargia a que estamos atados.
Pior acontece quando, no rescaldo de uma posição antagónica que se afirma, outros, que perfilham essa posição (de recusa), consideram que pertenço ao seu escol. E eu, que nunca afirmei tal pertença, nem encomendei tamanha proclamação, escuso a colagem cirúrgica e oportunista que tais personagens ensaiam. O pior é quando me colam o rótulo de dissidente logo após ter recusado a pertença a que fui imediatamente colado apenas por ter negado provimento a uma determinada posição, ideia, ou argumento que se encontram nos antípodas dos meus. Não custa desmentir a pertença que alguém, à revelia da minha vontade, decretou; mais oneroso é ter de desmentir a dissidência, depois de colocar os pontos nos “i” e protestar a não pertença que equivocamente me foi pespegada por outros, contra a minha vontade. Custa desmentir a dissidência porque ela não chega a existir: a dissidência só faz sentido, quando antes dela houve uma pertença.
Um dia destes, alguém disse que eu era um lobo solitário, sempre evitando pertenças ou identidades que possam subtrair o império da vontade. Não digam isso muitas vezes, ou acabo por dissidir da minha própria dissidência.

7.6.18

A luva de deus


God Is an Astronaut, “This Mortal Coil”, in https://www.youtube.com/watch?v=2KyoT3XClwo
Podia ser sobre a lava de deus – se a atenção se deitasse nas recentes erupções vulcânicas e arrepiasse caminho pelas especulativas sinuosidades da turbulenta relação entre a natureza e deus.
(Nomeadamente sobre a insurgência da natureza que pode dar azo a duas possíveis teorias: uma, a de que deus não existe, pois não consegue ter mão na natureza quando ela se insubordina e semeia destruição, caos e morte; a outra, que interroga se deus – a existir – exerce um domínio avassalador sobre quase tudo, escapando-se de sua omnisciência os fenómenos naturais que imbricam em cataclismo devastadores – o que também seria suscetível de desaguar na inferência da inexistência de deus.)
Mão à palmatória e, quem sabe se por intercessão divina (contradição de termos), um interregno no ateísmo estrutural. Abdicando das (não) crenças – ou a leve impressão de que deus não existe, à falta de prova contundente da sua existência – seja feita tábua-rasa dos alicerces e admita-se que há deus. 
(E não se contempla a hipótese de deus ser um astronauta, em corroboração do que um grupo de músicos terá descoberto, ao ponto de chamar à sua banda “deus é um astronauta”. Não seria desprovida de significado, a expressão – e talvez fosse a chave para um segredo tumular que até hoje não foi descoberto: quem é deus e onde habita? Partindo-se do pressuposto que “deus está em todo o lugar”, e que nos observa de um púlpito, compreende-se que deus seja um astronauta a adejar sobre o planeta, desde a estratosfera. Só assim conseguirá a divina entidade executar um meticuloso plano de vigilância de todos os mortais: precisa de nos tutelar com o distanciamento que é caucionado pela sua presença na estratosfera. Se fosse presença terrena, não só seria uma presença mundana – não se distinguindo dos demais, nem sobre eles exercendo a tutela de que se considera credor –, como seria inviável tomar conta de cada alma humana, por impossibilidade de perspetiva.)
Corporizada a mão à palmatória, segue a interrogação centrípeta: o que esconde a luva de deus? Dirão, em réplica (talvez abespinhada): deus não enverga luvas, as suas mãos puras ungem tudo com a sua bondade infinita. Discordo. Deus terá de usar luvas. Luvas que ocultem a putativa bondade sem limites de que dizem ser lídimo intérprete. Caso contrário – e volto ao ponto de partida – como se explicam as catástrofes da natureza que espalham a morte e a destruição e o caos, a não ser que deus esteja, talvez por fadiga, a proteger as mãos gastas com umas luvas quaisquer?
Sobram duas (modestas) hipóteses de dedução. Primeira hipótese: quando deus enverga luvas, perde capacidades. Ou, segunda hipótese: deus não é a perfeição acabada, ou não precisaria de usar luvas para não desgastar (mais ainda) as frágeis mãos que dão ordenança à sua obra. 
(Ou, terceira hipótese: à consideração do leitor.)

6.6.18

Reincidência


Idles, “Well Done”, in https://www.youtube.com/watch?v=7Oxqf_15k0w
Era uma dúvida que o assaltava (nos tempos livres, quando o tempo se punha a jeito para pensamentos avulsos e sem importância): por que acabam os prisioneiros, assim que recuperam a liberdade, a delinquir e, ato contínuo, a regressar à cadeia?
Dizem que a reincidência é estultícia. Sobretudo quando a reincidência acontece em domínios que não garantem coisas boas ao reincidente. Depressa parecem esquecer-se do período sombrio que, em sua reiteração, volta a ser tingido pelas mesmas sombras. Poderá dar-se o caso de os reincidentes fazerem uma avaliação diferente e não terem consigo os parâmetros que permitem discernir o céu plúmbeo que se congemina na reincidência? Poderá acontecer que a reincidência transporte mercês escondidas que suplantam as dores inerentes? Poderão os reincidentes preferir continuar na corda bamba, com o risco sempre a sussurrar no pescoço, apostando na mesma prática sem que ela seja detetada por outros – caso em que a reincidência é apenas uma questão do foro interno, não caindo no vasilhame da punição? 
Poderão os reincidentes decair na escala da razão, não conseguindo avaliar as consequências dos seus atos? Esta é a hipótese que levanta mais embaraço. A reincidência implica o conhecimento da escala de custos que advém da prática de atos que não seguem os cânones do tolerável. Implica conhecimento, por haver cadastro anterior de tais atos e da sua punição. Se reincidir traz ao conhecimento os maus efeitos da ação que são avivados pela recuperação do passado, como é possível a alguém decair na escala da razão e reincidir, com a elevada probabilidade de ser capturado na curta malha dos punidores? Será oblívio?  Indiferença pelas dores associadas à  reincidência (possivelmente, quem assim se comporta não qualifica como dolorosa a privação da liberdade que antecedeu o foco da reincidência)?
A reincidência é um risco ténue que se desembainha do leque de possibilidades colocadas no horizonte do reincidente. Pode também dar-se o caso de o reincidente, que se move com falta de destreza na arte de delinquir, tenha ricos conhecimentos no meio. E que a tentação de reincidir se justifique pelo conhecimento que ele tem de outros como ele, com mais aptidões para a transgressão, que conseguem passar entre os pingos da chuva, como se não tivessem cometidos os atos que, no reincidente, dão origem à repetição da reclusão. Talvez esta seja esta, afinal, a hipótese que mais embaraço levanta.

5.6.18

Sob disfarce


Spiritualized, “Come Together”, in https://www.youtube.com/watch?v=j9G7n8DBpO8
É uma destas erupções vulcânicas, tão devastadora que não fica nada para contar para memória futura. Sirvam-se mnemónicas com o ornamento da matemática, só para ver se sobra um vestígio que sirva de memória futura. Admita-se que as vicissitudes próximas tendem a liquidar o compacto que é o tempo pretérito. 
Admita-se; mas não explica toda a bílis destilada por ocasião do verbete anelado por uma famosa escritora, que desacredita tudo o que pertença, de acordo com as convenções, ao lado belo que a existência tem para oferecer. Há um certo revisionismo que adeja na demissão das ventos favoráveis. Nem que sejam dilacerantes as dores causadas por um desapontamento recente, nem que ardam os pés de tanto chão crestado terem percorrido, passar a esponja pelo calendário mais recuado não apazigua as dores, nem é remédio que se ofereça para aplacar estes males que desassossegam. Dir-se-ia: desse modo, tem-se o tempo refém de um disfarce que é um ardil desonesto para aprisionar o passado no património do esquecimento. Por mais que se queira, e por vivaz que seja a bílis purulenta, não há forma de apagar o passado da ardósia onde se enquistou. 
Critério diferente é o do esquecimento. Pode ser um esquecimento seletivo, com o separar metódico que a mente consegue alcançar, quando assim quer. Ou pode ser um esquecimento tutelado pela distância dos acontecimentos, ou pela sua irrelevância. Nada disto quadra com o disfarce do tempo vivido sob os auspícios de uma desilusão pessoal. A escritora pode estar sob os efeitos da proteção das condoídas recordações que ainda estão frescas, dando-lhe forma de casulo, preceito exigível para prevenir possíveis contratempos como os que a colocaram de mal com o mundo, em possível véspera da convalescença que (admito, do posto de observador, e ungido por uma certa ingenuidade) será por ela própria desejada. Mas não pode colocar-se sob disfarce do tempo, como se nada dele se aproveitasse. Não acredito que a melancolia seja um estado estrutural, reiterado no fio condutor do tempo. 
A escritora afocinha, com a força toda, dentro de um cálice de onde bebe cicuta. Da cicuta que não a mata instantaneamente, como se dos seus maus fígados uma qualquer substância fosse administrada contra os venenos impropérios. A prazo, não conseguirá evitar os efeitos funestos da cicuta. Da cicuta que ela teima em preparar e a dar-se a si própria.
Dirão: as deceções combatem-se com uma fortaleza encorpada a tomar conta do corpo inteiro. Mas não deve ser o húmus que mata as sementeiras onde se avistam as centelhas belas, herdadas de outrora. Essas são inapagáveis. Até pelas contrariedades que possam tudo pôr em causa.