9.12.16

Chave de parafusos

Warpaint, “New Song” (live at Later with Jools Holland), in https://www.youtube.com/watch?v=tRU4gXdwhT4
Bricolagem das almas: teremos de andar com chave de parafusos a tiracolo para remediar interiores contorções? Com uma agravante: não é equitativa a destreza na dosagem das ferramentas que caibam dentro de uma caixa correspondente. Almas há que passam incólumes aos sobressaltos espalhados no caminho. Mas outras padecem das dores a que a inabilidade no maneio da chave de parafusos destina.
(Ou pode dar-se o caso de haver quem se ufana de prosseguir intacto pelo meio de uma tempestade, não carecendo de reparações por não haver danos a reportar, e, todavia, tamanho orgulho é uma ardilosa simulação que esconde a falta de destreza para pegar nas ferramentas precisas para reparar os danos causados pela avaria.)
(Ou, apenas, tratar-se da irreprimível capacidade para cair num fosso onde mágoas são carpidas, como se tão dolorosa empreitada as remediasse.)
A chave de parafusos foi feita para domar contrariedades. Elas desarranjam os parafusos que certificam a solidez e a chave está à mão de semear para arrematar a um canto intempéries não desejadas. Houve já quem dissesse (um poeta?) que os petizes deviam ser instruídos nos bancos da escola para o manuseamento das ferramentas precisas para sarar as feridas interiores. Ato contínuo, inventaram a psicologia e ficou tudo estragado. Vieram resmas de peritos consagrar a queima de pestanas às considerações relevantes para a profundeza das almas, enovelando uma densidade interminável que inventou (como consequência da invenção da psicologia) a complexidade das almas. Foi quando alguém vaticinou (outro poeta?) que a psicologia está no auge da incapacidade para manobrar as chaves de parafusos que delatam as assombrações interiores.
As coisas complexas são (disse-o, talvez, outro poeta) puras invenções de gente que, por desmazelo, não consegue encontrar soluções para as simples coisas em que tropeça. As coisas complexas seriam simples com a simples utilização da chave de parafusos que reaperta os parafusos no devido lugar. É como alguém concluiu (porventura, outro poeta): que ninguém diga que não consegue mexer numa chave de parafusos, que essa é a maior capitulação à complexidade inventada.

8.12.16

À volta de epitáfios

Bauhaus, “All We Ever Wanted Was Everything”, in https://www.youtube.com/watch?v=qPNa9KD4Y_k
#2 – Não sei se arrisco tema sensível para a conversa.
#3 – Qual seja?
#2 – Que epitáfio gostariam que enfeitasse os vossos túmulos?
#1 – ... de facto, desconfortável conversa.
#3 – Mas não podemos fugir dele.
#1 – Dele, assunto? Ou da morte?
#3 – Da morte ninguém foge. Se o assunto for desconfortável, podes ficar à margem da conversa. Assistes, como testemunha. Ou, se nem esse for o caso, podes ir para outro lugar.
#2 – Entendo que o tema é do interesse do #3.
#3 – Curiosidade intelectual. Se calhar tenho tanto medo da morte como o #1.
#1 – Não parece...
#2 – Deixemos a ontologia de parte e vamos à conversa que propus.
#3 – Eu atalho caminho. Gostava que no meu epitáfio se fizesse constar que sou endemoninhado, poeta fracassado, bêbado incorrigível, que fui homem de muitos amores (e de muitos incorrespondidos), um indivíduo com uma certa faceta circense.
#1 – Não serias, nesse caso, pródigo em elogios.
#2 – Mas um epitáfio não tem de corresponder a um elogio. Sobretudo se tiver a autoria do próprio que, em antecedência da morte, lavra por escrito o seu desejo. Vejo-me desconfortável na hora do autoelogio...
#1 – Talvez por isso prefiro deixar o meu epitáfio aos mais próximos. São eles que trazem de mim a melhor imagem.
#2 – Não consegues esboçar umas palavras, sequer? Não te consegues colocar na posição dos supostos próximos a quem pedirias que redigissem o teu epitáfio?
#1 – Não...não consigo. Era como se me pedisses para sair de mim mesmo e me olhasse de fora de mim. É um exercício impossível.
#3 – Podia pensar num epitáfio alternativo, que fosse menos provocatório. Algo que soasse assim: “#3, homem inteiro, incorruptível, nunca largou de mão um amigo e fez a vida negra a umas quantas mulheres”.
#2 – Não parece que estejas a levar a sério a empreitada...E também levas muito a sério os que te acusam de misoginia.
#3 – Essa agora! Para meu epitáfio, que fique registado (e daqui para memória futura), serei seu exclusivo autor. Em resposta, digo-te que não há ninguém que me leve mais a sério do que eu mesmo. Mesmo que pretenda ser o primeiro palhaço da minha companhia privativa.
#1 – Se pensar um pouco...talvez consiga. Hum...diria que fui timoneiro de mim mesmo, honesto, clarividente, prudente.
#3 – Só faltas tu, #2, que lançaste o repto e ainda nada alvitraste como epitáfio.
#2 – Gostava que ficasse escrito, em pedra tumular rosada, o seguinte: “#2, homem sem meias palavras, corajoso e ao mesmo tempo hesitante, homem que não se fica pela metade e ao mesmo tempo timorato, cortês e ao mesmo tempo irascível, que hoje gostou de uma coisa e ontem de outra diferente e amanhã, seguramente, gostaria de uma terceira diferente das duas anteriores.
#1 – Julgo que estamos a abusar da retórica. Um epitáfio pretende-se breve de palavras.
#2 – Eis o meu: “descobri o sol por entre nuvens plúmbeas”.
#3 – E o meu: “juntei o chão num palco habitável”.
#1 – O meu seria: “não soube chorar as lágrimas que seriam minha salvação”.

7.12.16

A brigada dos costumes atacou os motéis

Nick Cave & The Bad Seeds, “The Mercy Seat”, in https://www.youtube.com/watch?v=Ahr4KFl79WI
Acontecia todos os dias: ele parava no semáforo à saída de casa, quando as pessoas ainda estão estremunhadas e contra a manhã que se levantou cedo. À frente dos olhos, um anúncio a um motel reparava o sono sobrante. O anúncio tinha a fotografia de uma mulher lúbrica, como se o anúncio representasse o convite a atividades carnais ilegítimas.
Acontecia todos os dias: a fama passava de boca em boca: atividades extraconjugais, adultérios em marcha, os apenas gente pecaminosa que alugava um quarto de motel por umas horas para deixar falar o demónio da líbido. Ele incomodava-se só de supor o que ia dentro dos quartos de motel. Eram os seus pesadelos sem indulto. Não era preciso ter publicidade a entrar pelos olhos dentro, empurrando os incorrigíveis pecadores para mais uma rodada de pecado, para bem do negócio dos motéis e a bem dos prazeres carnais que não conseguiam reprimir.
Não acontecia todos os dias: o notável testa-de-ferro da moral cristã não copulava. Era assaltado por um bloqueio. O cheiro a sacristia inundava-o. Na catequese, lá na aldeia que o vira nascer, os patrocinadores da boa moral educaram-no no pudor, na castração dos instintos carnais. “O bom homem não fornicará para além do estritamente necessário” – era aforismo apalavrado pelo catequista de serviço, que evocava sempre que o demónio das tentações aflorava. (Obediente, nunca lhe foi dado interrogar o significado de “para além do estritamente necessário”; podia a interrogação ser tida por topete, pelo que asfixiou as dúvidas existenciais sobre a quantificação do limiar da aceitabilidade do sexo. E nunca lhe ocorreu perguntar se as mulheres estavam isentas da limitação.)
O bom servo da moral cristã, na preparação para a cruzada pela reposição dos costumes, fez os trabalhos de casa: num estudo de mercado, encontrou dados sobre a clientela dos motéis. Havia muita clientela – ou não fosse o ramo de negócio tão próspero –, mas era variada. Eram clientes assíduos, mas de visitação algo espaçada. Seria sinal de reposição dos costumes? Não ficou convencido. O problema era a numerosa clientela que não resistia ao apelo dos motéis e pecava, pecava a eito.
Tempos depois, já com brigada formada, atacou os motéis em dias espaçados. À bomba. Não se importou com as vidas ceifadas; assim como assim, já estavam em pecado na altura dos ataques. O que o bom servo da moral não contou era o prazer perverso que sentia ao saber das bombas detonadas e dos coitos assim interrompidos. O homem tinha um antagonismo com o sexo. A defesa da moral (de sacristia) era só uma fachada.