30.9.20

Whiskas saquetas

Perfume Genius, “Sides”, in https://www.youtube.com/watch?v=jjZqvLi43ac

Dois septuagenários, já a caminho da octogenária condição, disputam a presidência de um país (chamemos-lhe “Ocidentalândia” – também podia ser “Cowboylândia”). Aproxima-se o dia do primeiro debate transmitido pela televisão. O recandidato exige que o outro candidato se preste a um exame de despistagem de drogas antes do debate. 

O recandidato é que sabe da poda. Os serviços secretos (ou um punhado de lunáticos a seu soldo) terão descoberto que o outro candidato se perde nas noites intermináveis dos lugares mais procurados pelo êxtase da vida noturna em Ocidentalândia. São noites desvairadas com o deboche por pano de fundo e o prestimoso apoio de substâncias ilícitas – como poderia, de outro modo, o quase octogenário candidato aguentar noitadas consecutivas?

O recandidato tem de precaver. Deve o leitor ao rigor da análise um esforço de entronização no lugar onde se situa o recandidato: fará o que for preciso (até invocar batota, que só acontecerá na hipótese de derrota eleitoral) para manter a sinecura. Assim acontece com todos os detentores do poder que se recandidatam. A invocação da batota pesa mais do que simples ameaça: é todo um programa de intenções – o que pode ser ilegítimo se não correr de feição inverte o curso (e o juízo) se o pleito se saldar pelo triunfo. Ao recandidato devemos a surpreendente revelação: o seu adversário usa e abusa de drogas. Não seria outro o entendimento ao dar conta da condição imposta para nivelar o debate.

Ou então: o recandidato, imerso na condição de incorrigível apedeuta, terá informações de que o adversário tem as narinas largas por eventual consumo de mistelas inaladas que ativam a função cerebral; e de análises sanguíneas compatíveis com pastilhas que excitam o sistema nervoso-sensorial. Em vez de se nivelar pelo consumo de tais substâncias, o recandidato prefere o nivelamento por baixo, impedindo o adversário de recorrer ao manancial de substâncias psicotrópicas de que é um consabido consumidor. Aliás, um dia destes, o adversário foi apanhado a sair de uma after party a já altas horas da manhã, era quase hora do almoço e a consorte telefonou a lembrar do almoço que não tolerava atraso.

Está explicada a longevidade dos arcaicos candidatos às eleições da Cowboylândia. Não se confirma a imagem pré-datada dos foliões que gravitam no rock and roll e no punk e que, apanhados nas malhas das drogas, envelhecem precocemente (quando não partem desta muito antes do tempo). As drogas retardam o envelhecimento, previnem achaques próprios dos septuagenários e imprimem um vigor intelectual de que teriam inveja os adolescentes (se não estivessem à Leste das eleições). 

Ainda se há de descobrir o arsenal de drogas do candidato rival e as identidades dos dealers responsáveis pelo abastecimento contínuo. Até que, pela infâmia que se abaterá sobre o seu adversário, o recandidato fique sozinho no concurso eleitoral. Para, definitivamente, embolsar a garantia da vitória.

29.9.20

Onde está o limão?

Deftones, “The Spell of Mathematics”, in https://www.youtube.com/watch?v=NUyV3uklpcY

Mormente o vidro ácido que se despoja do orvalho e deixa entrar o solfejo do dia, por mais que o dia esteja tristonho – mas quem mandou às convenções apostrofar de tristonho um dia arroteado pelo nevoeiro persistente? Sabia-se ser modesta a claridade escondida, quase como se fosse a sua autêntica negação, a luz espreitando por uma fenda. Mas era a claridade possível, ainda assim a antinomia com a noite sempre medonha. O dia estava a preceito para resgatar leituras hipotecadas ao passado.

O cliente sugeriu que se acendessem os candeeiros. “A luz está fraca”, acrescentou, como se os olhares atónitos do empregado de mesa e do dono do café soassem a reprovação. Contrariado, o empregado de mesa acendeu apenas um candeeiro. “Este chega. É claridade de sobra.” O cliente não se intimidou. Continuou a beber o seu café enquanto passava a vista pelas páginas de um livro que, pelo aspeto puído, fora comprado num alfarrabista. 

O empregado de mesa percebeu que o cliente seria demorado. Já não folheava páginas avulsas do livro. Deitara-se à leitura metódica. Em sinal da demora – e talvez porque o estágio demorado no estabelecimento comercial ditava o imperativo de consumir algo mais – pediu uma tosta mista e um carioca de limão. Desta vez, o empregado de mesa foi mais prestável. Assim como assim, a manhã estava fraca (as pessoas continuavam relutantes em readquirir velhos hábitos). Era preciso fazer negócio. Se o patrão não faturasse, seria difícil arranjar meios para pagar o seu salário. Ao servir o requisitado, perguntou ao cliente:

- Se não considerar ousadia da minha parte, que livro está a ler?

O homem ficou sem reação. Não esperava que um empregado de mesa se interessasse pela literatura, e menos ainda por um livro que visivelmente tinha sido arrancado à estante de um alfarrabista.

Foi um achado que encontrei no alfarrabista, ali na esquina com a praça central. É um livro sobre a vergonha de um criminoso que sempre soube esconder os seus crimes e que, entretanto, fez carreira diplomática.

- É um livro antigo. Vê-se que já teve muito uso.

O leitor não sabia o que o empregado de mesa queria dizer. “Muito uso”, seria um livro manuseado por muitas mãos, numa contínua estafeta de donos, ou apenas de leitores, que trespassou o tempo? Ou seria um uso passivo, o natural amarelecimento das páginas por ter feito demorado estágio na madeira que bordeja as estantes de sucessivos alfarrabistas? Quis tirar a limpo:

- O que quer dizer com “muito uso”?

O empregado de mesa ficou impassível à frente do cliente, com a bandeja inerte. Ele próprio não sabia o significado do que perguntara. “Que raio”, vociferou em voz interior, arrependido de ter iniciado o diálogo como o letrado, “por que não estive calado?” Por não querer dar parte de fraco, arriscou uma resposta, hesitantemente:

Muitos olhos e muitas mãos terão gasto as páginas desse livro e com isso terão crescido com ele. Ou então, ele estava há muito tempo sem uso, a fazer companhia às térmitas das estantes de um alfarrabista. Mas isso não interessa. Está a ser agradável, a leitura do livro?

Não estava interessado em continuar a conversa. O cliente do café, autoconvencidamente letrado, pimpão no património da sua erudição, defendia no seu íntimo o que em proclamações públicas era por ele próprio desmentido: os letrados não se misturam com o povo iletrado e não há possibilidade de diálogo entre ambos. Matou a conversa, ao disparar arrogantemente:

Este carioca de limão só tem umas envergonhadas aparas de limão. Onde está o limão?

O empregado de mesa recuou, em silêncio. Apetecia-lhe trazer um limão inteiro e uma faca para o letrado depositar na bebida o limão que lhe agradasse. Apetecia-lhe atirar grosseiramente o limão e a faca para cima da mesa, bolçando, mal-educadamente, “sirva-se à vontade”. Mas os tempos não iam de feição para o negócio. Os clientes tinham de ser tratados na palma da mão. Não podia ser de outro modo. Não podia atraiçoar o patrão. Seria o mesmo que atraiçoar-se a si mesmo. 

Regressou à mesa com outro carioca de café.

Diga-me, por favor, se assim está a preceito?

- Agora sim. 

É por conta da casa. Bom proveito.

28.9.20

Projeto

Poolside, “Getting There From Here” (with Todd Edwards), in https://www.youtube.com/watch?v=CbaNXY2sZxg

Uma ponte sobre o chão de nuvens: tirando à sorte o avesso do dia, preferíamos o musgo de onde podíamos resgatar o conforto. Anotávamos as intenções. Podia ser em papel gasto, amarrotado; as intenções não ficam diminuídas. 

Prosseguíamos com a safra do dia.

Algum tempo em demanda interior não é um ultraje à exiguidade em que ele se debate. Ou melhor: com que nos debatemos depois de darmos conta da exiguidade do tempo. Os corredores por onde andamos parecem os apertados limites de um túnel, a escuridão atemorizadora como pano de fundo. Nem assim nos intimidamos. Julgamos ser maior a nossa força. Não é errado o juízo de valor. Avançamos porque intuímos uma centelha a fulgurar um pouco mais à frente. 

Avançamos.

Se o labirinto não fosse um ermo, não seria difícil inventariá-lo. Seríamos metódicos a desenhar as suas veias, a anotar com precisão as pulsões, como se fossem os rochedos submersos no leito de um rio que os navios têm de ladear. Demorasse o tempo que fosse preciso. E depois, a meio do ofício, até podíamos inquirir sobre a utilidade desta cartografia. Todas as interrogações são legítimas. E as tergiversações também. Se fosse preciso, podíamos parar a meio do exercício. Ponderar nos cambiantes da interrogação. Colocando a hipótese de recuar à casa da partida sem completar a carta iniciada. Uma capitulação pode não ser assim entendida. Se a vontade se sobrepuser e arquivar a relevância de um cometimento, ele deixa de ser cometimento por ter sido encomendado à categoria da indiferença. 

Ficamos por decidir se retomamos, mais tarde. 

Perguntamos se temos em mãos o fio à meada da casa da partida. O labirinto é um emaranhado de caminhos que se arqueiam sobre os forasteiros. Neste labirinto, todos se sentem forasteiros. Até quem cuida da sua cartografia. Podíamos jurar que os caminhos interiores do labirinto mudam de dia para dia, como se um sortilégio qualquer cuidasse de mover as fronteiras das paredes e, no dia seguinte, a sua configuração fosse diferente. Colocamos a hipótese de ser propositado: o tutor do labirinto prefere mantê-lo em segredo, inacessível aos que teimarem na sua decifração.

Percebemos: as forças não devem ser gastas numa empreitada que se move por uma constelação de caminhos que se desmultiplicam em múltiplas ramificações. Perder-nos-íamos num ermo, sem sabermos onde estávamos. Encontramos resposta para as interrogações que suspenderam o tempo: em homenagem à finitude do tempo, não nos entregamos ao inventário do impossível. 

Se ele há melhores formas de aproveitar o tempo, para que haveremos de o gastar sem serventia? 

25.9.20

Subir na vida (princípio geral do alpinismo) (short stories #261)

Radiohead, “Airbag”, in https://www.youtube.com/watch?v=jNY_wLukVW0

          Que não seja castrado o poliéster da ambição, nem lhe seja averbada a avareza. Os emblemas da democracia, os sacerdotes da igualdade não mirífica, assim o entoam. A escada deve ser estendida a toda a gente. Dá-la em primeiro lugar aos que se encontram na base da pirâmide. Só que, noutras instâncias, os mesmos iconoclastas protestam contra a subjugação aos valores materiais. Admita-se que subir na vida não quadra apenas com as ambições que se materializam em conquistas materiais. Todavia, pergunte-se aos que vegetam na base da pirâmide, ou a outros com pretensões arrivistas, ao que gostariam de ter acesso a ambição vingasse. Diriam, em sua maioria, tratar-se de coisas materiais. Descontando estes aspetos mundanos, mas não comezinhos, registe-se a propensão das pessoas para serem alpinistas sociais. Sabem (ou deviam saber) que a pretensão envolve um esforço – ou não fosse o alpinismo sobre trepar alcantiladas montanhas, o que não se consegue de ânimo leve. O que ninguém lhes diz, é que precisam de arnês. Os burocratas das ideias que certificam um direito geral à igualdade ludibriam os ascensionais por não serem advertidos para o ónus da queda. E para a probabilidade da queda. Os alpinistas sociais partem para a empreitada sem arnês. Às vezes, a mão escorrega numa aresta da montanha, ou o pé fica sem chão por baixo, e o derribamento é o ultimato a que não conseguem responder. Os potenciais alpinistas sociais margeiam a montanha, a meias com desdém e com usurpação onírica, sem saberem o que fazer para iniciar a ascensão. Muitos deles não passam da intenção. Poupa-se-lhes a vida, ou um esforço em vão, com a agravante da angústia em que se consomem pela inviabilidade do ofício. É a metáfora diligente da sociedade: quase todos não passam de alpinistas em sonhos.

24.9.20

A voz desembaciada

James Blake; “Godspeed”, in https://www.youtube.com/watch?v=OapxMsZHNkw

A miragem desenhava-se no leve adocicar da pele. A luz tímida que se erguia sobre as muralhas do entardecer entranhava-se. O perjúrio da fala não se fazia sentir, o silêncio como um largo oceano à ilharga. Os gatos com cio passeavam no jardim. A sonora cantilena era a prova viva do cio. As nuvens díspares amontoavam-se, pressentindo o crepúsculo que não tardava. O dia fora longo e só apetecia fazer nada.

Podia a voz romper o silêncio estabelecido. Só para se ouvir, depois de ter sido gasta durante o dia. O silêncio perdurou. Era como se a voz quisesse o seu próprio silêncio. Arpoada numa tangente com a solidão instantânea, o corpo imerso num súbito torpor, o olhar fixo num ponto indeterminado, perdido na vastidão do horizonte. A voz falava apenas através de pensamentos avulsos. Decifrava-se, na pessoa desses pensamentos. Recusava prantos e preces.

De repente, a voz emancipou-se das algemas do silêncio autoimposto. Balbuciou umas palavras atiradas ao acaso. Não ficaram registadas em ata, nem sequer mental, essas palavras. Era um exercício destinado a experimentar a voz. Lobrigava as armaduras que se escondiam na véspera da voz agora empossada. Uma nítida sucessão de palavras, a voz resgatada ao silêncio militante que acompanhava, como aperitivo, o fim da tarde. 

Um dia, a voz ouvira-se em reprodução (tinha sido gravada para um efeito qualquer). A voz não se reconheceu. A voz que se escuta a si mesmo parece uma voz alheia. É como se desfilasse um cortejo de vozes forasteiras e, no meio delas, aparecesse a voz inquisitiva: ela não daria conta de ser intérprete de si mesma. A voz não está habituada a ser testemunha do seu palavrar. É uma projeção para o exterior. Não guarda a memória da sua genética. 

De outra vez, em voluntário exílio temporário no estrangeiro, conseguiu a voz estar três dias sem ser pronúncia. Não houve serventia de falar com estranhos, nem as funções repetitivas da rotina de um dia exigiram articulação com os outros. A voz não se esqueceu. Ao cabo dos três dias, continuava a ser a mesma. Não ficou provado que o temporário emudecimento fazia prescrever a voz. Ela mantivera todas as suas dioptrias, capaz de descrever a nitidez com que o mundo lhe aparecia em surdina.

Antes que fosse noite, a voz fez-se voz. Continuava desembaciada. Em contraste com a luz herdada do ocaso.

23.9.20

Absolvição

Doves, “Broken Eyes”, in https://www.youtube.com/watch?v=pISDosb4Aes

Guardo as estrias do tempo para a moldura da memória. Não sei que chuva se promete como bálsamo; não sei que rosa frondosa desembaraça os amantes; não sei que sílabas entoadas afivelam a fala. Os hóspedes do futuro estão lá, à espera, imóveis, como imóvel está sempre o tempo vindouro visto desde a lente do agora.

Que seja seguida uma partitura, é a convocatória insistente dos que se enamoram por uma ordem emprestada à existência. Mas uma partitura não configura a improvisação. Asfixia as capacidades que teriam levedura se não houvesse um espartilho que as cerceasse. Ainda assim – insistem os devotos da ordenação – algum mapa há de ser preciso, umas pistas sobre os lugares demandáveis, outras sobre os caminhos prevenidos. Ninguém nasce com uma cartografia de cor. A prevenção nunca foi da ordem da estultícia.

Pela noite, quando os espíritos se embaciam, os reptos parecem jogos pueris, meras coincidências sem resposta. Apalavram-se as juras improcedentes. Mistura-se lucidez com os sussurros de Éolo que temperam os sonhos prematuros. O corpo arrasta-se num vagar pecaminoso. Não se exerça o meticuloso ofício semântico, não se queira escavar os meandros da palavra até o escafandro atingir a sua medula: ninguém quer saber o significado do pecaminoso, pois todos têm uma vaga ideia.

Um detetive avulso sonda as sombras da noite para saber se emergiu contaminada pela luz diurna. Diz-se que os que imprecam a noite gostavam que ela fosse a continuação do dia, só que com a luz diurna descontinuada pelo leve crepúsculo. Nunca seria noite em sentido próprio. Talvez pudessem ser encomendados ao Ártico no equinócio do Verão. Talvez no dia contínuo, não interrompido pela noite, aos fantasmas não seja autorizado o ar para respirarem e eles emigrem para lugares onde a noite derrota a teimosia do dia. Temem as sombras. Haja alguém que os sossegue: é no avesso das sombras que podem encontrar o vaso onde escondido está o segredo que rompe as angústias.

Guardo as estrias do tempo a tempo de decifrar o seu sortilégio. Um ditongo impercetível, uma sinapse interrompida por uma distração, o sufrágio dos modos arcaicos (se é que hão de persistir), uma vaga maré que mal chega a molhar o cais. Um verbo refeito na cerzidura que se hasteia a bordo do repensamento. Cobrando as dívidas de outrora ao livro das lembranças. As estrias ficam emolduradas como finos escaninhos que participam no desenho do mapa. Não será a noite volúvel, ou os mapas diligentemente dobrados, que absolvem o passado. O passado não precisa de absolvição.

22.9.20

Uma peça de teatro é apenas uma peça de teatro (ou talvez não apenas)

Catarina e a beleza de matar fascistas

de Tiago Rodrigues, 

Centro Cultural Vila Flor, Guimarães, 20 de setembro de 2020

Mote: “Se tiverdes precisão, não hesiteis em fazer o mal para praticar o bem.” E: “Quando a ordem é injusta, a desordem é um princípio de justiça.” (Excertos da peça)

O teatro pode ser político, como tantas vezes é. Pode ser político olhando para o passado, reinterpretando-o, provavelmente emprestando-lhe uma nova grelha de leitura que medra no úbere da criação artística. Também pode ser político como pressentimento, uma certa forma de se fazer oráculo. Tiago Rodrigues combinou as duas facetas nesta peça. Mergulhou no passado da ditadura, no episódio da morte de Catarina Eufémia como ponto de partida para o enredo. Uma amiga de Catarina Eufémia não perdoou o marido, agente policial que assistiu passivamente ao assassínio de Catarina Eufémia, e tirou-lhe a vida à frente dos filhos. Aí começou uma tradição anual que esta Catarina legou aos seus sucessores, todos e todas Catarinas. Todos os anos, um fascista teria de ser morto num ritual familiar e depois enterrado sob um sobreiro, na propriedade da família. 

A ponte com o futuro tem uma conexão atual: a extrema-direita que cavalga perigosamente, seduzindo cada vez mais eleitores por todo o mundo, por toda a Europa, e também em Portugal. No seu oráculo, o encenador antecipa-se ao tempo futuro. Em 2028, o partido da extrema-direita chegou ao poder e formou governo. O ritual anual da família de Catarinas ganha um sabor diferente. É a primeira vez que um fascista vai ser morto depois de os fascistas terem chegado ao poder com a franquia da maioria dos votantes. 

O apogeu narrativo prolonga-se pela peça fora. Naquele ano, o ato iniciático de matar o fascista coube a uma Catarina que chegou aos vinte e seis anos de idade (o selo da maioridade do assassínio de fascistas, de acordo com o código de conduta destes justiceiros). A rapariga ficou paralisada pela dúvida e não conseguiu premir o gatilho. Depois de discutir com a mãe, parece convencida da beleza de que se reveste o ato de matar um fascista. Porque não pode haver hesitações no momento de fazer o mal se esse mal é a janela onde fermenta o bem. Todos os argumentos da rapariga foram anulados pela persuasão da mãe: não adianta dialogar com fascistas, nem conceder-lhes direitos que eles negam aos demais; é improcedente explicar ao povo seduzido pelos fascistas a falácia dos seus argumentos, porque os fascistas instrumentalizam o povo com falsas demandas e vieses da análise; não se pode confiar nas instituições e na democracia, porque foram a democracia e as instituições que caucionaram a chegada dos fascistas ao poder. 

Todavia, a rapariga é outra vez tomada pela hesitação. Não consegue matar o fascista. E todas as Catarinas (“todas” como recurso estilístico adotado, como se as convenções linguísticas fossem viradas do avesso e um grupo de homens e mulheres passasse a ser denominado no feminino) – todas as Catarinas são mortas sem se saber como. Sobrevive uma Catarina, o primo silencioso, possivelmente autista, possivelmente o último penhor de valores que não se reviam na barbárie das Catarinas. E sobrevive o fascista, que escapa à execução sumária. O primeiro que teve essa sorte em setenta e seis anos, depois de setenta e seis fascistas que passaram a fazer de húmus (pútrido, porventura) daquele montado alentejano. 

O fascista ergue-se, vitorioso, exsudando pesporrência. Num salto cronológico, ao fascista é garantido o apogeu num discurso aos sequazes. Um longo e extático discurso. O recurso discursivo bebe no catecismo político dos “fascistas emergentes”, leia-se, o Chega e todos os que têm sido atraídos para o “movimento”: um caldo feito de ideologização nacionalista, racismo, intolerância com as minorias étnicas, subalternização da mulher e irrelevância da violência doméstica, denúncia das elites, respeito quase religioso das forças policiais, protesto contra a corrupção endémica (imputada ao regime político decadente), intransigência com a homossexualidade, apologia do liberalismo económico (onde Rodrigues comete um equívoco), ódio à Constituição vigente. Um discurso inflamado, impetuoso, que começa com uma petição pela liberdade (o fascista acabara de se extrair ao cativeiro dos seus algozes), mas termina com a instrumentalização da liberdade – a liberdade só é válida se for coincidente com as ideias do governo em funções, com o catecismo de valores e de práticas imposto pelos fascistas.

A salvação do fascista parecia ser o epílogo. Se a peça terminasse nesse momento, teria selado a inverosimilhante justiça feita pelas mãos de uma família marcada pelas cicatrizes de uma antepassada. Num momento de coletivo descontrolo todos os predadores do fascista pereceram, menos o rapaz que terá sido o autor da carnificina familiar. Concluir-se-ia que a violência, mesmo contra os que são institucionalmente violentos, está destinada a ser letra morta. Contudo, a pose triunfal e a soberba do fascista, assim que se liberta do cativeiro, fizeram pressentir uma viragem na trama narrativa. O fascista usou o suicídio coletivo da família para se reapossar do domínio do poder. Envergou o papel de herói, esquecido o medo que o consumiu quando esteve no limiar da execução sumária.

O discurso final do fascista é a coroação da retórica nauseabunda que se conhece aos arautos da extrema-direita que despontou em Portugal. O público intervém amiúde: “cala-te!”, ou “mata-o” (impetrando ao rapaz que matou toda a família e que era espetador – distante – da verborreia acalorada do fascista). “Mata-o!”, ouviu-se muitas vezes, na súplica de vários espetadores desde o lugar errado no cenário, pois decerto não seriam a audiência da peça de oratória, destinada aos apaniguados dos fascistas. Os espetadores que saltaram para o palco sem saírem do lugar queriam que sobre o fascista caísse o destino que a família justicialista não conseguiu operar. Sobrou esta mensagem: o fascista não foi assassinado. Não foi morto quando houve oportunidade. A tempo. A beleza do ato não se consumou. O fascista pôde continuar a ser o que sabe ser: fascista. Os fascistas não merecem ser poupados à morte, porque não respeitam a vida e a liberdade. Não se convertem ao humanismo e à decência mesmo depois de passarem pelo crivo do abismo da morte. Mas tão-pouco os agentes justicialistas respeitam a liberdade. Concluo eu: é tão fascista o fascista que mata fascistas como o fascista que é morto. 

Abjuro o sebastianismo dos radicais de direita que se monta no descontentamento popular e consegue crescer na competição eleitoral. Considero abjetas as personagens que cavalgam no oportunismo e se maquilham consoante é prestável o ofício de seduzir uma turba. Tenho medo que estes párias ponham a mão no poder. Mas – e a pergunta foi mal respondida na peça – se estes párias chegarem ao governo com o consentimento da maioria dos votantes? É de aceitar a displicência que trespassa algumas das personagens da peça, que se colocam numa posição demissionária (“não adianta convencer os votantes dos fascistas”)? É de aceitar a sua arrogância ao acusarem as massas de ignorância porque ao votarem (um voto errado) consentiram na tomada de poder pelos fascistas? Tenho medo dos fascistas que se aproveitem da democracia para a distorcer, ou até (no pior dos cenários) para a liquidar. Como tenho medo dos justiceiros que se autoinvestem de poderes heurísticos para decantar a paisagem política de um país, como se fossem os agentes executores da defenestração dos que ameaçam roubar a democracia sem que alguém lhes tenha encomendado a função.

A certa altura, eu, que considero repugnante o estereótipo central da peça (o “fascista”), senti-me como o fascista que era presa da família de Catarinas. O teatro pode ser político, sem dúvida. Mas escusa de atear fogueiras antes do tempo. E escusa de ser condescendente com um justicialismo tão primário como as afeções que contaminam os fascistas. No enredo, o tio da Catarina que estava agendada para o assassínio, exerce o papel do ancião da família e desafia-a para um dilema que teria resposta predeterminada. Foi pena que o enredo não tivesse feito outra incursão pela filosofia moral para levantar estas interrogações: como justifica o “não fascista” que mata fascistas o direito de lhes tirar a vida? Que superioridade moral lhe é investida para ordenar a execução de fascistas à margem da justiça institucionalizada? E – a meu ver, a interrogação decisiva – aceitar que o “não fascista” pode matar fascistas não é equivalente ao fascista que se considera legitimado para tirar a vida aos que se lhe opõem?

Agora, é a vez do meu oráculo: por este andar, de radicalismo que se antagoniza a outro radicalismo à reação deste radicalismo, iremos no caminho de radicalismos de sinal contrário que se autoalimentam, numa interminável espiral de crispação, retórica agressiva e, possivelmente, confronto físico e morte. Não é um bom pressentimento. Que os fascistas não valorizam o outro, é consabido. Nesta peça ficou claro que os que matam fascistas também não dão valor ao outro. Também não dão valor à vida humana. Não são diferentes. São tão fascistas como eles, na sonegação de valores inerentes à convivência democrática.

A desordem nunca é um princípio de justiça: conduz à anomia. E na anomia, salvam-se os mais fortes; os que tiverem armas à sua disposição; os que ganharem, num certo momento, o monopólio da palavra.

21.9.20

O corpo é apenas um corpo

Young Knives, “Society for Cutting Up Men”, in https://www.youtube.com/watch?v=W_mdxI07lq0

Uma imagem no jornal sobre uma coreografia que vai a palco: os corpos nus dos bailarinos entreveem-se no crepúsculo da cenografia retida pela fotografia. E imagino como seria difícil (na improvável hipótese de ter ofício de bailarino, por manifesta inaptidão) tirar as roupas e subir a palco por indicações do coreógrafo – ou, se fosse ator, e se o encenador me informasse que a meio de uma cena ter-me-ia de despojar das roupas e expor a nudez diante do público.

Dir-se-ia que são as sobras da cultura católica que nunca deixou de fazer cair a sua mão castradora, desenhando os limites do censurável na fronteira da vergonha do corpo. É o reduto da intimidade. Não andamos nus na rua, porque as leis interpretam a ousadia como um exibicionismo a que cabe a mácula de um crime. Reservamos os pedaços da intimidade para o domínio do eu. Se a partilhamos com quem aceitamos fazer a comunhão de corpos através da sexualidade que socializa esse domínio da intimidade (em pequena medida – e na medida da ou das pessoas com quem partilhamos esse reduto da intimidade), não deixa de ser do domínio da intimidade, agora já não puramente individual.

Não posso dizer que os cânones da cultura católica deixaram marcas. É o que quero acreditar, como expressão do ateísmo incondicional. Todavia, não consigo reprimir as interrogações que me percorrem interiormente, uma certa convulsão que se acentua ao denotar a contradição entre o almanaque das intenções e o (por vezes) irreprimível bastão das convenções que se abate contra a vontade que se julga cimentada pela razão. Esta vergonha do corpo, será uma herança não desejada dos vestígios de catolicismo que foram sendo deixados nas costuras do comportamento?

Regresso aos corpos nus dos bailarinos (ou aos corpos dos atores que se desnudam a meio de uma peça de teatro): talvez lhes seja mais fácil a nudez, estão em palco a sublimar a arte de atuar, o fingimento exigível a quem é ator. Não são eles, são as personagens que encarnam. Convidados a personificar outrem, não é o seu corpo nu que aparece em cena: é o corpo dessa personagem. Ou então, um corpo é apenas um corpo, uma materialização que expõe a desimportância do corpo e a insignificância da nudez. A medida não é por igual: há pessoas que lidam melhor com a sua nudez diante dos outros, e não são atores ou atrizes. Pois o corpo é apenas um corpo, reservando a parte mais importante do ser para a sua dimensão desmaterializada (não o corpo; a alma). Se dúvidas houver sobre a irrelevância do corpo, o tira-teimas é testemunhar uma autópsia: o corpo é tratado como coisa.

O corpo é apenas um corpo – leio o mote vezes e vezes, como se me estivesse a convencer que o corpo é apenas um corpo. Mas continuo a não ser capaz de ir a uma praia de nudismo. 


18.9.20

Mão dormente (short stories #260)

Flaming Lips, “Race for the Prize”, in https://www.youtube.com/watch?v=bs56ygZplQA&frags=pl%2Cwn

          O sol esbate-se na silhueta da muralha, esbarrando contra o dorso do entardecer. O tempo, subitamente, parece arrastar-se. Quase como se fosse uma suspensão, temporária. A mão dormente assenta na mesa da esplanada. Remexe os tendões e os músculos, à procura do sangue necessário para ser resgatada do torpor. Não é assim com o pensamento, que ferventa. Sobrepõe-se à impostura do tempo; se calhar, é a quimera do pensamento ávido que devolve a impressão do arrastamento do tempo, como se o pensamento insaciável iludisse o castigo do tempo. A mão ainda dormente esboça umas palavras na folha de papel tirada ao acaso. As palavras também são um acaso. Impetram ao labirinto da alma uma centelha de onde possam submergir da letargia imposta pelo dia que se faz ermo. A ponta da caneta saliva umas palavras avulsas que se alinham, sem ordem. Os poetas são artífices nas palavras que reinventam o seu sentido; são pródigos nas entrelinhas que cativam múltiplas leituras, deixando ao exegeta a sua liberdade. A mão parece sair da dormência à medida que as sílabas se emaranham nas linhas sem limites que emprestaram à folha de papel. As palavras contrariam o crepúsculo que se levanta vagarosamente, reificando palavras simples, puros cristais de neve que se amontoam com uma leveza como se não estivessem sujeitas à lei da gravidade. A mão já não está dormente. Por ela foram escritas palavras que a remiram do torpor. Agora a mão serve de pedestal para o queixo que, em pose contemplativa, aprecia o lento devorar da luz diurna. A mão diria à cabeça pensante que o mundo assenta neste canibalismo diário, perene. É por isso que há quem suplique que a noite se demore. A mão tem medo da noite. Tem medo que a noite a restaure como mão dormente.

17.9.20

Intenções do avesso (ou: quando a autocomiseração em excesso é um auto de ufania exacerbado)

Fontaines D. C., “A Lucid Dream”, in https://www.youtube.com/watch?v=2EpoaL2r0k8

Disputam-se os últimos despojos da miséria. Os que se consideram excomungados da alegria competem pelo maior pecúlio possível da miséria a concurso. Seria paradoxal o comportamento, se estes párias de si mesmos não trouxessem a autocomiseração como intenção: sobem a palco munidos de seus mentais andrajos, em contínua autoflagelação, suplicando pela piedade dos que da audiência assistem ao soez espetáculo. 

Disputam o proeminente lugar do mais inditoso de todos. Para os demais – os que se amontoam na audiência, de frente para o palco – este seria um lugar evitável, indesejado. Já os excomungados competem pelo lugar cimeiro na listagem dos que foram submetidos às piores provações e destinados a um eminente lugar miserável. São órfãos de sorrisos, a sua pose macerada e o rosto exageradamente marcado pelo tempo como provas de todos os males que sobre eles se derramaram. Ostentam a condição deplorável. Querem que seja reconhecida pelos que foram convocados para a audiência. Querem ser os corpos onde são depositadas doses maciças de piedade.

A contínua autoflagelação é mais tortuosa para a maioria das pessoas que foram arregimentadas, contra a sua vontade, para a audiência. Afligem-se com as dores excruciantes gritadas pelos excomungados à medida que arrastam as suas angústias dilacerantes pelo palco. Não percebem, os que tiveram a graça de ficar à mercê desta miserável condição, que são vítimas dos oprimidos que sobem a palco. Estes querem comiseração, a paga necessária pelas misérias que os cicatrizam. Como se fossem pedintes de piedade e um imperativo de solidariedade atuasse à medida que os cidadãos poupados às provações se quisessem libertar da sua interior tortura, transferindo generosas doses de piedade a favor dos desapiedados. 

Estes prolongam a tortura. Escondem um falso orgulho sob a densa capa da humilhação que protestam. Exageram nos padecimentos: intuíram que a miséria exacerbada povoa a generosidade dos convocados para a audiência. Mas trata-se de uma escondida ufania. Uma competição sem esteios que se funda na mitomania dos que suplicam a comiseração da audiência, na intencional adulteração dos sentimentos, quando se mostram deliciados com a miséria que os assola. No fim do ofício, e operadas as transferências de piedade a favor dos desvalidos, os mecenas emocionalmente ficam exangues. Os miseráveis esqueceram os infortúnios e hibernam na ufania das almas carregadas de amparo.

Pelo menos no dia da função, não é de estranhar que se invertam os papeis. Essa é a oculta ufania dos que exageram nos padecimentos e se peticionam como credores da comiseração dos outros.