18.5.18

O homem sem leme


Madness, “One Step Beyond”, in https://www.youtube.com/watch?v=SOJSM46nWwo
Da má loucura: um homem outrora entronizado destroçou pergaminhos com a demencial passagem pelos dias. De cada vez que falava, o corpo enterrava-se num pântano irremediável. Ele não dava conta. Cada dia que se retirava ao calendário era um peso que arqueava sobre o seu dorso. Ele preferiu fugir em frente. Ainda não se sabe se estava convencido que não havia precipício, ou se fora o desespero que o levou a transitar por esse que era o único caminho que o aceitava. 
A cada dia retirado ao calendário, rareavam pessoas à sua volta. A sua presença tornara-se tóxica. Tudo em que tocava transformava-se em matéria inerte, morta pela sua extrema-unção. Mas continuava a não se reconhecer um deserto, a aridez irrenunciável. Passara da fronteira em que o arrependimento (se merecesse a concordância mínima dos demais) é manobra de resgate pela marcha-atrás que cauciona. Não tinha remédio. Não tinha redenção possível. Já não era por causa do asnear acumulado – esse era um capital adquirido; era pela sucessão de despautérios que o abeiravam do despenhamento fragoroso. 
Continuava agarrado ao leme que ganhara em tempos. A cegueira não contemplava uma introspeção que destilasse equívocos. Talvez por serem em rol tão abundante e por ele, ainda que agarrado a um leme que era de um navio desabitado, ter caído em negação. Convenceu-se que todos conspiravam contra ele. Era o mundo contra ele – e ele, em vingança, cavalgando na redobrada conspiração contra o mundo. Talvez não se olhasse ao espelho. Nem se escutasse quando proclamava os maiores disparates, de jaez inconfundível e sem par com outros seus semelhantes, dizendo-os como se de coisas sérias se tratasse. 
Teimava em ter o leme nas mãos, escondendo-o dos outros. E enquanto o navio assim mal tripulado estava no limiar do abismo, ele insistia em golpes de asa que eram deslumbrantes manifestações de loucura – da má loucura. Por mais que à sua volta houvesse deserções a eito, não se desagarrava do leme. A negação patológica impedia-o de contemplar o quadro mais belo de todos: ele já não tinha mão no leme, mas ainda continuava convencido que era suserano. 
Era uma questão de tempo até ser defenestrado. 

17.5.18

Hoje apetece-me mousse de chocolate


Wand, “Pure Romance”, in https://www.youtube.com/watch?v=NdD5_UMUxDI
Apetece-me: invadir uma estufa onde se cultivem framboesas e colhê-las na avidez do meu apetite; sulcar a corrente de um rio indomável, saltando entre as rochas que irrompem das águas frias; ir ao teatro e sorver as palavras demiúrgicas da peça, mesmo sabendo que àquela hora não há função (minha será a empreitada de substituir o enredo); escrever um texto sem adjetivos e frases longas, na difícil tarefa da simplicidade; hoje apetece-me mousse de chocolate, nem que seja daquelas empasteladas que advêm de preparados artificiais.
Hoje apetece-me: desapetecer o dia, deixando o corpo estendido na languidez, aprisionando o pensamento ao nada; fazer malas e depois desfazê-las (como se houvesse necessidade de adestrar a arte de emalar); fincar os pés no chão, sentir as suas raízes, sentir as veias a latejar com a emoção de uma pertença; pegar num livro que pertence à estante e, ao calhas, abrir numa página, ler essa página três vezes seguidas e depois reescrevê-la sob o olhar contundente de um crítico manso; almoçar na Casa Guedes; colher uma camélia prematura e deitá-la à lapela; hoje apetece-me mousse de chocolate, apesar do aluvião de calorias que aí vem.
Apetece, ainda: trazer do entardecer a maresia que se levanta; enfeitar o dia sobrante com estrofes cerzidas no alpendre da música; obedecer aos apetites vulgares e não reprimir os apetites implausíveis; ficar acordado pela noite fora, caminhando nas ruas desertas; desenhar a lua numa folha de papel subtraída ao amarrotado; dizer palavras que não sabia existir, jogando com a sua musicalidade; deitar fora objetos guardados no baú de recordações, sem critério; fazer uma tatuagem (mesmo sabendo que a meio da madrugada não há estabelecimentos comerciais abertos – ou, talvez, por essa razão); hoje há de apetecer, quando for hora a preceito, uma boa colherada de mousse de chocolate, mesmo que seja rafeiro o cacau usado.
Apetece, hoje: encher duas páginas inteiras com rimas simplistas; recomeçar aquele livro do Saramago que fechei na página vinte e sete (por causa da ausência de pontuação); escrever às divindades supostas, perguntando por seu paradeiro; telefonar a um amigo, só para saber se está bem de saúde; oferecer uma nota gorda ao primeiro mendigo; estacionar no aeroporto e apreciar a coreografia dos aviões ao aterrar; desatar preconceitos antigos, esvaziando-os por dentro até que percam sentido; meter as mãos na terra molhada logo após a chuva e sentir o aroma inconfundível (para desafiar a pertença que tumultua as veias); hoje hei de comer uma mousse de chocolate, de preferência gourmete preparada segundo uma receita original.
Hoje apetece-me isto e o mais que possa vir no sargaço do improvável. Porque o mundo, lá fora, está impossível de aturar.

16.5.18

O jogo das improbabilidades (ou: catorze mandamentos)


Iceage, “The Day the Music Dies”, in https://www.youtube.com/watch?v=14eJfs8O--Y
1. Não conto as medidas vazas dos dias pretéritos. Não conto os dias pretéritos. Não conto com os dias pretéritos.
2. Posso dizer o indizível, na militância provocatória – mesmo que seja para agitar as consciências adormecidas, mesmo que não quadrem tais proclamações com a matéria nutriente que corre em minhas veias?
3. Só há um domínio que entra no pessoal cativeiro de intolerâncias: a intolerância. 
4. Posso provocar o bem-estar e as crenças dos outros? Posso fazê-lo, sem que os outros entendam a provocação como desrespeito? Poderão os outros, tão ofendidos com o que alegam ser falta de respeito, considerar que se lhes fizesse a vontade estava a sucumbir à sua vontade, por sinal oposta à minha, e que na oposição de duas vontades não é egoísmo fazer vingar a minha?
5. Tenho nas mãos um mapa em branco. Posso desenhá-lo. Ou posso deixar que o vento que vier de feição traga os utensílios e o desenhe por mim.
6. Em matéria de costumes, não tenho nada a dizer sobre os que impendem sobre outrem. Admito que haja reciprocidade metódica.
7. No verosímil quadro das incumbências, não há registos. Os planos são uma distração. Consomem a imaginação, a eles amordaçada, sobrando uma impenitente espada sobre a cabeça dos sitiados pelo totalitarismo dos planos.
8. Gosto de idiomas. Falo poucos. Adoro a sonoridade dos idiomas ininteligíveis.
9. Prometi que deixava de olhar tantas vezes para o relógio. Apesar de os considerar obras de arte – e aqui apenas importa a estética, não o que os relógios traduzem às escondidas. 
10. Também prometi que desaprovava as juras, por invariável propensão a elas não poder ser leal (ou porque as circunstâncias conspiram contra as juras, ou porque as juras acabam imersas na irrelevância).
11. Prefiro uma viagem a cinco idas a um restaurante. 
12. Não sei o que será: temor do envelhecimento, ou a usura da estética e a insaciável sede de atualizar o conhecimento? Continuo a ter assinatura diária na atualização da música. (O mesmo é válido para o cuidar do corpo.)
13. Um dia sem o mar por perto do olhar é um dia amputado.
14.  Desconheço o sentido da metafísica. Pelo que me é dado a saber, a solidão da alma é critério preferível.

15.5.18

Adivinhar o passado


Blur, “Tender”, in https://www.youtube.com/watch?v=SaHrqKKFnSA
Ponto da situação: ainda têm serventia os oráculos que se jogam incessantemente na boca dos arautos da prospetiva? Eles deitam-se na adivinhação do futuro, empreitada arriscada e, dir-se-ia, vã. E insistem, por mais que o tempo vindouro seja o desmentido da sua impresciente atividade, por mais que esse seja o tempo onde vem selado o seu malogro. 
Os possuidores de oráculos passam uma esponja sobre o passado quando o futuro, em sua forma presente, trata de os contradizer. Têm memória seletiva; e se há de algo que se podem ufanar, é a desonestidade intelectual: só quando improváveis coincidências se conjugam para mostrar o devir em rima com o que pressagiaram, é que se erguem de peito feito e reclamam créditos. Essas adivinhações são acasos. Não têm a regularidade que tutele a condição invocada. Os inverosímeis profetas não conseguem saber do futuro porque nem o futuro sabe como virá em sua revelação. E se nem a posteridade cuida dos seus próprios termos, os simples mortais que querem saber mais do tempo vindouro do que o próprio tempo vindouro só podem ser tidos na conta de aldrabões refinados, senhores de uma impudicícia que é pergaminho para a sua (não) consideração entre os demais.
Devia existir um observatório dos profetas. Seria sua função adivinhar o passado que fosse emolumento perentório dos adivinhadores, a prova dos nove da imodéstia dos seus oráculos, consagrados que são a embainhar a batuta da impossibilidade do futuro. O observatório teria de repristinar as profecias seladas pelos impenitentes aldrabões. E depois faria o favor a toda a gente (menos aos ditos cujos) de cotejar as profecias com o tempo já resguardado do futuro, o tempo em que as profecias deixariam de o ser por ser o tempo que as desmente. Seria possível atestar que é mais fácil adivinhar o passado do que o futuro – o que não encerra nenhuma conclusão surpreendente, a não ser na própria formulação: não é habitual adivinhar o que já teve lugar na linha do tempo. Mas é útil, para expor profetas sem vergonha.
No epílogo das suas funções, o observatório dos profetas faria um lapidar inventário de atividades, ditando o encerramento dos possuidores de oráculo – ou, se teimasse o impudor dos ditos cujos, alimentada por um punhado de seguidores que se esquece dos termos presentes e apenas se interessa com a efemeridade do tempo vindouro, arranjar-se-ia um lodaçal qualquer para os deixar nele a vegetar.

14.5.18

Manifesto (língua franca)

Beirut, “Elephant Gun”, in https://www.youtube.com/watch?v=SWSz_PAfgNc
A promessa: não faço promessas. As contingências podem-se jogar contra as promessas, que exibem seus frágeis alicerces. É mais sensato ir jogando os dados à medida do sol que se põe, sem revirar os mapas com os dedos perfumados por boa vontade, à mercê do voluntarismo que se atraiçoa na curva não esperada. 
Prefiro a língua franca. Os modos estabelecidos em cada palavra, sem estarem agrilhoadas à vulgata, sem serem caução de estética predeterminada. Não me importam as éticas. Não considero as considerações ardilosas, apenas ditadas pelo pomposo protocolar. Tenho em mim os rudimentos de uma língua que se forja, franca: uma língua que não foge à responsabilidade, uma língua que cultiva a musicalidade das palavras, a língua que busca sentidos reinventados nas palavras como penhores da sua própria reinvenção. Mas sempre palavras que não fogem de si mesmas, nem adulteram significados nas entrelinhas próprias de quem não consegue encarar nos olhos quem seja seu interlocutor. Coloquiais ou singelas, fermentando esta língua que se ambiciona franca – a língua entendível, a língua que desiste dos equívocos e dos significados ambíguos; mas a língua que não desiste das metáforas. 
Pode esta língua ser franca a partir de quem é seu tutor. Outro tanto pode não acontecer quando encontra cais nos seus destinatários. A língua franca não pode cuidar dos mecanismos da comunicação. E não pode reverter em favor dos que transitam no limiar da agitada hermenêutica. O arquiteto da língua franca invoca, em sua defesa, que a língua franca que promove parte de alguém que está ao nível da mediania. Não se justificam os embaraços que os destinatários possam usar para fugirem ao entendimento. É domínio que extravasa os limites da língua franca. Ao património da língua franca apenas importa a sua semântica. A linhagem não se intui consensual. Não é essa a vocação. 
Através da língua franca, sucedem-se as metáforas que não são esconderijo das palavras nem celebram um refúgio do que as orações querem enunciar. Seja desta língua franca o lugar não ermo de onde as transações de sentimentos e sentidos possam fluir sem embaraços. E se à língua franca sobrar um lugar assim reconhecido, recusem-se os gabaritos e as celebrações: a língua franca é modesta, não quadra com as manifestações auto-congratulatórias. A língua é franca por agilizar o desejo de a usar (e esta proclamação pode encerrar um duplo sentido).

11.5.18

Deixei as túlipas na jarra


Mogwai, “May Nothing But Happiness Como Through Your Door”, in  https://www.youtube.com/watch?v=t1oxICtQh_A
Não há problema. As túlipas não vão secar. Nem nos dias de ausência. A jarra ficou provida de água bastante. As túlipas hão de continuar a medrar, hão de continuar a ser manancial de um ar puro, exalando toda a sua beleza, enchendo a casa com as suas pétalas carnudas – como se fosse possível as pétalas destacarem-se dos caules que as aprisionam e multiplicarem-se pela casa. Podíamos chamar à casa a casa das tulipas. Das tulipas azuladas, em rima com os dias soalheiros que se compõem e que, depois da chuva do calendário, entram pela pele e nos projetam uma renovação que não podemos desdenhar. 
Podia ter-me esquecido das túlipas imarcescíveis. Podia ter-me esquecido de acomodar as tulipas na jarra que as serve, ficando espalhadas em cima da mesa, à espera que a sede as consumisse num leito de morte. Não houve esquecimento. Sabemos, agora que digo que deixei as tulipas devidamente acondicionadas na jarra, que assim que abrirmos a porta de casa ela se encontra florida à nossa espera. Por todos os cantos, uma irradiação floral que nos atira com oxigénio à cara, para que nunca sejamos reféns da apoplexia. E, através das tulipas que glosam o sol, nas pétalas que se abrem generosamente à luz solar, saciarmos as outras sedes que nos acometerem. Para depois seremos os guardiães do tempo, recusando a sua usura, perpetuando as tulipas como quadro centrípeto da casa. 
Às tulipas, faremos uso em harmonia com a sua altivez. Não seremos seus servidores; às tulipas fica cometido esse papel: podemos rasgar uma tulipa, moldar a matéria das pétalas como se fosse plasticina e dela criarmos artefactos que ornamentam os nossos corpos. Podemos suplicar a uma tulipa que forneça um mapa da felicidade. Não que precisemos, pois já somos tutores de uma felicidade sem raiz quadrada nem número por limite. Não que precisemos; mas não é inglório perguntar à tulipa, assim destacada, se o mapa que nos lega quadra com a felicidade que é nosso ingrediente. 
Esperamos a resposta da tulipa genesíaca. Um daqueles atos predestinados. Fazemos a pergunta e intuímos a resposta: temos a certeza da felicidade de que nos compomos. É das poucas certezas que podemos trazer no embaraço das certezas. E nem carecemos de selo exterior, pois a felicidade de que somos tutores não é apreciada por mais ninguém no exterior de nós. 
Talvez queiramos dar uso às tulipas que estão na jarra a emprestar graciosidade à casa; ou as tulipas personificam a felicidade com que tingimos as paredes da casa. Um mero pretexto, como se fosse precisa a bênção das tulipas que ficaram devidamente acondicionadas, e com água a preceito, na jarra. 

10.5.18

“Eu gosto de escândalos”


Protomartyr, “Wheel of Fortune”, in https://www.youtube.com/watch?v=has3qKCRo0A
(Ficha número xxxxx/1981, do cidadão Xxxxxx Xxxxx Xxxxxx Xxxxxxxx, depositada no arquivo central dos serviços secretos)
“Eu gosto de escândalos. De todos os géneros. Daqueles que vociferam ideias implausíveis, só pelo prazer de ver os situacionistas de todas as estirpes, dando azo à colérica coligação que patrocina os bons costumes, a saírem da toca e, irados, rebaterem um por um os argumentos que são tão implausíveis como a teoria em que se alicerçam.
Eu gosto de escândalos. De provocar as pessoas, desafiando-as a libertarem-se das algemas que tolhem a individualidade. E, ato contínuo, mesmo que se insurjam em coro contra mim, não me importo: ao menos abjuram a letargia que os apequena.
Eu gosto de escândalos. Gosto de dizer o contrário do que penso (mas não sei ao certo o que penso, pelo menos neste momento) e assistir, sentado na primeira fila da plateia, aos iracundos defensores do contrário do que proponho atacarem as ideias que alinhavo. Admito o prazer sublime de vê-los de atalaia à protegida normalidade, soltando os mastins esfaimados que desejam um pedaço da minha carne, mesmo sem saberem que aquilo que proclamo não corresponde ao meu pensamento (seja ele qual for, que não tenho a certeza de ser o que é).
Eu gosto de escândalos. Da promiscuidade, por exemplo. De provocar a volúpia mal disfarçada de senhoras cobertas pelo manto moral da igreja. De provocar o suor no sangue e depois deixar a febre ficar sozinha em seu canto, com a promessa de posterior investida. Gosto de tresandar a imoralidade e de ser apedrejado pelos vícios que não oculto. 
Eu gosto de escândalos. Gosto de infundir polémica intelectual que, não fosse o muito tempo livre dos intelectuais e uma inclinação para polemizar gratuitamente, nem saía dos currais da divergência sanável. Gosto de desafiar a agilidade dos eruditos, de os ver defendendo suas virginais damas em esgrimida prosa gongórica, e de pontuarem os argumentos de autoridade com ataques pessoais que julgam serem desqualificativos da minha pessoa. Engasgo-me com tantas gargalhadas ao vê-los digladiarem-se já em minha ausência do palco da polémica. 
Eu gosto de escândalos. Porque gosto de ser julgado como pária de todos nós. É julgamento que não confere punição (a não ser a que mais me contenta: ser marginalizado das franjas do aceitável, arrostando o rótulo de sociopata). 
Eu gosto de escândalos. Porque detesto concordar, num onanismo coletivo que nos ponha a bolçar mínimos denominadores comuns, pela homenagem ao princípio geral da convergência que se alinha na antinomia das diferenças (vistas como matéria passível de ostracização).
Eu gosto de escândalos. Porque sim – e este é o meu argumento definitivo.”

9.5.18

As consecutivas chaminés que armadilhavam a tenência dos tempos e condenavam as crianças à madurez extemporânea


Zeal & Ardor, “Don’t You Dare” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=BFGU0g1LA9I
Era uma idolatria excessiva: noctívagas enseadas, escondidas das pretensões avisadas, abrigavam os seres cultivados como deuses, ou pelo menos assim por eles próprios entendidos ao olhar outro. Não havia nada a fazer. Os pedestais eram frágeis como a casca fina que protege os ninhos de pássaros. Ao menor contratempo, era toda uma imagem autoconstruída em estilhaços, numa reificação à força, uma aterragem forçada e dolorosa.
Tudo isto fazia lembrar aquelas paisagens severas, mas com predicados encantatórios para cineastas: as paisagens industriais, a sucessão de chaminés arrojando doses maciças de fumo negro, como os seus danos diminuíam o ar doméstico e, mesmo assim, havia artistas que prestavam homenagem à intensa estética do quadro. Não se importavam com os vestígios acumulados na prova da intemporalidade, como as sucessivas camadas de poluição eram o algoz das gerações futuras, quando as terras deixassem de ser férteis, o ar se tornasse irrespirável e aquele lugar passasse a ser inabitável. Todo o peso da infâmia cairia sobre o dorso de crianças inocentes, provavelmente ignorantes do sentido de uma poluição castradora. A imagem derradeira das chaminés seria a sua capitulação, logo a seguir ao êxodo forçado e ao exílio das crianças, condenadas a serem adultas antes do tempo. O mal já estava feito.
A idolatria que se ensimesma tropeça nestas provações. Os demais são indiferentes. Pois os fumos movimentados pelas chaminés têm ancoradouro noutro lugar. Ninguém sabe se os habitantes desse lugar aceitam o papel que lhes está reservado pela decisão unilateral da casa de partida, quando encomenda a algures os fumos indesejáveis. Neste estado de coisas, há uma guerra civil permanente entre os diferentes lugares, entre as diferentes personificações que se digladiam com um manto de silêncio como pano de fundo. 
A sucessão de chaminés e o seu rasto devastadoramente silencioso é a vergonha em que se decompõe a idolatria cultivada. Diz-se, no âmago colonizado pelo ensimesmar: os outros não importam. Até chegar o momento em que um dos outros é necessário e a liga metálica do oportunismo, depois de decapado o verniz fátuo que cobre a veneração, alimenta a infâmia em que se consome quem do outro precisa. Talvez não tenham sido adultos antes do tempo, como se supunha. Talvez não tenham crescido nem com o beneplácito do tempo. Foram poupados ao tempo. Agora, não sabem ser adultos.

8.5.18

O epicurista improvável


Dead Combo, “Waiting for Nick at Rick’s Café”, in https://www.youtube.com/watch?v=ywAPyZ308os
De fonte segura: era exatamente o contrário do que assinalava a sua presença em público. Acreditava-se na sua erudição, nos muitos fóruns em que se fazia notar, na militância desmultiplicada em associações cívicas, nas artes, em que também tinha lugar próprio, no discurso eclético e palavroso. O ativismo frenético só podia ser compatível  - dizia-se, de fonte segura – com poucas horas de sono. 
Era tudo uma máscara. Queria que dele pensassem ser quem a exteriorizada figura aparentava. Fazia de propósito. Garantia-lhe notoriedade, alguma autoridade intelectual que vinha a jeito para contornar polémicas, pois não devem, os investidos de autoridade intelectual, provar os argumentos que terçam em polémicas. Também garantia alguma respeitabilidade, sendo levitado ao degrau de onde espreitam sobre os demais, com sobranceria a preceito, os senadores. As sinecuras que perfilavam privilégios de tratamento eram superiores à sua vontade. Por mais que teorizasse sobre as “virtudes republicanas”, sobre a igualdade como destino a prazo da humanidade; as ideias não ficam mal a quem as lega ao conhecimento, mesmo que desse papel não irrisório subjaza um estatuto de escol.
No seu íntimo, que não mostrava a ninguém (não fosse sua escolha uma reclusão monástica), era tudo na antítese do que exibia a abundante presença pública. Era epicurista. Se dele se descobrisse tal faceta, adivinha-se o sobressalto que a revelação causaria. No seu íntimo, desligava da corrente elétrica a que parecia perenemente ligado. Não lia. Não via televisão. Não se importava com as ideias que eram atiradas, em seu perfeito contraditório, para a arena onde eram adestradas. Não escrevia uma frase que fosse. Dormia dez horas por dia. E nem com a morte se importava: um insolúvel agnosticismo não o amedrontava diante da morte e nem testamento deixara – os distantes sucessores que resolvessem o legado. 
A epiderme de epicurista improvável era a válvula de escape para a condição da visibilidade pública. Sabia que tinha um desígnio: fazer da presença aos olhos dos demais o oposto da intimidade que reservava do olhar alheio. Ninguém sabia do seu incorrigível lado epicurista. Como perseverava em esconder o lado íntimo do olhar alheio (ou não fosse ele, por definição, íntimo), provinha na abundante presença pública a antítese do que se reservava a ser na fortaleza que escondia de toda a gente. Pelo tempo fora, sempre guardou a dicotomia de personalidades. 
A certa altura, ficou apreensivo. De tanta dicotomia de personalidades, não sabia qual delas (e se alguma delas) correspondia ao seu eu. Já não sabia se era de esquizofrenia que se tratava, ou se conseguia conter dentro de dois herméticos hemisférios personalidades que gravitavam num contraste tão perturbante. O epicurista venceu o braço-de-ferro: a dúvida existencial não tem lugar na medula de um epicurista. Depressa lhe passaram as dores existenciais e continuou, mas em segredo, a ser lídimo epicurista.

7.5.18

BTT


Trickly ft. Selah Sue, “Sun Down” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=LWqXWzLJCxE
O óculo monolítico ata as asas e impede voos promissores. Condene-se, pois, o monolitismo ao degredo. Em sua substituição, uma BTT – uma bicicleta que anda em todos os terrenos. Pois as letras assimiladas devem ter origem na diversidade. De outro modo, o afunilamento da peritagem é um caminho que acantona o pensamento, aprisionando-a à mesmice. 
Para não medrar em sua pequenez, nem se adestrar em cálculos que transitam pelo de sempre, pega-se na BTT e palmilham-se múltiplos terrenos. Vão mudando, um dia atrás do outro, para devolver a estafa à procedência – à procedência onde campeiam os homogéneos interesses. Se as circunstâncias exigem a perícia como condição funcional, a escolha da perícia não pode prejudicar a variedade de conhecimentos. Os heterogéneos conhecimentos podem ser um legado para a própria perícia que a função exige: entrecruzam-se os saberes, aprendem uns com os outros, põem-se à conversa sem nenhum deles encerrar a porta aos demais, servem de teste surpreendente às teorias ancoradas na área pericial, tudo num holismo que se abraça a todos os terrenos a que se pode abraçar, sem recusar terrenos ainda por explorar. Pois quando sabemos de cor as cores de um chão amplamente percorrido, a letargia toma conta do pensamento e a imaginação soçobra aos pés do entorpecimento. Quando sabemos de cor as cores de um chão amplamente percorrido, o desmazelo, próprio de quem se convence dos pergaminhos de perito, impede que o olhar se inquira fora da caixa – fora de uma caixa que se torna cada vez mais exígua, apequenando o próprio pensamento.
Na posse da BTT, o critério alarga o olhar, que transborda para outros caminhos, enriquecendo a linguagem com o vocabulário e o raciocínio dos novos chãos apreendidos. Se não, torna-se impossível fazer desvios que desarticulam as agendas, desvios que, por serem inesperados, não vinham no roteiro. Na posse da BTT, as próprias agendas perdem serventia. O melhor é deixar vir às mãos o sedimento de cada maré, sem virar o rosto aos caminhos por conhecer, nem desistindo, à primeira contrariedade, dos chãos que deram luta depois do primeiro conhecimento. 
A BTT aprovisiona o tirocínio do pensamento em sua rica diversidade.