21.9.18

Todos temos uma teia de preconceitos que nos enreda (short stories #35)


Sugarcubes, “Birthday”, in https://www.youtube.com/watch?v=edmDN11BxCY
          Quando alguém denuncia um preconceito, pode dizer que não tem os seus (talvez bem escondidos – ou apenas, os seus obnubilados) preconceitos? É repulsiva, a bazófia moral dos que patrulham preconceitos dos outros e os apontam a dedo como matéria altamente danosa, como se alguém lhes tivesse pedido para serem juízes da integridade alheia – e como se, a eles próprios, não fosse dada a inventariação dos seus preconceitos. Não se acredite que haja vivalma imune ao estigma dos preconceitos. O sindicalista insurge-se contra os fartos proventos do banqueiro; tem aversão aos obscenos lucros que revertem para os afortunados. O sindicalista denuncia o preconceito do banqueiro: o libelo acusatório é do banqueiro como alma grotescamente empedernida, insensível às carências dos necessitados. O sindicalista talvez não conheça o banqueiro a ponto de poder afirmar o preconceito que dele ensaia protesto. O pressuposto é linear: o banqueiro é abastado e não olha para baixo, onde vive à míngua um numeroso exército de necessitados. Partir deste pressuposto é um preconceito: o sindicalista objeta os proventos do banqueiro e associa-os à sua recusa da prodigalidade na assistência social. O sindicalista limita-se a adivinhar: medra no seu próprio preconceito. O banqueiro acusa o sindicalista de ser um poltrão. (Por concessão legal, o sindicalista está dispensado do trabalho no banco para se dedicar às tarefas do sindicalismo.) O banqueiro afirma o seu preconceito: como o sindicalista não trabalha no banco, não trabalha, simplesmente. Para o banqueiro, o sindicalista é um parasita. Não sabe se o sindicalista não gosta dos lavores profissionais; adivinhando, esconde-se na cortina baça do sindicalismo que lhe causa transtornos para tirar conclusões precipitadas – conclusões que têm o preconceito como distintivo. No mar tumultuoso dos preconceitos, a posição cómoda é patrulhá-los como casa da partida para a denúncia agressiva. Ao sermos acusadores do preconceito do outro, raramente admitimos que partimos de um preconceito de sinal oposto. De onde se pode concluir que não há mal em termos preconceitos que nos enredam. Todos temos. O segredo está em não acusar os preconceitos que não são nossos. Para podermos gerir os nossos com algum conforto de consciência.

20.9.18

Ato falhado (short stories #34)


Tricky, “The Only Way” (live at France Inter), in https://www.youtube.com/watch?v=S2iNRBWzeBY
          Grandiloquente projeto irrompe numa alvorada disposta no mapa das possíveis proezas. Em silêncio, apenas no recobro do pensamento, desenham-se os contornos. Primeiro, as linhas-mestras. Depois, as fronteiras em que se contém o projeto. Em sua sequência, os detalhes vão saindo do novelo. Ramificações que se desdobram em sub-ramificações. Um todo já complexo e ainda não foi alinhavada uma frase no papel. As ideias ficam a fermentar, o dia inteiro. Parece que esse dia foi de hibernação: não fosse pela convulsão do pensamento, dir-se-ia que foi um dia que saltou por cima do calendário. Depois do sono, as ideias voltaram a sussurrar ideias outras ao pensamento. Mais ramificações numa árvore já densa. Até a ver, o pensamento conseguiu guardar na memória a planta onde a ideia se esboça. Mas depois há outras empreitadas que se metem pelo caminho. Empreitadas umas urgentes, ultrapassando a ideia que cristaliza o projeto grandiloquente. Outras, tornadas urgentes como pretexto para procrastinar o projeto. Até parece que o projeto, de tão grandiloquente, amedronta. Tolhe o pensamento, sobressaltado com tamanha ousadia, incerto da capacidade para pegar de caras na ideia e levá-la pela trela por onde ela quiser ir. Talvez seja isso: o medo de que a ideia ganhe corpo próprio e se emancipe da ideia como foi desenhada nos seus alvores. Esse medo não devia adejar. As ideias podem ser obrigadas a percorrer um curso diferente do pensado no início. As hipóteses podem formular interrogações que se desdobram em interrogações posteriores que levam a lugar nenhum; ou que são a caução de outras interrogações que obrigam a desviar o curso da ideia. É quando a ideia se enovela na complexidade. Por mais que o pensamento se afirme despojado de peias, pode travar o passo ao ser desafiado por uma complexidade que transborda as possibilidades. Ou pode ser apenas o espaço sideral entre as ideias formuladas em pensamento e o entorpecimento de as passar ao papel, o pensamento trespassado pela sua própria gula. À frente da página em branco, sitiado por uma incapacidade de fazer passar as ideias a escrito, uma voz sem rosto murmura incessantemente o ato falhado. Não faz mal. Ao menos, fica registada a tentativa para memória futura. 

19.9.18

A não demonstração do iniludível: deuses com pés de barro (short stories #33)


Kid Creole & the Coconuts, “I’m a Wonderful Thing, Baby”, in https://www.youtube.com/watch?v=-RGgSdQubnM
          Quão bem fazem as termas – e o chá de camomila; e um banho de modéstia? Muito. Sobretudo se as parangonas desfizerem a unção quimérica que se abate sobre os (soi-disant) predestinados. É um banho de sinal contrário: um banho de humildade, as águas temperadas com um módico de realidade, só para perceberem que o pedestal não tem alicerces e o cais em que se dizem ancorados é uma ilha fragilmente hasteada no meio de um mar cercado por nada. À ideia dos deuses com pés de barro opõem-se as impossibilidades. Primeiro, da ideia de deus. (A negação metafísica e a discussão que se segue é deixada para outras núpcias.) Segundo, o barro é de uma fragilidade confrangedora. Na aparência, matéria pétrea. Ao menor abalo, qualquer que seja a tergiversação, o barro funde-se com a sujidade do chão onde se despedaça. Os vestígios, mesmo que sejam colados, não permitem a fruição do original. É apenas um sucedâneo, com a inerente adulteração. Afinal, o iniludível é um embuste. O ponto de mira sem presa à vista, um tiro de pólvora seca. As proclamações contundentes não passam de palavras vazias. As juras são o despeito do passado. Em vez do verniz, e uma vez ele decapado, a autêntica essência deixa à mostra deuses com viabilidade humana – logo, se bem se percebe a ideia dos que patrocinam a deificação, uma contradição de termos (a divina condição não estará ao alcance dos simples mortais). Talvez por isso esteja adjacente a ideia dos pés de barro. Serem só os pés é revelador; falta o resto para se imbuírem de uma armadura inexpugnável. Mas mesmo que sejam de barro os pés, não se percebe que divina condição lhes assiste. Pois se de barro são feitos seus pés, e se o barro é matéria inerte que condena os passos à inércia, estes serão deuses que não saem do mesmo lugar. Triste destino, o destes putativos deuses, condenados à exiguidade de um espaço. Prouvera um pouco de termas (ou de chá, ou um banho de modéstia), para ao menos alargarem horizontes e fazerem jus à (soi-disante) condição de deuses.

18.9.18

A conspiração dos estrénuos (short stories #32)


Lisa Gerrard, “Sanvean (I Am Your Shadow)”, in https://www.youtube.com/watch?v=1xpkRj99FH0
          Uma bênção com águas especialmente bentas e, todavia, pagãs: meio mundo (ou talvez mais) espera na fila pelas prebendas que a fortuna dos conhecimentos certos lhes possam calhar em sorte. Diz-se que uma multidão prospera na exata medida desta equação. Protestam os revoltados: de fora fica um escol que esbarra numa insuficiência insanável: não lhes é conferido o conhecimento certo (direto ou por interposta pessoa) que abre as portas certas e perverte a escada do valor. Os estrénuos condenados à insignificância reúnem-se em sindicato. Exigem outro método para a distribuição das sinecuras. Seria necessário empossar um imparcial juiz das escolhas, com meios para apurar se as sinecuras beneficiam os mais capazes ou os que têm a fortuna de gravitar nos conhecimentos que abrem as portas certas. Os segundos seriam travados de tomar conta das sinecuras, a não ser que, além do conhecimento facilitador (palavra em moda) ficasse provado que se distinguiam da concorrência depois de compulsados os critérios relevantes. Em caso de não ser possível (ou de não haver vontade para dissolver o poderoso sindicato dos conhecimentos que abrem as portas certas), os estrénuos ameaçam passar à ação direta. Primeiro, denunciando nos jornais os aberrantes casos de seguidores de gente importante que, apenas por possuírem essa condição, são escolhidos para uma função. (Porventura teriam de indagar se os jornais não se encontram a soldo desses influentes meios.) Segundo, comparecendo nos lugares a concurso no dia da tomada de posse, deitando mão ao livro em que ficam seladas as tomadas de posse, assim impedindo que as sinecuras fossem monopólio da gente errada com conhecimentos certos. Quando fossem expulsos na decorrência da intervenção policial, os estrénuos deixariam panfletos significativos da ação, deixando a nu os não-critérios e a embusteira escolha de afilhados, de afilhados de afilhados e de gente com militância cirurgicamente escolhida em partidos e em sociedades secretas. Até tudo se questionar – até os pergaminhos dos estrénuos, que em alguns (ou muitos, depende da perspetiva) casos estar-se-iam a passar por condecorados sem condecoração e sem objetivo direito à comenda. Às vezes, é quase impossível distinguir o despeito da revolta fundamentada.

17.9.18

Do circo como arte quotidiana e estranhamente não reconhecida (short stories #31)


Trentemøller, “Deceive”, in https://www.youtube.com/watch?v=rcBVG-n6Hts
(Subsídios para uma nova teoria da luta de classes, versão século XXI)
Petição de princípio: somos todos palhaços e raramente damos conta. Também se podia dizer que somos a carne para canhão no patamar dos poderosos e que não temos armas para contrapor a infâmia porque não damos conta do papel em que somos colocados. Meros peões na arenga dos fortes, mexem-nos a seu bel-prazer e com a nossa aquiescência – melhor dizendo: contando com a nossa passividade. Ou ainda, e com recurso ao vernáculo, ficamos na posição passiva de quem é sujeito a fornicação por outrem, sem haver um módico de intimidade que sugira o ato, e com a agravante de, por não nos ser dado a saber que estamos rendidos àquele papel, não tirarmos prazer do ato lúbrico. De todas as hipóteses, a de palhaço parece a mais fidedigna. Descontando a narrativa do fado, e um certo sentir nacional que puxa ao melancólico, anuímos abulicamente e com um doce sorriso pespegado no rosto, vítimas das experiências que os poderosos ensaiam em nome do bem-estar social. No apuramento dos resultados, o progresso (de que se diz ser a métrica que avalia o andamento dos tempos) é uma cilada. Ao contrário do propagandeado, o progresso só é tangível para um punhado de afortunados. Os mais novos parecem condenados a não ter as mesmas oportunidades das gerações antecedentes, contrariando a lógica do progresso (que se revê numa farsa). E rimos e fazemos de conta que estamos felizes e compensamos com o papel de consumidores, no congresso onde se liquidam as contas do grupo com o bem-estar. Para coroar o cenário risível, damos caução aos próceres que nos afocinham numa espiral de desesperança que, todavia, não é detetada. Daí sermos palhaços. Levamos às costas os poderosos, autênticos parasitas com a sua covardia sem disfarce. O que só é possível porque continuamos em letargia, presos ao jugo da ignorância – ou, quando não existe ignorância, sitiados pela catilinária da indiferença. Não damos conta, mas andamos nas ruas com uma farta bola vermelha no lugar do nariz, uns andrajos fartamente coloridos e uma cabeleira que simula semi-calvície. A semi-calvície que metaforicamente ostenta o zelo que se dissolveu nos vasos que ficaram ausentes de ornamentos capilares. É histórico: o mundo sempre precisou de um elemento circense.

14.9.18

Apeadeiro (short stories #30)


The The, “Good Morning Beautiful”, in https://www.youtube.com/watch?v=fwv9IAKajc4
         Há uma inexplicável descoincidência entre os apeadeiros e a atenção que deviam merecer. Os comboios apressados passam pelos apeadeiros quase sem darem conta. Nos comboios apressados, de tanta a velocidade, não é possível saber a que terra corresponde o apeadeiro. Dir-se-ia: são comboios importantes; e os apeadeiros, pequenos pontos irrelevantes na cartografia dos comboios, pouco fazem para sequer chegarem ao estatuto de figurantes. É a metáfora acabada dos tempos vertiginosos. De tanta ser a pressa para apressarmos o tempo, queremos que se encurte a distância entre a casa da partida e o destino. Tudo pelo meio perde validade. No afã de tão depressa arrematar o destino, toda a distância entre a casa da partida e o destino é um contratempo. Não chega a haver atenção para os segredos escondidos nos lugares que medeiam a casa da partida e o destino. É o fatalismo que nos cerca, na sociedade cheia de pressa para esgotar o seu tempo – nesta sociedade tão etereamente circense. (No âmago do mais controverso paradoxo: é como se estivéssemos fartos do tempo e nos apressássemos a exauri-lo, como medida certa para a finitude que nos espera.) O olhar distrai-se. Sob o seu perímetro escapam as paisagens bucólicas, os lugares ungidos de beleza, as lições de cultura embebidas nos exíguos lugares que ficam sem recordação, um canto do tempo que, de tão sublime, se emoldura na sua possível intemporalidade. Os apeadeiros materializam a lente desfocada de que é tributária a modernidade para onde somos atirados. Os apeadeiros são espasmos que se metem no meio da apressada cavalgada do comboio importante. No fogaréu das coisas entendidas como importantes, o olhar sitia-se num equívoco. Numa camada inferior à sua alçada, perdem-se na desmemória todos os apeadeiros que mereciam demorada paragem. Até que haja tempo para entender que o tempo não merece ser precipitado. Até que à lucidez venham os rudimentos das pequenas e intensas coisas que se sobrepõem às miragens infecundas, aquelas que dispensam a paisagem estabelecida entre a casa da partida e o destino marcado a tinta da China. 

13.9.18

Dou-te um Tejo de presente (short stories #29)


Indignu [lat], “Foi Outubro”, in https://www.youtube.com/watch?v=rPWMco2rutc
          Não olhes o vazio do tempo. Que os jardins alindados, em sua aformoseada constelação de cores, inundem o olhar com os pergaminhos da candura. Em caso de dúvida, regressa à mnemónica, ao estiolado vulto que já não açambarca medos, ao ramalhete de rosas silvestres que empresta aroma às manhãs. No sopé das maravilhas, onde teu seio acolhe a mão minha ávida, ascendemos ao lugar onde pertencemos como soberanos. Metemos pelas ruas estreitas sem saber onde estamos, sem saber sequer para onde vamos. Deixamos os sentidos ganhar corpo e sobre os corpos prevalecerem. Há um ode longínqua que reverbera suas estrofes no peito que as chama. Não precisamos de hinos. Aspiramos ao promontório escondido de onde desenhamos a janela que se verte sobre o mar. Podia dizer: “dou-te um Tejo de presente.” E digo. Mesmo sabendo que um Tejo de presente é pecúlio magro para a soma de mundos que me trazes de repasto. Mesmo sabendo que do presente somos tutores sem medo. E vamos à orla do Tejo, onde a maré baixa deixa à mostra os vestígios não levados pela maré antecessora. Percorremos o chão túrgido que se abeira do rio. Não nos assusta o chão enlameado. Se deitássemos uma régua no fio que encima o leito do Tejo, haveríamos de descobrir as equações não simuladas que desembaraçam os equívocos. Só por curiosidade. Que um olhar de rompante, fulminante como a trovoada é admirada enquanto fenómeno da natureza, descobre em nós o apetite pelo mundo. Trazemos as palavras do ninho de onde as descobrimos. Sabemos o que fazer com elas. Como ninguém. Sabemos como as compor num sortilégio sempre inacabado. Às medidas protocolares, dizemos que não. Pois o Tejo, em seu amplo estuário, tão amplo que reduz a quase nada o casario do outro lado da margem, é uma força arrebatadora, o caudal onde se sufragam as luzes diuturnas. O Tejo que te dou de presente, é o chão sereno onde as convulsões se saldam. O Tejo que te dou de presente, o casario insaciável onde se deita o tempo na sua medida certa.

12.9.18

Contra os tempos dantescos que se auguram, uma teoria das expetativas aumentadas

Goldfrapp, “Utopia” (live at Somerset House), in https://www.youtube.com/watch?v=qVsETSgiMnU

(Mote: “The Monarchy of Fear: A Philosopher Looks at Out Political Crisis”, 
Martha C. Nussbaum, Oxford University Press, 2018)
As sombras acastelam-se, deixando um aroma nauseabundo tomar conta do horizonte. Parece que não aprendemos com os erros que a História nos ensina. Há quem emudeça a memória e caia na vertigem de fazer o passado enodoado ser tutor dos tempos vindouros. Os sinais multiplicam-se. O populismo estéril; a nova direita que retoma a pulsão do nacionalismo, da autarcia, da voragem do ensimesmamento, em que os outros são o viveiro das desconfianças e do repúdio – em que os outros chegam a não ser tratados como pessoas; a entorse da democracia (rebatizada “democracia iliberal”, numa perfeita contradição de termos), com constantes atropelos à tolerância e às liberdades que se julgavam património imaterial da democracia; com a velocidade de uma bola de neve que desce a montanha, recrudescem os radicalismos que conferem viabilidade (e legitimidade eleitoral) a movimentos que negam o concurso de ideias que lhes permitiu fazer prova de vida; e tudo – repita-se – em pura contrafação da História, parecendo que a memória dos Homens é curta, ou que se reinterpretam acontecimentos na usura de quem lhes nega visibilidade nos arquivos da memória.
Do lado oposto, radicalismos de sinal contrário. Evocam a desmedida dos tempos, os crimes julgados, a memória da História. Insistem que não deve ser dada voz a quem não respeita os outros, a quem passeia no limiar da intolerância e não se esconde do impudor dos métodos violentos para calar quem deles discorda. Do lado oposto, crescem as vozes que querem calar quem os quer calar. Protestam: não se pode iludir a História e dar palco a quem dá caução a tantas atrocidades; devemos desconfiar de quem se esconde das responsabilidades mundiais e prossegue na senda da provocação gratuita, atuando como pária quando devia ser ancoradouro de estabilidade. Do lado oposto, emerge um discurso que é tão intolerante como a intolerância que quer combater. 
Não se entende que uma intolerância seja melhor do que uma intolerância com diferentes pergaminhos. Nem é de aceitar que no salutar concurso de ideias, que deve ser o esteio das discussões na praça pública, alguém ouse silenciar o oponente porque o oponente é geneticamente avesso à tolerância e ao respeito pelo outro. Pode-se argumentar, outra vez, com as lições da História: se o oponente tiver oportunidade, serve-se do seu autoritarismo sanguíneo e silencia-nos. A bem ou a mal, que o oponente não olha a meios para alcançar os objetivos. Há uma forma diferente de encarar o desafio que vem do futuro. Em vez da crispação que alimenta crispação e que pode desaguar em violência ou num resultado fatalmente pior, devemos ter a disposição para a discussão de argumentos. É o que Martha C. Nussbaum chama amor. Eu acrescentaria: amor contingente – contingente, por ser uma adaptação aos desafios colocados e por ser um amor diferente daquele a que estamos habituados (amor filial, amor familiar, amor com quem partilhamos a vida). Não podemos engrossar o exército dos que se propõem colorir o horizonte com sombras, numa espiral interminável que não é bom presságio. 
Devemos alimentar uma teoria de expetativas aumentadas. Só se pode confinar os intolerantes a um reduto insignificante se com eles forem discutidos os assuntos que interessam. Se nos recusarmos a sentar à mesma mesa, virando o rosto à discussão, somos culpados de eles se fazerem passar por vítimas. Há muita gente que se deixa seduzir por quem se oferece ao papel de vítima. Isolá-los, deixá-los sozinhos num monólogo, deixá-los arcar o papel de vítimas, é meio caminho andado para arregimentarem mais lealdades. É o método errado. Quando dermos conta, somos minoritários e ficamos expostos às atrocidades que adivinhamos que podem cometer. 
É este o sentido do amor preconizado por Nussbaum. Amor, no sentido de amarmos os valores que são o húmus da civilização e de por eles estarmos dispostos a discutir com quem deles se afasta. Se deixarmos os intolerantes a falarem sozinhos, não os confrontamos com a discussão. Se elevarmos a fasquia e formos concorrentes com eles no domínio da intolerância (porque há quem continue a supor que a sua intolerância é derrotada com a nossa intolerância em relação a eles), estamos a dar-lhes os trunfos que eles anseiam. Os descrentes podem duvidar do método, podem até acusar o toque de um certo lirismo sem chão para prosperar – assim como assim, dirão, este amor dirigido aos oponentes pode ser o pasto para a nossa consumição. Pesados os prós e os contras, o amor contingente parece melhor método, por mais lírico e extravagante que pareça. 

11.9.18

Pós-moderno (short stories #28)


Viagra Boys, “Sports”, in https://www.youtube.com/watch?v=QjL7D33xpS4
          Os garfos em cima de mesa, protocolarmente deitados em sinal de fim de refeição, deixaram de ser modernos. Tiveram uma modernidade efémera: duraram enquanto foram serventuários da refeição (enquanto a cultura não decide mimetizar costumes outros que ensinam a comer à mão – talvez uma proposta de modernidade que ensaie seu lugar). O livro acabado de ler também perdeu serventia. Por mais que convoque os leitores para uma visão ousadamentefuturista sobre os temas contemporâneos (ao jeito dos iluminados que estão sempre três – ou mais – passos à frente dos demais, dando-lhes uma vantagem de presciência que termina vertida em forma de livro), e por mais que tenha feito, enquanto leitor, um esforço para ao menos compreender o argumentado, o livro perde a voraz modernidade porque as ideias foram assimiladas e as sinapses decretaram a sua falência como ideias aceitáveis. A própria maré alta, prevista para as dezasseis horas e cinquenta e sete minutos, será arcana quando tiver o seu epílogo e for substituída pela maré a vazar. Os gurus de qualquer coisa, visionários do domínio de sua peritagem, são nomeados por si mesmos zeladores da vanguarda. Ufanam-se de estarem à frente dos comuns mortais (como se fosse possível, por esse ato de diferença, garantir um estatuto de perenidade). Ficam no limiar da apoplexia quando são desafiados por oponentes ou – o que piora o diagnóstico – dissidentes. Entram em negação quando lhes provam a falsa fartura do proclamado. Não aceitam que os pergaminhos da modernidade, quais faróis que dissolvem as trevas do atavismo e garantem a claridade benigna aos demais, sejam hipotecados. Insiste, em protesto contra os arautos de qualquer modernidade: a modernidade esgota-se no momento da sua tradição. É o tempo, não açambarcável como o vento que se desembaraça dos dedos, que atraiçoa os titulares da modernidade. Menos sentido se intui aos rótulos que atiram a modernidade para avançados estados de maturidade. Se a modernidade se consome na efemeridade inata, não é o ardil de adicionar o “pós” à “modernidade” que a salva do rogatório obsoleto.

10.9.18

Obsoleto (short stories #27)


The Sound, “Winning” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=TUmF8xuSyoA
Da frente para trás, para poder convocar o impecável oráculo que adivinha o passado quando ele é visto desde o futuro; e para poder garantir que alguém é obsoleto, imprestável para os desafios consultados desde a magnífica varanda da modernidade. Obsoleto: como se sê-lo fosse uma sanha; e como se houvesse um manto de infalibilidade dos juízes que decretam a obsolescência de alguém. No conciliábulo das coisas datadas, até para os que se esquecem do passado (porque não é nessa dimensão que a vida é levada) a acusação impenitente que se abate sobre o obsoleto é uma ferida em carne viva. Quase apetece navegar pelas mesmas águas integrantes da obsolescência recusada (mesmo que nada haja nelas que cative um módico de identificação). A soberba dos gurus da modernidade (dos que assim se autoproclamam) é o convite perfeito para transitar nos seus antípodas. Quando surgem, ufanos e assertivos nas sentenças à prova de contestação, motivam um repúdio liminar. Não fosse dado saber das águas constitutivas em que navego, diria que o chamamento das coisas datadas e lançadas para a indigência é heurístico; não fosse saber que não alinho nessa comunhão, e não fosse saber o lugar que habito, a infâmia dos gurus da modernidade quase me atiraria para uma orfandade de referências (não fosse o mundo muito mais complexo do que a leitura binária destes gurus). Aos que ditam as modas e selam com sua imensa presciência o fardo pesado da obsolescência, fica a calúnia de não se conseguirem extrair do pequeno mundo em que lobrigam. É uma forma peculiar de autismo. Com a agravante de que se acham possuídos de dotes especiais, talvez com uma qualquer cobertura divina, para ditarem regras que os demais devem acatar. De tanto ditarem (modas e regras e os estamentos do que é datado), são autênticos ditadores. E os ditadores, o máximo que merecem é o mutismo da nossa atenção.