20.9.19

(Descobrira) A sensatez como método de engate


The Sisterhood, “Giving Ground”, in https://www.youtube.com/watch?v=SX5cfMMM-LI
Foi por acaso. Um dia, pediu-lhe uma opinião sobre um problema pessoal. Ficou perplexo. Lida mal com problemas pessoais, a começar pelos seus. Os dos outros são um corpo estranho e, ao contrário do que estava vulgarizado (dizem: é mais fácil resolver os problemas alheios, porque não são os problemas próprios), ele sentia-se sem jeito quando sentia esta cumplicidade existencial como uma intrusão. 
A custo, esboçou uma teoria sobre o problema e, usando as suas reconhecidas capacidades de organização do pensamento, entreteceu um fio condutor que ia da análise ao diagnóstico. Por cautela, concluiu advertindo que seria assim que procurava resolver o problema se ele fosse seu (sem ter a certeza do que dizia) e que, ainda assim, não tinha a certeza do que acabara de sugerir.
Foi como se o clique tivesse desatado e ela, inebriada com tanta sensatez (“não estou habituada a que os homens tenham sensatez”), passou para o papel de seduzida. Ele era capaz de jurar que não puxara pelos galões da sensatez para a seduzir. Ou melhor: não recusava a possibilidade de um affair, mas não usou a sensatez como estratégia para a seduzir. Assim como assim, ele nem se tinha em boa conta como tutor da sensatez e muito menos lhe era dado a saber que havia mulheres que davam o flanco (por assim dizer) quando banhadas na água da sensatez exposta por quem a elas se dirigia, sobretudo se elas se participassem à luxúria.
Não se fez rogado; um homem que se preze – e ele prezava de o ser, no âmago de uma certa masculinidade que hoje se convenciona adjetivar “tóxica” – não deixa passar uma possível conquista entre os dedos. Naqueles tempos mortos, em que o espaço era dado ao pensamento, continuava surpreendido como o dom da sensatez podia ser o detonador de um engate. 
(Confirmando a masculinidade tóxica, pois o termo é denotativo de unilateralidade, quando a sedução exige reciprocidade. Mas essa era uma análise a que ele não conseguia chegar, dada a educação que tivera e a convivência com homens que, de uma certa forma, “coisificavam” as mulheres.)
Estava atónito. Ele há mulheres de vários géneros, como homens de vários géneros. Como a lascívia de uma relação carnal era compatível com a sensatez como seu detonador, era algo que não conseguia explicar. Porventura, porque todos temos um pouco de contrários, procurando através da sensatez o equilíbrio que propositadamente desaparece quando os corpos se enredam. 
Aprendeu: a sensatez dava frutos. Recolhia esses frutos, a preceito com a sua imensa masculinidade, e do passa-a-palavra sobressaía, pelos testemunhos dos amigos mais próximos, o sucesso da estratégia. Elas não diriam ser uma estratégia, mas tão pouco sabiam dos processos interiores do raciocínio. Talvez apenas se importassem com a volúpia e se entregassem a uma posição inicial de fragilidade, como quem está carente de sensatez como ponto cardeal para o demais. 
A páginas tantas, estava cansado de ser um farol de sensatez. Não estava cansado do demais.

19.9.19

O guarda-redes de hóquei em patins que tinha uma interminável confiança na bondade dos Homens


Joan as Police Woman, “The Magic”, in https://www.youtube.com/watch?v=ZPqVig-ggMw
“Todos deviam pôr os olhos no guarda-redes de hóquei em patins”, advertia, sem querer passar por tutor da moralidade ou impositor de um imperativo categórico que todos tivessem de cumprir.
(Porventura, o “todos” na frase podia ser considerado excessivo, se as suas intenções fossem treslidas. Se preciso fosse, ele esclarecia que “todos” não convoca uma interpretação literal.)
O guarda-redes de hóquei em patins tinha um depósito sem fundo na espécie humana. Era como se fosse o banco central da humanidade, com conta aberta, e a descoberto, sem limite de fundos, a favor da bondade intrínseca dos Homens. Em cada episódio que soava a soez desvio de uma alma humana, o guarda-redes de hóquei em patins congeminava uma teoria justificava do comportamento desviante. Ele teorizava, partindo deste princípio: se o comportamento era desviante, algo de exterior ao indivíduo estava na origem do desvio. A pessoa, sozinha, nunca era culpada de nada que a retirasse do plácito da bondade.
Houve um caso em que um homem foi acusado de vários assassínios. Em julgamento, não se arrependeu. Confessou tudo e, provocando os costumes, anunciou que se o tempo voltasse atrás faria tudo igual. O guarda-redes de hóquei em patins investigou. Chegou ao seu conhecimento um punhado de circunstâncias (que não quis revelar, para não violar a lei geral de proteção de dados) que era o lastro para o comportamento desviante. No final, revelou que o criminoso foi vítima das circunstâncias que o sitiaram. Fosse o guarda-redes de hóquei em patins o juiz e a absolvição teria sido consumada.
Noutro caso, um casal (homem e sua amante) urdiram uma armadilha para retirar do mundo dos vivos a consorte da segunda. A sociedade insurgiu-se, censurando o estratagema e punindo o homicídio em dobro – pelo homicídio em si e com a agravante de a trama ter sido montada por dentro do adultério; e a sociedade dos bons costumes não tolera o adultério, sobretudo quando é cometido pelos outros (essa deletéria reticência). O guarda-redes de hóquei em patins saiu em defesa do casal ostracizado. Exortou os concidadãos a despojarem-se do preconceito e a sublimarem o amor que levou o par a extravasar dos parâmetros convencionados. Fosse o guarda-redes de hóquei em patins o juiz e a absolvição teria sido consumada.
Depois, o guarda-redes de hóquei em patins arranjou explicações para um político que tinha sido apanhado em contumaz mentira. Quando já o político tinha caído em desgraça, arrastando o seu cadáver (político), o guarda-redes de hóquei em patins, que nunca votou neste político, explicou, uma por uma, as razões da mitomania. As mentiras estavam perdoadas. Fosse o político a votos outra vez, teria o voto do guarda-redes de hóquei em patins.
“Vejo sempre o guarda-redes de hóquei em patins com um sorriso no rosto. Sempre. É o mínimo denominador comum – a pior das hipóteses. Vê sempre o lado cheio do copo semivazio. Não aceita a maldade dos outros. Prefere encontrar os rudimentos da bondade. Não se cansa de defender que a bondade é intrínseca. Já o ouvi dizer: ‘se o Homem tivesse sido criado para a maldade, não tinha sido dotado de razão. Não se distinguia dos outros animais’. E assim segue pelos dias fora, amanhecendo em rima com o sol radioso.” E depois percebeu que o guarda-redes de hóquei em patins tem esta inata condescendência por causa da função: “assim como assim, o guarda-redes de hóquei em patins está habituado a ser a muralha que impede os golos do adversário. E dá o peito às bolas, sem tergiversar.”

18.9.19

Petição de princípio (short stories #160)


New Order, “Ecstasy”, in https://www.youtube.com/watch?v=2jLVV-eOiAw
          Pertenço a uma casta sem paradeiro. Não deixo que as páginas amareleçam nem que sejam assaltadas pelo tempo estrénuo. Se duvido, persisto na consagração da pergunta, como se fosse um banquete para alma. Leio. Observo. Pergunto outra vez. Sem o sono ausente, que é embaraço. Dizem que ao avançar na idade precisamos de menos sono. Sobra o tempo; mas todos protestamos, em coro com a moda dos assoberbados, que faz falta ter mais tempo para o que se não tem tempo. Aproveito o mar para tirar notas. O luar para decifrar músicas. Dou às mãos a maresia que se insinua desde um lugar distante e se faz cais na minha morada. Da noite não espero nada, se não sonhos. Um património imaterial. Os sonhos que vêm de uma fábrica de prodigalidades. Às vezes, não sei que palavras encontrar. Não sei que palavras escolher, depois de satisfeito o dilema precedente. Revolvo o processo desde as fundações: pode ter acontecido que as palavras encontradas sejam órfãs, o que contamina o processo de sua escolha. Não importa. É sempre preferível ao silêncio, menos quando o silêncio é a poesia que se contempla na embocadura da janela. O vento frio tutela o corpo. Não tenho frio, apesar de atestar tratar-se de vento frio. No meio de um nada, um vestígio é uma fortuna. Esse é o sortilégio: demandam-se os pequenos nadas que se transfiguram em fortunas desmedidas. No palácio da escassez, um pequeno rudimento aromatiza a literatura de que somos intérpretes. Os pequenos nadas não se compadecem com as empreitadas soberbas. Amo o amor como o amor me traz por amo. Sou estuário largo, com uma distância de perder de vista. E, todavia, só albergo quem tomo por amor. Ocupa todo o estuário que sou. Com a noite a meio, repousando no ombro lateral, só para sentir a pele macia que me devolve o sono pouco. E desses poros extrair, como ouro maior, a impressão digital que faz de mim bússola.

17.9.19

Confissões de um pária


The White Stripes, “Seven Nation Army”, in https://www.youtube.com/watch?v=0J2QdDbelmY
(Mote: em momento introspetivo e, ao mesmo tempo, de uma, porventura, excessiva autoavaliação, uma pergunta de partida: pode um intelectual escrever sobre o que sentiu ao ser espetador de um jogo de futebol sem diminuir os seus pergaminhos?
Já não ia ver um jogo de futebol há muitos anos. Nos estádios, nunca fico satisfeito com as condições do lugar: se é próximo do relvado, perde-se a noção do espaço; se é num lugar altaneiro, perde-se a emoção de estar perto dos intervenientes. É um espetáculo caro, sopesando a qualidade com o preço que se paga. E depois há a audiência. É o pior de um jogo de futebol. Gente invariavelmente de cabeça quente, incapaz de ser imparcial, incapaz de não destratar o adversário – é num jogo de futebol que por tanto destratar o adversário mais se aproxima do conceito de inimigo, o que é um paradoxo no desporto. O desporto foi concebido nos antípodas da guerra.
Fui ver um jogo de futebol da equipa que sempre foi a minha favorita. Não ganharam e jogaram mal. Do mal o menos. Como fui desaguar num sector do estádio onde estavam acantonados os adeptos da equipa da minha preferência, levei um banho de adeptos da minha equipa. A páginas tantas, senti uma pulsão interior e quase irreprimível – mas também indizível – de apoiar o adversário. E não era por causa da má figura da equipa da minha preferência. Era por causa dos adeptos da equipa, primatas, boçais, entoando incansáveis (na perspetiva deles, apenas) cânticos que, entre outros dislates, juravam que o maior amor que sabem existir é dirigido à equipa que dizem “amar”. Como o jogo não estava a correr bem, os adeptos eram esquizofrénicos. Tão depressa eram capazes de “dar a vida” pela equipa como, após uma jogada mal terminada ou um ato falhado de um jogador, partiam para o insulto fácil. 
No fim da contenda, ficámos retidos pela polícia quase meia hora. Para evitar querelas entre os apoiantes das duas equipas, se acaso dessem de caras uns com os outros à saída do estádio. O que é sintomático da irracionalidade que ferve no sangue desta gente, que não percebe que um jogo de futebol é apenas um jogo de futebol, como uma vitória, ou um empate, ou uma derrota são apenas isso mesmo, vitória, empate ou derrota. Nessa quase meia hora, os adeptos entraram em conciliábulo. Devo ter conhecido, só à minha volta, uma dezena de catedráticos da especialidade. Se houvesse dúvidas, ter opinião quase sempre não quadra com entendimento. 
À saída do estádio, estava encanitado. O mau humor não provinha do empate da equipa da minha preferência. O mau humor fora requentado pela minha incapacidade de identificação com o clube da minha preferência quando tenho por perto uma turba que partilha comigo esse elemento. Apeteceu desapetecer de ser a equipa da minha preferência – fiquei vacinado, espero que de uma vez por todas, para não empregar o termo “adepto”. E tal aconteceu pela antinomia com os adeptos que foram ao estádio apoiar a equipa que eu também fui apoiar. (Expressão que é excessiva. Sou um espetador fleumático, não entro no coro dos cânticos tribais e nem sequer dou um salto da cadeira quando a equipa da minha preferência marca um golo.) Da próxima vez, prefiro assistir ao jogo ao lado dos adeptos da equipa adversária.
O mal de tudo isto pode ser meu, admito. O que me deixa sossegado.

16.9.19

Bolsa de valores


Killing Joke, “Eighties”, in https://www.youtube.com/watch?v=x1U1Ue_5kq8
“Bondade, humildade, mansidão e paciência.” 
Apanhado em falso (assim acontece com a única missa a que não posso faltar), as palavras do sacerdote ecoavam em repetição. Dizia o preclaro cura, “estas são as virtudes em recessão, as virtudes que estão caras”. Já tenho idade para não atribuir importância às palavras dos pregadores de templos religiosos, pois o agnosticismo é o magma da identidade. Não consigo. Na missa a que não posso faltar, devo ser a pessoa mais atenta ao discurso do sacerdote (que os restantes assistentes da eucaristia perdoem o atrevimento). O padre insiste que só chegamos a deus se formos intérpretes daquelas virtudes. Caso contrário (não o disse, mas pressentiu-se), seremos almas sob zelosa inspeção divina, e não é de crer que a incomensurável bondade de deus chegue para a redenção de todas as almas tresmalhadas.
(Por esta altura, senti comiseração dos crentes. Como são humanos e têm um impecável cadastro de imperfeições, suponho-os sobressaltados pela elevada probabilidade de não conseguirem chegar a deus. Esta é uma vantagem comparativa dos agnósticos: não querem chegar a quem não admitem existência. Podem ser sossegadamente imperfeitos.) 
O discurso dos valores é uma moda protagonizada por alguns tutores da moralidade: os valores, os bons valores que cimentam uma boa sociedade, estão em crise. Sobretudo entre os mais novos. Não concordo que as gerações mais novas estejam em falta com os bons valores. Se o problema existe (o que, insisto, é suscetível de contestação), ele vem do passado. É legado das gerações mais velhas. Quando alguém pede aos mais velhos para ensinarem valores aos mais novos, mais parece uma pulsão redentora dos ensinadores (ou de quem lhes encomenda a empreitada). 
Por hipótese, considere-se a validade do levantamento que convoca o ensinamento dos valores aos mais novos. Somos nós, os mais velhos, a arcar com a tremenda responsabilidade de os subtrair à orfandade de valores. Caso contrário – e sigo o que julgo ser o raciocínio tácito –, os jovens vão crescer sem valores, construindo um futuro que tende a desconstruir-se na anomia interna em que, já não jovens, vão enformar as suas existências. 
Para ser um ensinador de valores, teria de perfilhar o diagnóstico anterior. Não é o caso. Admitir que os jovens precisam de um banho de valores é pressupor que a educação na escola foi superficial, banal, um desperdício. Mesmo que partilhasse este diagnóstico pré-apocalítico, não faria de corretor desta bolsa de valores. A função pertence ao meio familiar e depois aos próprios que procuram (ou não) valores que os conduzam. Por outro lado, os valores não são objetiváveis. Não posso ter a pretensão de ensinar o que considero serem os meus valores aos outros (se existirem, os valores). É uma intromissão na esfera individual alheia. Não gostaria que, enquanto jovem, fosse sujeito passivo de uma formatação de valores. Se não aceitaria estar no lado passivo desta relação, não concebo a hipótese de me colocar no lado ativo. 
A bolsa de valores é uma teia complexa onde se sopesam muitos elementos: o substrato familiar, o ambiente em que crescem as crianças (também expostas ao meio escolar, umas às outras), a envolvente cultural, o desenvolvimento das suas personalidades, as circunstâncias, os acasos, as contingências. Ensinar valores é dar por adquirido que os (vou chamar-lhes assim) valores adquiridos, um certo cimento do coabitar social, são os valores certos. O que pode não ser o caso, através da lente de quem os observa. 
A bolsa de valores convoca à autoaprendizagem. Um processo que dispensa uma intervenção exterior carregada de paternalismo e de uma formatação dispensáveis.  

13.9.19

A mulher é o futuro do Homem?


Portishead, “Glory Box” (live on Later with Jools Holland), in https://www.youtube.com/watch?v=SVX2adpyInM
(Antecipação da conferência com o mesmo título na Casa da Música, em 14 de setembro de 2019)
         Como posso fazer uma incursão no assunto sem me acusarem de misoginia? Como posso explorar o tema sem me acusarem de conservadorismo?
(Que se há coisa que não sou é misógino e conservador – e nem aceito que me digam, com um paternalismo indulgente, que sou, mas não dou conta de o ser, que não reconheço legitimidade a julgamentos que sentenciam de fora o que sinto por dentro de mim.)
Como posso elaborar sobre a interrogação sem cair nos excessos marialvas que abjuram o feminismo de taberna, nem incorrer no discurso moderno e bem-pensante da “filosofia de género” contaminada por generalidades e pensamento intelectualmente frívolo?
(Que ele há um terreno imenso entre os dois campos e, todavia, os que apascentam em ambos campos recusam a admitir a sua existência.)
Como posso não ser treslido se argumentar que esta lábia binária é reducionista, que atenta contra os próprios pressupostos de algum pensamento de vanguarda no contexto da “filosofia de género”, ao teorizar sobre formas alternativas de identificação sexual que não se reduzem aos arquétipos da “mulher” e do “homem”?
Como posso interrogar as construções conspirativas que endossam para a geração presente a fatura das atrocidades cometidas pelas gerações antepassadas, para provar que não é razoável imputar responsabilidades aos “homens” de hoje (generalização limitada, concedo) pelas inaceitáveis desigualdades de antanho?
Como posso encomendar aos marialvas, em suas praças de touros acantonados, o silêncio antes de arrotarem dislates que desprezam as mulheres, mas que os apoucam mais a eles?
Como pode alguém tirar um oráculo da algibeira para responder à pergunta que é a casa da partida (deste texto e do debate na Casa da Música)?
Como posso denunciar o maquiavelismo que se insinua na inversão de papeis? Como posso adivinhar que “a mulher” pode ultrapassar “o homem”, sendo essa a condição imprescindível para um futuro habitável? 
Como posso garantir que “a mulher” corporiza os valores benévolos, catalisadores, heurísticos, que são recusados “ao homem” enquanto patriarca da espécie? 
Como posso admitir a mulher é intrinsecamente propensa à bondade mercê da sua condição de mãe (existente ou potencial), se essa argumentação naturalista é a que serve de ponto de partida para recusar as diferenças biológicas entre mulheres e homens como esteio de uma desigualdade caucionada pela natureza?
Como posso ser convencido que “as mulheres” são diametralmente opostas “aos homens”, se este discurso incorre num vício ontológico que nega a validade da retórica que denuncia a desigualdade entre homens e mulheres, estribando-se num pressuposto (a desigualdade) que é o objeto que essa retórica pretende combater?
Como posso antecipar que a transfiguração de papeis, com a “matriarcalização” da sociedade, devolve a pureza sanitária à espécie, sendo condição de partida para o restabelecimento do otimismo antropológico? 
Como posso ser levado a crer que a substituição do “Homem” pela “Mulher”, como sinónimo da humanidade, é o perfume em falta para erradicar os tremendos erros congénitos que são o lastro da história da humanidade?
Como posso perfilhar uma grelha de leitura que diagnostica “a mulher” nos antípodas “do homem”, se somos todos feitos da mesma massa, de sangue e carne e ossos e emoções?
Como posso não ser assaltados por pesadelos que evocam a aranha viúva-negra, que mata o macho como corolário da cópula, quando pela tela mental passam imagens de feministas exacerbadas (sem ser, outra vez, acusado de misoginia)?
Concluo que o melhor critério é deixar todas as interrogações sem resposta (como se fosse um coito interrompido).

12.9.19

Outubro não pode esperar (short stories #159)


Nils Frahm, “Human Range”, in https://www.youtube.com/watch?v=akYE_PAZ5Bg
          Alvorada. Assim como assim, o sono já fora banido há algum tempo. Preciso de um soro que avive o sangue. Preciso de precisar de alguma coisa. O calendário em cima da mesinha-da-cabeceira funciona como uma guilhotina. Lembro-me de coisas várias, avulsas na sua ordenação, sem ligação entre elas. Abro a janela. Já sinto um aroma a outubro. Não sei descrever o aroma a outubro; sei apenas que este é o aroma a outubro. Falta muito para outubro? Olho para o calendário, que me dá a resposta. Ainda falta. Determino que outubro não pode esperar. Não podem esperar as árvores que esperam as folhas caducas. Não podem esperar os rostos melancólicos dos que entram em outubro como a antecâmara da tortura que pressagia o inverno. Não sou como eles. Recebo outubro preparado para o abraçar demoradamente. Agradeço. Outubro consagra o fim do tempo quente. Decreta o fim do suor ansiolítico. Talvez migrem os pássaros que, como as pessoas (calculadas em sua maioria), desprezam o outono sombrio, as primeiras chuvas que se instalam, o ázimo da luz baça, o mar tempestuoso que anuncia intempéries sem amparo. É alvorada e eu ainda aqui, como se estivesse despojado na cama a pensar no que devo pensar, sem saber que o pensamento pode transfigurar a indolência. Não deve ser preguiça (sussurro, em autocondescendência). Não tarda a tarde e não me parece que tenha feito do dia uma utilidade. Sinto-me cercado por um insólito pesar: tenho a impressão que alguém conspirou contra o calendário e as suas folhas diárias ficaram imóveis. E outubro nunca mais chega. Diria que as folhas do calendário andaram para trás e fez-se agosto, outra vez. Pode ser o sono a entaramelar-se na lucidez e já não sei da linha exígua entre lucidez e sonho. Pode ser que haja uma data inscrita numa pedra, a data centrípeta de onde tudo desabrocha. E a data se agigante ao ouvir dizer que outubro não se demora. Contra as profecias dos almirantes do desassossego, os galanteadores doestio, que vociferam contra outubro, acusando-o de ser extemporâneo. Estão errados. Outubro não pode esperar. Faça-se outubro em setembro.

11.9.19

As palavras que não são ditas


Nick Cave and the Bad Seeds, “Magneto”, in https://www.youtube.com/watch?v=I4aF-MDumFg
Escolhem-se as palavras tangentes àquelas que consideramos impronunciáveis. Não é tabu; dir-se-ia ser a compostura, essa diplomacia disfarçada, a fazer o seu caminho, travando a consciência antes que ela perca as medidas. Há as palavras que não dizemos. O pudor, ou a interiorização das suas más consequências, ou apenas uma irritação semântica, um nada que, todavia, se faz um tudo, tanto que a palavra é travada na falésia da boca. 
Ou podem ser palavras que não importa dizer. Importunam. Ferem – ferem quem as profere, ferem quem as ouve. São archotes lançados contra a lama onde decaem os inocentes que por elas são arrastados até a esse lugar. Por assim serem, são palavras que congeminam a indecência de quem as tutela, o que pode ser capaz para conter a sua irradiação. 
Ou podem ser inoportunas, porque a dança em que se combinam tempo e circunstância não é legado para a sua revelação. As imagens são fortes e podem causar dores pungentes, inscrevendo essas palavras no dicionário das palavras que são proscritas, propositadamente proscritas, sem que haja qualquer laivo de censura. Diz-se: às vezes, mantém-se o silêncio como cura antecipada para os males que o seu contrário podia semear.
Ou podem não ser ditas as palavras porque não apetece dizê-las. Há um sortilégio sem teoria na escolha das palavras. Um dia, uma certa palavra não se coíbe de aparecer, resplandecendo no vocabulário. Noutro dia, por mudança de estética (ou apenas de humor – ou outro critério), a mesma palavra submete-se ao exílio forçado, pois quem a tutela não quer que conste da gramática do momento. O exílio nunca é perene. A qualquer momento, as preferências jogam-se noutro sentido e não é de estranhar que a palavra banida seja resgatada do degredo a que foi condenada. 
Existem palavras que sejam património imorredoiro do vocabulário em exílio? Há pessoas cavalheiras, de fina educação, que não usam o calão. Não se coíbem de o usar quando perdem a cabeça, ou em privado, o que não abona a identificação do calão como vocabulário exilado. Há palavras que não são usadas por pertencerem ao exterior do vocabulário conhecido – delas não se pode dizer que são palavras que não se dizem, pois não são ditas por delas haver desconhecimento. E depois há as palavras que não são ditas no diálogo estreito entre duas pessoas, porque essas são palavras que esbofeteiam o outro, ou imprimem a transgressão (quando as pessoas são autoimunes à transgressão), ou fermentam a provocação (e os seus efeitos são nocivos).
Há sempre palavras que não são ditas. Mas não há, na constelação que são os falantes de um idioma, uma única palavra que deixe de ser dita. A menos que esteja por inventar.

10.9.19

Discos perdidos


dEUS, “Slow”, in https://www.youtube.com/watch?v=h9OILKwaFNA
- A memória é uma representação.
Consideravas um desprestígio, a caução ilícita do tempo que davas por perdido. Falavas do passado. Mas falavas dele como se o abjurasses, não por dele teres vergonha, mas porque mergulhar nas memórias era equivalente ao ultraje do tempo animado. 
- E mais digo: aqueles que não se desligam das memórias deviam ser condenados ao seu próprio cárcere. Quero dizer: deviam ser condenados à privação do tempo presente. E tal devia ser visto como uma pena severa, por mais que estipulassem o seu contrário. 
Intuías absurdas, as memórias. Era das poucas coisas em que não admitias tolerância. Ele há tanta gente credora de tempo – as pessoas que morrem antes do tempo; as pessoas que se angustiam por terem a noção de que o tempo à sua mercê é uma medida por defeito; as pessoas que acabam por ser maiores do que o tempo que lhes é outorgado – que não se podem legitimar as lágrimas vetustas de quem regressa constantemente ao tempo pretérito. Se são reféns das memórias, que se limitem a vivê-las em privado. Não querias arrastar considerações sobre a iniquidade, porque percebias que as medidas do tempo não são lineares para duas pessoas e para as suas diferenças. 
- Por isso insisto que a memória é uma representação. Quero dizer: a contrafação do único tempo que não se desgasta na poeira ancestral, e que se perde em cada instante em que a memória responde uma convocatória e ultrapassa a respiração dos poros. É uma representação, a memória. O esbulho da transcendência do presente, que sucumbe perante o apelo do tempo puído. Uma autofagia. Os projetos que se devolvem ao tempo já gasto são o suicídio do presente. Uma indigna representação dos seus autores, fulgurados pela falácia do tempo irremediável.
Ficavas incomodado com a mnemónica do passado que se repercutia no tempo usurpado das mãos dos reféns da memória. Era como se projetassem no presente uma constelação de imagens retidas nos arquivos e pudessem pôr as mãos nessas imagens; era como se o tempo fosse repetível, com a conjugação de todas as suas incontáveis circunstâncias. O que sobrava era um imenso vazio: as memórias são exauríveis. Não conseguias discernir o apelo dos reféns da memória, se o tempo assim resgatado tende a esgotar-se à medida que eram repetidas as memórias. E perguntaram-te:
- Não guardas memórias? Não voltas a elas, nem quando te distrais nessa militância metódica do tempo presente?
Não demoraste a preparar a resposta:
- Eu sou a minha própria circunstância. O amplexo de que me dou conta no atapetado lugar de onde me construo, a cada estrofe do tempo. Não recuso o tempo que ficou para trás e tenho uma memória que não indefiro. Mas não lhe concedo a liberdade excessiva que tem noutras pessoas, pois temo que a memória como representação hipoteque o tempo que tenho entre mãos. Que é o tempo que elas podem tocar.

9.9.19

Quando a ciência passa a militância em tempos de urgência


Fontaines D. C., “Boys in the Better Land”, in https://www.youtube.com/watch?v=TNXrKBt76zI
Quando estudei, aprendi que a ciência deve ser imparcial. Procurei respeitar esse esteio no ensino de que sou ator. Como professor, ou como investigador, não devo manifestar preferências nem ideologizar os alunos. Isto tem acuidade neste tempo em que alguns, cada vez mais numerosos, não se escondem de umpensamento único que desagua numaTINA (there is no alternative). O pior é a cadeia de reações que uma modalidade de pensamento único e correspondente TINA provocam: o pensamento reativo não se limita a desmontar o pensamento único e a TINA que combate, desejando, em sua substituição, outro pensamento único e uma outra TINA a condizer.  
Há dias, num congresso, ouvi algumas comunicações que confirmam esta tendência. Tendo como pano de fundo o avanço de uma direita retrógrada e incivilizada (Trump, Orbán, Salvini, Bolsonaro, Boris Johnson) e da alt-rightque parece ser seu lastro, vi politólogos a fazer denúncias. Não me incomoda que se acuse esta fação atávica que atropela o que temos por valores civilizacionais; incomoda-me que sejam cientistas sociais, no âmbito da sua profissão, a fazê-lo. É que, ato contínuo, passam a ser atores interessados no jogo político, o que não quadra com o papel imparcial, desligado de juízos normativos que são o alicerce de preferências, escolhas e posicionamentos na paisagem política. 
Este arrebatamento denunciador convoca, por outro lado, uma insinuação: as entrelinhas murmuram que a direita tradicional (chamemos assim) se esvaziou, sendo o centro-esquerda sozinho (na versão moderada) ou acompanhado da esquerda radical (na versão mais incisiva) a única solução para travar a direita que se radicalizou. Argumentam que a direita tradicional se esvaziou ou por ter sido suplantada pelos novos atores que são intérpretes da radicalização da nova direita, ou porque a própria direita tradicional, movida pelo oportunismo político, se aproximou da retórica da direita radicalizada e dela tomou de empréstimo algumas das suas propostas. 
Esta generalização sinaliza é denotativa de uma agenda e de uma intencionalidade. Tomar a árvore pela floresta é o pecado original destes cientistas sociais. A alt-righte os seus gurus constituem um perigo à democracia plural. Também admito que alguns políticos da direita civilizada caíram no logro da aproximação à retórica radical. Todavia, a generalização que determina o esvaziamento da direita civilizada é exagerada e não inocente. Partindo de cientistas sociais que dever-se-iam manter imparciais, é algo que só surpreende quem não acompanha a militância e o normativismo ostensivo de certos gurus das ciências sociais. 
Não é de estranhar que o ambiente de um congresso esteja contaminado, pois é numeroso o exército de seguidores desses gurus das ciências sociais. Este é o seu pecado original. Tanto denunciam os desvios e a propensão autoritária da alt-right, como (talvez sintomaticamente) omitem os desvios e a propensão totalitarista dos radicais que medram à esquerda. Daí uma agenda e uma intencionalidade que inviabilizam a imparcialidade científica. 
Parece que a deriva radical da direita é um fato à medida destes alfaiates.