21.5.13

Árvore em fogo


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O vestido transparente ondeava na penumbra. Os pés frágeis, desnudados, deslizavam com a suavidade da pele transida pelo frio noturno. Mas o ritual imprecava suas demandas, e nem o frio outonal desembaraçava a vontade de o acatar.

A lua intimidada fazia-se testemunha. Ao longe ouvia-se o que parecia ser o uivar de lobos em desnorte. A casa estava longe, o solo era a cama do orvalho que se deitara sobre as pedras ungidas pelo musgo. Os pés continuavam, frágeis e amedrontados, fazendo o caminho na servidão do desconhecido. A luz tímida da pequena lua não chegava para ser devida candeia. O vestido largo e transparente, que deixava aos olhares tresmalhados a silhueta esbelta, ruminava passos temerários. Espreitou por entre as veredas o que pareceu ser uma fogueira. A luz que se incensava tomava conta do pequeno céu emoldurado no firmamento a que o olhar chegava. Passou a ser sua bússola, pois o temor do lugar desconhecido gritava por alguma luz caridosa.

O clarão ficava mais perto mercê dos pés nus que a atiravam para as proximidades do fogo que incandescia em sua volúpia. Descobriu uma árvore tomada pelo fogo. Uma árvore isolada, as demais sem mácula do fogo, testemunhas da desgraça daquela singular árvore. Nem as faúlhas que fulguravam, furiosas, conseguiam atear fogo nas árvores vizinhas. Seria da humidade da noite, as árvores restantes empenhadas no resguardo do orvalho.

Ficou estática, requentando-se no calor que se soltava da incandescência, mas apoquentada pela fogueira em que se tornara a isolada árvore. Pareceu-lhe ver um vulto desenhado nas labaredas que se despenteavam dos ramos em evanescência. O vulto ensaiava movimentos com os braços, acenava para poente. Do poente não conseguia perceber o que poderia ser almanaque. Fez a vontade ao vulto abraseado que viera das profundezas do fogo. Pela madrugada, já nas suas costas a claridade depunha a vetusta noite, chegou ao fim da andadura. Por diante, o mar.

O cansaço desenhado no rosto e a noite em branco, que deixavam estragos de uma insónia, embaciaram alguma lucidez. Entendeu depois. O nutriente que exclamava pela sua presença era o mar salgado por diante. Não se intimidou com as águas frias. Atirou o corpo murmurado ao mar que julgara malsão. Foi quando lá longe o fogo que deixara a árvore em meras cinzas se voltou para dentro. E ela, molhada e tiritando de frio, foi recolhida por um pescador que a deixou em casa. Completara a tarefa. E ela, enfim, reavivada.

20.5.13

Um pedaço de toponímia


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O arquiteto era figura grada da cidade. Homem notável, assíduo dos salões sociais e em ações beneméritas, eram conhecidos os méritos de praticar o bem em prol do próximo, a intensa vida cultural e a escrita prolífica.
No seu atelier foram alinhavados os esboços de alguns edifícios emblemáticos da cidade e algumas obras públicas que a cidade, em indulgência dos representantes eleitos, lhe encomendou. Jovial, não recusava cumprimentos aos anónimos com que se cruzava na rua. Houve uma altura em que alimentou a esperança de ser o candidato à autarquia por um dos principais partidos. Não fora a sua independente condição, e umas críticas ainda mal digeridas pelo aparelho do partido, e podia ter sido presidente da câmara. O mal fora dos menores, que depressa se convenceu que a ambição política seria lida pela gente quase toda, quando o que ele queria era servir a cidade que ainda estava precisada de um ordenamento de território – coisa da sua especialidade, que ensinava em universidades.
O arquiteto gostava de ser conhecido na rua. Era figura quase consensual pela bondade que praticava e porque escapava a qualquer peleja que um adversário (que os há sempre) provocasse. Não gostava de celeumas, detestava que o metessem numa vara de sete paus em que a polémica fosse gratuita matéria-prima. Alimentou, durante anos a fio, um sonho secreto (só partilhado com a consorte): queria que o seu nome ficasse imortalizado numa rua qualquer da cidade. Numa já existente, atirando para o esquecimento o nome que lá estivesse. Ou numa artéria nova, que carecesse de batismo. Preferia esta hipótese. A aspiração quadrava com a carência, um pouco narcísica, de obter reconhecimento público.
Mas houve outro dia, depois de muito tempo a marinar a ambição a um pedaço de toponímia, em que acordou virado do avesso. Estava cansado de ser figura pública. Cansado de fazer de conta que praticava, desinteressado, a bondade para os desprotegidos. Cansado dos salões sociais onde abundava frivolidade e hipocrisia (tanto que mesmo ele fora contagiado pela maledicência militante dos salões). Cansado de simular entendimento erudita das variadas formas de vida cultural a que comparecia só para marcar presença. Nesse dia tomou uma resolução: não fosse um vindouro autarca lembrar-se de imortalizar o seu nome na toponímia local, verteu em testamento a terminante proibição de o seu nome ser tomado de empréstimo para a toponímia da cidade.
Mudou de planos: já não queria ter uma rua com o seu nome. 

17.5.13

A métrica do ser


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Olho as flores. As cores e os aromas que delas proveem. Olho a mobília dos jardins, santuários por onde apetece demorar. Olho ao céu e aferrolho os olhos para não os deixar feridos pela luz do sol. Olho por entre as nuvens, por onde se acama o azul que tinge o céu embotado pelas nuvens dispersas.
Vou mais longe com as pernas em mecânico andar. Olho o mar, como se compõe na sua quietude apesar do vento que sopra mediano. Olho os velhinhos de mão dada, como se fossem juvenis namorados. Olho os automóveis indiferentes, as mansões pomposas, o luxo mausoléu, as donzelas em precário equilíbrio em cima de finos saltos altos, o mendigo do outro lado da esquina estendido no chão a curar a bebedeira que as parcas esmolas puderam comprar. Olho a chuva que destronou o tempo soalheiro. E olho depois para o sol que descompôs a chuva sem arco-íris mediador, como manda evaporar a água do chão perfumado com o odor da terra molhada. Olho, com olhos de olhar, as letras que interessam num livro recolhido ao acaso. Sublinho as que apetece, um pouco ao acaso. Ato os sublinhados para ver se são frases inteligíveis, se os olhos distinguem um fio condutor entre as palavras destroçadas.
Olho os jovens sem vagar, as donas de casa apressadas a caminho da lida doméstica, uma senhora polícia preenchendo a eito o livro de multas, o autarca emproado requisitando genuflexões dos acólitos sem espinha, o músico embriagado com o corpo arqueado sobre o sofá do hotel, a mãe no assento da frente do comboio que, sem pudor, mete o seio ao leu e amamenta o bebé, uma corça arrancada da margem do lago por um crocodilo esfomeado (na televisão), o taxista em acelerado débito de impropérios enquanto escuta o noticiário numa estação de rádio. E olho o entardecer que decai à medida que o copo de vinho se esvazia. Deitando os olhos ao tempo de trás para a frente, enquanto os dentes se arpoam no freio solto do tempo por vir.
Olho tudo o que posso olhar, senhor de uma avidez singular. O olhar é testemunha do pulsar à volta, e pulsa com a sua agitação. Sem deixar que reveses se teçam num teia que sequestra os sentidos e as palavras. Olho por saber que olhar é sentir o viver. E olho, com a singular avidez, como prova de vida que se insurge contra o torpor.

16.5.13

Os milagres económicos segundo o apóstolo Cavaco e a bênção de Nossa Senhora de Fátima


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Os tempos estão escuros. Mas, paradoxalmente, são propícios ao humor. De primeira água. Ou isso, ou há gente que entrou definitivamente na decadência mental.
Sua excelência, o presidente da república, estava numa excitação singular depois de conhecida a sétima avaliação da troika. Foi um sucesso. Dizem que é a prova que a via sacra da austeridade não nos levará ao caminho das pedras, antes ao alpendre do oásis. Os negociadores estrangeiros, os tais que mandam em nós hipotecando a soberania nacional (de acordo com muitos profetas da desgraça), ou os tais que estão mancomunados com o governo e atuam como seu testa-de-ferro (na fantasiosa versão do lone rider Pedro Lains), devem ter ido em visitação turística ao santuário de Fátima entre duas reuniões com Gaspar e seus técnicos. E ficaram tão arrebatados que deram o beneplácito aos progressos do ajustamento.
Cavaco, com a inspiração da omnipresente Maria (a consorte), anunciou em voz invulgarmente trémula, com a comoção a raiar as palavras, que a inspiração de Nossa Senhora de Fátima convenceu os negociadores da troika a caucionarem a avaliação benquista da economia portuguesa. Cavaco não podia ser mais verrinoso para o governo.
Entrámos numa nova dimensão. Já não precisamos de colocar a economia nas mãos de um tecnocrata com reputação internacional e odiado, a cada dia que passa, pelos concidadãos a quem suga mais impostos. Qualquer um pode ficar com a pasta das finanças e tomar a seu cargo as dores de parto dos complexos processos de ajustamento económico. Tem é de ir à missa com regularidade e fazer as preces matinais, vespertinas e ao serão, antes de se deitar com as dores da economia e os vitupérios da população ditos em surdina ou em viva voz. E deve prometer, esse ministro das finanças, que se os milagres económicos forem materializados, meterá as pernas ao caminho em peregrinação até ao santuário de Fátima para agradecer a graça com inspiração beata.
Mal ficará, doravante, a profissão de economista (que já não andava nas boas graças dos demais, tantos os desacertos na análise e nas previsões). Com esta dimensão metafísica da economia, a fé nos pastorzinhos falando mais alto do que a elaborada análise econométrica que é cais de abrigo a modelos económicos que se julgam infalíveis até a realidade provar que o não são, aos economistas fica prometido desemprego. Podem ser substituídos por padres, que já estão habituados a usar sotaina e a recitar de trás para a frente o velho e o novo testamento. A fé trata do resto. Os ficheiros Excel serão dispensáveis.
Só não se sabia que o presidente da república é embaixador do Vaticano. Aguarda-se, com notória curiosidade, a reação do maior beato entre os economistas (João César das Neves).

15.5.13

A imprestável coerência


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Há uma bússola, preciosa bússola, perdida algures entre livros penhorados em prateleiras empoeiradas, que guarda o segredo da coerência. Grande parte do tempo provém das grades da coerência – e sim, a coerência é uma unção que nos aprisiona, desfazendo a espontaneidade porque é maior o temor de uma incoerência vir de mansinho, como grande pecado a enodoar a presença.
A coerência devia ser afim aos padecimentos individuais. Devia haver uma muralha que impedisse os outros de espiolharem atos e palavras em rima com a (dizem eles, os juízes de alheias condutas) indecorosa incoerência. Porque esses lautos sacerdotes da alteridade são implacáveis quando ajuízam passos em falso nos outros, tal a destreza em serem purificadores de almas outras. São exercícios vãos, aviltantes. Quem escava as profundezas dos outros com a intenção de neles decifrar palavras que se contrariam num tempo diferente, mortifica-se com a alma a que foi aquartelado.
O mal está todo feito quando, sem encomenda de ninguém nem véu de legitimidade razoável, personagens soezes lucubram sobre as contradições que não são suas. Imagina-se tais agentes imaculados, tarefa impossível a de encontrar pecadilhos que os empurrem para o lodo da incongruência. É o trejeito de ser porteira desocupada que treina a língua comprida com as vizinhas também elas desocupadas, o desporto favorito da bisbilhotice e da maledicência. Talvez não gostem nada da vidinha própria que levam, estes juízes que ajuramentam a validade das palavras e dos atos (dos outros) com a benta coerência.
E o que interessa se as contradições em tempos diferentes são intencionais ou apenas distraídas? Elas são património genético de quem as tutela, os indivíduos que são seus autores. Mais impressão causa um sacerdote com o livro sagrado em riste, zeloso por afiançar (e logo destruir) incoerências afiveladas que suas não sejam, do que os ingénuos ou apenas provocadores agentes que são os maiores fornecedores das contradições. Já Walt Witman o admitia, em pose terapêutica: “(c)ontradigo-me? Pois bem, então contradigo-me. Sou extenso, contenho multiplicidades.
Os oficiais de diligências que andam à cata de alheias contradições vivem amuralhados numa pequenina personalidade, reduzidos a um mundo que se denuncia na sua estreiteza. Os horizontes acabam nas incoerências dos outros.