20.3.19

Que é feito do parêntesis? (short stories #103)


Nilüfer Yanya, “In Your Head”, in https://www.youtube.com/watch?v=fsxf541UI-8
          O umbilical ouvido não decai na desatenção. Todos os ruídos são colheita. Não te enganes: todos os ruídos são colheita. Como numa prosa, todas as palavras merecem igual atenção. Ou corres o risco de perder parte do sentido. E ao perderes parte do sentido, ficas com a história amputada; nem que seja um fragmento, uma pequena parcela perdida no ardil da desatenção. Ao olhar soerguem-se as braçadas ritmadas dos transeuntes. Parece que nadam em seu gesticular, os gestos como coreografia que empresta outro sentido, um sentido mais expressivo, às palavras que são ditas. Como se as palavras fossem digladiadas. Não adiantam os rostos seráficos que desafiam, em sua impassibilidade, os gestos excessivos. Dir-se-ia que embaciam a palavra dita, gestos assim coreografados. Alguém propõe: invente-se um modo de meter os gestos entre parêntesis. Os parênteses seriam a representação gráfica dos gestos que destronam o império das palavras. Para não serem ruído transfigurando as palavras em babugem. Mas as mãos, personificação dos vasos capilares que ecoam o tatear, não podem ser silenciadas neste teatro dos sentidos. Se os olhos estiverem fechados, as mãos são os nossos olhos – não te esqueças. Talvez seja possível às mãos decifrarem as palavras embainhadas nos ruídos que pontificam nas imediações. Não sejam contumazes as marés que orientam as palavras decantadas dos gestos – pois aos gestos deixa-se o seu lugar próprio, que será o dos mestres da coreografia. Em véspera de celebrações, ao palco só merece subir o altar onde se celebra o motivo da celebração. O resto é momentaneamente atirado para dentro de um largo parêntesis, à espera que uma constelação de parênteses se ofereça sucessivamente em seu palimpsesto. E perguntas: o que é feito da palavra que se emancipou do parêntesis? Terá a palavra sido metamorfoseada num parêntesis de si mesma, nele emaranhada? Tens de esperar pelo dia que se segue. E apurar, no rescaldo de todo o suor derramado, entre o restolho, o que ficou das palavras não silenciadas pelos parênteses. 

19.3.19

Suspeitos de costume (short stories #102)


The Chemical Brothers, “MAH”, in https://www.youtube.com/watch?v=XTBNONSR9F8
E não suspeitos do costume. Eram suspeitos de costume. Pelo ramo familiar do conservadorismo incorrigível. Só se guiavam pelo roteiro da rotina. O que tivesse sido arquivado no bornal das memórias e correspondesse a repetição atrás de repetição. Não se desviavam daí um centímetro. Porque o desconhecido era um corpo estranho que vinha ao seu regaço, e não queriam o regaço contaminado pelo desconhecimento. Houve alguém que os interpelou, se não sabiam que o conhecimento estava no exterior do acostumado. Não queriam saber. Estavam contentes com o conhecimento que lhes era dado a conhecer pelos seus costumes. E pouco se importavam se os interpelantes jocosamente encolhessem os ombros, insinuando, com o gesto, que era exíguo o mundo por onde se moviam. Era o seu mundo. Os seus costumes. Podiam aconselhar que cavalgassem no exterior dos limites, para serem como os descobridores de outrora, sem medo da aventura e sedentos de novos conhecimentos. Também não importava. A cada um a sua particular gesta. Que não os importunassem no conservadorismo oportuno para quem tem medo do que não sabe e não conhece. Era como se vivessem aprisionados num quarto dos fundos, lúgubre, sem exposição à luminosidade dos dias soalheiros ou das manhãs sombriamente enevoadas. Mas essa era a sua coutada. Onde se sentiam confortáveis. Que não lhes pedissem para extravasar os costumes. Fora tão custoso o processo de enquistamento dos costumes ancorados. Não lhes pedissem para romper a vocação conservadora. Não lhes pedissem; que também respeitam as margens por onde os demais transitam, fossem elas de que tamanho fossem. Depois escutaram uma interrogação perdida no anonimato da multidão: “O que vai ser o futuro?” Os suspeitos de costume não podiam ser recenseados na convenção. Não se importavam com o futuro e esperavam que o futuro não se incomodasse com eles. Por isso, quando um dos suspeitos de costume, em plena distração, corrigiu a interrogação (“O que vai ser do futuro”), um dos outros admoestou-o: “Nem uma coisa nem a outra nos interessam.” A menos que lhes garantissem, em antecipação do porvir, que esse tempo, se por eles vivido, seria igual aos costumes de que eram regedores.

18.3.19

Umas verdades inconvenientes (ou: contra a conversa de balneário)


Viagra Boys, “Just Like You”, in https://www.youtube.com/watch?v=xtmDOo5Ifx0
Contra a conversa de balneário: os varões inchados, que se medem pela testosterona e pelas proezas, sabe-se lá quantas vezes apenas fantasiadas, com o sexo oposto, são pasto abundante de preconceitos. E de parâmetros enviesados, que a eles, marialvas convictos, a variedade de parceiras sexuais, a promiscuidade, até, são pergaminhos de masculinidade, sem que a poliandria seja por eles caucionada, que aí já se trata de condenável adultério. 
(Para que conste: não se deduza da frase anterior um juízo de valor, muito menos de desvalor, acerca da poligamia (ou da poliandria, por extensão de raciocínio), nem sequer sobre a promiscuidade. É ao livre arbítrio dos envolvidos que cabem juízos de valor.) 
Estes machos, encerrados na sua coutada atávica, asneiam de tal modo que, a páginas tantas, fazem pensar se se trata de acefalia ou apenas de um intenso preconceito de que nem dão conta. Eles juram que são peritos na arte de ensinar os truques dos prazeres carnais às donzelas e menos donzelas que com eles acamam (ou noutro sítio qualquer). É uma questão de estatuto, o prolongamento da superioridade masculina com intermediação da ontologia sexual. Colocado na posição de ouvinte involuntário destas conversas improdutivas, apetece-me o papel de interrogador-mor. Por exemplo: eram vossas senhorias capazes de trocar prazeres carnais com uma senhora mais experimentada nestas artes – digamos –, daí retirando alguns ensinamentos que ampliem o conhecimento de vossas senhorias na matéria?
Vou adivinhar a resposta (correndo o risco inerente ao augúrio): “nem pensar!”, seria a resposta, exclamada, resoluta, indignada. Primeiro, eles é que são os mestres na arte da luxúria. Está-lhes tatuado no mais profundo do tutano, e a “natureza” diz que são os homens que devem conduzir a coreografia. Este rudimento inato não admite que um homem, um “homem que se preze”, seja ensinado nas artes da cama. Seria humilhante. Este é um terreno onde o homem, “o homem que se preze”, é professor. À mulher está destinado o papel de discípula. Segundo, não se admita a um bom varão (com a exceção adiante sufragada) ser presa de uma mulher bastante experimentada. Que essas são pouco recomendáveis, justamente pela elevada quilometragem que trazem a tiracolo. Quem quer trocar desejos carnais com uma mulher com semelhante experimentação? Tirando a exceção anunciada – estes homenzarrões também têm um lado lunar oculto que se abre a múltiplas experiências que, todavia, negam quando exibem a sua hermética doutrina sobre o assunto –, nenhum homem valente se presta à possibilidade de ser ensinado por uma mulher, no que à luxúria diz respeito.
Aposto bom dinheiro que a recusa exposta se legitima num argumento que estes machos exemplares não admitem em público: não querem que essas experimentadas mulheres lhes transmitam coisas diferentes, por temerem que essas coisas diferentes lhes foram transmitas por anteriores (ou contemporâneos, não interessa para o caso) parceiros. Seria como admitir que há homens ainda mais marialvas, o que é inaceitável para o épico ego em que estes homenzarrões se estribam. 
Correndo o risco de cair numa generalização (perigosas, como todas o são), outra aposta: estes são aqueles valentes machos que se ufanam das suas proezas sexuais, e do (dizem eles) rol interminável de “conquistas” – como se estivéssemos numa reserva cinegética e as mulheres fossem as presas a que dão caça; são aqueles que, no desempenho da função, estão imersos no profundo egoísmo de quem apenas cuida do seu prazer. Mal sabem que são desdenhados pelas “presas”, que deles não habilitam grandes referências. 

15.3.19

Contumácia


Mogwai, “Scrap”, in https://www.youtube.com/watch?v=zRRhmbrPMoY
No dorso de um livro de leis, uma anotação rebelde: “as leis, se existem, é porque são esquecidas.” 
O juiz discorda. Ufana-se de fazer aplicar as leis quando alguém as atropela. O réu, sentado no banco a preceito, discute a interpretação do crime de que vem acusado: ele não foi autor do que lhe imputam – e se por acaso for determinado que o foi (compensando um esquecimento inato), dirá que um punhado de atenuantes o favorecem na ilibação. A vítima está danada. Intui que tudo se encaminha para a expiação legal do réu. Acaba a concordar com a anotação à margem no livro de leis que ficou aparentemente perdido num banco do tribunal. 
As três pessoas vão para sítios diferentes, à saída do tribunal. Não adivinhavam que, nessa mesma noite, coincidiriam na amesendação no mesmo restaurante (em mesas diferentes). Não se falaram, apesar de se terem entreolhado. Cada um comentou, com as pessoas que os acompanhavam, a coincidente circunstância de horas antes estarem no mesmo lugar e em lugares diferentes.
Naquela noite, o juiz interiorizou a anotação que servia de rodapé ao livro de leis que alguém esquecera no tribunal. (Ele ficara zelador do livro, não fosse alguém reclamar a sua posse.) Sabia que há muita gente que assim pensa. Gente que vive à margem da lei e tira proveito, num risco constante que é o de ser apanhada em falso e cair nas malhas dos vigilantes da lei. Mas o juiz sabia que alguns figurões bem-postos, senhores de gordas fortunas, a condizer com a sua obesa estampa, senhores que circulam nos interstícios dos corredores do poder e o conseguem influenciar através de meios em débito dos mínimos de legalidade, tinham o condão de escapar às malhas da lei. (As histórias correm de boca em boca e, nos corredores onde fruem os rumores, era dado adquirido – por isso o juiz o sabia, como muita gente o sabia.) 
O juiz de igual modo sabia, como muitos o sabiam, que era infrutífero lançar o anzol a estes figurões, que, ato contínuo, vozes mais altas cuidavam de apagar os vestígios e de sacrificar a diligência dos ingénuos que acreditavam que podiam trazer os figurões perante a justiça. Este era o tempo e o lugar em que compensava (materialmente falando) ser contumaz profissional.

14.3.19

Para-quedas


Morphine, “Top Floor, Bottom Buzzer”, in https://www.youtube.com/watch?v=T-GRQ0TdOhY
          Juramos que não jurávamos. Dizias: “Dá azar”. Eu, que não me importava com sortilégios, que não acredito na sorte como não acredito no azar (para ser democrático e não tutelar discriminações fora de prazo), encolhi os ombros. Podíamos não jurar, absolutamente nada; não seria por medo do azar, que é uma parcelar arritmia dos modos em que se compõe o porvir. Seria apenas porque decidimos que as juras não têm serventia. Mais alto, fala a confiança. E quando bebemos do úbere da confiança, o vocabulário extingue as juras.
        Havia alturas em que sabíamos por perto o precipício. Quem nunca foi sobressaltado por um precipício? Precatamo-nos, que o precipício podia não ter viagem de regresso. E tal como prescindimos de juras, não queríamos que houvesse uma gramática dos arrependimentos. Eramos o que éramos e assumíamos essa identidade. Com o que ela trazia de bom e de mau, como se nos tivessem encomendado apóstolos da imperfeição da espécie. Não queríamos a covardia dos arrependimentos. Ao mesmo tempo, não transigíamos com o torpor que amacia as almas e as destina a hibernação. O equilíbrio era um desafio, difícil. No limiar do precipício, recusávamos um passo atrás: se o dessemos, julgar-nos-íamos timoratos – e, por dentro de uma audácia inesperada, não podíamos aceitar tamanha pusilanimidade. 
          O que faríamos? Quem sabe, jogávamos as cartas outra vez, à espera do jogo a preceito – à espera de que não fôssemos deitados no derradeiro centímetro antes do precipício. Não podíamos contar com essa longanimidade. O jogo estava distribuído e as cartas que tínhamos na mão eram as cartas oferecidas ao olhar. Para não termos o sono assaltado pelo vapor da covardia (algo que, inexplicavelmente, julgamos intolerável), sabíamos que tínhamos de dar um salto em frente, no vazio que preenchia o mapa do precipício. Não havia problema: já não recordávamos a precaução que fora nossa, a de nos equiparmos com para-quedas para a possibilidade de termos de dar um salto no vazio. Não nos lembrávamos de quando vieram os para-quedas à nossa posse. Também não importava. Podíamos avançar no precipício com o seguro de vida arqueado sobre as costas, garantido através dos arneses. 
      Aproveitamos o voo vagaroso com a ajuda do para-quedas. Era como se estivéssemos a mapear cada centímetro do solo sob os nossos corpos. Para memória futura. No plano inferior a que nos trouxe o precipício, deixamos os para-quedas ao acaso enquanto saboreávamos a paisagem bucólica. Eramos o que éramos e assumíamos essa identidade. Já sem o socorro dos para-quedas.

13.3.19

Dieta (short stories #101)


Radiohead, “Everything in Its Right Place”, in https://www.youtube.com/watch?v=GnfPaaMR6Qc
          Desaprovava a gastronomia: considerava-a um capricho, dada a iníqua natureza de que a natureza humana era feita, e os alimentos antes vistos como mantimentos, uma exigência condizente com mínimos de sobrevivência. Esquecia-se de refeições. Não que não fosse assaltado pela fome, mas tinha outras distrações. Por cima de tudo, a posição filosófica contra a obrigação de comer. Não era estranha, a esta posição, a sensibilidade ambiental que prosperara. Não era de estranhar, a magreza impressionante. A pele macilenta, talvez sugerindo uma qualquer maleita induzida pelo défice de vitaminas e proteínas. A magreza não se justificava por imperativos estéticos, ou por estar na moda uma certa anorexia (pelo menos entre os manequins, o que também não jogava a favor da magreza, se este fosse o critério determinante). A dieta era espontânea. Não seguia um guião, nem fora prescrita por um perito da nutrição. Ocasionalmente, tinha de renovar o recheio do guarda-roupa. Se fosse de anotar estatísticas, talvez ficasse assustado com o gráfico do peso quando o gráfico lhe mostrasse como perdera peso. Não sendo o caso, usava o barómetro da roupa que, à passagem do tempo e com a persistente dieta infundida pela consciência, deixava de servir por ser excessiva. Um dia, o médico perguntou, com a habitual pose de paternalismo usada pelos médicos preocupados com os pacientes, se sentia algum mal-estar pela magreza. O médico notou a pele emaciada e torceu o nariz ao interpretar as análises sanguíneas. Ele ripostou, sem hesitar, que se sentia “fino como um alho”. O médico gostava de saber por que as pessoas usam estas expressões idiomáticas sem sentido, mas aquela não era a altura para indagar sobre a semântica. Prescreveu uma medicação (“por favor, não se esqueça de a tomar”) e aconselhou outra dieta (“ou, um dia destes, dá-lhe um ataque de fraqueza e vai ter de ser acamado”). Disse que sim, com a mesma convicção de um mentiroso relapso que não admite que a mentira que conta seja sequer mentira. A posição filosófica sobre a alimentação não se compadecia com as minudências da medicina. Sem dar conta, a vida ficava para segundo plano. 

12.3.19

Uma defesa minimalista da Europa


Cat Power, “Lived in Bars” (live on Later with Jools Holland), in https://www.youtube.com/watch?v=IcaqpzVXHDo
No domingo, António Barreto, em artigo de opinião no P2do Público(“Uma Europa longe demais”), discorre sobre a crise existencial que ameaça a Europa às portas da terceira década do século XXI. Depois de uma resumida historiografia em que mostra as diferentes Europas segundo os diferentes interesses (e interpretações) e os sucessos por ela registados, Barreto parte em busca dos limites que estão a colocar a Europa no limiar do precipício.
A Europa já ofereceu tanto que agora já não tem mais nada de válido para oferecer. Os cidadãos já receberam tanto da Europa que nem sequer dão conta dos valores que outrora foram sonegados e pelos quais foi preciso derramar muito sangue para serem firmados. O desinteresse da população, com expressão no crescimento da abstenção, e o aumento do voto de protesto (nos partidos nacionalistas, populistas e radicais), parecem hipotecar a Europa. O cimento da Europa está-se a despedaçar, como acontece com as pontes e viadutos sem manutenção, com vestígios da cofragem entre a muralha de betão, sinalizando o perigo de desmoronamento. Nas palavras de Barreto, “[o] que é mais confrangedor é que a Europa não tem nada para oferecer, a não ser o que é e o que está. Oferecer aos cidadãos o que já têm, paz, liberdade e livre circulação, não parece especialmente excitante. Mobilizar os eleitores para a democracia que têm há décadas também não é emocionante. Olha-se para a Europa e não se vê o que nos possa dar de novo. Mais do mesmo é receita para desastre ou abstenção. E dá o flanco aos seus inimigos.”
Parto da asserção “[o] que é mais confrangedor é que a Europa não tem nada para oferecer, a não ser o que é e o que está.” Intuo uma ilação oposta à de Barreto. Eu diria: justamente – o que a Europa tem a oferecer é “o que é e o que está”, com o mérito de ser toda uma cosmovisão que, a julgar pelos regimes alternativos, e descontando todas as fragilidades da União, é o que a distingue. É pouco o que a Europa oferece e está tão consolidado que parece não ter valimento? Poder-se-ia ensaiar o registo contrafactual: e se a Europa perdesse o que tem, com que ficariam os cidadãos? O que seria, neste momento e com as circunstâncias conhecidas, um cenário de “não Europa?” O que seria dos valores legados pela Europa? Será difícil pressentir que a Europa da barbárie estaria ao dobrar da esquina, numa involução civilizacional?
Pode-se contrapor que, mesmo assim, é pouco para “mobilizar os eleitores” (citando Barreto). Parece indiscutível, a crer no gradual desinteresse e no alheamento pela política, de que a abstenção é só um sintoma. Em oposição ao pessimismo de Barreto, ofereço uma visão otimista. O legado da Europa não é de somenos importância. É todo um lastro que serve para aguentar as tempestades que têm assolado a Europa. Sem este cimento, mesmo que módico para as niilistas exigências da atualidade, não teria a Europa naufragado, mergulhada no vómito do seu próprio apocalipse? 
Talvez seja um otimismo minimalista, concedo. Uma defesa da Europa, ela própria, minimalista, porque gravitando no que foi garantido e que parece ser desprezado pelos cidadãos refratários e pelos eleitores atraídos por radicalismos que abjuram a ideia cosmopolita da Europa. E por análises catastróficas que sublimam o acessório (as políticas erradas) em detrimento do essencial (os valores imanentes à ideia de Europa). Eu digo que é melhor do que a alternativa. Por várias que sejam as fragilidades da União Europeia, é melhor o mal menor que é tê-la.

11.3.19

O cálice mais alto


Richard Hawley, “The Ocean”, in https://www.youtube.com/watch?v=wYoNrmJe9LA
Dizia-se: corremos para além da loucura, nos escaninhos embalsamados na memória, contra a tirania da sanidade, contra o pulcro avizinhar do ontem deslimitado. Não se dizia que éramos penhores dos hábitos amaciados no formol da má formosura. Mas não importavam os dizeres alheios. Se queríamos um bodo às artes, tínhamos o bodo às artes. Se queríamos uma peregrinação ao ancestral viver perdido algures entre montanhas, tínhamos a peregrinação ao ancestral viver perdido algures entre montanhas. Se queríamos perder a cabeça por uma excentricidade qualquer, perdíamos a cabeça por uma excentricidade qualquer (desde que tirada da imersão, sem qualquer probabilidade antes de ser dela remida). 
Eram nossos os cálices que empunhávamos a cada sagração que calhasse no sortilégio do desejo. Podíamos correr contra a maresia que se insinuava entre os poros da janela. Podíamos dizer que a lua era diurna e a lua transfigurava-se num ser celeste com vida diurna. Podíamos ensaiar um poema a duas mãos e o poema entretecia-se no vagar do tempo só nosso. Entre duas funções, erguíamos o cálice. Era sempre o cálice mais alto. Nele, o néctar que entronizava a nossa distinta maneira de ser. 
Eramos, talvez, ufanos na proclamação: um módico de vaidade não vinha a destempo, pois estávamos convencidos da nossa singularidade. Assim como assim, não havia mais ninguém como nós (por mero desconhecimento dos outros, que manifestamente não importavam). Não havia outro lugar como o nosso, transferido para a semântica do éden. O olhar arrebatado tecia-se na vulgata do tempo amarelecido pela usura. Era quando atiçávamos o cálice ao mais alto que os braços podiam subir – e, garantimos, era alto, tão alto que víamos o Evereste como se estivéssemos debruçados sobre um miradouro. 
Nunca tínhamos as coisas como derradeiras. A matéria fluída dava sentido ao sentido da vida. A vontade extasiante conseguia aquilo que o lugar-comum, e as pessoas mais modestas, chamam milagre. Deixávamos um perfume ímpar nos lugares a que íamos. Sabendo da impossibilidade dos pressentimentos, atirávamo-nos com a coragem de um estouvado ao caudal onde se congeminavam as possibilidades. Acreditávamos em nós. Nos lugares onde fôramos. Nos lugares que sabíamos serem promissória a resgatar quando nos aprouvesse. Os palcos sem gente eram multidão com a nossa presença. Pois era dessa presença que estávamos carecidos, como droga boa que não cessa de alimentar o vício de nós.
Como podíamos recusar os sucessivos cálices?  

8.3.19

A escultura de Sísifo atingiu a cumeeira (short stories #100)


Shame, “Friction” (live on KEXP), in https://www.youtube.com/watch?v=PiF6nlZcjtE
          Um compasso de espera, à espera da alvorada e da claridade quimérica. O silêncio só quebrado pelo murmúrio do mar cansado e por um ou outro pássaro que volteia na sagração da manhã. Um dia que se repete. Dizem os desenganados: todos os dias são uma mera repetição, um monótono monólogo em que somos manada. O aroma da abdicação não combina com a promissora alvorada – mas, afinal, as manhãs são todas promissoras, dizem, menos quando se seguem a um sono sobressaltado. Há empreitadas que continuam em fila de espera. Para gáudio do sossego interior, segreda para si mesmo que hão de continuar em fila de espera. E isso é um conforto. O que seria se um dia acordasse e não fosse capaz de inventariar uma única empreitada em espera? Teria capacidade para inventar uma empreitada no dealbar do dia? E, caso não fosse capaz, o que seria do dia assim vazio? Não queria que o mito de Sísifo fosse exposto ao contrabando. Não queria que a perseverante estátua de Sísifo conseguisse atingir a cumeada, depositando, enfim, a volumosa pedra que empurrou montanha acima. Não queria: temia que o contrabando do mito de Sísifo pudesse representar o inverno da vida, já sem mais nada por esperar – ou por capitulação das empreitadas em fila de espera, que assim ficariam destinadas ao oblívio; ou porque convencionara, ao menos que fosse por uma cartada de oportunidade, que a agenda das empreitadas era um caderno em branco no qual já não tinha serventia inscrever o que fosse. Mas, o inverno da vida significa a decadência irremediável? Sísifo não teria resposta. Sabia que depois do inverno vem a primavera. A reparação da aridez invernal, uma centelha a desatar os nós em que se consumiu a hibernação. E concluiu que a primavera consequente ao inverno é a metáfora de Sísifo (porventura contrabandeada no seu sentido). A escultura de Sísifo derrotou as forças incalculáveis que antes a tinham derrotado tantas vezes. Isso aconteceu no dia em que a primavera depôs o inverno. Esta é a gramática dos dias felizes.

7.3.19

Para que serve o revivalismo?


The The, “This is the Day” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=HXaEAoRUkfE
Mote: “All the money in the world couldn’t buy back those days”, The The, “This is the Day”.
O revivalismo só acomete gente de meia-idade e gente idosa? Serão as faixas etárias mais propensas. Mas o revivalismo não é seu exclusivo. Há gente mais nova, na ampla faixa que medeia a adolescência e a meia-idade, que também descai para o revivalismo. Admita-se que, com o avançar da idade, aumenta a probabilidade do revivalismo; é a cobrança da idade que se traduz na gramática do tempo. E quanto mais o tempo corre à frente, mais as pessoas querem resgatar recordações que servem para turvar o tempo presente (e, talvez, adiar o futuro).
Devia o revivalismo ser proibido? Que não seja erradamente entendido um opúsculo sobre a inutilidade do revivalismo com uma proposta para a sua liquidação do roteiro das almas. Se não se vê serventia em enxertar o tempo presente com memórias, que ninguém tenha a pretensão de estender este comportamento aos demais. Cada qual faz com o tempo que tem entre mãos (em qualquer das suas dimensões) o que lhe aprouver.
Feita a advertência, o que sobra da prosa ensaia uma justificação da inutilidade do revivalismo. Ele encontra-se de diversos modos: em fotografias que trazem um naco do passado até ao momento em que são revistas; na música, no cinema, num lugar revisitado, ecoando recordações; nas pontes entretecidas por um sonho, na linguagem codificada que, num lampejo de lucidez, se decifra em ligação com um episódio passado. Muitas vezes, a visita de um músico que se julgava reformado tem esta intenção. Muito para além da questão estética, está em causa verter um raio de luz nas memórias que quadram com o artista na altura em que ele era, como a audiência o era, novo. É como se fosse possível viajar no tempo e aterrar naquele tempo em que o músico era novo – e a audiência também.
Este é um revivalismo que causa dores excruciantes, em vez de repristinar as memórias em forma de recompensa. Mau grado elas assomem à superfície, desalfandegadas da hibernação, a retribuição é ilusória. Serve para mostrar que os tempos de outrora não voltam – não podem voltar – a ser vividos. O revivalismo resgata memórias que só aparentemente são o rastilho da rejuvenescência. Não é possível, a rejuvenescência. O revivalismo encerra o paradoxo de si mesmo: o que sobra é a melancolia ao cabo do estado hipnótico que foi palco para o resgate das memórias que o músico evoca. 
O revivalismo é ainda penalizador por ultrajar os acontecimentos que a memória procura associar ao músico revivido. Esses acontecimentos são irrepetíveis. Deviam ser honrados como tal, para não perderem o seu zéfiro. Avivá-los implica admitir o pesar que se arqueia sobre a vida presente, o que não abona em favor dos laudatórios do revivalismo. Como se eles pressentissem a necessidade do exílio no passado. É o que se retira do verso que serve de mote a esta prosa (sem cair na contradição de recuperar uma banda que soa...a revivalismo).