27.1.12

Cavaco, o insolvente


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Pediu o Público a ilustres personalidades que filtrassem os consulados de Cavaco e lhe dessem um cognome – num extático arremedo aristocrático, como é costume fazer com os reis, que não casa com os pergaminhos da república nem com a careta da personagem a quem pespegaram o cognome. Cometo o topete de me juntar à fanfarra (em faltando os pergaminhos de “ilustre”). Aqui vai o meu palpite: “Cavaco, o insolvente”. A explicação vem das nada fleumáticas palavras em que a excelência destilou imprópria choradeira por o que entra todos os meses na sua recheada conta bancária não chegar para os gastos.
É um facto comprovado empiricamente: quanto maiores as alcavalas, maiores os vícios. Mal anda o maior economista vivo da pátria (assim pensa de si mesmo) quando dá públicas lições aos súbditos acerca do milagre da poupança e depois tem um deslize que deixa à mostra os seus hábitos de prodigalidade. O episódio vem mesmo a calhar. Agora percebemos por que a personagem não foi capaz de meter as finanças públicas em ordem quando foi primeiro-ministro durante dez anos.
Para o caso, pouco importa (sei que quase toda a gente discordará deste argumento) que a soma das pensões deste reformado esteja no plano onírico para o comum dos mortais. Para mim, o que importa é que o senhor seja um paradigma do consabido “olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço”. Prega a castidade dos gastos e depois admite que fracassou ao passar à prática os doutos ensinamentos proferidos, como é hábito, desde o alto da sua cátedra onde exsuda imensa autoridade intelectual.
É de deixar vir à tona toda a comiseração possível, contudo. Como logo a seguir se auto-apodou “provedor do povo”, não podia haver maior ato de humildade. Ele é lá para qualquer um a pessoa mais importante da pátria admitir que está à rasca de dinheiros? Sim, é um fiel provedor do povo. Porque o “povo”, certamente na sua larga maioria, tem as mesmas queixas que Cavaco, o insolvente.
(Só não tem os mesmo proventos. Mas isso é outra conversa.)

26.1.12

Roda vinte e seis


In http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/8/89/Cyclone_Catarina_from_the_ISS_on_March_26_2004.JPG/250px-Cyclone_Catarina_from_the_ISS_on_March_26_2004.JPG
Desembaraçada, um furacão que levava tudo à frente quando a fúria irrompia na companhia da manhã. Não era a franzina compleição que impedia ser despachada. Não se intimidava com os matulões, nem por lhes chegar apenas meia-leca acima da cintura. Quando era preciso, berrava mais alto. Punha-os em sentido quando moldava o olhar iracundo que deixava inerte a ossatura dos outros.
Não esperava que tratassem dos assuntos que lhe pertenciam. Metia os pés ao caminho e, com as mangas arregaçadas, dava andamento até às vulgares tarefas. Era um vulcão que nunca adormece. Não tinha abatimentos, nem um arrependimento pela torrente incendiada de palavras que esmagavam quem lhe fizesse frente. Dava gosto vê-los a meterem o rabo entre as pernas, quais cães sarnentos envergonhados pela estridência que se abatia em cima deles.
Não era enganada pelos varões avulsos que ensaiaram aproximação com segundo sentido. Tirava as bissetrizes à distância e, antes que avançassem por onde não deviam, punha tudo em pratos limpos. Com linguagem de caserna, se preciso fosse para avivar o entendimento dos convenientemente relapsos de entendimento. Quando uns teimosos insistiam na verborreia e se achavam penhores de especiais predicados, matava o assunto com a ameaça de violência física. Desarmados, recuavam e dissolviam-se no mapa.
Era de armas – disso não duvidavam os que eram próximos. Ao pé dela não havia remanso, não era tutelados tempos mortos. Ele eram exposições, cinema, livros que desatavam um quase existencial pleito com quem embarcasse na discussão, cães abandonados e a incorrigível falta de sono. Ao pé dela os dias eram um carrossel interminável. O tempo, açambarcado com usura. Os olhos não descaíam no firmamento onde apenas vogava o nada. Os corpos não tinham tempo para abdicar da sua febre. As palavras matraqueadas erravam num caudal voraz, como se fossem martelos pneumáticos percutindo as cordas sensoriais que não se podiam remeter à hibernação.
O corpo murcho não fazia jus ao vulcão interior que tudo deixava em desassossego. 

25.1.12

As paredes têm ouvidos


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Um arame a rasgar a planície. A perfeição do quadro espremida pelos pulsos agitados atesta o sopor da planície. Simulam-se os olhares, emprestando verniz às conveniências. Afinal, a planície escondia uma cova funda, uma cova tapada pelas primaveris urzes que enfeitavam a demora.
O quadro pendurado na parede. Em paciente observação, os olhos notam que o quadro esconde diversas camadas. Hesitam, os olhos. É como se detrás de uma espessura se escondessem as matizes que importam. A certa altura, às mãos apetece rasgar a inércia do quadro, espreitar os seus contrafortes, sondar se na sua escuridão não se resguardam os sentidos demandados pelo espírito em desassossego. O rosto cola-se à fria parede amarelada. Investiga os poros do reverso do quadro, como se ali estivessem os antípodas da planície retratada em cores outonais. Porventura à espera de encontrar as porosidades das montanhas que se amontoam umas nas outras, e entre elas, os desfiladeiros temerários que se precipitam no vazio à procura do regato que sussurra.
E à medida que o rosto se esmagava, sentia o ouvido preso à parede. Sentia-se um inseto prestes a ser devorado por uma planta carnívora, tamanha a força centrípeta exercida pela parede. E quanto mais força fazia para o exterior, mais o rosto se colava à parede, o ouvido literalmente fundido na parede. Começou a escutar um amontoado de vozes indiferenciadas. Um rumor imenso, vozes masculinas, vozes femininas, vozes envelhecidas e trémulas, vozes infantis entoando a inocência da idade, vozes alteradas ou vozes profícuas. Era impossível detetar uma palavra entre o clamor que tomava de assalto o ouvido. As vozes ora cresciam de intensidade, ora soavam como murmúrio.
Os olhos já nem conseguiam distinguir a claridade, o quadro entretanto tombado sobre o rosto. Só sobrava a coreografia de sons. E, enfim, entre o caos de impercetíveis palavras, sobraram algumas que se compuseram em estrofe: “as paredes têm ouvidos”.

24.1.12

Temos de ser narcisistas? (Entre um módico de modéstia e o apoucamento do indivíduo que há em nós)


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A amiga, em tom de réplica, solta os freios dos decibéis contra o, talvez, picuinhas sermão contra os narcisistas: “e se não gostarmos de nós, quem o faz?
Ainda explicou, com exemplos de personalidades que avivam as cores insuportáveis do narcisismo, a alergia ao género. Bateu à porta errada. Todas as personalidades passadas em desfile caiam-lhe no goto, o que não ajudava ao reconhecimento do opróbrio. Tentou ver na identificação pessoal dela com companhia pouco recomendável uma brecha para disparar as setas todas contra os narcisistas. Não teria aquele enfado ancoragem na pessoal identificação com as personagens arroladas? Não estaria ela a perceber o que era um narcisista? Ao que ela insistiu: “se eu não gostar de mim, se eu não for, por cima de toda a gente, a minha maior fã, quem o será?
Esgotavam-se os argumentos que compunham a retórica alinhavada. Deitou mão ao derradeiro: era embirração pessoal, os narcisistas que enxameiam o mundo, ocupando um lugar desproporcionado à sua tamanha mesquinhez. Quase a capitular, admitia, sem proferir tais palavras, que exibir exemplos que povoam as incomensuráveis vaidades de si mesmos fora um erro. Sem demora, ela atirou-lho à cara: “conhecemos essas personalidades para além da cortina de fumo que ostentam quando são públicas figuras?
Encostado às cordas, a respiração ofegante retirava lucidez ao entendimento. Que transbordou das margens, como se o cérebro fosse tingido pelo sangue vindo de uma hemorragia, quando ela disparou de rajada os tiros certeiros: “não me digas que não te julgas o centro do universo. Não me digas que não ensimesmas. Não me digas que não julgas tudo em redor pela tua pessoal bitola. Não me digas. Que não acredito.
Desamparado, notou uma gota de suor a descer da fronte para o rosto. É o que dá quando elucubrações sofisticadas se desfazem num tremendo nada. Afinal, todos seriam narcisistas – apuraram os sentidos, agora que tinha baixado a guarda e estava, inerte e refletivo, a um canto da sala.

23.1.12

A cozinha é a libertação do homem


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Um território hostil para as gerações de antanho, os varonis personagens com uma relação utilitária com a gastronomia: só eram bons garfos. Dos bastidores sabiam nada. Era lugar proibido, não se hipotecassem as credenciais másculas pela intromissão nas tarefas que a intemporalidade da história reservara às mulheres.
Um conservador acorrenta-se aos usos, não interroga os costumes que incorpora como adquiridos. Se não fosse a ousadia de uns que começaram a frequentar os vapores das cozinhas, hoje a culinária era feminina. Só que às vezes são os homens que rompem com o marasmo onde se deita a improfícua desigualdade de géneros. Não foi um greve feminina que atirou os homens para a cozinha, para os ingredientes e os utensílios que não sabiam domar, os livros que ensinam as receitas, a ousadia da invenção de iguarias. Eles meteram os pés ao caminho e só pararam na cozinha.
O proto escritor entrevistado num jornal, aquele que também é comentador de atualidade numa televisão, descobriu que a cozinha é o seu território de emancipação. É um bocado diferente – diz quem já leva mais de metade da existência pelas artes da gastronomia amadora. É um sortilégio. Entrar na cozinha para despachar uma necessidade básica (a alimentação) não é sortilégio todos os dias. A escassez de tempo que infeta o quotidiano e a falta de paciência para retirar uns minutos à lufa-lufa diária para congeminar a ementa podem embeber a magia culinária com os ingredientes da apatia. E a apatia está nos antípodas de qualquer sortilégio.
É nos repastos especiais que há um ritual de consagração. Dos ingredientes que se combinam numa combustão certa. Dos efeitos que a química da gastronomia ensaia, com a curiosidade repleta aguardando pelo produto final. Ou das invenções que crescem do nada por dentro do pensamento, montando-se em sucessivas levas de aromas que se julgam uma combinação certeira.
A única lamentação é alguma perda dos sentidos, olfativos e do palato (degenerescência congénita ou praga das alergias, fazem notar os médicos). Nem assim se dissolve a alquimia da gastronomia. A avaliação pertence aos convidados.