29.5.20

Não serás estrela cadente (short stories #218)


Blur, “Charmless Man”, in https://www.youtube.com/watch?v=p1a_4CN4onA
          Não é preciso muito. Um esforço modesto transfigura-se numa obra singular. Diga-se: não há montanhas insuperáveis; não há mares que não consigam ser sulcados por um navio adestrado. Se revelarmos o negativo, obtemos uma fotografia nítida nas mãos. Um esboço: não interessam os púlpitos onde amestrados figurantes da perfeição jogam numa rivalidade larvar. Orquestram os planos meticulosos, sem saberem que o inesperado pode dissolvê-los num toque destruidor. Não é preciso muito para uma vida se refazer de cima a baixo (na hipótese de ela não esmaecer no seu estertor). São improfícuos os batismos de alma que exibem impudores de grandeza. Se ao menos os candidatos a heróis soubessem que não passam da irrelevância intrínseca à lógica dos números (o que somos, se não uma casa infinitesimal na vasta estatística da espécie?), não se arrogariam tanto prestígio. Não seriam mais tarde acometidos pela dor pungente da decadência. É mais fácil ser uma estrela cadente, dirão, do que repousar a resplandecência perene no firmamento. A menos que o firmamento seja um castelo onde a alma coabita no seu fingimento. Não rimam os prolixos esteios da interior grandeza com os aromas do mundo. Ficam aquém das cores desmaiadas que compõem a paleta dominante. Por mais que tentem ser o arco-íris que empresta vivacidade ao demais, não governam a contingência. São atores menores num palco sobrepovoado. Quem assim se movimenta no imenso palco das intenções acaba a bolçar a ilusão em que se consome. A desafetação podia ser o sucedâneo e abraçar-se aos cometimentos modestos. Chega a mera ignição de um fósforo. O resto do fogo vem das veias abraseadas que forem submetidas ao altar da vontade.  O melhor critério é não aspirar a ser estrela, nem de si poder dizer que é um quinhão no mapa do céu. Esse modo garante que nunca se chega a ser estrela cadente.

28.5.20

Bola de neve


Joy Division, “Dead Souls”, in https://www.youtube.com/watch?v=kTdFsXc7zFg
Não servia, a escada. Por mais que a voz arranhasse os portões do tempo, nada acontecia. A indiferença batia no umbral da voz. Do verbo não sobrava a pele. Podia ser que a memória ajudasse. Um mergulho no pretérito seria a reivindicação da pureza que sabia ser demanda impossível. Mas nunca houve condenação de alguém por tentar o impossível. 
Às vezes, olhava à distância para a paisagem e sentia que se estivesse no sítio observado não faria parte dele. As bainhas que me delimitam são porosas. Vão e vêm no equilíbrio instável de um malabarista. Não digo que seja eu próprio malabar nas empreitadas que meto a peito. Exsudo a lava acumulada durante anos de calmaria, que por vezes mais parece o tempo ungido por um fingimento irrecusável. Fazer de conta que não se é importunado pelas coisas que estorvam pode não ser um estado de alma aconselhável. Não é por contornarmos as coisas espúrias que elas deixam de existir. 
Às minhas mãos vem o cimento da pertença. Contudo, continuo a não ter uma noção clara da pertença. Sei que jogo com a argamassa, estilizo-a em estatuária ser ter noção das figuras de que sou artesão. A maioria tem uma fala que parece inteligível. Talvez a minha fala não seja. E, por maior que seja o esforço meu, não consigo pertencer à pertença afivelada pela maioria – nem a minha semântica se aloja no inventário acessível. Parece que nasci para a dissidência. Procuro saber porquê. Ando às voltas há anos inteiros e ainda não consegui saber do paradeiro da resposta. Já me convenci que não há resposta por encontrar. Já me convenci que a ausência de linhagem não é um contratempo. É a minha pertença. Por exclusão de partes, a pertença a lado nenhum.
Pode ser que um dia me depare com uma bola de neve em plena descensão. E, com a bola de neve no meu caminho, consiga erguer as duas mãos e reverter o seu curso. Pois ninguém é penhor na minha vez. Não espero por alfaias alheias para industriar o plano imperfeito. É tudo o que desejo: um plano e, de preferência, imperfeito. Pois a perfeição é uma praga sem remédio.

27.5.20

Bandeira vermelha (short stories #217)


Patrick Watson, “Fireweed”, in https://www.youtube.com/watch?v=GGRV60jAfL0
          No parapeito da maré-viva, hasteada a bandeira vermelha. O melhor arnês era recusar o mar. O seu tumulto pressagiava a tragédia para os intrépidos que fossem mar adentro. Talvez não voltassem a ter os pés em terra. Esse era o anúncio cautelar da bandeira vermelha. Um escritor (cujo nome a memória não cauciona) dizia, em sua pose senatorial própria da vetusta idade, que a bandeira vermelha estival era uma metáfora da vida. (Ele não tinha a ousadia de reproduzir a bandeira vermelha como a metáfora da vida. Era uma das metáforas.) Às vezes, não se sabe do mapa das vielas onde podemos ser arrancados do sangue primacial. E metemos o corpo ao caminho, sem pressentirmos o labirinto que não tem porta de saída. Outras vezes, é a loucura que nos empurra para um lugar onde, chegados, percebemos que tem como hino a bandeira vermelha. Tarde de mais. A prelúcida metáfora desdobra-se no paradoxo da bandeira vermelha. São poucos os palcos mais arrebatadores do que o mar tumultuoso servido por uma maré-viva. A bandeira vermelha é o chamamento para os que se inebriam com a convulsão da maré desarmadilhada. Mas o chamamento costura-se numa margem de segurança, como se a bandeira vermelha tutelasse o irrecusável cinto de segurança. O mar iracundo não é generoso. Não oferece segundas oportunidades. Não é o melhor teatro para os temerários. Se a maré-viva estiver de mau humor, ou o jogo dos acasos soletrar o nome da morte, os audaciosos pagam com a vida. Os cânones ensinam que há proibições que não se congeminam apenas no secreto prazer de proibir-por-proibir dos mandantes. A maior coragem é a de guardar a vida num cofre com labiríntico código de segurança. A maré-viva não está com mesuras ou mordomias. Se o mar embravecido é um poema vivo à exaltação dos elementos, a bandeira vermelha é a mnemónica da segurança imperativa.

26.5.20

A porta sem forro


The Fall, “Touch Sensitive”, in https://www.youtube.com/watch?v=i90EMCj98es
- Invade-me a melancolia que bolça dos arriscados mapas retirados ao luar.
- É uma invasão contra a vontade?
- São todas. Conheces uma invasão feita no aprumo da maré?
- Eu posso entretecer as condições para que algo de mim se apodere. Se for exterior e me contaminar por dentro, será com o usufruto da vontade.
- Nesse caso não te será autorizado usar o termo “invasão”. A vontade que concorre para que algo do exterior se insinue por dentro de ti não admite uma invasão.
- Não podemos tentar um ponto de equilíbrio?
- Como dizes?
- O que nos é exterior pode passar a ser nossa pertença. A vontade é a caução necessária.
- Não usaste “invasão”.
- É do foro semântico. Não amesquinhemos o palco onde nos movemos. Sobrepujemos a substância ao rigor formal. Dizias no início que a melancolia te invadia. Que descaminhos justificam o açambarcamento da vontade?
- Vejo as múltiplas janelas em meu redor. Vejo-as fechadas. E depois entreabrem-se, avulsas, uma a uma. Não todas. Algumas ficam fechadas. Em algumas janelas assomam vultos, mas não lhes distingo o rosto. É estranho. Se estivesse longe das janelas, o vulto justificava a inoperância de um rosto. Não é o caso. As casas só têm janelas. Durante a noite, interroguei-me se os moradores entravam em casa através das janelas.
-  Notaste se os prédios tinham guardas-noturnos?
- Alguns. Os que aparentavam ser habitados por gente abastada.
- Ouvi dizer que os guardas-noturnos são muito diligentes na atalaia das casas. Previnem extemporâneos extravios das almas às janelas. Os eruditos advertem que as almas podem ser dissolvidas pelo ar exterior. 
- Por exposição aos ventos da melancolia?
- Correm esse risco, sim. Os diligentes curadores da sanidade pública cuidam de evitar o contágio dos ventos. Ainda está por determinar quando os ventos proveem de latitudes que contaminam as almas com o vinco larvar da melancolia. 
- Mas, em todo o caso, não tenho ido à janela e sei que fui usurpado pela melancolia.
- Não será erro de diagnóstico? Não estarás erradamente convencido da melancolia?
- Como poderei saber?
- Há lugares nas cidades que são a prova dos nove. Lugares sem mapa, a localização corre de boca em boca, em segredos cuidadosamente ciciados. Chamam-lhe lugares com as portas sem forro. As pessoas passam pela porta e ficam com a alma desenroupada. Quando a franqueares, saberás se a tua ossatura foi invadida pela melancolia.
- Temo sabê-lo.
- Como?
- E se se confirmar que é melancolia o meu diagnóstico?
- Terás ido ao encontro do tira-teimas.
- Não sei se corro o risco. 
- Preferes lobrigar na dúvida? Sentir a tempo inteiro o pulso madraço da hesitação a adejar sobre o sono?
- Prefiro. Antes ficar sem saber se foi a melancolia que me invadiu do que ter a certeza do diagnóstico. O convencimento da melancolia é um cárcere de que receio não conseguir extração. Antes ficar amordaçado pela dúvida. É menos do que um convencimento. 

25.5.20

Sobre a função biliar e as armadilhas não anunciadas


Idles, “Mr. Motivator”, in https://www.youtube.com/watch?v=YNCopmqsw1Q
Alguém pergunta: não te incomodam as injustiças perpetradas ao arrepio do mínimo de humanidade? Respondo, quase sem pensar: não. Não sou o fautor dessas injustiças e delas não sou presa, intencional ou não. Não posso aplacar as dores sentidas pelos destinatários dessas injustiças. Não as sinto, são intransmissíveis.
Segue-se outra interrogação: e não te move um mínimo de compaixão, um dever geral de solidariedade pelas vítimas dessas injustiças, atrozes ou não? Não se demora a resposta: também não. O palco sórdido que pisamos não tolera lirismos que enfeitam a boa consciência quando ela se limita a pacificar demónios interiores, ou quando se projeta no exterior como um feixe de luzes vazias. Não posso fingir o que não sou. Acusem-me de insensibilidade, de um tremendo egoísmo, de misantropia. É o que aprendi a ser. Vejo que o são quase todos no labirinto monolítico que nos aprisiona à existência possível.
As interrogações não cessam: não te incomoda que te considerem um pária? Do manual dos interiores procedimentos emergiu resposta célere: não. Se não somos todos párias, a estatística não anda longe de o atestar. Esta armadura que vestimos é-nos industriada pela aprendizagem com os outros, com aquilo que tu consagras encomiasticamente como a “convivência social”. É o que nos corrompe. O dominó a que nenhum de nós pode escapar. Por imperativo da armadura, repousamos num princípio geral de desconfiança que dorme lado a lado com o princípio geral da indiferença.
Sem se deter, o interlocutor protesta, desde o reduto onde medra a ingenuidade, denunciando os maus profetas que são o enxame dominante. Estiliza um raciocínio impecável, a pureza em todas as suas formas, desenhando com as sílabas uma utopia que os olhos tratam de desmentir. É a minha vez de retorquir: não te convenço a deixares de lado a maçaneta da ingenuidade, se é agarrado a este preceito que intuis o teu devir. Possivelmente não podemos fazer nada quanto às divergências. E eu digo: ainda bem. Seria soez qualquer tentativa de um de nós convencer o outro a ser diferente. 
Os matizes do mundo, é como são. A impressão de decadência permanente a sobrepor-se a um artificial progresso. Os manuais de instruções educam princípios inatingíveis, porque esbarram nas formulações da pragmática. O único peso da consciência: nenhum de nós se habilita a ser ator de uma metamorfose. De uma metamorfose que nem sequer estamos convencidos de ser desejada. Os olhares não se decantam pela hagiografia do mundo, que não existe.

22.5.20

Cara ou coroa (toca do lobo)


The Stranglers, “No More Heroes” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=Db0VB_MmeK0
Não era o eclipse esperado. A penumbra corroía a claridade, mas previra-se uma convulsão ansiolítica. Os olhares sintonizados com o céu distraíam-se do demais. Era o nirvana para os ladrões de almas. 
Nem os que foram para as cumeadas viram amnistiado o esforço. O ultimato fora em vão. As pessoas encolhiam os ombros, como se já desconfiassem da desilusão. Não imprecavam o sucedido. As variáveis que se congeminavam estavam fora do seu domínio. Não se arrependiam do tempo gasto. Podia ser que os peritos tivessem feito mal os cálculos. Podia ser que fossem extravagantes, os cálculos (e os peritos), só para os peritos concentrarem as atenções da gente demais. Ou era uma vingança dos peritos, desagradados pelo reconhecimento avulso, pois só eram consultados quando o céu exibia fenómenos aberrantes. (Ou estavam frustrados porque fora da regularidade não tinham serventia.)
Depois, vinha informação conclusiva, a janela aberta para o próximo episódio: “o próximo eclipse com esta dimensão só voltará a acontecer no ano...” (dos jornais). Até lá, as pessoas seguiriam as vidas monótonas. Deslaçando o olhar do céu, pois esse não é o seu território. Os que não temem a morte e alinham pela liturgia das religiões coabitam no significado metafísico do céu. No dia do eclipse, deixaram o monocórdico atributo celestial para reunirem com a ciência. Por um dia, a ciência cuidaria de suspender as religiões. Os racionalistas esfregaram as mãos com a antecipação do lucro.
Os seguidores dos deuses arriscaram a sorte com o eclipse. Se os peritos não tivessem feito cálculos por excesso, e a escuridão no pináculo do dia tivesse vingado, o céu ficaria um vulto. Cuidariam de interrogar se esse era o sobrecenho do céu no dia em que nele fossem acolhidos? Mal maior não sobreviria – antecipariam os crentes, ao mesmo tempo de si cientes: nem a luz no fim do túnel, ou seja, um lampejo de esperança ao serem sentados no trono dos julgados no ermo céu, chegaria para os resgatar do lugar sombrio que habitam na terra e adivinham ser seu inventário no céu. 
O eclipse malogrado salvou-os da improfícua redenção que dizem estar à sua espera. Se a penumbra tivesse prosseguido e a escureza tivesse tomado de assalto o céu, teriam sentido o leve acidular do céu que os espera. Talvez, em vez disso, reconhecessem a toca do lobo. Só não saberiam se o lobo estava esfaimado e se tinha o dente afiado.

21.5.20

Nortada


TV on the Radio (ft. David Bowie), “Province”, in https://www.youtube.com/watch?v=_whZTOiB5to
A pele não se faz ninho das intempéries. Esconde-se no refúgio de uma fazenda e os poros acalmam-se contra a advertência do vento. Diga-se que ninguém na posse de juízo se empresta a uma tempestade. Ninguém se devolve ao avesso da bonança sem que um tumulto interior o percorra. O vento não está para murmúrios. Encosta-se aos fartos decibéis e, baldio, vocifera a sua fúria sobre os lugares expostos. 
Pode-se dizer que estes lugares conservam as marcas do vento rebelde. Se não for o selo da destruição, será o odor indelével de um vento que em palavras traduz a maresia que cicia desde latitudes perdidas. As pessoas esboçam esgares de dissabor por causa da nortada que as agride nos rostos. Não se lembram da última tempestade, como a nortada é um pequeno artefacto que não rivaliza com os ventos que medonhamente açambarcaram a noite da última tempestade.
Há quem diga que a nortada inspira as ibéricas terras expostas ao mar atlântico com vestígios de civilizações viquingues. Não se diga que somos tão diferentes dos nórdicos, se ele é tanto o tempo de um calendário que estamos à mercê dos ventos que dimanam de nórdicas paragens. Nós, os que sabemos de cor as arestas da nortada, temos a pele endurecida pela sua aprendizagem ao penhor da nortada. Os mais rijos e que disso fazem gala, dizem que a rijeza é o fruto colhido da nortada. Ninguém os desconvença que não são dos mais preparados para deitar ferrolho aos contratempos.
Uma vez, um nórdico visitou uma terra consanguínea ao mar mediterrânico. Não se queria convencer que era um mar. Era um espelho inteiro até onde o olhar se abraçava. Chamou-lhe o lago mediterrânico. Um mar – contrapôs ao anfitrião que defendia a linhagem de mar para o mediterrânico – é um levantamento dos sentidos. Uma orquestra de vento que rumoreja em rima com as ondas desordeiras que se desfazem na orla imperturbável. Um mar não é domável. Agiganta-se sob a vigilância dos promontórios que mergulham em precipícios guturais sobre o mar que os recebe. 
Dias depois, o nórdico virou os azimutes do mapa peninsular. Levaram-no a almoçar a uma esplanada sobranceira à praia. Não podia estar em lugar mais deleitoso. Já se notava a nortada que expira a manhã. O mar não era a submissa amostra que lhe fora dado a conhecer dias antes. Reconheceu o sabor do vento: “este é o sal que sela a minha terra”, lembrou, ao sentir as lágrimas depositadas na nortada por sua vez despojada na pele que trazia à mostra. 

20.5.20

A ardósia democrática (onde todos podiam publicar) (short stories #216)


Happy Mondays, “Step On”, in https://www.youtube.com/watch?v=mFBQ0PH5rM4
          Não se sabia de quem tinha sido a ideia. A ardósia foi fixada junto à arvore centenária do jardim. Sobre o parapeito, o giz necessário. As pessoas podiam escrever o que quisessem, sem marcação prévia. Não havia regras, a não ser: ninguém podia passar à frente de quem estivesse em espera; ninguém podia tirar o giz a quem o estivesse a usar; ninguém podia apagar uma frase acabada de escrever; ninguém podia rasurar uma frase. Ao início, as pessoas estavam hesitantes. Olhavam para a ardósia vazia, como se a sua epiderme escura fosse um silêncio pesado a abater-se. Outras passavam pela ardósia com indiferença. Talvez não gostassem de escrever. Talvez reservassem para meios impublicáveis a forma dos seus pensamentos. Alguém inaugurou a ardósia: “Pela manhã, antecipo-me à prodigalidade de um dia que adestro para a grandeza.” Logo abaixo, alguém confessou: “A mortificação do medo é uma razão.” Ao fim do dia, depois de algumas frases já apagadas para darem lugar a novas proclamações, alguém quis desvalorizar a ardósia democrática: “A liberdade de pensar e de escrever está na medida inversamente proporcional ao calibre do pensado e do escrito.” E, todavia, a ardósia continuava aberta aos contributos dos passeantes. Não interessava aferir a linhagem das palavras desenhadas. Intua-se a intenção dos promotores da ardósia (que continuavam anónimos): levantar a pesada cortina que silencia a palavra das pessoas sem nome. Era uma versão modificada do Speakers Corner, em Londres – alguém propôs, observando a mancha carregada de giz que furtava a escuridão à epiderme da ardósia. Um dia, um famoso escritor tomou o giz entre os dedos e fez menção de imortalizar (na medida da efemeridade da ardósia) a fala que enxameava o pensamento. Deteve-se longos minutos à frente da ardósia, enquanto um punhado de pessoas esperava por vez. Esmagado pela ardósia prolixa, sentiu-se cercado pela impotência da palavra. Silêncio, foi tudo o que conseguiu verter para a ardósia. Limitou-se a escrever um ponto final.

19.5.20

Princípio geral da precaução


Margaret Glaspy, “So Wrong It’s Right”, in https://www.youtube.com/watch?v=7rtqUUjxKJQ
(Um certo aroma do tempo)
Às piruetas, diremos o quê? Do ontem sobra a transpiração da distopia. O mundo ia acabar – e alguns profetas continuam a jurar que acabou, o mundo como o conhecíamos, pelo menos. Um leve alívio da procela é a tábua de salvação. A distopia foi anunciada antes do tempo. Temos autorização para respirar. A respiração a pulmões fartos, apanhando as porosidades todas que o ar fresco granjear. O ar dentro de casa estava mais saturado do que o sítio com a pior poluição atmosférica. Parece que as casas foram feitas para dormir, e pouco mais.
O princípio geral da precaução, ainda há pouco tempo tão glosado, está a caminho do olvido. Mas parece depressa de mais. Afinal, não somos aqueles dos brandos e moderados costumes. Somos paradigma dos excessos. Os últimos dias foram cobertos pela extravagância que percorre os rostos famintos por se verem desembaraçados de um teto. O tempo a favor, primaveril, ajudou à emancipação da hibernação forçada. Os intendentes convocam a “responsabilidade pessoal”. Não sabem – ou fingem que não sabem – que a “responsabilidade pessoal” não é critério. A “responsabilidade pessoal” é variável, pois as pessoas diferem muito umas das outras. 
Poderão os protetores de conspirativas teorias argumentar que é tática intencional dos intendentes. Se correr mal, a culpa terá sido dos reduzidos padrões de “responsabilidade pessoal”, usando-o como pretexto para aferrar a trela sobre os súbditos. Um sonho que se entreabriu, com visíveis manifestações, aos que detêm o poder e o confundem com ostentação de autoridade. Se correr bem, os intendentes hão de perfilar outra vez na passerelle onde se compara a diligência para domar o inimigo sem rosto. Os cidadãos serão aplaudidos e estes hão de aplaudir os mandantes pela manifestação de confiança. A teoria do milagre nacional será sublinhada até à exaustão, outra vez. Bendito inimigo sem rosto, o cimento da portugalidade resgatado à epiderme sombria do passado.
Parece que o princípio geral da precaução ainda não foi banido. As costuras da imagem cuidam do resto. Os que dão o rosto pelo poder instituído não se cansam de se exibir como exemplo. As pessoas têm de sair. Têm de começar a trabalhar. Têm de começar a ir a restaurantes. Têm de tomar o pequeno-almoço no café do costume. Os seus filhos têm de ir à escola. Tudo tem de funcionar, se não a fatura começa a ter um peso insuportável. 
Afinal, o princípio geral da precaução ainda tem microfone acessível. Em nome das minudências da governação, mais do que em homenagem a quem ainda pode falecer vítima do inimigo sem rosto.  

18.5.20

Posto de vigia


Tindersticks, “A Night In”, in https://www.youtube.com/watch?v=o_Y_c4f6WdE
A atalaia servia-se em fatias de generoso bolo marmoreado. Não era menor, a incumbência: do lugar cimeiro, em pose sobranceira sobre os demais, cumpriria a demanda da verificação dos costumes. Os tempos árduos pareciam ter desatado a loucura e havia cada vez mais gente tresmalhada a viciar as regras do jogo. Os curadores do regime trataram de ceifar o mal pela raiz. Antes que se desse a razia dos cânones, era preciso cortar a eito no hedonismo irresponsável. 
Ele fora nomeado para a função. Avisaram-no, antes de assinar o termo de responsabilidade, que não seria uma empreitada cómoda. O que não disseram foi o motivo certo da ingrata demanda. Quando esperava que o advertissem que não é fácil espiolhar a vida dos outros, foi-lhe explicado que a tarefa é ingrata porque era preciso estar sessenta segundos por minuto atento aos cada vez mais numerosos que faziam tábua-rasa das convenções. E as convenções não admitiam desvios. Não seria tolerada qualquer transigência. Os mandantes depositavam confiança na sua capacidade inspetiva.
No mais alto miradouro, com acesso à imagem de todos os coabitantes, era como se fosse o imperador máximo. Mais imperador do que os mandantes de que era procurador. Estava inebriado. A atalaia indiscriminada fizera dele o mais poderoso. Tinha de começar a função com intransigência. Não haveria comiseração por atos tresloucados que fossem invocados como reação desabrida às erróneas circunstâncias que sobressaltam o lugar. Não haveria contemporização com o menor desvio. Dele se esperava que fosse tutor dos comportamentos irrepreensíveis. Teria de atacar ferozmente os que perturbassem o código de conduta.
Uma noite, ao chegar a casa depois de uma jornada em que cominou um número recorde de infratores, ficou embaraçado com a heresia da consorte. Assistia a um “filme com cenas que perscrutavam a intimidade” – seria o eufemismo que empregaria para “filme pornográfico” caso estivesse a preencher o auto de condenação da consorte enquanto infratora. Indignada com o protesto audível do censor, ela lembrou que o sexo não estava proibido pelos costumes. Ao que ele retorquiu, “ainda não. Ainda não.”
Na noite seguinte, quando chegou de outra jornada extenuante, a casa estava sozinha. Um bilhete em cima da mesa da cozinha selava o adeus da consorte: “não consigo viver com o cúmplice da esterilização da sociedade.” Ele não perdeu o sono. Abraçara tão fortemente a missão que o resto era desimportante. 
Havia quem lhe chamasse a mais insublime das cegueiras.