24.10.14

A culpa do prazer (e outras castrações)

In http://media.uccdn.com/images/1/0/8/img_cuales_son_los_siete_pecados_capitales_20801_orig.jpg
Aos sacerdotes vários (com e sem sotaina) que sobem a um púlpito de onde julgam comportamentos alheios; aos que devem ter íntima existência tomada pela perene apoquentação; aos que não se importam de alvitrar sobre o que não lhes diz respeito e, ainda assim, não sucumbem na vergonha.
Para todos eles: deixem os prazeres alheios à solta. Deixem-nos voar por dentro das asas de quem os transporta, que são aqueles a quem os prazeres interessa, pois a eles revertem nos sentidos. Que se deixem, os Torquemadas risíveis, de erguer o dedo censório, de puxar a corda a argumentos bafientos, talvez de esconder uma reprimida inveja. Deixem os hedonistas em seus floridos campos. A eles os prazeres vários, sem a mácula do pecado ou a insinuação torpe da anormalidade. O que foge da normalidade é haver gente que tem tanto tempo livre (ou uma insignificante existência própria), que trata de atirar a lama da culpa para os que perseguem devido a terem prazeres que, julgam, deviam ser proibidos.
Os prazeres são prazeres. Revelam a grandeza de quem neles se deita. Um desassombro. Fruem-se no império da liberdade que em cada um tem cabimento. Se por acaso alguém se dedica a prazeres que julgamos incompreensíveis, viremos o rosto para o outro lado, ensimesmemos os lados redondos onde encontramos os nossos próprios prazeres, deixando os prazeres dos outros ao seu império volitivo. Os sacerdotes, com ou sem sotaina, que sentenciam sobre prazeres de gente outra deviam ser banidos da palavra (hipótese última da censura). Não dignificam a sua própria liberdade ao cometer um soez atentado à liberdade daqueles em que vertem a voragem dos vómitos que fazem passar por opinião. Mas não é opinião. Ou, em o sendo, guardem-na no obscurantismo dos seus profundos seres, deixem-na aí, gasosa em seu estado. Guardem a culpa para a atirarem para cima de si mesmos, quando encontrarem o chão viscoso em que se consomem as suas particulares apoquentações e delas vicejar uma culpa que nunca é admitida.
Quanto ao demais, deixem o prazer medrar sem culpa. Ou chegará um tempo em que os alvejados pela sua ira censória terão um duplo prazer: aquele sobre o qual reverte a ira dos censores (a culpa do prazer) transfigurada em prazer da culpa. No prazer da transgressão metódica.

23.10.14

O rapaz que queria saber a cor do luar

Colourbox, "The Moon is Blue", in https://www.youtube.com/watch?v=lT2b6wxHIO0
O rapaz sabia que era estrangeiro naquela terra tão distante. Tudo era diferente. O que se falava, o que se comia, a maneira como as pessoas sorriam, a frieza com que falavam umas com as outras, o frio que era mais frio do que alguma vez sentira, a cor do luar.
Entre a constelação de coisas diferentes, o que mais o intrigava era a cor do luar. O céu estava quase sempre coberto de nuvens e roubava o luar só para si. Era uma sensação esquisita. Da terra de onde vinha, o céu noturno destapava-se de embaraços e mostrava a exuberância da lua quando ela subia no firmamento a resplandecer sobre o planeta. Mas ali, eram as nuvens que mandavam. Aliás, já do sol se podia dizer o mesmo: quase sempre estava ausente. Com o andamento do tempo a caminho do equinócio do inverno, a luz emprestada pelo sol encolhia-se, deixando uma pálida claridade de pouca duração a adejar sobre o dia. Mas não era tanto do sol que sentia falta; precisava de contemplar o quadro efervescente que era a irradiação do luar, a lua que ficava, imperatriz, a ungir os lugares todos com a luz branca como só ela sabia fazer.
Uma noite, por fim, o desejo do rapaz estava à mão de semear. As nuvens tinham decidido arrimar a outros lugares. O céu estava nu, preparado para exalar a visita da lua cheia aprazada para aquele dia. O rapaz nem jantou. Subiu a um promontório perto da cidade, porque julgava ficar mais perto do céu onde pontuava a mágica lua. Foi digerindo as diferentes fases da lua à medida que as horas avançavam da noite pela madrugada fora. Nem chegou a sentir o frio glacial que se pusera na noite. Tirou fotografias, muitas fotografias. Queria, fosse como fosse, saber de que cor era o luar.
Tinham-lhe dito que ali a lua tinha uma cor diferente. Confirmou. Tentou anotar uns pensamentos acerca da lua que parecia diferente da que fora dada a conhecer. Não conseguiu se não esboçar umas palavras avulsas, nada que fosse descritivo das tonalidades inesperadas que a lua inteira oferecia. Derrotado pelo sono e pela lua que já descia a caminho do fio do horizonte, exangue como ele, desistiu. Não sabia de que cor era, ao certo, aquela lua tão diferente. Mas isso também não importava. Anotou, mentalmente, diferenças. Oxalá não lhe perguntassem quais eram, pois não sabia o que dizer.

22.10.14

Um estranho

Julia Holter, "Hello Stranger", in https://www.youtube.com/watch?v=dtp-Vl90uDU
Às vezes, é como se o corpo não pertencesse ao ser. E o corpo estranhasse o estranho que nele se entranha.
É madrugada. A noite ainda embebida na ausência de luz. Os olhos abertos nada distinguem. Os olhos estão submersos na penumbra do silêncio. Os dedos tateiam o corpo, só para sentir se o corpo é mesmo corpo – o corpo. É uma impressão estranha. O corpo é sentido, os dedos percorrem-no em toda a sua extensão. Mas, lá por dentro, é como se não houvesse sensações para sentir, como se os archotes tivessem uma luz pífia e tudo estivesse sitiado nas paredes frias de um quarto soturno. O corpo em antinomia com o ser. Um estranho em colonização do corpo. Em duas metades e cada uma em luta com as forças todas para asfixiar a outra.
Os olhos, agora marejados, querem irromper da luz baça que vem das ruas da cidade. Nem as luzes que emprestam luz à cidade e a retiram da penumbra se conseguem ver. Parece um nevoeiro plúmbeo. Os olhos perdem a orientação das coisas, perdem-se numa errância que não é intencional. As mãos apertam-se com a força toda, como se tivessem medo que o corpo se apartasse do ser – daquele ser estranho – e deixassem de ser partes do mesmo todo. Talvez os olhos não estejam abertos. Talvez seja só uma ilusão. E tudo seja a plenitude que sempre julgara. O estranho em mim, não é. Apenas uma paleta de cores desmaiadas ditada pelo caleidoscópio de sentidos que flui com a voracidade dos murmúrios. De onde sobram diversos eu.
Mas a noite demora-se. Dir-se-ia, pelo tempo passado, que era tempo de vir o dia. Os olhos que se consomem na penumbra altiva reveem as estátuas que são o desdobramento dos tempos de outrora. Revisitam-se imagens. Não têm serventia. De lá não encontro aprendizagem alguma. De repente, um pedaço de espuma do mar sobrevoa o extenso areal e vem pousar na maçã do rosto. É uma centelha que ilumina o rosto. Que é o mesmo. 
A noite demorava-se, contudo. Talvez fosse inverno e o estranho, sem contar, tivesse encontrado regaço numa paisagem ártica.

21.10.14

Torcer os números até eles dizerem o que queremos

In http://thumb1.shutterstock.com/display_pic_with_logo/474871/101278054/stock-vector-background-with-numbers-vector-101278054.jpg
Há manipulações para todos os gostos. Umas são grosseiras e quem as comete é vilipendiado. Dizem que não vale fazer batota e a desonestidade da manipulação não é boa medida. Outras são – como dizê-lo? – suaves reinterpretações que fermentam novos números, mais simpáticos como descrição da realidade.
Como se consegue o milagre? Mudam-se as bases de cálculo, adicionam-se novos pressupostos, mete-se na soma o que dantes estava excluído e, no fim, também se está a torcer os números. Só que estas manipulações nem se chamam oficialmente manipulações; são revisões de métodos, metendo numa nova alcáçova o que dantes, por pruridos da moral e por impedimento das leis, estava excluído. Mas não se pode dizer que é batota, porque a manipulação (que oficialmente não o é) veio ungida com a bênção dos organismos oficiais que fazem estatísticas.
Vem isto a propósito de a União Europeia ter concluído que devia incluir uma variável aleatória no cálculo do PIB que metesse na riqueza dos países uma estimativa dos efeitos económicos da prostituição e da droga. E, de repente, o PIB aumentou 2,5 por cento. Não é o milagre das rosas, que as coisas tão imorais e ilegais que passaram a contar para as contas são tudo menos rosas; mas é um milagre que fez crescer o tamanho da economia. E, de caminho, consegue (por artes da ilusão estatística) diminuir o peso da dívida pública e do défice orçamental nas contas dos Estados. Que vão a caminho de respeitar os açaimes que a União Europeia colocou no défice e na dívida.
Os tráficos (de carne branca e de substâncias que levam os consumidores para dimensões cósmicas) mexem com muito dinheiro. Já toda a gente sabia. Estando essas atividades fora da lei e dos costumes, todo esse dinheiro aquece a economia subterrânea. A economia que não conta para as contas. Agora, isso mudou. Só faltou à notícia explicar que contas usaram os estatísticos de serviço para concluírem que as atividades que passam debaixo da mesa significam mais 2,5 por cento na economia.
À falta de dados, ficam as consequências. Primeiro, o exercício é paradoxal. Se as meninas que vendem prazeres carnais e as drogas de diverso calibre são banidas pelos costumes ao ponto de estarem em fora da lei, como podem contar para as contas que calculam o PIB? Segundo, pode ser que este seja o primeiro passo para a legalização do que não devia ser ilegal.

20.10.14

A folia que inebria


The Stranglers, "La Folie", in https://www.youtube.com/watch?v=g9cSa6EjVRA
Quem diz que a vida é uma loucura? Loucos são os que por ela passam sob o jugo de uma batuta que os mantém ordeiros. Loucos são os que vão pelos prados verdejantes e atuam como rebanhos – ordeiros. Loucos são os que hipotecam a vontade. São loucos sem lucidez, sem préstimo algum. Nós somos de uma loucura diferente. Atiremo-nos de cabeça no abismo. Vamos pelos mistérios insondáveis, descobrindo o que houver por descobrir, nem que seja o nada depois de um beco à saída da encruzilhada. Não vamos lamber as feridas. Não vamos deitar um espelho sobre o que já foi, que é pertença do tempo das sepulturas. Vamos, pelo contrário, estilhaçar os espelhos que olham por detrás das costas. Vamos abrir as rolhas das garrafas e deitemo-nos numa embriaguez sem peias. Não, não é fazer de conta que passamos pelo mundo como se ele, pungente, fosse um lugar pouco recomendável e quiséssemos nele andar anestesiados. Vamos aos elementos que purificam as sensações. Vamos saber como se extrai o tutano da vida. Não interessa com que indumentária. Não interessa o penteado, ou se o cabelo está desalinhado. Não interessa se há palavras ditas que não fazem sentido, que se foram ditas é porque nelas se encerrava um sentido qualquer. Corremos contra o tempo, para vencermos o pleito. Olhamos pela embocadura do sol e encontramos uns raios que só aos predestinados é dado revelar. Damos as mãos à folia que nos inebria. Damos as mãos aos instantes que não se consomem na vã promessa de um nada que sobeja do amanhã, pois somos nós que damos ordem para os instantes se consumirem na nossa pele. E então, já de alma cheia, colorimos o pensamento com as cores garridas que houver à solta. Vamos pelos precipícios, pois queremos ser senadores das sensações fortes, queremos beber num cálice o expoente máximo da vida que transita em velocidade excessiva, queremos os instantes emoldurados nas palmas das mãos. O sono pode ser pouco, que os sonhos podem demorar. E depois, quando tivermos a certeza que a alma está cheia, depois de termos passado todos os testes da lúcida loucura, se nos parecer, construímos com as nossas mãos o trono que de nós faz reis.

17.10.14

Ladrões low cost

In http://static1.custojusto.pt/mi/full/8500577280-motalli-bolonha-50-cm3.jpg
Do rodapé de uma notícia: ladrões que foram apanhados porque faziam delinquência em motoreta de cinquenta centímetros cúbicos.
O amadorismo chega a ser enternecedor. Ou isso, ou a indigência em que se embebem os néscios que se julgam super-heróis do gamanço. Devem ter, ainda assim, feito pecúlio; pois da notícia também constava que a zona tinha sido varrida por “assaltos em série”. Mas um dia, a função correu mal. Sobrestimando capacidades, a adversidade da luz diurna para a empreitada e a probabilidade de haver muita gente acordada em durante o dia, os ladrões já regressavam de outro assalto quando foram interceptados por populares (na linguagem jornalística, os populares contrastam com as forças da segurança. Estão para estas como os civis para a tropa de quartel). Não consumaram o roubo porque faltava potência à motoreta. Foram atraiçoados pelo veículo, não conseguiram fugir dos arredores do crime.
Os aprendizes de criminoso não sabiam nada de tática do gamanço. É preciso um plano de contingência. Sobretudo na hora da fuga, não vá dar-se o caso de “testemunhas oculares” (outro preciosismo semântico dos plumitivos) deitarem o olho na mão sagaz que vai à propriedade alheia e desatem a correr atrás dos meliantes, frustrando a ação. Poderão alguns, os habituais que se comiseram com as infaustas condições em que o abominável capitalismo mergulha os desvalidos, certificar que a culpa não é dos atrapalhados gatunos. É da crise, que põe tanta gente à míngua, abandonada a um estado de necessidade que a faz ser, em desespero, gente ladra para prover a autossubsistência.
Não sabemos se assim foi. Podia ser gatunagem gratuita, a preguiça de trabalhar substituída pelo gozo de enriquecer ao ser parasita do suor dos outros. O que é um amadorismo cinzelado a penas de alcatrão. Nem todos têm a destreza de Bonnie e Clyde. Como em tudo na vida, só um escol é que se safa. Os outros, nem conseguem irromper na espuma da mediocridade.
A televisão decidiu chamar-lhes “ladrões low cost”. (Ó criativa semântica!)

16.10.14

Uma dezena

Ornatos Violeta, "Capitão Romance" (Coliseu dos Recreios), in https://www.youtube.com/watch?v=eBN-ruyacSs&list=PLxlSrH9vXgPZDVNN0jPdfsYR5yBN9njQ8
Duas mãos cheias de aniversários. Eu bem me queria desenganar, mas o calendário que arranca o tempo ao tempo tratou de o confirmar: tu estás crescida. Tão crescida que agora não vais deixar os dois dígitos como expressão da idade. E eu, teu pai, embevecido por te ver crescer. Vou-te confessar uma coisa: eu cresço contigo, cresço à medida que acompanho o teu crescimento.
Podia ir ao tempo de outrora em busca de memórias do que já foste. Mas não é preciso. Estar ao teu lado é a melhor impressão digital que podemos ter um do outro. Não precisamos de lembrar o tempo que já foi. Precisamos de caminhar juntos no tempo que nos é dado a saborear. Isso é que importa. É quando um pai é o chão que suporta o andar da filha, um chão sólido e liso que deixa a filha caminhar com a serenidade de quem continua enfeitiçada pela inocência e não sabe que há sobressaltos que podem atraiçoar o caminho que se faz. A seu tempo hás de lá chegar; é próprio do tempo que a seu tempo terá lugar.
Até lá, vou contigo na aprendizagem da vida, porque não nascemos na posse dos domínios do mundo nem todas as coisas em que ele se deita nos são dadas a perceber. É por isso que digo que continuas a precisar de colo. Não interessa que estejas quase da minha altura: o colo é-te sempre devido. Para sarar as cicatrizes que o tempo irá abrir, pois a ninguém é dado escapar às cicatrizes do acaso; para te dar o que de mim for útil aprenderes; para sermos atores na ternura que, oxalá, se demore em muito tempo; para continuarmos a ser cúmplices na música de que os dois gostamos, ou para te contar as histórias inventadas que já não conto ao deitar. E digo-te: quero que saibas que estou onde for preciso para estar ao teu lado. Mesmo se, algumas dezenas de aniversários depois, porventura encontrares um lugar que seja distante, nem assim haverá distância tanta que consiga tornar pálidos os laços filiais que são os nossos.
Uma dezena de anos são mais de três mil e quinhentos dias de vida. Nas dezenas que vierem pela frente, que sejamos caixa-forte um do outro. Para sabermos que há um ombro onde repousar as lágrimas, ou um abraço enfeitado a mil beijos que celebra as felicidades que em ti vierem fundear. Às dezenas que estiverem para vir, bebo um vinho adocicado pela felicidade que semeaste em mim. É para ti a música ali em cima.

15.10.14

Pensamento em alta velocidade


In http://1hdwallpapers.com/wallpapers/high_speed_tunnel.jpg
Desafia os imponderáveis que achares no caminho. Alinhava as fronteiras da impossibilidade, empurra-as sempre um bocado mais à frente. Desembainha a espada contra os espartanos guerreiros que prometem a preguiça. Olha as paisagens no conjunto, não te detenhas nos pormenores que embaciam o estertor do tempo. Coloca o pensamento em modo de fervura. Deixa-o em ebulição constante. Mesmo a dormir, que há ideias que proveem de sonhos, ou baias que são desfeitas à custa de tanto combateres pesadelos até que eles deixem de ser visitação do sono. Acima de tudo, não te intimides, não deixes que o pensamento se coalhe aos pés de supostos imperadores que esgrimem o que julgam ser uma superioridade intelectual. Apanha-os na curva em falso e devolve-lhes humildade, que mal não lhes faz. Abraça as ideias todas, mesmo que estejas embebido numa tempestade de ideias que fruem no aluvião em que o pensamento medrou. Não desperdices nenhuma ideia à partida. Depura-as com o tempo, com a densidade do pensamento que se deita sobre o pensamento que vem de trás. Interroga as ideias. Sê o primeiro crítico das ideias que, a certo passo, julgas à prova de bala. É que não há ideias à prova de bala. Refaz os alicerces, revê os caminhos por onde prossegue o raciocínio, interroga sem cessar, não te contentes com as respostas que sobram depois da embriaguez das perguntas. Não há pensamento definitivo. É sempre work in progress. As mundanas tentações congelam o pensamento dentro de um castelo exíguo, em ruínas. Não queiras ser refém da estreiteza da alma. A grandeza maior é o sobressalto contínuo do pensamento que se enamora da rebeldia. A grandeza maior é a importunação das ideias com cores sempre iguais, sem palavras tecidas em melodias diferentes, sem o fulgor de achar caminhos desconhecidos mercê das incómodas paredes de onde se solta o musgo da sabedoria. Mas nota: a sabedoria é tão provisória como o pensamento.

14.10.14

Males desacertados

Slowblow, "I Know You Can Smile", in https://www.youtube.com/watch?v=dhOY11G78ZE
Enforcara os males de outrora. Com um nó górdio que foi, desta vez, asfixia para os desacertos que tanto teimaram. Não sabia como haveria de lidar com o tempo vindouro. Estava tão habituado à comiseração. O melhor panegírico era os outros lavarem-se em lágrimas por causa das contrariedades que eram tão habituais. Nem maldizia o azar, não fosse o azar (ó superstição) fermentar mais azar em cima do azar que vinha como aura em cima dele.
Agora, as alvoradas já não eram plúmbeas. Nem o tempo parecia uma eternidade, arrastando-se nas ocasiões angustiantes, quase não se demorando nas poucas vezes em que havia pétalas perfumadas a dele extrair. Agora, que havia uma luminosidade cintilante a adejar, até quando a noite era uma penumbra implacável, era como se os dados jogados em cima da mesa tivessem virado a sorte (outra vez a superstição). Acordar pela manhã não era pungente, o pensamento ansioso por o tempo cortar a eito por um atalho e que depressa se fizesse a hora do recolher. Viver era uma experiência magnífica. Todos os dias havia alguma coisa para aprender. Dos livros, das pessoas à volta, das árvores, das paisagens e dos monumentos (sobretudo dos que, mesmo a dois palmos da lucidez, andaram contumazes), das coisas por mais simples que fossem.
Agora, tudo era diferente. Olhava para trás, das poucas vezes que ia em contramão com a nostalgia (pois desse tempo não havia recompensas vertidas em cálice algum), e não se arrependia de não se ter arrependido. O pretérito está enfeitado com as fitas, ora sombrias, ora altivas, que emolduram o tempo nos retratos guardados na memória. Não tem préstimo. Mas também não há honraria em desfazer o outrora como se dele não houvesse notícia a guardar. Assobiava as melodias que vinham com o ecoar dos ponteiros do relógio, enquanto entreabria as janelas todas, à medida das cortinas desfraldadas à brisa que vinha para dentro das janelas, e açambarcava o caleidoscópio de odores que se anunciavam.
O júbilo deixara de ser uma distante miragem, ou uma promessa que se adiava na eternidade do tempo apenas prometido. Foi quando domou as circunstâncias que julgava suas tutoras no corcel do tempo. Agora, as rédeas eram suas.

13.10.14

Os gatos poltrões

In http://www.riograndedonorte.net/wp-content/uploads/2013/02/gatos-de-rua.jpg
De há uma semanas a esta parte, consumia a pausa matinal a observar os gatos nos terraços das redondezas. Saía à varanda com a chávena de café, não importava que estivesse de chuva ou que o sol ainda tisnasse a pele. Às vezes, perdia a noção do tempo e as colegas chamavam-na de regresso ao trabalho. Era como se estivesse a escrever um romance mental e os gatos vadios que encontravam pouso no terraço à volta fossem personagens do enredo.
Catalogou os gatos. Eram oito. Comiam no canto de um prédio, onde uma velhinha, de certeza embebida em solidão, a aplacava através do convívio com os gatos. Falava com eles. E eles aproximavam-se de cauda em riste, o rosto emproado, dir-se-ia que extasiados com o odor que vinha de dentro dos sacos onde a velhinha guardava o repasto. Comiam até se empanturrarem. Depois, um ou outro ensaiava uma peleja lúdica, mordiscavam o pescoço, alçavam a mão para esbofetearem o rival. Lavavam-se demoradamente, humedecendo uma das mãos que era atirada contra os bigodes que ainda albergavam vestígios da comida. O asseio só findava quando notassem que nos bigodes já não havia sujidade.
Coçavam as orelhas. PorventuraCoçadadecomida.estavam m . ali fcidae de gatos que exemplifica os antmetem contra os comportamentos sedentefeiçndo o sono. ali fCoçaC as pulgas nidificavam nos gatos. E depois deitavam-se ao sol (se o dia fosse soalheiro) ou refugiavam-se no alpendre (se estivesse chuva), à espera do sono. Não havia insónias. Dobravam-se sobre o dorso, encaixando a cabeça junto dos pés e aterravam num sono demorado. Alguns dos gatos, em havendo dias mais frios, recostavam-se uns nos outros à procura do calor que contagiavam reciprocamente. E dormiam. Horas a fio. Não os importunavam os aviões que têm rota de aterragem por cima dos prédios e já voam baixo, ruidosamente. Não se incomodavam com as ambulâncias e os carros da polícia que anunciam, com estridência, as sirenes de uma urgência qualquer. Não queriam saber das donas de casa que vêm à varanda estender roupa lavada, ou despejar as migalhas que estavam na toalha embrulhada que veio de uma refeição anterior. 
Ao fim do dia, quando ela voltava à varanda para arejar do ar pesado de um dia de trabalho, retomava a catalogação dos gatos. Não faltava um. Ainda dormiam todos. Alguns, na mesma posição em que estavam por volta dos meados da manhã. Outros mudavam de pouso, mas mantinham-se leais ao sono. Estavam gordos. Pudera! Deixá-los ser poltrões e alegres como acharam a alegria naquele terraço.