1.4.20

O homem que não gostava de caviar


Grand Sun, “She Wants You”, in https://www.youtube.com/watch?v=vI5OZRCi1BE
Vernissage. Passam os canapés. E o – dizem – escol, o retrato de uma certa elite que despreza as convenções e que, no entanto, não dispensa tratos de polé, convivendo com os que cultivam a frivolidade da socialização dos altos estratos. 
Este homem tem de estar na vernissage. Contrariado. Está em representação de quem tem lugar cativo na celebração. Este homem está como peixe fora do lugar. Corpo estranho. Entretém-se com os canapés e a passar em revista o desfile de eminências pardas, os salvos-condutos de uma certa intelectualidade que, a espaços, se entrelaça com uns abencerragens do soi-disant pináculo social. Detestam-se; reformulando: os que frequentam tertúlias da intelectualidade escrevem páginas e páginas escorrendo o seu marxismo irreprimível, na negação absoluta do estrelato social dos outros com quem convivem naquele lugar; estes, desprovidos das mesmas capacidades de intelecto, aproveitam a oportunidade para o desfile de passarela, com a vantagem de virem na companhia dos intelectuais do lugar. Esperam que a inteligência seja por contágio.
Os canapés. Este homem não consegue descobrir os ingredientes de alguns dos canapés. A páginas tantas, o caviar. Este homem é alérgico a caviar. Não na literal aceção de alergia; não aprova o sabor do caviar, que lhe causou, no par de vezes que ensaiou a degustação, náuseas. É a hora do caviar. Os comensais despertam da conversa de ocasião, dos gestos fingidos, do sorriso forçado em reação à desajeitada graçola de outrem, porque a etiqueta exige a sociabilidade – é para isso, também, que inventaram as vernissages. O caviar desaparece num instante. Este homem ficou a um canto. Se não se engana, foi o único a ficar a um canto, recusando ao caviar. Os herdeiros do marxismo e os polidores da feérica visibilidade social convergiram no caviar. 
Depois do caviar, veio a função que trouxera a heterogénea fusão de gente à vernissage. O bardo que tinha um pé na intelectualidade e outro no púlpito social apresentava um livro. O bardo, em pose socialistamente aristocrata, não cabia dentro do seu ufanar à medida que o letrado convidado se desfazia em genuflexões e ditirambos sobre a obra e o seu autor (não necessariamente por esta ordem). Ainda se notavam uns grânulos de caviar nos interstícios dos dentes do letrado. Este homem que não gosta de caviar era capaz de jurar que, a certa altura, em extática glorificação do bardo, um perdigoto contendo um grânulo de caviar foi cuspido, aterrando no decote abundante de uma senhora da alta sociedade, que nem deu conta. Os despojos do caviar ali jazeram, na véspera dos seus fartos peitos, e só este homem que não gosta de caviar o conseguiu apreciar, à distância.
O homem que não gostava de caviar não aguentou até ao fim da função. O odor a caviar tartamudeava na sala, apoderando-se dela. Ninguém notou a sua ausência prematura. Ainda bem. À saída do lugar, resgatou a sua identidade.

31.3.20

Clorofórmio


Jóhann Jóhannsson, “Flight From the City”, in https://www.youtube.com/watch?v=AlftMNmDH00
Não trazíamos à boca a paisagem estilhaçada. Teimávamos em conservar a ideia idílica, a que pressentia a paisagem inteira antes de ter sido armadilhada pela tremenda voz que troava vinda de um subterrâneo sem paradeiro. E perguntávamos: o mar faz parte da paisagem? O mar não é o fim da paisagem, onde a terra se precipita num abismo, o seu vazio monumental? 
Não sabíamos que o temperamento dos resistentes era inconsequente. Diziam: não adianta, é um esforço em vão, a latitude gasta nos sucessivos novelos em que uma bússola avariada se prometia. Voltávamos à casa da partida: o mar faz parte da paisagem? Devolvíamos a interrogação com outra interrogação: e quando uma paisagem é sobre a indiferença, repetindo-se na mesma imagem por distâncias sem fim, deixa de ser paisagem? Deixa de contar para o mapa-múndi?
 Não concebíamos as paisagens deslaçadas umas das outras. Podiam dizer que as inquietações deviam dominar a análise dos tempos. Podiam advertir para a intemporalidade das palavras que se esmaga na urgência dos tempos. Não queríamos saber. Que nos acusassem de parricídio da emergência, era-nos indiferente. Podiam até sobre nós verter a acusação de estarmos intencionalmente sob uma anestesia que impedia de decifrar os maus enredos do mundo, como se a anestesia nos isolasse do medo. E perguntávamos: o medo é uma vergonha? Deixamos que as paisagens sejam agredidas pelo plúmbeo só porque o medo veio à boca de cena?
Não esgrimíamos argumentos. Era contra a nossa natureza: do que mais gostamos é de esgrimir argumentos, empurrá-los com a força inteira do corpo até chegarem ao seu limite, até poderem ser negados pela sua própria argumentação. Mas isso era dantes. Quando ainda não estávamos anestesiados contra os impropérios do mundo. Desarmados para a argumentação, não transigíamos com as interrogações. Continuavam o seu desfile, imparáveis: somos o resgate das circunstâncias que nos amordaçam? Quanto de nós se hipoteca no tabuleiro onde se conjugam os verbos proibidos, os tabus inverosímeis, as chamas brancas que incomodam os sonhos?
Não contemporizávamos com o menor denominador comum. Nos tempos que são de emergência, era o maior denominador comum. O efeito anestésico que mostrava as paisagens formidáveis onde não havia elfos nem feiticeiros e das orlas se desprendiam as pétalas de ouro que falavam através das nossas palavras. Das palavras que destinávamos às interrogações, antes que elas se extinguissem. Antes que nós nos extinguíssemos. 

30.3.20

Os gatos dormem de mais


The Cure, “The Lovecats”, in https://www.youtube.com/watch?v=mcUza_wWCfA
Deviam pôr um parquímetro ou um instrumento métrico a preceito que estimasse as horas diárias que um gato dorme.
Não consegui perceber o interesse da demanda. Talvez para os cientistas que são peritos em felinos (felinólogos?) este seja um dado a reter nas suas análises da espécie. De outro modo, é uma distração do tempo para outras empreitadas virtuosas.
Insistiu:
Há de haver uma explicação para os gatos passarem tanto tempo a dormir.
Continuei a navegar no silêncio. Talvez percebesse que não queria ser embarcadiço no assunto e a ele não voltasse. Para mim, era um não assunto. Percebi alguma impaciência, pelo modo como trauteava o pé direito no chão, como se fosse um baterista a percutir furiosamente as batutas na pele endurada do instrumento e pelos suspiros denotativos de algum incómodo. Não dei o braço a torcer. Até quis desviar o assunto: 
Às vezes dou comigo a pensar sobre a imensidão que nos escapa, de como seremos sempre meãos diante tanto conhecimento que fica por explorar.
Sem saber, estava a dar o flanco, pois ripostou sem demora com uma pergunta em forma de emboscada: 
Lá está! Se tivéssemos as mesmas horas de sono dos gatos, onde arranjaríamos mais tempo para diminuir essa imensidão que nos separa de mais conhecimento?
Fui à janela, ver como estava o movimento na rua. Se ao menos entendesse que esse era o sinal comunicativo do desinteresse do assunto. Mas não desistiu: 
Se dormem tantas horas – li que dormem dezoito horas por dia – não me parece que os gatos sejam bichos de ter por casa. 
O cerco fechava-se sobre a paciência. Sabia que tenho muitos gatos em casa e que, muito provavelmente, acusaria o toque ao ouvir o remoque que acabara de estatuir. Neste dia, devia ter tomado uma dose reforçada de estoicismo ao pequeno-almoço, pois nem assim retorqui. A sua crescente impaciência era um deleite que me apascentava a paciência. Comecei a ter prazer no prato envenenado que pretendia servir-me: a emboscada estava a atropelar o seu fautor. E eu, discretamente e em silêncio, mantinha um sorriso do tamanho do mundo.
A páginas tantas, disparou com voz iracunda:
Se ao menos os cientistas apurassem os motivos de os gatos dormirem tanto. Aposto que chegariam à conclusão de que dormem na proporção inversa do sono dos seus donos.
Tendo, afinal, a paciência os seus limiares, não deixei sem resposta:
Se andasses ao corrente dos tempos, saberias que não se diz “donos”, diz-se “tutores”. Quanto ao demais, concordo contigo: invejo os gatos por tanto dormirem, pois quanto mais vivem encasulados no sono, menos é o tempo que estão atentos ao asnear que é timbre deste mundo.

27.3.20

“Tenho as dores no sítio certo” (short stories #204)


Glockenwise, “Dores”, in https://www.youtube.com/watch?v=iCycx1YnPiE
          Quarentena, ao que parece, até do pensamento. Ou o pensamento dedicado à pandemia que o exaure. Alguém disse: “o melhor destes tempos insólitos é pessoas em quarentena, a solidão que se avizinha das ruas.” Outro contrapôs: “é uma quarentena relativa. Hoje, o mundo é virtual e a quarentena também. Não há isolamento. A quarentena consome-se num paradoxo: retira as pessoas da rua, mas atira-as para o espaço virtual com uma voracidade singular. É aí que medra o pior dos vírus, uma densidade populacional acima das medidas.” Sente-se a oxidação dos lugares; é uma aparência: oxidadas estão as pessoas por terem sido desensinadas a ser animais caseiros. O asnear por metro quadrado subiu em proporções não imagináveis. A geografia reinventou-se: o ar livre faz jus ao nome, tirou a sua alforria dos humanos que deixaram de o infestar. Os temores das piores distopias parecem confirmar-se. Estão nos modos das pessoas, das que se anteciparam ao princípio geral de pânico por força de decreto e das que gostariam que se antecipasse uma versão mais musculada da exceção como metamorfose do habitual. Sartre veio a ter razão, muito tempo depois: “o inferno são os outros”. Atribua-se a responsabilidade aos visionários que inventaram o mundo virtual que se sobrepõe, numa escala elevada a muitas potências, ao mundo outro. “O inferno são os outros” é o epítome de outro ilogismo: quando os outros estão a tanta distância, tornam-se ainda mais insuportáveis. A fórmula para o ar pútrido que por aí campeia (na inversa medida do ar mais respirável da rua), é a incorrigível sanha de moralidade que uns quantos oferecem, em desmedida generosidade, aos tresmalhados das convenções. Há lugares desertos que deviam povoar o lugar virtual (como há desertos na Terra). Como redutos de sanidade (mental), válvulas de escape à contrafação que se propaga mais depressa do que a pandemia. Termos em que, sob protesto contra as costuras do ancho mundo virtual, reproduzo as palavras da música que não saem da cabeça: “tenho os olhos no sítio certo”. (Assim me é dado a perceber.) 

26.3.20

O que deitamos na garrafa atirada ao mar


Faith No More, “Take This Bottle”, in https://www.youtube.com/watch?v=3g3O5gvSpcA
Dizíamos: esta é a garrafa que vamos deixar de legado. Vamos deitá-la à maré a preceito e esperar que o sortilégio das correntes a leve para um apeadeiro qualquer, onde alguém estará para ser fiel depositário da garrafa.
Temos de ser criteriosos. Evitar o mundano. Esperar pelas convulsões do tempo, que passem e deixem a seara limpa para a nossa sementeira. Não queremos ficar reféns de uma precipitação analgésica. Porque se trata de cuidarmos de um legado vertido numa garrafa que terá o mar como destino. A nossa envergadura não cabe numa garrafa, sabemo-lo sem hesitações. Menos o será como representação de um amor que dispensa palavras como seu retrato, pois o mundo não cabe na algibeira deste amor. Mas insistimos: é nesta garrafa que deixaremos um módico de nós para memória futura. Não é empreitada para cuidar com frivolidade. Levemos o tempo que acharmos necessário para temperar a empreitada. Seremos os fautores da sementeira, mas alguém, noutro lugar sem paradeiro, será o seu hermeneuta.
O que deitamos na garrafa que será atirada à maré? A ilusão frondejante dos nossos olhares irrepreensíveis, a insaciável curiosidade do mundo, a cumplicidade derramada na presença recíproca, o quotidiano que ajuramenta outros quotidianos em forma de candeia, a maresia desprendida dos nossos corpos quando os deixamos em roda livre, a música hasteada no apetite das nossas bocas, uma estrofe meticulosamente desenhada pelo pulso generoso de um poeta. Deitamos ao mar fortuito os dias vertidos na memória, por mais que não sejamos artífices da memória e queiramos confiscar o incalculável valor do tempo presente com a inteireza das mãos. E tudo tem cabimento da garrafa, condensado em arquétipos ciciados no rumor que se agarra aos nossos corpos. Deitamos ao porvir a meação de nós em uníssona fala, o verbo que apenas contamos um ao outro, e eu guardo a madeixa do teu cabelo sobreposto ao meu olhar e, ainda assim, um sextante da lucidez singular que desagua no meu olhar.
Não queremos saber quem será o destinatário da garrafa. Não cuidamos de a enviar por correio registado com aviso de receção. Não queremos saber de identidades. Só cuidamos do espaço vital da nossa identidade, da que fomos fruindo no lugar comum que erguemos como cidadela. Alguém há de recolher a garrafa, num lugar qualquer. Não queremos saber. Nosso mister terá sido a arquitetura do teor da garrafa, a continuação, como herança, do lugar perene que seremos nós.  

25.3.20

Bandeira de xadrez


Cornershop, “St. Marie Under Canon”, in https://www.youtube.com/watch?v=MvdvaaEe7NE
Eram centauros arvorados em notários das vidas terrenas; um pesadelo, por certo, com as arestas queimadas pelas cinzas do caos, enquanto lá fora o caos era desmentido por sucessivos dias soalheiros que se embebiam nos rostos aclarados. 
Mas os centauros adejavam com a sua musculatura possante, as barbas hirsutas, os rostos medonhos, as vozes tonitruantes. Adejavam sobre os mortais e prometiam o delicodoce paraíso que cuidaria de os subtrair à vida terrena, o impiedoso percurso com o chão engastado de espinhos que ferem o corpo inteiro. Os incautos caíam no engodo, deixando-se caiar pelas pinceladas ardilosas dos centauros discretamente maniqueístas. Entretanto, os corpos sentiam-se atirados contra as paredes exíguas, desfazendo-se em parcelas sem identidade. Como ruído de fundo, um murmúrio ciciava, medonho; parecia uma trovoada encravada nos poros, espalhando uma energia paralisante para os corpos ficarem à mercê dos algozes.
Havia quem disfarçasse a perfídia. Fingiam cair no palavreado bem-falante dos centauros. Prometiam aderir às suas promessas quiméricas. Às escondias, conspiravam contra eles. Sabiam que não há virtudes sem preço por paga, e no prelo congeminavam a emboscada que não seria punida no tribunal dos costumes. Alguns dissidentes ousavam fazer de conta que eram porta-vozes dos centauros que conjuravam nos bastidores da fala. Devolviam-lhes o veneno que insinuavam entre os mortais cobertos de ingenuidade. Eram os mais corajosos e, todavia, entre eles encontravam-se os mais desencorajados, os que mais temiam a provação de uma luta física. Não omitiam a pujança dos centauros nem o mito da sua impossível derrota. Mas nem assim puseram os planos de molho. Não acreditavam em mitos.
A diferença fez-se na teimosia da vontade. Os ingénuos, caindo na malha dos centauros, sucumbiam à sua força bruta. Eram as suas vítimas preferidas, as mais fáceis de arregimentar para o património dos esquecidos. Seriam os primeiros a ver a bandeira de xadrez. Não seriam vitoriosos de coisa alguma. A menos que suplicassem pela morte, seriam os primeiros a vê-la – porventura, essa seria a vitória consequente à bandeira de xadrez. Os outros, impenitentes na resistência silenciosa aos centauros, esconjurando-os no boicote bem alinhavado, seriam os últimos a ver a bandeira de xadrez. Eles seriam os vencedores do pleito, a homenagem mais sentida ao valor da vida. Quando a bandeira de xadrez fosse mostrada ao último centauro em forma de adeus.
A vontade sem freio seria indicada como o móbil do triunfo sobre os centauros. Agora, os centauros estavam devolvidos ao espaço intransitivo onde vogam os pesadelos. 

24.3.20

Troca-se o frio venal pelo vento suão


Protomartyr, “Processed by the Boys”, in https://www.youtube.com/watch?v=yBQy_S_k-qg
De um lugar que perdeu o nome, os rostos todos convocados a reinventá-lo. Estes momentos heurísticos devem vir ao mapa quando o desnorte corta fundo na carne sangrada. As mãos não se apartam. As vozes não são a antinomia que se conjetura no pérfido espelho onde se hasteia o dogma da má espécie. Há de haver o contrário à lei (a lei de Gresham): desta vez, será a boa espécie a expulsar a que parece irremediável má espécie. 
No pontão onde o mar cerca a terra, não há rumorejo. O vento estacionou o seu impasse e o mar parece um lago gelado, vidrado por tanto sol que o cresta. Lá atrás, onde a península se desprende da maresia, diz-se que as pessoas entristeceram e, reféns da melancolia, desistiram. Oxalá seja um rumor. Infundado, o rumor. A noite pressentida ecoa nos ossos firmes. Ao menos temos os ossos, a construção dinástica que serve para todas as demais coisas se arpoarem, sedentas de um cais não furtivo. Um proselitismo inacabado, a favor da perpetuação da espécie.
O frio dilacera a pele. Intumesce a carne, que parece feita de uma rigidez estrutural. Agora o vento não se intimida e deixa atrás de si a bandeira do desprazer. As pessoas não dizem nada. Não se dizem nada. Parecem anestesiadas pelo frio venal ao cabo de um silêncio estruturalmente minimalista. Parecem adormecidas, domadas por demónios que se agigantam no parapeito do vento. Parecem nómadas sem lugar. Mas elas sabem que não podem capitular. Sabem que não se podem dar ao logro do efeito anestesiante: seria fatal, desprotegidas como estão, à mercê do primeiro contratempo. Agitam-se. Vestem a pele outra no lugar da que foi em hibernação à mercê do frio venal. Preparam-se para a véspera do dia majestoso. O dia em que a equação onde se alojam as outras equações sobe à boca como a sobremesa dos remédios que se orquestram.
As pessoas suplicam pelo vento suão. Sabem que o vento suão, assim que chegar, se sobrepõe ao frio venal; fará descer a sua espada guerreira, a espada pacificamente guerreira, que só se desembainha quando um algoz amordaça as vontades. As regras já não são as mesmas. As circunstâncias, também não são as mesmas. Sempre ouviram dizer que as regras não são um fim, são um meio para se darem ao corpo modificado pelo novo palco que veio a palco. O vento suão transuda os rostos. Ao menos, as palavras não ficam contingentes à reparação avulsa das adversidades. As palavras entram em prolixo arrebatamento, caldeadas pelo vento suão. São as gotas de suor que se desprendem da pele reincarnada.
Os rostos que arrastavam o chão debaixo dos pés já não povoam este lugar. Aprenderam. Não ficaram amortalhados pela letargia, quando a letargia seria o campesinato ideal para tempos de tantos contratempos. Afinal, o frio não era venal. Ou só o foi enquanto foi, durável na sua finitude, sem saber que vento suão transpunha a distância que o separava deste lugar. 
A impaciência é o lugar do morto. E a vontade, indomável, fautora do vento suão.

23.3.20

Poço dos viúvos (short stories #203)


Porridge Radio, “Lilac”, in https://www.youtube.com/watch?v=U3BrQzmBF1w
          Tagarela, a tarde que se arrasta com a lentidão dos corpos velhos. Um idioma esquecido, talvez, transborda das paredes encardidas do poço. Os homens, todos viúvos, encostam-se ao amurado circular que delimita o poço. Não espreitam para o fundo: não teria serventia, só conseguiriam aprovar as trevas que se fundem com o fundo do poço. Esquecem-se do que foram antes de serem viúvos. Parecem aturdidos pela luz descendente, as mãos timidamente embaciando o olhar contra os raios já irrisórios. Um deles diz: “se soubesse que a falésia do tempo tinha estes preparos ter-me-ia conservado no púlpito da esperança, como se fosse um plebeu nupcial em vésperas de ser esposado. Não tinha saído da fortaleza onde meus olhos eram vívidos”. Ninguém quis saber. Estavam todos ensimesmados, os braços caídos sobre a raiz da madurez, como se houvessem capitulado à angústia sem remédio. Seguiam os seus monólogos de pensamento. Outro homem rompeu o silêncio: “Não sei de outras artes, que julgo tudo ter esquecido. Conservo nas mãos, contudo, uma certa aragem que evoca os lugares que eram tribunas da fortuna da alma. Ao menos, conservo essas memórias.” O entardecer não ficou à espera. E os viúvos continuavam junto ao poço, à espera que uma quimera os quisesse por consortes. Não se olhavam entre si; dir-se-ia que não saberiam desenhar os rostos dos outros, caso tivessem nascido para as artes. Já sob o desmaiar da derradeira luz diurna, outro viúvo não pediu licença para um estado de alma passado à voz: “Já fiz as minhas arrumações. Não espero por nada. E sinto que o tempo me agride a cada dia que me obriga a ser sua testemunha. Não, deus está longe de existir. De outro modo, não estava nesta consumição, a alma errando nos interstícios da finitude.” Foram embora, sem se despedirem. Era a sua particular convenção: não diziam adeus com medo que fosse tomado à letra. Adiavam-se, reféns das suas contradições. 

20.3.20

De quantas luas é feita a temperança? (short stories #202)


Pixx, “Disgrace”, in https://www.youtube.com/watch?v=WXva-zkLur0
          O garrote liberta-se, deixando à mostra as veias quase em erupção. Os dias plúmbeos parecem o contraste dos rostos. Mas não são as medidas avulsas que incendeiam as vozes. Não são as sucessivas demãos sobre as paredes onde os corpos se deitam que os deixam intempestivos. Até os sobressaltos incomuns têm uma medida temporária. A loucura tomou conta das rédeas e as desregras foram hasteadas como negação dos códigos de conduta. Porém, os corpos resistem. Exibem os seus periscópios acasmurrados que irrompem entre a densa camada de nevoeiro que insiste em obnubilar o olhar. Não deixamos de ser o que somos quando esbarramos num abismo. Não é essa a nossa linhagem. Viramos o jogo do avesso. Admitimos que o tabuleiro onde o jogo se congemina é uma conspiração que não se acautela. Acomodamos o dia nascente às condições que não sabíamos serem as que se nos impunham. E não deixamos de sonhar. Pois é a dissidência do sonho, aquela aguarela que ao início parece um esboço feito a carvão, que mareja como candeia tenuemente acesa; o acesso condicionado à contrafação das desregras que se exibem, triunfantes, como se fossem o julgamento final da espécie. Não é disso que se trata. Melhor: só será assim se capitularmos, se formos presas fáceis às mãos insaciáveis de uma tempestade sem sofisma. Se não soubermos recusar que é uma fatalidade, temos um destino apalavrado: deixamos de ser. Temos de descobrir um segredo: quantas luas são precisas para açambarcarmos um módico de temperança? Quantas luas são precisas para deixarmos os fantasmas inóspitos encomendados ao seu exorcismo? Quem sabe se é no fio do horizonte, naquele lugar distante onde o mar se funde com o céu de cor desmaiada, que se encontra essa centelha. Pois o mar continua a ser o fio condutor da temperança, no âmago da sua interminável alcáçova. 

19.3.20

Da série “disparates a rodos” #1: O que diz a estética de Marcelo


In: negócios online, capa de 18.03.20
Petição de princípio: a estética é permeável à subjetividade. Não sou ninguém para contestar o axioma. Seria a falência da estética se alguém ousasse determinar a sua objetividade, contra os relâmpagos de relativismo que são a maior riqueza da estética. Dos meus padrões estéticos sou eu guardião. Único guardião. O resto, é direito à opinião. Criticável por ser isso mesmo, opinião.
Superado o introito, deito-me ao que interessa: uma imagem que é todo um programa. O mobiliário Luís XV, abundante no rococó que o enriquece sob o ponto de vista do artesão, mas o desvaloriza na grelha de análise da escola minimalista do mobiliário. O mobiliário Luís XV faz tandem com Marcelo. Aliás, Marcelo parece um corpo que se funde no mobiliário: a forma como repousa os pés rima com a curvatura kitsch da mesa onde (consta, por estes dias de pandemónio) sua excelência preparou a suspensão das liberdades fundamentais. Os pés da mesa desviam-se do chão, fletem numa convexidade que é, aos olhos de um exegeta da estética (este autor), motivo de desprazer. É como se a mesa tivesse medo do chão, o chão enquanto metáfora do mundo lá fora, e apenas pousasse a parte imprescindível dos pés para não ser matéria exposta ao abismo. E Marcelo, em pandã, replicando o mesmo estilo, sem o desconto da metáfora.
Talvez não seja por acaso. É o presidente de um país que, ao tê-lo eleito, ele próprio rima com quem o elegeu. E rima com o mobiliário que aparece, não inocentemente, como pano de fundo, ao qual também se empresta a sumptuosidade da parede de pedra com o detalhe dos motivos nela inscritos – uma reminiscência da grandeza de outrora, logo agora que, perante o pandemónio, e depois de um exílio que foi eufemismo de quarentena, sua excelência convoca o que considera o espírito superior e inigualável de uma portugalidade que só existe em Portugal. 
(Tomara! A portugalidade só existe no seu domínio natural.)
Marcelo é o pistache pátrio. Ainda usa fatos de trespasse e sapatos de fivela – e ninguém tem nada com isso, nem se espera que mude o dress code depois de instado, que vestir é o reflexo de um direito de personalidade. Sua excelência é o testa-de-ferro de um lugar onde o atavismo ainda é divisa celebrada. Onde a ousadia do diferente é deixada para os aberrantes, para os provocadores, ou para os párias. 
Eu gostava de ver se Marcelo tinha coragem de decretar o estado de emergência sentado numa mesa minimalista de um designer sueco, tendo como pano de fundo uma parede de estuque a disfarçar a esclerose de outras paredes que andam à mostra.