20.7.18

Geografia armadilhada


Indignu com Manel Cruz, “Nem só das cinzas se renasce”, in https://www.youtube.com/watch?v=pzLRt27R5HQ
Desta vez não se guardam as coordenadas para memória futura. Num salto por cima do precipício, a esquadria de uma geografia absurda. Dá-se corda à ignorância: talvez nunca se tenha olhado para um mapa e nem as coordenadas (ou os rudimentos de uma rosa-dos-ventos) sejam conhecidos por jovens cada vez mais imberbes no conhecimento comum. Trocam as mãos pelos pés: de repente, o Chile foi transferido para a geografia europeia e Checoslováquia (sic), Islândia e Noruega são situados no sul da Europa. Ou à pergunta “que país tem Varsóvia como capital”, esbarra-se num silêncio fundo.
E, todavia, a geografia tem um lugar próprio. É um pouco como o sinal de pertença que diz respeito às pessoas, só que mudado para os lugares. Há mapas elucidativos. O que está em falta, é um módico de curiosidade para saber do paradeiro dos lugares. Não sei se o desinteresse (ou pura ignorância – ou uma mistura de ambos) não é sintoma de um ensimesmar que vem contra a maré cosmopolita que é herança do avanço das tecnologias. Há algo de paradoxal nisto: por um lado, nunca foi tão fácil viajar para qualquer lugar, nunca foi tão fácil estar em contacto com pessoas em lugares que estão nos antípodas do nosso; e, todavia, prevalece o desconhecimento sobre a pertença geográfica de outros lugares. As pessoas ouvem falar de países longínquos e não sabem onde ficam – nem têm o interesse em perder uns minutos a olhar para a cartografia do mundo para descobrirem o paradeiro do lugar.
Pode ser do desinteresse que alastra. Pode ser uma manifestação de boçal ignorância (como pode alguém não se incomodar em saber do paradeiro de um determinado lugar e depois invocar o nome desse lugar nas suas proclamações, em autêntico tiro no pé?). Ou pode ser apenas uma manifestação de exiguidade mental. O olhar limita-se ao pequeno domínio que alcança. Um certo paroquialismo que se confunde com o comodismo de quem considere ser vultuosa empreitada espreitar por cima do ombro e ir além da sua zona de conforto. Os outros deixam de ter interesse. Por arrastamento, os outros lugares ficam perdidos na apneia do desconhecimento.
Este ensimesmar é um contrassenso. Quem se confina à sua exiguidade contenta-se com uma lógica de mínimos. Faz algum sentido. Tenho a noção de uma certa preguiça do conhecimento – ou do acantonamento de interesses, reduzidos a limites exíguos – que não é boa conselheira de um conhecimento que se pulveriza. Pensar custa, cada vez mais. Descobrir é uma canseira. Dentro destes muito limitados quadros mentais, antes ficar sitiado à pequenez dos próprios lugares de que avivar a memória futura com lugares outros. Nesta fratura de gerações, penso como quem assim se comporta está nos antípodas de gerações muito anteriores que foram pelo mundo fora descobrindo novos mundos. (Sem ofensa aos que abjuram a utilização da palavra descobrimento – ou descoberta – no contexto da História, proscrita pela narrativa atualmente bem pensante.) Como pode ser tão grande o contraste, a fratura de gerações? Como pode haver tanta geografia armadilhada?

19.7.18

Um político tem de ser tão popular ao ponto de se confundir com quem representa?


Nine Inch Nails, “Sunspots”, in https://www.youtube.com/watch?v=zVUtghCDCA0
Parecem estar na moda os exageros afetivos dos altos dignitários, a sua emulsão entre os demais – como se essa osmose fosse critério determinante para a representatividade e, logo, para aferir a legitimidade dos eleitos. A moda, recente, começou com Marcelo. A presidente da Croácia terá sido sua aprendiz e tomou-lhe o gosto durante o campeonato do mundo de futebol. A senhora abraçava-se a tudo o que lhe aparecesse pela frente, multiplicava-se em sorrisos que se entaramelavam, no caso dos seus compatriotas que tinham acabado de perder o jogo, com uma dose presidencial de comiseração. Parecia íntima do presidente francês, que, ali ao seu lado e sendo testemunha da função, não pôde ficar atrás (apesar do exibicionismo de Macron ter sido, por paradoxal que seja a expressão, moderado).
A comunicação social e a voz popular estão encantados com a presidente da Croácia. Li algures que logo a seguir ao fim do jogo e à cerimónia de entrega de prémios, o nome da presidente da Croácia era o mais pesquisado no Google. Há uma excitação coletiva com a simpatia desarmante e com a lhaneza da senhora presidente. Devem ser os mesmos que se excitam com a perene presença de Marcelo no espaço público e de como Marcelo se mistura com o povo, como não nega uma selfiea quem a solicite, como tem opinião sobre tudo e mais alguma coisa (e, ainda por cima, repousando na sua imensa autoridade intelectual filiada no estatuto de catedrático e nos anos que passeou a prosápia como comentador na televisão). Não sei se a presidente da Croácia é assim quando exerce a presidência entremuros. Só sei avaliar a performance a que o mundo assistiu via televisão, mercê da equipa croata ter avançando até à final do campeonato.
Tenho reservas sobre este estilo. Admito que, entre nós, e em defesa do estilo presidencial (digamos) extrovertido de Marcelo, haja quem recue às calendas para evocar o mau exemplo do seu antecessor – e o péssimo exemplo será caução para o estilo desbragado de Marcelo, por antítese. Cavaco foi um péssimo exemplo. Até há quem lhe chame múmia e o epíteto depreciativo não calha mal. Mas nem oito, nem oitenta. Um representante dos cidadãos não precisa de se misturar com eles para provar a sua legitimidade. Não precisa de ser um entre muitos. Não há nesta afirmação nenhuma entorse ao princípio da representação que é esteio da democracia. Se um político reuniu a maioria dos votos, não é obrigado a ser um entre os demais. Por esta bitola, qualquer dia governa-se por sorteio (bem sei, há uns progressistas da ciência política que defendem a possibilidade no contexto do incremento qualitativo da democracia).
Não estou a sugerir que os altos dignitários abusem da pose de estadista. Ele há alguns exemplos que soam a farsa quando se adota a pose de estadista. Paulo Portas é o paradigma. Cavaco não o chegou a ser, por causa dos sucessivos dislates comunicacionais e da pose hirta que não é necessariamente sinónimo de pose de estadista. Marcelo parece não saber que ser estadista não é misturar-se com o povo. Imagino os pesadelos para a logística de segurança, quando Marcelo se mistura com o povo, fala de perto com o povo, oferece o rosto a sucessivos ósculos do povo e se predispõe às intermináveis selfies(ao ponto de se perguntar, em tom jocoso: quem é que ainda não tirou uma selfie com “o” Marcelo?).
É tudo uma questão de medida. A voz popular não gosta de políticos antipáticos e que estão a léguas do carisma. Prefere os políticos simpáticos, que cultivam a proximidade com as pessoas comuns. Mas isto é paradoxal: tenho por manifesto que a maioria das pessoas são antipáticas; se são antipáticas, como podem elogiar um estilo presidencial que faz da simpatia o seu cartão de visita? A ultrapassagem das medidas é um exagero que corresponde à adulteração do que se deseja exteriorizar como comportamento. Simpatia excessiva leva a questionar se é genuína, ou apenas um ardil para atrair o povo. (Quem não consegue fazer de conta que é simpático, mesmo quando não lhe apetece?) Há imagens da presidente da Croácia a festejar no balneário, abraçando-se a jogadores em cuecas. Um dia destes, Marcelo ainda é apanhado numa reportagem ao submundo da prostituição de rua. Não quero imaginar o que Marcelo poderá fazer à frente das câmaras.
A denúncia da embriaguez da popularidade dos políticos não é uma manifestação de conservadorismo. É desconfiar que tanta genuinidade, tanta afinidade com o povo, não passa de um embuste. No caso de Marcelo, trata-se de um estilo algazarrado, destemperado, circense, numa palavra, populista. Não é de admirar. Desde que entrou em funções, Marcelo começou a campanha eleitoral para as próximas eleições presidenciais.

18.7.18

Se tivesse asas


At Freddy’s House e Cavalheiro, “Quero é viver” (cover de António Variações), in https://www.youtube.com/watch?v=ApbrdzlBHbU&list=LLRLcHvidG6BocfU7CHznhag&index=8&t=0s
Se tivesse asas não perdia um minuto com o sono. Atirava-me ao mar e recolhia-o sob minha proteção, todo ele aninhado em minhas mãos. Destruía a soberba militante com golpes de humilde reverberação. Colhia o pólen macerado nas portadas da madrugada e dele fazia um néctar singular, quimérico. Cantava as canções eternas ao ouvido da minha amada enquanto retínhamos o ocaso em nosso olhar.
Se tivesse asas, descia as cortinas baças sobre os beócios, os contumazes desfazedores das palavras em sua singularidade. Ajuramentava o desejo máximo na urdidura do destempo. Combinava cafés com amigos de que perdi vestígio. Desarmadilhava os preconceitos que insistem em minar-me pelo interior. Pedia favor ao céu para ser espelho fidedigno do mar, e eu tutor de ambos. Recolhia em asilo os impostores de si mesmos, até saberem de mote próprio que são afortunados pela comiseração de que não precisam.
Se tivesse asas não queria saber do amanhã. Não perfilhava o pudor incandescente que obriga o rosto a fechar-se às possibilidades. Não tirava a medida às distâncias, as asas incansáveis sempre preparadas para devorarem as milhas que me separem de um destino qualquer. Emparelhava o sentido equinócio com o verso noturno, desfazendo o medo que da noite tive. Renegava pesadelos com a espada desembainhada na combustão da vontade. Remediava o pesar com trovas sobre o cais fundido. Perguntava às divindades sem rosto se tinham existência, ou se era apenas teimosia minha (não esperando réplica, nem murmurada).
Se tivesse asas desenhava os meus próprios mapas. Cortejava os cabos cerrados despenhando-se sobre o mar adulterado. Emoldurava os limites das montanhas e os caudais dos rios, com uma visão simultaneamente de conjunto mas com capacidade para reter os segredos escondidos nos recantos inacessíveis.  Esquartejava em múltiplos pedaços a sobranceria dos que se passam por eruditos, deixando-os no mesmo invertido pedestal da turba que desdenham. 
Se tivesse asas, partia sem ter a certeza de a algum lugar chegar. Voava e voava, numa errância militante, sublime. Não teria o apelo de portos protetores nem de atalaias em esboço. Seria ao mesmo tempo a antítese de um anjo e o anjo de mim mesmo (apenas, e sem revelação exterior). Seria senhor de terçar a paz sobre todas as terras. Denunciaria os embustes que se esteiam nas religiões. Aprovaria os mapas por mim desenhados enquanto perdurava a demanda na ausência de sono. Ao mesmo tempo, se tivesse asas, traduziria os sonhos em bases concretas, tangíveis, levemente acetinadas, em forma de poemas. 
Se tivesse asas, tudo seria falado e escrito em poesia. E eu vivia – vivia sem parar, até poder dizer que era vida por dentro da vida.

17.7.18

O verniz disfarça, ou o verniz embeleza?


Siouxsie and the Banshees, “Cities in Dust”, in https://www.youtube.com/watch?v=wsOHvP1XnRg
Reparem: aquela parede antiga parece nova. Pintaram-na de novo. Já não oferece aquele aspeto decadente, de coisa que tinha sido abandonada, ou pelo menos negligenciada, pela usura da indiferença. Sobre duas demãos de tinta, um verniz reluzente para acicatar as reavivadas cores.
Os olhos habituais (os que se intrometem no espaço da parede) não podem disfarçar a exultação. Os sentidos são sensíveis e as cores avivadas pelo requinte do verniz despertam os processos químicos interiores que disparam o alarme do bem-estar. Sobretudo aos olhos habituais, pelo termo de comparação: dantes, era uma parede no limiar da escombreira, estilhaçada, desprovida de cor, uma bandeira hasteada que soprava os tétricos ventos da decadência. Porventura, alguns olhares desviavam a parede do seu campo de observação. Não queriam a agressão visual, autêntica poluição do olhar. Agora que a parede se revestiu de cores neófitas e foi ajanotada por um verniz luminoso, o olhar habitual sente-se desafogueado. Outros depreciam a reinterpretação da parede: ela esconde a parede sob a fina camada de tinta e de verniz. A cintilação é uma pose que não combina com os poros estruturais da parede.
A parede não é a mesma? Tornou-se instrumento de um processo de rejuvenescimento à mercê das tintas coloridas e do retoque final do verniz. Mas a parede é a mesma. Estruturalmente igual. O que difere é a capa exterior através da qual a parede se apresenta ao mundo (também exterior). Pergunta-se: o tratamento estético não foi apenas isso – estético –, sem alterar as interiores moléstias que já apoquentavam a parede ao ponto de ela estar no limiar da decadência? Ou, ao contrário, tem cabimento disfarçar as ruínas potenciais com uma demão de tinta garrida e outra de verniz refulgente? 
E quem se importa com a resposta, se ela for intrusa na carne própria de quem se submete à estética reconversão? Cada um terá a sua resposta. Que a guarde. Que se dispense dos juízos de valor, por exemplo, como acontece quando se descobre uma atriz deslumbrante despojada de maquilhagem e se descobre, também, que na comparação com as públicas fotografias aparece irreconhecível? Não cuidam dos fingimentos se não os que a eles se emprestam. Os demais, cuidem dos seus interiores pecadilhos e não se escondam deles através do escrutínio dos outros. Pois o refúgio no verniz dos outros pode não ser se não um verniz (assim não reconhecido) por quem dele se serve.

16.7.18

Câmara lenta


Joy Division, “Heart and Soul”, in https://www.youtube.com/watch?v=0TC_OWpDNHQ
Heart and soul, one will burn.
Joy Division, “Heart and Soul”
O autor manda dizer que não tenham pressa. Protesta, a seu favor, a câmara lenta. A reinvenção do tempo, se assim preferirem. Pois não colhe a ideia de que a sofreguidão é a astuciosa solução para deixar em banho-maria o tempo sequaz. Não interessa galgar as margens do tempo se ele se volta contra nós. O que interessa apressar as empreitadas se uma reviravolta inesperada pode estilhaçar o esforço, reduzido a escombros?
Mais vale deixar a câmara lenta tomar o lugar centrípeto. E embaciar as cores das ilusões desembainhadas pela promitente ventura do porvir. Se deixarmos assentar o noturno deleite do tempo, esvaziando os relógios que o tutelam; e se formos timoneiros de um leve passar pelo dia, esconjurando a azáfama que venha a eito: talvez recuperemos uma alma entretanto errante. Saibamos arrematar os leilões onde se colhem os gramas da alma perdidos algures (e magicamente reivindicados em onírica função). Não tem serventia puxar os galões à vaidade que se sublima no vazio: ela é vazia como o vazio que a alberga; vazia, como sempre é a vaidade. Equivocam-se os que se empenham nas virtudes do trabalho e se ufanam que não sobra tempo para nada. Oxalá – diriam, se pudessem ser os donos da medida do tempo – oxalá houvesse mister de fazer com que mais de vinte e quatro horas fosse a medida do tempo e do sono não houvesse carestia se não de dois pares de horas. Cumprir-se-lhes-ia o tremendo sonho de dedicarem tudo à jornada de trabalho. Não se importam que lá fora não haja nada que reúna o seu interesse. Acabam por não perceber que são cartas fora do baralho.
O prazo é a prisão torcionária que sobre nós se abate. Os mais urgentes clamam que é para ontem (o prazo), exibindo a desmedida da sua desonestidade – nem em metáfora de mau gosto se aceite que o tempo pode ser repristinado. Por dentro da metáfora, ajusta-se à cintura o talião do prazo, a prisão do tempo acenando contra a serenidade que devia ser dos principais direitos humanos. Pois a cada um devia pertencer, e em exclusiva prerrogativa, a pauta por onde canta o tempo. Aceitando que a câmara lenta é o periscópio que emerge, insinuando um novo postulado do comportamento perante o tempo. Seremos penhores da qualidade, o estalão em permuta da quantidade. 
O tempo deixará de ser a evasiva ilusão, perdendo-se entre a transparência do vento. Desprezando os totalitários calendários e as juras que se entrelaçam com a medida vindoura. Desmentindo o medo de o tempo ser escasso, ou de ficarmos dele devedores. No refúgio da câmara lenta, conseguimos a anestesia contra os malefícios do tempo.

13.7.18

Um cavalo no telhado


Band of Horses, “The Funeral”, in https://www.youtube.com/watch?v=q90-yWkMW2w
No cachaço da improvisação, há umas telhas procrastinadas (por não terem chegado a sair do armazém) que contam histórias em seus escondidos milímetros. É como se aprendêssemos a apneia e fôssemos capazes de resistir largos minutos sem respirar quando mergulhamos nas águas pouco recomendáveis do jardim centrípeto. Dizem os cisnes nas imediações que, à noite, umas ninfas hipnotizadas se despojam do vestuário e entram nuas nas águas, simulando um êxtase respeitável. Mal se soube do rumor, brigadas de ativistas de voyeurismoficaram de atalaia pela noite fora. Não puderam espumar pelos cantos da boca o desejo tribal, pois as ninfas não responderam à chamada. 
Do outro lado da cidade, ainda é cedo para abrir a galeria de arte. O curador, ensonado como é costume, profere impropérios contra a manhã. Nem o café duplo o traz das trevas soporíferas onde a mente se sequestrou. Faz conversa de circunstância com a dona do café, uma mulher polaca que fugiu da democracia e tem saudades dos tempos da omnipresença soviética. Têm algo em comum: o curador da galeria de arte transitou pelas hostes comunistas nos seus áureos tempos de conquistador de corações femininos. Evitam falar de política. Houve um dia, a proprietária do café tomou conhecimento que o curador da galeria de arte era dissidente da causa pelos direitos dos trabalhadores contra a opressão dos detentores do pornográfico capital. (Para um comunista, um ex-comunista é perenemente dissidente.) A mulher ficou possuída e atirou o aquário à cabeça do curador da galeria de arte. Pobres dos peixes, despejados do seu habitat, nunca mais se recompuseram. Reagem ao contrário dos touros, quando dão de caras com o vermelho: ficam anestesiados, rezando (se é que os peixes se podem considerar criaturas tementes) para a proprietária do café não ter um ataque de fúria.
Do outro lado do mundo, um canguru fugiu por um triz do atropelamento por um autocarro carregado de turistas ávidos de neófitas paisagens e de um cosmos singular. Safou-o uma cambalhota no último momento. O condutor da carrinha não deu conta: vinha distraído, a olhar de esguelha para os comentários a uma fotografia que publicou numa rede social (em total contravenção do código da estrada). Os turistas exultaram. Acreditaram que o acontecido fora uma encenação para turista ver. Aplaudiram o motorista, para seu espanto (ainda não percebera o que se tinha passado). Com tanta algazarra, o motorista estacionou o autocarro. Alguns turistas saíram ainda antes do autocarro ter parado. Queriam aplaudir o canguru. O animal ainda estava a recuperar da imagem da morte que passou à frente do olhar. Antes de fugir do local, esticou o dedo do meio na direção dos turistas.
Do outro lado da televisão, um cavalo refugiou-se no telhado. Não é uma metáfora surrealista; o cavalo fugiu da enxurrada algures no Japão, que trouxe água quase ao nível dos telhados das casas.

12.7.18

A morte é que está um negócio que se recomenda

Interpol, “The Rover”, in https://www.youtube.com/watch?v=cKDq5dc4wO8
Fazendo fé nas estatísticas mais recentes, morreram mais dezoito pessoas por dia do que no ano passado. Os analistas confirmam que se deve ao envelhecimento. Como somos geralmente mais velhos, morremos mais. Dores de parto dos avanços da civilização: se não fosse pelos desenvolvimentos da tecnologia e dos cuidados de saúde, não teríamos tão elevada esperança de vida. Quanto mais idosos houver, maior é a probabilidade de se sucederem os óbitos. É a lei da vida (se assim se pode dizer, sem correr o risco de cinismo). É a lei das probabilidades: os idosos morrem mais.
Os gurus do empreendedorismo devem andar desatentos. Ainda não deram conta da morte – e aqui “dar conta” tem o significado da identificação de uma oportunidade de negócio (pois não é essa a cartola de onde os gurus do empreendedorismo tiram uns proveitosos coelhos?). Se há mais gente a morrer e é preciso dar-lhes funeral a condizer, devia soar um alerta de negócio. É o que eles chamam, na sua peculiar linguagem, uma “oportunidade de negócio”.
Admito que seja de mau gosto tratar a morte como uma oportunidade de negócio. Todavia, o pragmatismo assim ordena. Da última vez que ouvi falar, fez-se constar que a morte está pela hora da morte; um funeral não é coisa de meia-dúzia de tostões. E se forem mais os funerais em carteira, mercê do aumento do número de óbitos – por sua vez, mercê do aumento de pessoas idosas – é só uma questão de cálculos e de apreciar a possibilidade de os réditos associados às cerimónias fúnebres crescerem com a exponencialidade dos féretros que se apresentam ao cuidado dos cangalheiros.
Também admito que não seja profissão agradável e negócio com credenciais. Assim como assim, diz-se que todos fugimos da morte (pelo menos enquanto pudermos). Os cangalheiros não têm ordem profissional – e ele agora há tantas ordens profissionais, para toda e qualquer profissão, que a ausência de uma ordem dos cangalheiros é sintomática de um certo desprestígio social da função. Pudera! Ninguém se abeira de uma empresa de prestação de serviços fúnebres de ânimo leve. 
Se a pessoa que considera a possível recomendação de um guru do empreendedorismo (se não for o próprio guru a agarrar-se à oportunidade com as duas mãos), não pode ficar refém destas considerações morais sobre o tratamento da morte. Como ensinam aqueles gurus, nos negócios impera o pragmatismo. Com tudo se faz dinheiro, se a oportunidade for identificada e o negócio devidamente estudado, preparado e montado. Se ainda por aí tanto morto, e tanto candidato a morto, e se todos têm se ser enterrados (e uns quantos incinerados), o pudor em tratar a morte como ramo de negócio é inconsequente. Como diz o povo, se a morte é das poucas garantias que temos, o negócio dos cerimoniais fúnebres merece o devido tratamento como garantia de negócio. 
A morte, essa coisa irremediável e em intensificação, é o úbere do ramo de negócio que trata da morte.

11.7.18

Falhar é um sucesso


Conan Osiris, “Titanique” in https://www.youtube.com/watch?v=MitlVLt6RO0
Dizem que não é fácil conjugar o verbo “falhar”. A impressão do malogro é – dizem – o interior embaraço de uma incapacidade. Às vezes, mascara-se a incapacidade, substituindo-a pelo infortúnio; e como o infortúnio é um jogo de acasos, intui-se que o mal acaba por ser exterior e o insucesso é apenas uma vírgula das circunstâncias. Outros há, empenhados em apurarem uma diligência excessiva, que se consideram falhados incorrigíveis. Tudo o que fazem é um erro, termina com um final não intencionado e com efeitos inesperados que, se pudessem ser desenhados, não eram benquistos. 
Eu digo: falhar é um sucesso. Implica um ato. Em pior condição estão aqueles que, timoratos, se enovelam em hesitações e capitulam no altar da inércia. Alguns, por lhes ser inata a indecisão. Outros, por temerem os resultados não esperados e porventura apocalípticos do que fazem. Ajuízam o nada como preferível a algo que pode desaguar num fiasco. Têm um medo estrutural. Devem sentir-se constantemente acossados. Imersos no pânico da terrível indecisão: se fizerem de um modo, temem os seus maus efeitos; se alinharem pelo seu contrário, sopesam meticulosamente a plêiade de falhanços que se congemina como possível efeito. A catástrofe está sempre à espreita sob o ombro de qualquer ação.
Eu digo: temos de convocar a responsabilidade da ação. Por mais catastróficos que sejam os efeitos. Pois a capitulação perante o nada é domínio da mais recusável têmpera em que pode nidificar alguém. Não somos amibas. Somos seres empenhados ao império da vontade. Temos em nós os mecanismos necessários para ajuizar os possíveis efeitos das ações que nos sejam cometidas. Temos lucidez para as distinguir no lado favorável e no lado ermo do malogro. E temos capacidade para juntar todas estas peças num todo que catalisa a ação num determinado sentido. Com a consciência da responsabilidade que se junta aos efeitos desenhados como possibilidades. E se houver um acaso que nos atira contra a parede dura do falhanço, a única resposta que não podemos dar é um lamento e o consequente arrependimento. O lamento e o arrependimento nada resolvem. Nem apagam do tempo pretérito as ações conduzidas a um falhanço e não restituem às possíveis vítimas (intencionais ou apenas colaterais) a posição anterior ao ato que as atingiu.
Falhar é um sucesso. Na exata medida da aprendizagem que cultiva. Não será lugar-comum dizer que aprendemos com os erros. Por mais que se repitam, pois não se pode banir o lugar ao erro. Falhar é um sucesso nessa medida, e também porque quadra com a recusa da inércia, que não é coerente com a soberania da vontade. 

10.7.18

E no fim colocas o título


Radiohead, “All I Need” (live from the Basement), in https://www.youtube.com/watch?v=Z9IODJdi3GA
Estás à frente da folha em branco. Não sabes ao que vens. Não sabes que título vais somar ao ensaio que ainda nem tem baias por onde se mover. Fruto desta escravidão (que ainda consideras salutar), a folha continua em branco, à espera de uma módica ideia. (Está visto que hoje o aluvião de ideias ficou para memória futura.) Julgas que uma combinação de frutos pode desencravar o verbo e o substantivo. 
(Hoje prometeste ser frugal nos advérbios, admitindo que quase sempre apenas servem para encher a mancha do texto; também prometeste evitar adjetivação, que é a gordura má que retira simplicidade aos textos.)
Uma combinação de frutos: escolhida de acordo com um critério avulso, ou selecionados os frutos com critério? Não será através dos frutos que o mote terá aval. Podias olhar para a atualidade – e a atualidade é tão pródiga em acontecimentos, numa mistura de acontecimentos risíveis e de acontecimentos que contam a sério. Recusas. Não estás seguro de um critério fino para distinguir os acontecimentos risíveis dos acontecimentos que contam a sério. Por outro lado, na fase dominante, viras o rosto à atualidade. Deixas para o comentário dos entendidos, dos que se presumem entendidos e dos outros, que não abdicam da pose séria e se consideram legítimos para perorar sobre a atualidade. Não fazes falta à atualidade, nem ao comício constante que ela provoca.
Com isto não reconheces que tens de olhar para as outras dimensões do tempo – ou para um qualquer tempo alternativo que esteja escondido do olhar comum. Já sabes, e tens admitido a eito, que a escravidão que te consome é o tempo – a tua dependência em relação a ele. Nestes termos, deixas de lado as clepsidras, as diferentes camadas do tempo, ignoras o tempo pretérito (porque as recriminações ou as recordações cheias de húmus são irrelevantes para o porvir) e também deixas que o futuro se transfigure no presente que depressa se liquefaz na efemeridade.
Continuas de mãos atadas. Pensativo. Recorres à música: pode resultar num súbito fogacho de inspiração, uma qualquer combinação de palavras evocativa de um espelho onde se refletem as margens de um texto, ou apenas uma palavra simples, poderosa ao ponto de se transformar no mote que o texto (até então órfão) estava à espera. A música, em escolha aleatória, não foi grande ajuda. Continuas a ver a folha em branco à frente dos olhos. E os olhos sitiados pelo silêncio das ideias, que continuam sem sussurrar a inspiração que o texto convoca. 
Depois de alguns esboços, depressa os abjuras. Não gostas do início e não queres saber por que avenida poderia seguir um texto mal nascido. A páginas tantas, a página deixou o seu estado virginal. Um amontoado de palavras desfila página abaixo. Não é bem uma ideia, ou um argumento solidamente ancorado num esteio. Não é nada tangível. É apenas uma coleção estilística que admite a deslealdade dos corredores do pensamento, hoje autênticos opositores das ideias, deixando-as desertas. Não admira que nem sequer saibas o título a encimar o texto, se nem do texto consegues retirar um fio condutor.
Ninguém disse, contudo, que a coerência era um imperativo quotidiano. Amanhã é outro dia.

9.7.18

O escanção dos sentidos


Underworld & Iggy Pop, “Get Your Shirt”, in https://www.youtube.com/watch?v=VrCa_PTu0t0
Naquela altura em que o estuário se alarga e o rio toma conta de terra copiosa, torna-se mais difícil conter o caudal. Torna-se mais difícil saber o paradeiro dos sentidos, agora que têm mais espaço para se albergarem e o estuário abundante processa a sua lenta dissolução no largo rio. É como perder a peugada ao substrato incorpóreo que se julgava incindível: às vezes, o deslumbramento das coisas levianas tem o custo do esvaziamento do que sobra para além das coisas que induzem essa atração. 
Queria estar na posse de uma bússola poderosa que nunca aceitasse a desorientação. Queria saber que nunca estaria perdido em lugar algum. Queria garantias que a matéria involúvel, a substância que dá nome à alma, não seria objeto de desgaste nem de perda. Não seria subsumível à indiferença das moléculas da água transportadas pelo caudal e que, em vez disso, seria um diligente tutor do caudal. Queria sentir-se um pouco como um dique com capacidade para reter um volume de água que achasse necessário ao seu aforro futuro. Para amanhã não se tornar refém da erosão.
O escanção dos sentidos configurava a atração pelo abismo do devir indecifrável. Representava-se a si mesmo como testa-de-ferro das suas convicções. Era um esteio de certezas e um aprumado cuidador do tempo vindouro. Não recusava conselhos nem juízos sobre comportamentos exteriores, fossem pedidos ou não. A vaidade, cimentava-a na ufana condição de si mesmo. Sabia-se exemplar. Não o dizia abertamente (a imodéstia é só aceitável, e com medida, para os que se distinguem e constituem um escol), mas deixava-o subentendido nas entrelinhas. Ao ser escanção dos sentidos – dos seus e, a pedido, dos outros – era credor da sociedade. Aos predestinados (interiorizava, com generosidade), cabe a contemporização dos desalinhados dos sentidos. 
Um dia acordou e sentiu-se estranho. Não sabia porquê. Tinha sido uma boa noite de sono. Não tinha sido assaltado por sonhos medonhos ou por sonhos bizarros (temia mais os segundos que os primeiros). Não sabia onde estava. Teria perdido a bússola requintada. Procurou no quarto, em toda a casa, até nas ruas limítrofes – como se algo imaterial, como a bússola interior de escanção dos sentidos, pudesse revelar-se ao olhar. 
Habituou-se à transfiguração de estatuto (dantes, considerava-o um estatuto). O desprendimento das coisas mundanas era preferível à prisão constante de quem tinha tantas responsabilidades como escanção dos sentidos. Sentiu uma liberdade que não sabia conhecer. Começou a descobrir o doce sabor dos paradoxos: o seu paroxismo era orgulhar-se de já não ser escanção dos sentidos e saber-se sem lugar sua pertença. E deixou de se sentir policiado por si mesmo.