21.1.20

O mar que chama


Cold Showers, “Shine”, in https://www.youtube.com/watch?v=nvZETvomGrA
O mar que tem chama. O seu incenso irrompe do luar que esbraceja a atalaia sobre o mar. Parecem diamantes a espreitar entre o leve ondular do mar. Diamantes soerguidos para se embeberem no lençol caiado que é conferido pelo luar sazonal. Dir-se-ia: o mar sobreaqueceu, de tanta chama, o mar abraseado como nunca se vira. Ou talvez já fora visto, pudesse o olhar vencer o sono (ou ser derrotado pela insónia) e, em dia de lua grávida, apreciasse o efeito produzido no mar seu recetor.
É um mar que chama. Apetece demorar o olhar, anotar meticulosamente as alterações trazidas pelo avançar da noite, até já se notar a primeira luz clara. Até à lua se agigantar de novo, como se contrariasse a senescência que a alvorada determina. O mar, qualquer que seja: uma vasta cama onde se acalmam os espíritos, ou um redemoinho voraz, a tela onde se expõe o mar sob os efeitos de uma tempestade. No último caso, não é provável que haja qualquer efeito da lua sobre o mar, ou pelo menos que este efeito seja visível. 
O corpo vence o frio da noite e abeira-se do mar. Sente a quimera da maré e procede como se as mãos (obedientemente diligenciadas) se deitassem sobre o mar e apanhassem cada um dos iridescentes diamantes que espreitam através da escotilha para se saciarem na lua. Uma noite, uma fina língua de nevoeiro bordejava o mar. Parecia que os diamantes eram pessoas, talvez marinheiros escondidos nas profundezas do mar que vinham beber no luar as quimeras de que precisavam. Não pôde confirmar se eram vultos brunidos pelo luar irrefreável, ou se era uma ilusão trazida ao olhar pela combustão do luar com a fina língua de nevoeiro que aterrara sobre o mar.
Este é o mar que chama. Com ou sem luar. Qualquer que seja a estação que toma conta do calendário. Sem relação causal com o estado de espírito. E muito mais do que um apeadeiro: um refúgio que se sabe sempre onde está, sem ser preciso um mapa para no mar ter cais; ou, em havendo dúvidas, é só seguir as indicações da maresia. 
O mar que chama, como se o chamamento fosse uma chama viva, incandescente, uma tocha sobrelevando no amparo das mãos que não se gastam. Enquanto houver um mar que chama. Um mar com chama.  

20.1.20

O dedo mindinho de quem beberica um chá


Wilco, “Handshake Drug” (liva at Lollapalooza), in https://www.youtube.com/watch?v=c4Jvg58MnfM
A velhinha passeava pela rua que circundava a velha fábrica, arrastando o passo nos ossos condoídos. Balbuciava umas palavras ininteligíveis, como se fosse dona de um idioma que mais ninguém entendia. Trazia sempre ao pescoço uma medalha, como se em tempos tivesse sido agraciada nas olimpíadas – ou, eventualmente, porque a achou entre os despojos de alguém e aquela medalha era de fancaria. Mesmo quando chovia, a velhinha errava em círculos, como se contasse as voltas à volta da fábrica que era o epitome da decadência. O oleado encardido prevenia a gripe.
Antes de atravessar a rua – empreitada arriscada, pelo muito trânsito e porque os automóveis correm a grande velocidade – a velhinha parava em frente aos vestígios de um muro da fábrica. Ficava inerte, a cabeça na direção do chão, continuando a balbuciar uns termos estranhos, como se estivesse numa prece. No fim do ritual, erguia uma mão e assentava-a na parede que em tempos amurou a fábrica. Arrumava as luvas que deixavam os dedos à mostra, tirava o gorro e as mãos fartas massajavam os cabelos todavia bem tratados. 
Um dia – era um dos primeiros dias soalheiros da primavera – a velhinha mudou o ritual. Depois do que parecia a prece em frente dos vestígios do muro da fábrica, tirou uns pertences da sacola que traz sempre a tiracolo. Sentou-se entre as ruínas da fábrica e começou a preparar um chá. A água da termos ainda estava quente, libertando um vapor abundante mal foi destapada. Terminada a feitura do chá, beijou a medalha possivelmente olímpica (ou não), ergueu uma mão na direção da parede onde parecia repetir o rito da oração e levou a chávena à boca, com cuidado porque o chá ainda fervia. E todos os que passavam pelo local puderam testemunhar o dedo mindinho destacado dos demais dedos enquanto a velhinha bebericava o chá de tília acompanhado por umas bolachas que cozinhara com as sobras da cozinha improvisada. Ou não: naquele lugar, as pessoas que passam vão apressadas, aproveitam a ingreme descida para deitarem velocidade nos automóveis. Não têm tempo para ver a paisagem que, em abono da verdade, é um amontoado de feiura.
No dia seguinte, a velhinha não fez a habitual vistoria à fábrica decadente. Ninguém notou a sua falta. A não ser a chávena de chá que ficou esquecida nas ruínas da fábrica, à espera de se tornar, ela também, parte das ruínas. À espera dos quatro dedos seguros da velhinha.

17.1.20

Cimento bruto


Chromatics, “You’re No Good”, in https://www.youtube.com/watch?v=PjUblmk4Cyo
Estas são as arcadas que suportam os ossos do pensamento. Vigas sólidas, com raízes fundas. Uma larga praça onde se debatem as ideias de opostos. Porque o pensamento não é um fragmento disperso que dança na ligeireza dos elementos. 
São as vigas sólidas, feitas de cimento em bruto que se transforma, depois da ação humana, em cimento bruto. Os alicerces precisam de ser uma fortaleza. Têm de ser imunes aos elementos exteriores que os possam ameaçar. Pétreos. Para terem arcaboiço para lidar com tergiversações. As vigas sólidas têm de ser uma demonstração dessa condição. A começar, têm de o ser para quem nelas encontra cais e lança, fundamente, a sua âncora.
Do cimento bruto não são vistas à mostra arestas fingidas. Isto não significa que o pensamento que têm suas baias nessas vigas não esbraceje quando é confrontado com dúvidas. Não significa que não haja momentos em que, colocado perante uma encruzilhada, o pensamento não saiba por onde seguir. É para isso que serve o cimento em bruto. Confere lastro. Ensina a travejar o pensamento, mesmo quando ele tem de sofrer mutações. A diferença entre um pensamento escorado em cimento bruto e outro que ande em demanda do seu paradeiro, é que o primeiro legitima as dúvidas, não se esconde das interrogações e não se inquieta quando não encontra respostas. Porque sabe que se pode apoiar em paredes vívidas que não tombam, por mais que possam parecer embaciados os eixos da memória e as fundações em que se protege o pensamento. 
Que não sobrem mal-entendidos sobre a expressão: trata-se de cimento bruto, mas o cimento não é bruto, não é a imagem selvagem de uma boçalidade sem remédio. É bruto porque foi feito à prova de intempéries, de contratempos, resiste melhor a todas as malformações que o adulterem, está preparado para as advertências e não segue imperativos de coerência. Não se pode pôr de lado a hipótese de influências exteriores, mesmo as que são intencionalmente rebatidas, poderem deturpar as fundações do pensamento, levando-o com elas a ser um pensamento não genuíno. O cimento bruto é a vacina contra as influências que se cogitam desde o exterior, quando elas se opõem à vontade do tutor do pensamento assim invadido.  
O pensamento é a linhagem da ação. Não pode ser menoscabado por falta de alicerces. O cimento bruto é a matéria-prima destes alicerces. 

16.1.20

Um bem-entendido


The Smashing Pumpkins, “Cherub Rock”, in https://www.youtube.com/watch?v=q-KE9lvU810
As palavras bem desenhadas, uma caligrafia impecável. Que não sobrem equívocos e nada fique por dizer. E que nada fique por entender. Um bem-entendido é um bem inestimável. Sem as arestas da hermenêutica enrixada.
Não se pode prevenir os contratempos que embaraçam os bem-entendidos. Ou porque as palavras que desenhamos não são a preceito do que intuímos dizer. Ou porque essas palavras são objeto mal-entendido por quem as recebe. Ou porque as dizemos com uma entoação que compromete o seu significado. Ou porque a quem elas se destinam distorce a mensagem, com propósito. Quando as apalavramos, só por um impulso suicida é que não pressentimos um bem-entendido. Bem entendido que ao autor das palavras não faz sentido se não as precaver num castelo onde só têm lugar os bem-entendidos. Os arautos assim cinzelados não quadram com o intencional viés das palavras mal ditas: se elas são ditas, por que não têm correspondência com a intenção que devia ser a delas? Um mitómano pode mentir a si mesmo.
O bem-entendido exige reconhecimento recíproco entre as palavras que se dizem e as palavras que são escutadas. As duas funções são miméticas. Mas o destinatário pode não entender as palavras como elas foram ditas. Um lapso semântico impede a comunicação. Não se faz luz às palavras como elas foram ditas. A sua interiorização desvia-se do pretendido e um mal-entendido medra na dissonância hermenêutica. O autor das palavras, se lhe for dado a entender a divergência, pode reparar o dano. Pode repetir as palavras, acrescentar outras para avivar o seu significado, aperfeiçoando-as de modo a dissipar o mal-entendido. 
O retorno ao bem-entendido pode ser fracassado se persistir a interrupção semântica entre quem proferiu as palavras e quem mal as entendeu, se o recetor não der a entender o vício de interpretação. O mal-entendido sobrepõe-se ao bem-entendido enquanto o dano não for reparado. Será dano irreparável enquanto se mantiver a fratura de comunicação entre o mensageiro e o destinatário. Impossibilitando o bem-entendido. Por isso, às vezes (de configuração indeterminada, porém), convinha fazer uma adenda às palavras ditas. Como se uma legenda viesse a acompanhar as palavras ditas, para não se ferir de morte a possibilidade de um bem-entendido. Seriam palavras em cima de palavras, as primeiras instrumentais das segundas.
Admita-se a impraticabilidade da hipótese: não são poucas as vezes em que as palavras ditas excedem a medida certa. Se a esta prodigalidade se adicionassem as palavras em adenda, não se andaria longe de uma inundação com efeitos possivelmente devastadores. As palavras seriam material contaminante, tóxico. A menos que se aceite que nunca há palavras excedentes e que o bem-entendido é um bem maior.

15.1.20

Fábrica (short stories #192)


Ryuichi Sakamoto, “The Sheltering Sky”, in https://www.youtube.com/watch?v=xLRpPISVgoA
          Desce a cortina sobre a noite. Neste soar noturno, pressinto a lava que se insurge contra a letargia. Pressinto um ofegar próximo, a respiração por que me guio. Este prístino lugar não obedece a regras, só às não regras de que somos tutores. Enfeita-se o horizonte com os dedos que escrevem nomes, os nomes de que somos feitos. No parapeito da memória, interrogamos o porvir. Interrogamos as próprias interrogações que não deixam de ser palco suserano, o lugar da redenção, se houver proveito na redenção. Tudo é artesanal. Tudo é fabricado com as nossas mãos, como se elas fossem as suas próprias pétalas e de um poço de água pálida se erguessem as falas precisas, decantadas pelas pétalas. Às vezes, a noite emudece. Emudece e nós falamos por ela. Nós e o murmúrio do mar, que espreita no véu da tempestade que compõe uma estrofe do inverno. Somos a fábrica de onde sai a matéria-prima de que somos feitos. Circulando no ermo lugar que resgatamos às juras, sem descuidar o amplexo em que caem os corpos à espera de ficarem trespassados pela estuação da carne. Não apetece dar corda ao relógio. Não apetece que o vento deixe de ciciar na sua iracunda proclamação. A lareira crepita com a exultação do sangue que se torna cálice em ebulição. Sabemos o que fazer desta combustão. Emprestamos as achas abraseadas à pele acometida pelo frio. Não é que precisássemos. A chama farta que de nós emana seria suficiente para aquecer o casario todo em volta. Talvez, sem exagerar, uma metrópole inteira. Sabemos que somos a fábrica dos sentidos colhidos no ponto mais alto do miradouro, onde só os mais audazes conseguem chegar. Seríamos, se estivéssemos nos Andes, andinistas diligentes contra a moldura baça dos decadentes. Agarramos o vento antes que ele fuja. Antes que abençoe outras latitudes. E tomamos em nós a linhagem sublime das paisagens bucólicas, sem olhar para trás, sem esperar pelo que se antecipa à nossa frente. Porque os olhos mergulham na imensidão dos olhos outros, e saciam-se.

14.1.20

Até setembro


Fontaines D.C., “Liberty Belle”, in https://www.youtube.com/watch?v=HgLypctZ9Gs
Diremos: “até setembro”, com ou sem exclamação, depende do estado de espírito, depende das cores que tingiram os sonhos. Até setembro, quando soubermos da latitude dos ventos que são o presságio do outono, e nas nuvens por ele trazidas repousarmos os rostos cansados do estio. Só para podermos dizer, sem exclamação, “até setembro” como arte da posse do tempo, como se agora, que ainda é inverno, estivéssemos a reaver a pele exsudada pelo calor que ainda se sente com o setembro às costas. 
Queremos o setembro para sabermos que o verão está de partida. Poder-se-ia contrapor, com o dedo erguido de perplexidade: “mas se ainda agora é janeiro, por que se pressente com tanta antecedência o cansaço do verão?” Não temos resposta. Só sabemos que o verão é uma fadiga inteira. Suamos, durante o verão, e não gostamos. Há noites mal dormidas porque são noites tropicais, raras neste lugar que semeia maresias localizadas que se opõem às noites tropicais, mas noites tropicais em número imoderado. 
O setembro, consideramo-lo o estaleiro onde se começa a montar o outono, a estação preferida. Aos primeiros arremedos de frio noturno, começamos a sentir o odor de um outono que medra na decadência do verão. E agora, que ainda é janeiro e está frio lá fora, damos um salto no tempo, aos meados do setembro que se apresta a dizer adeus ao verão, e temos a audácia de combinar esse salto no tempo, como se fosse possível obliterar o verão, o sempre longo verão (apesar da influência atlântica que o tempera). Alguém poderia protestar: “estão mal-habituados. Sem ir mais longe, prouvera que convivessem com o verão com influência dos ventos saarianos, e o que diriam?”
Não damos importância ao protesto lavrado no imaginário através de uma personagem imaginária. Este é o verão que temos. O verão que nos cansa. Mesmo quando ainda vamos a caminho do apogeu do inverno. Demanda extemporânea, porque nem sabemos como vai ser o próximo verão. Este é um proémio que não cai em saco roto. É como se se soubéssemos, com toda esta antecipação, que os corpos acobreados querem regressar à sua alvura com o consentimento do inverno. Por isso exclamamos: “até setembro!”, com o olhar tingido pelos tons acobreados do outono que se começa a pressentir por alturas de meados de setembro. 

13.1.20

A ditadura dos corpos


DIIV, “The Spark”, in https://www.youtube.com/watch?v=YEI2IAyoBZI
O desafio dos corpos: não são um simples amontoado de maquinaria, a confluência de carne e sangue e ossos, os fluidos do seu funcionamento; os corpos são a sua transcendência, um corpóreo manual de respostas aos impulsos que os corpos, como domínio da vontade, não conseguem domar. Os corpos respondem à vontade que lhes é exterior, a vontade comandada pela parte incorpórea que há em nós e que nos domina. A vontade não inventariável.
Por toda a História fora, são copiosos os episódios de censores dos corpos, na repressão de um hedonismo que é adversário de uma outra forma de obediência – os credos vários, as religiões, os sacerdotes que são porta-vozes de credos, religiões e outras dependências das almas. É mais fácil reprimir os corpos do que dirigir a repressão para a parte incorpórea de nós. A vontade sem rosto, que não está tatuada no corpo, não se presta à dominação absoluta dos sacerdotes que, do exterior, pressentem a bondade dos comportamentos esculpidos. 
Por mais que seja fértil a safra dos comandantes dos corpos, as mentes continuam irrefreáveis, penhoras de uma liberdade irremissível. Não importa que sejam usados métodos execráveis, e que em nome de um autoanunciado “bem maior” exércitos imensos de mortais abdiquem da sua liberdade e aceitem a castração dos sacerdotes que os convencem da necessidade e da bondade dos atilhos que convergem para o enevoamento dos corpos. Dizem, em sua defesa: somos dominados pela ditadura dos corpos, eles têm de ser dominados por uma força maior que os liberte desse espartilho. Nem que seja preciso dobrar a vontade à força bruta, contrariando os instintos que conduzem os corpos. Acreditando que a castração dos corpos se há de impor à vontade rebelde, sem rosto, não identificável, que norteia os corpos. 
Uma ditadura que substitui uma ditadura não deixa de ser uma ditadura.
Monta-se um cenário hediondo. Linhas de montagem para desmembrar a linhagem dos corpos, com prévia ideologização obrigatória que ensine os malefícios da ditadura dos corpos. Partes de corpos torturadas até que as forças se tornem exangues e juras irremediáveis sejam feitas, no selo da incapacidade que subjaz, para os corpos não mais sucumbirem no planalto da demoníaca vontade. Como se fossem lobotomias do desejo, só porque os sacerdotes desta moralidade impante se extasiam na desarte de dominar vontades que não são as deles – possivelmente, porque as vontades deles ou são frígidas, ou se enovelam numa conspícua, mas inconfessável, promiscuidade. 
Será sempre uma totalitária exação que tem uma colheita por defeito ou por excesso. Sem meio termo plausível.

10.1.20

Capítulo sete


Grace Jones, “La Vie em Rose”, in https://www.youtube.com/watch?v=q1IYUvrn8gk
As palavras de todos os dias. Extinguem-se? Banalizam-se? Não. São as palavras de todos os dias que emprestam sentido aos dias todos. As palavras de todos os dias não recusam as palavras singulares, as que são resgatadas a um lugar escondido do vocabulário e embelezam um instante, uma frase, um sentido que está a precisar de sentido através das palavras a que vem jungido. Ou os afeiam, porque a peregrinação da alma assim o exige.
A “vida a cor-de-rosa” – exulta-se. E porquê a cor-de-rosa? Há quem renegue o cor-de-rosa. Os boçais marialvas que o decretam inaplicável a homens que honrem o seu gabarito (que, recorde-se, é a linhagem boçal e marialva, logo, não recomendável). Outras pessoas indispõem-se com o cor-de-rosa por razões diversas que mereceriam indagação noutra sede. Dizem, os outros que não têm apneia com a cor, que uma vida a cor-de-rosa é isenta de angústia, não sobressaltada por fantasmas que precisam de exorcismo. A vida a cor-de-rosa é uma composição de palavras que interioriza as palavras de todos os dias, um sentido comum com um significado reconhecido pela maioria. E como será uma vida a cor-de-rosa para os boçais marialvas e para as pessoas que, por uma qualquer razão, repudiam o cor-de-rosa?
As palavras comuns ditam um sentido que se irradia, tornando-se convencional. Mas o que dirão as pessoas que, por exemplo, têm no preto a sua cor preferida? Podem adulterar a expressão vulgarizada, de si dizendo (se estiverem satisfeitos com a vida que levam) que estão enamorados com a vida a preto. A “vida a preto”: não soa bem? Aos costumes, não. Se alguém se confessar num périplo com a vida a preto, a expressão de comiseração não demora. A maioria considera que a vida a preto é sinónimo de luto, ou de constante inquietação por causas exteriores ao domínio da vontade.
As palavras de todos os dias são palavras de todos os dias para quem assim as reconhece. Não constituem uma medida absoluta. Não devem obrigar quem nelas não se revê a usar uma legenda de cada vez que afirma a sua pessoal e adulterada versão da expressão, corrompendo o sentido das palavras de todos os dias. Não há palavras de todos os dias. Apenas palavras, com o desenho que lhes é emprestado pelas diferenças entre as pessoas, pelos diferentes estados de espírito, pelas diferentes preferências, pelos diferentes matizes como a mesma palavra pode ser decifrada. 
Há palavras e hermenêutica, uma empreitada muito desvalorizada nos tempos atuais.

9.1.20

Mãos à obra (short stories #191)


Jambinai, “Connection”, in https://www.youtube.com/watch?v=mpmtnLLZPcg
          Deste cimento que só tem história futura, uso dose moderada para assentar a obra. Espero fruir da obra e deixar que os que dela queiram ter usucapião consigam seus intentos: a obra não obedece à regra da exclusão do uso; é uma obra para memória futura. Não temo os temores sacrificiais inscritos no caderno de encargos. Não fiz cálculos sobre a resistência dos materiais, que a matemática não é o meu forte. O meu forte são as bainhas das palavras que se escondem nos contrafortes da obra. Não estão lá escritas, que as paredes caiadas não deixam que nelas se deponha nada para além da cal. As palavras pressentem-se quando os pés se metem nas suas entranhas. É como se subissem do chão e se embebessem nos corpos dos visitantes, transfigurados em autênticos poemas vivos, andantes. Por isso, meto as mãos à obra. As mãos sufragam os alicerces com a medida de sua solidez. Congeminam a feitura das paredes, dando a forma à obra, as arestas aparadas pela graciosidade das mãos obreiras. Para tanto, abro uma exceção, eu que estou convencido da inaptidão para a empreitada. Abro uma exceção e deixo que as mãos caiam sobre a obra e a façam através do estirador dos dedos meticulosos, cuidadosos, artesãos. No fim de cada dia, vendo como a obra progride nem que seja uns modestos centímetros, sussurro uma jura para o dia vindouro: “mãos à obra!” Quero da obra que as mãos se saibam saciadas, ao verem, quando a obra tiver finalização, a obra por elas erguida. Esse é o incentivo que abate as contrariedades que um dia sombrio possa tecer. E, no dia seguinte, acordo com o incentivo de meter as mãos à obra. Nem que seja para a fazer avançar uns poucos centímetros. Pois as mãos obreiras estipulam o seu próprio caderno de encargos e do resto (o seu cumprimento) cuida a vontade rebelde.

8.1.20

O otimista acidental


Neon Indian, “Toyota Man”, in https://www.youtube.com/watch?v=-jvkHxmeNXc
Incongruência de método: exercitava uma irritação emblemática contra os otimistas empedernidos, os que exsudam boa disposição permanente e a ostentam como medalha contagiante. E, todavia, não encontrava os rudimentos para se situar na trincheira contrária. Deplorava o pessimismo metódico. Repudiava os conservadores irremediáveis que militam contra a modernidade (e ele há sempre uma modernidade a tingir cada tempo que passa). Os aflitivos críticos exponenciais eram corpos estranhos, via-os como gente angustiada, consumida pelo seu próprio sangue corrompido pelo veneno que destilam pelos poros.  
Era um otimista, por princípio. Sem convicção. Não podia de si dizer que alimentava uma tocha estruturalmente otimista. Se fosse preciso, dava o flanco para admitir que também era assaltado por dúvidas que o colocavam no ermo do pessimismo. Não é com dificuldade que se encontram provas, e não apenas circunstanciais, das náuseas que afeiam o mundo. Ato contínuo, à recordação subiam os indefetíveis do pessimismo (antropológico e de outras estirpes) e depressa suprimia os laivos de pessimismo sob a custódia do seu exigível oposto. Mas não tinha condições para ser um otimista descomprometido. Sentia a exigência de colocar condições ao otimismo, para que o otimismo não caísse no logro da banalidade e não fosse condenado ao esvaziamento por dentro.
Aceitava que dele se dissesse ser um otimista cauteloso. Já era mais do que mera retórica, a posição estabelecida: recusava a decadência do pessimismo, por causa da contaminação dos seus dogmáticos, que considerava gente não recomendável. Tinha, contudo, os desalmadamente otimistas como igualmente recusáveis, por motivos diferentes. 
Não era isenta de danos, esta posição. Durante muito tempo, causara-lhe espécie a equidistância, o ponto cardeal que o distanciava, em doses iguais, de cardinais que se opunham. Não alinhava pelo estalão das meias-medidas. Isso era dantes. Agora, já não é um embaraço. Contudo, não aceita ser arregimentado na equidistância entre os abnegados otimistas e os circunspetos pessimistas.  
Era um otimista, porque a teoria geral da relativização das coisas (por si cunhada) ensinava que do ponto em que nos situamos temos a possibilidade de testemunhar quem se encontra em pior posição. Este era o incentivo para o otimismo. Um otimismo metódico, não destravado e acrítico, mas acidental. Triunfante por não olhar para o mundo e as pessoas e as coisas que o compõem como uma aguarela sem cores, plúmbea, tristonha, boçalmente decadente. Sabendo, contudo, que não encerra em si um perene e radioso arco-íris, o mundo retratado aos seus olhos.