21.10.14

Torcer os números até eles dizerem o que queremos

In http://thumb1.shutterstock.com/display_pic_with_logo/474871/101278054/stock-vector-background-with-numbers-vector-101278054.jpg
Há manipulações para todos os gostos. Umas são grosseiras e quem as comete é vilipendiado. Dizem que não vale fazer batota e a desonestidade da manipulação não é boa medida. Outras são – como dizê-lo? – suaves reinterpretações que fermentam novos números, mais simpáticos como descrição da realidade.
Como se consegue o milagre? Mudam-se as bases de cálculo, adicionam-se novos pressupostos, mete-se na soma o que dantes estava excluído e, no fim, também se está a torcer os números. Só que estas manipulações nem se chamam oficialmente manipulações; são revisões de métodos, metendo numa nova alcáçova o que dantes, por pruridos da moral e por impedimento das leis, estava excluído. Mas não se pode dizer que é batota, porque a manipulação (que oficialmente não o é) veio ungida com a bênção dos organismos oficiais que fazem estatísticas.
Vem isto a propósito de a União Europeia ter concluído que devia incluir uma variável aleatória no cálculo do PIB que metesse na riqueza dos países uma estimativa dos efeitos económicos da prostituição e da droga. E, de repente, o PIB aumentou 2,5 por cento. Não é o milagre das rosas, que as coisas tão imorais e ilegais que passaram a contar para as contas são tudo menos rosas; mas é um milagre que fez crescer o tamanho da economia. E, de caminho, consegue (por artes da ilusão estatística) diminuir o peso da dívida pública e do défice orçamental nas contas dos Estados. Que vão a caminho de respeitar os açaimes que a União Europeia colocou no défice e na dívida.
Os tráficos (de carne branca e de substâncias que levam os consumidores para dimensões cósmicas) mexem com muito dinheiro. Já toda a gente sabia. Estando essas atividades fora da lei e dos costumes, todo esse dinheiro aquece a economia subterrânea. A economia que não conta para as contas. Agora, isso mudou. Só faltou à notícia explicar que contas usaram os estatísticos de serviço para concluírem que as atividades que passam debaixo da mesa significam mais 2,5 por cento na economia.
À falta de dados, ficam as consequências. Primeiro, o exercício é paradoxal. Se as meninas que vendem prazeres carnais e as drogas de diverso calibre são banidas pelos costumes ao ponto de estarem em fora da lei, como podem contar para as contas que calculam o PIB? Segundo, pode ser que este seja o primeiro passo para a legalização do que não devia ser ilegal.

20.10.14

A folia que inebria


The Stranglers, "La Folie", in https://www.youtube.com/watch?v=g9cSa6EjVRA
Quem diz que a vida é uma loucura? Loucos são os que por ela passam sob o jugo de uma batuta que os mantém ordeiros. Loucos são os que vão pelos prados verdejantes e atuam como rebanhos – ordeiros. Loucos são os que hipotecam a vontade. São loucos sem lucidez, sem préstimo algum. Nós somos de uma loucura diferente. Atiremo-nos de cabeça no abismo. Vamos pelos mistérios insondáveis, descobrindo o que houver por descobrir, nem que seja o nada depois de um beco à saída da encruzilhada. Não vamos lamber as feridas. Não vamos deitar um espelho sobre o que já foi, que é pertença do tempo das sepulturas. Vamos, pelo contrário, estilhaçar os espelhos que olham por detrás das costas. Vamos abrir as rolhas das garrafas e deitemo-nos numa embriaguez sem peias. Não, não é fazer de conta que passamos pelo mundo como se ele, pungente, fosse um lugar pouco recomendável e quiséssemos nele andar anestesiados. Vamos aos elementos que purificam as sensações. Vamos saber como se extrai o tutano da vida. Não interessa com que indumentária. Não interessa o penteado, ou se o cabelo está desalinhado. Não interessa se há palavras ditas que não fazem sentido, que se foram ditas é porque nelas se encerrava um sentido qualquer. Corremos contra o tempo, para vencermos o pleito. Olhamos pela embocadura do sol e encontramos uns raios que só aos predestinados é dado revelar. Damos as mãos à folia que nos inebria. Damos as mãos aos instantes que não se consomem na vã promessa de um nada que sobeja do amanhã, pois somos nós que damos ordem para os instantes se consumirem na nossa pele. E então, já de alma cheia, colorimos o pensamento com as cores garridas que houver à solta. Vamos pelos precipícios, pois queremos ser senadores das sensações fortes, queremos beber num cálice o expoente máximo da vida que transita em velocidade excessiva, queremos os instantes emoldurados nas palmas das mãos. O sono pode ser pouco, que os sonhos podem demorar. E depois, quando tivermos a certeza que a alma está cheia, depois de termos passado todos os testes da lúcida loucura, se nos parecer, construímos com as nossas mãos o trono que de nós faz reis.

17.10.14

Ladrões low cost

In http://static1.custojusto.pt/mi/full/8500577280-motalli-bolonha-50-cm3.jpg
Do rodapé de uma notícia: ladrões que foram apanhados porque faziam delinquência em motoreta de cinquenta centímetros cúbicos.
O amadorismo chega a ser enternecedor. Ou isso, ou a indigência em que se embebem os néscios que se julgam super-heróis do gamanço. Devem ter, ainda assim, feito pecúlio; pois da notícia também constava que a zona tinha sido varrida por “assaltos em série”. Mas um dia, a função correu mal. Sobrestimando capacidades, a adversidade da luz diurna para a empreitada e a probabilidade de haver muita gente acordada em durante o dia, os ladrões já regressavam de outro assalto quando foram interceptados por populares (na linguagem jornalística, os populares contrastam com as forças da segurança. Estão para estas como os civis para a tropa de quartel). Não consumaram o roubo porque faltava potência à motoreta. Foram atraiçoados pelo veículo, não conseguiram fugir dos arredores do crime.
Os aprendizes de criminoso não sabiam nada de tática do gamanço. É preciso um plano de contingência. Sobretudo na hora da fuga, não vá dar-se o caso de “testemunhas oculares” (outro preciosismo semântico dos plumitivos) deitarem o olho na mão sagaz que vai à propriedade alheia e desatem a correr atrás dos meliantes, frustrando a ação. Poderão alguns, os habituais que se comiseram com as infaustas condições em que o abominável capitalismo mergulha os desvalidos, certificar que a culpa não é dos atrapalhados gatunos. É da crise, que põe tanta gente à míngua, abandonada a um estado de necessidade que a faz ser, em desespero, gente ladra para prover a autossubsistência.
Não sabemos se assim foi. Podia ser gatunagem gratuita, a preguiça de trabalhar substituída pelo gozo de enriquecer ao ser parasita do suor dos outros. O que é um amadorismo cinzelado a penas de alcatrão. Nem todos têm a destreza de Bonnie e Clyde. Como em tudo na vida, só um escol é que se safa. Os outros, nem conseguem irromper na espuma da mediocridade.
A televisão decidiu chamar-lhes “ladrões low cost”. (Ó criativa semântica!)

16.10.14

Uma dezena

Ornatos Violeta, "Capitão Romance" (Coliseu dos Recreios), in https://www.youtube.com/watch?v=eBN-ruyacSs&list=PLxlSrH9vXgPZDVNN0jPdfsYR5yBN9njQ8
Duas mãos cheias de aniversários. Eu bem me queria desenganar, mas o calendário que arranca o tempo ao tempo tratou de o confirmar: tu estás crescida. Tão crescida que agora não vais deixar os dois dígitos como expressão da idade. E eu, teu pai, embevecido por te ver crescer. Vou-te confessar uma coisa: eu cresço contigo, cresço à medida que acompanho o teu crescimento.
Podia ir ao tempo de outrora em busca de memórias do que já foste. Mas não é preciso. Estar ao teu lado é a melhor impressão digital que podemos ter um do outro. Não precisamos de lembrar o tempo que já foi. Precisamos de caminhar juntos no tempo que nos é dado a saborear. Isso é que importa. É quando um pai é o chão que suporta o andar da filha, um chão sólido e liso que deixa a filha caminhar com a serenidade de quem continua enfeitiçada pela inocência e não sabe que há sobressaltos que podem atraiçoar o caminho que se faz. A seu tempo hás de lá chegar; é próprio do tempo que a seu tempo terá lugar.
Até lá, vou contigo na aprendizagem da vida, porque não nascemos na posse dos domínios do mundo nem todas as coisas em que ele se deita nos são dadas a perceber. É por isso que digo que continuas a precisar de colo. Não interessa que estejas quase da minha altura: o colo é-te sempre devido. Para sarar as cicatrizes que o tempo irá abrir, pois a ninguém é dado escapar às cicatrizes do acaso; para te dar o que de mim for útil aprenderes; para sermos atores na ternura que, oxalá, se demore em muito tempo; para continuarmos a ser cúmplices na música de que os dois gostamos, ou para te contar as histórias inventadas que já não conto ao deitar. E digo-te: quero que saibas que estou onde for preciso para estar ao teu lado. Mesmo se, algumas dezenas de aniversários depois, porventura encontrares um lugar que seja distante, nem assim haverá distância tanta que consiga tornar pálidos os laços filiais que são os nossos.
Uma dezena de anos são mais de três mil e quinhentos dias de vida. Nas dezenas que vierem pela frente, que sejamos caixa-forte um do outro. Para sabermos que há um ombro onde repousar as lágrimas, ou um abraço enfeitado a mil beijos que celebra as felicidades que em ti vierem fundear. Às dezenas que estiverem para vir, bebo um vinho adocicado pela felicidade que semeaste em mim. É para ti a música ali em cima.

15.10.14

Pensamento em alta velocidade


In http://1hdwallpapers.com/wallpapers/high_speed_tunnel.jpg
Desafia os imponderáveis que achares no caminho. Alinhava as fronteiras da impossibilidade, empurra-as sempre um bocado mais à frente. Desembainha a espada contra os espartanos guerreiros que prometem a preguiça. Olha as paisagens no conjunto, não te detenhas nos pormenores que embaciam o estertor do tempo. Coloca o pensamento em modo de fervura. Deixa-o em ebulição constante. Mesmo a dormir, que há ideias que proveem de sonhos, ou baias que são desfeitas à custa de tanto combateres pesadelos até que eles deixem de ser visitação do sono. Acima de tudo, não te intimides, não deixes que o pensamento se coalhe aos pés de supostos imperadores que esgrimem o que julgam ser uma superioridade intelectual. Apanha-os na curva em falso e devolve-lhes humildade, que mal não lhes faz. Abraça as ideias todas, mesmo que estejas embebido numa tempestade de ideias que fruem no aluvião em que o pensamento medrou. Não desperdices nenhuma ideia à partida. Depura-as com o tempo, com a densidade do pensamento que se deita sobre o pensamento que vem de trás. Interroga as ideias. Sê o primeiro crítico das ideias que, a certo passo, julgas à prova de bala. É que não há ideias à prova de bala. Refaz os alicerces, revê os caminhos por onde prossegue o raciocínio, interroga sem cessar, não te contentes com as respostas que sobram depois da embriaguez das perguntas. Não há pensamento definitivo. É sempre work in progress. As mundanas tentações congelam o pensamento dentro de um castelo exíguo, em ruínas. Não queiras ser refém da estreiteza da alma. A grandeza maior é o sobressalto contínuo do pensamento que se enamora da rebeldia. A grandeza maior é a importunação das ideias com cores sempre iguais, sem palavras tecidas em melodias diferentes, sem o fulgor de achar caminhos desconhecidos mercê das incómodas paredes de onde se solta o musgo da sabedoria. Mas nota: a sabedoria é tão provisória como o pensamento.

14.10.14

Males desacertados

Slowblow, "I Know You Can Smile", in https://www.youtube.com/watch?v=dhOY11G78ZE
Enforcara os males de outrora. Com um nó górdio que foi, desta vez, asfixia para os desacertos que tanto teimaram. Não sabia como haveria de lidar com o tempo vindouro. Estava tão habituado à comiseração. O melhor panegírico era os outros lavarem-se em lágrimas por causa das contrariedades que eram tão habituais. Nem maldizia o azar, não fosse o azar (ó superstição) fermentar mais azar em cima do azar que vinha como aura em cima dele.
Agora, as alvoradas já não eram plúmbeas. Nem o tempo parecia uma eternidade, arrastando-se nas ocasiões angustiantes, quase não se demorando nas poucas vezes em que havia pétalas perfumadas a dele extrair. Agora, que havia uma luminosidade cintilante a adejar, até quando a noite era uma penumbra implacável, era como se os dados jogados em cima da mesa tivessem virado a sorte (outra vez a superstição). Acordar pela manhã não era pungente, o pensamento ansioso por o tempo cortar a eito por um atalho e que depressa se fizesse a hora do recolher. Viver era uma experiência magnífica. Todos os dias havia alguma coisa para aprender. Dos livros, das pessoas à volta, das árvores, das paisagens e dos monumentos (sobretudo dos que, mesmo a dois palmos da lucidez, andaram contumazes), das coisas por mais simples que fossem.
Agora, tudo era diferente. Olhava para trás, das poucas vezes que ia em contramão com a nostalgia (pois desse tempo não havia recompensas vertidas em cálice algum), e não se arrependia de não se ter arrependido. O pretérito está enfeitado com as fitas, ora sombrias, ora altivas, que emolduram o tempo nos retratos guardados na memória. Não tem préstimo. Mas também não há honraria em desfazer o outrora como se dele não houvesse notícia a guardar. Assobiava as melodias que vinham com o ecoar dos ponteiros do relógio, enquanto entreabria as janelas todas, à medida das cortinas desfraldadas à brisa que vinha para dentro das janelas, e açambarcava o caleidoscópio de odores que se anunciavam.
O júbilo deixara de ser uma distante miragem, ou uma promessa que se adiava na eternidade do tempo apenas prometido. Foi quando domou as circunstâncias que julgava suas tutoras no corcel do tempo. Agora, as rédeas eram suas.

13.10.14

Os gatos poltrões

In http://www.riograndedonorte.net/wp-content/uploads/2013/02/gatos-de-rua.jpg
De há uma semanas a esta parte, consumia a pausa matinal a observar os gatos nos terraços das redondezas. Saía à varanda com a chávena de café, não importava que estivesse de chuva ou que o sol ainda tisnasse a pele. Às vezes, perdia a noção do tempo e as colegas chamavam-na de regresso ao trabalho. Era como se estivesse a escrever um romance mental e os gatos vadios que encontravam pouso no terraço à volta fossem personagens do enredo.
Catalogou os gatos. Eram oito. Comiam no canto de um prédio, onde uma velhinha, de certeza embebida em solidão, a aplacava através do convívio com os gatos. Falava com eles. E eles aproximavam-se de cauda em riste, o rosto emproado, dir-se-ia que extasiados com o odor que vinha de dentro dos sacos onde a velhinha guardava o repasto. Comiam até se empanturrarem. Depois, um ou outro ensaiava uma peleja lúdica, mordiscavam o pescoço, alçavam a mão para esbofetearem o rival. Lavavam-se demoradamente, humedecendo uma das mãos que era atirada contra os bigodes que ainda albergavam vestígios da comida. O asseio só findava quando notassem que nos bigodes já não havia sujidade.
Coçavam as orelhas. PorventuraCoçadadecomida.estavam m . ali fcidae de gatos que exemplifica os antmetem contra os comportamentos sedentefeiçndo o sono. ali fCoçaC as pulgas nidificavam nos gatos. E depois deitavam-se ao sol (se o dia fosse soalheiro) ou refugiavam-se no alpendre (se estivesse chuva), à espera do sono. Não havia insónias. Dobravam-se sobre o dorso, encaixando a cabeça junto dos pés e aterravam num sono demorado. Alguns dos gatos, em havendo dias mais frios, recostavam-se uns nos outros à procura do calor que contagiavam reciprocamente. E dormiam. Horas a fio. Não os importunavam os aviões que têm rota de aterragem por cima dos prédios e já voam baixo, ruidosamente. Não se incomodavam com as ambulâncias e os carros da polícia que anunciam, com estridência, as sirenes de uma urgência qualquer. Não queriam saber das donas de casa que vêm à varanda estender roupa lavada, ou despejar as migalhas que estavam na toalha embrulhada que veio de uma refeição anterior. 
Ao fim do dia, quando ela voltava à varanda para arejar do ar pesado de um dia de trabalho, retomava a catalogação dos gatos. Não faltava um. Ainda dormiam todos. Alguns, na mesma posição em que estavam por volta dos meados da manhã. Outros mudavam de pouso, mas mantinham-se leais ao sono. Estavam gordos. Pudera! Deixá-los ser poltrões e alegres como acharam a alegria naquele terraço.

10.10.14

Vamos esquecer a história que não convém?

In http://www.conservapedia.com/images/e/ee/Stalin-140508_27880t.jpg
Façamos melhor: vamos apagar a história que não convém, aquela de que nos envergonhamos. Porque, ao apagá-la dos registos da memória, conseguimos o milagre de fazer crer que essa história não aconteceu, que foi apenas um pesadelo coletivo. É como se fosse possível ir aos fundilhos do tempo, andar com o relógio para trás e passar uma vassoura pelos protagonistas que nos desagradam. Não interessa que desse modo sejamos juízes impondo os nosso juízos aos outros; assim como assim, somos de uma estatura intelectual superior e o povo precisa de ser guiado como deve ser.
A extrema-esquerda não aprende com as armadilhas que inventou para si mesma. O estalinismo, com as depurações cirúrgicas que iam ao ponto de apagar gente (que passou a ser) incómoda das fotografias, não se despega da espuma do tempo. O mais recente aconteceu no parlamento, quando os deputados das seitas aí filiadas queriam impedir uma exposição de bustos de presidentes da república porque estavam lá retratados os que exerceram a função durante o (que insistem em chamar) fascismo. Ensinemos aos meninos que andam pelos bancos da escola a aprender a história da grandiosa pátria que teve foros de coisa exemplar nos tempos idos: quando nos envergonhamos de episódios que ficaram nos anais da história, viramos a cara para o lado de lá, fechamos os olhos, cultivamos a ignorância, fazemos de conta que aquilo, por tão vergonhoso, não se passou. Tendo origem na presciente e muito tolerante extrema-esquerda, ai de quem chamar a isto censura.
Era como se daqui para a frente cada indivíduo pudesse banir do registo da memória os acontecimentos que molharam a existência com o fracasso, as odisseias de que não se tem orgulho, e nem sequer houvesse lugar ao arrependimento (que, é certo, é perda de tempo). Refazíamos a história nossa como se fosse possível extinguir os episódios que não deviam ter acontecido se o tempo futuro pudesse fazer uma aliança com os acontecimentos passados. Lamentavelmente, os tempos diferentes não têm pontes que os unam. Pertencem, cada qual, ao tempo de que vêm. Ir lá atrás para apagar o que não interessa recordar é mau augúrio: de que somos perfeitos (e ainda bem que não somos) e de que somos engenheiros que cinzelam cirurgicamente o passado em que fomos.
A extrema-esquerda não aprende a deixar de dar tiros nos pés. Pois recordar os lamentáveis tempos da ditadura não é o melhor seguro para que esses tempos não voltem com o regresso da maré? E recordar esses tempos não é a melhor prova de vida para a extrema-esquerda? Eu cá farei o que estiver ao meu alcance para não esquecer que a extrema-esquerda existiu e continua a existir. Seria demencial fazer de conta que não conta, a extrema-esquerda, para as contas que interessam.

9.10.14

Desta alma que na dor se não consome

Dead Can Dance, "The Host of Seraphim", in https://www.youtube.com/watch?v=S1J6TFHCevg
Diziam que andou sem rumo no submundo. Quase esquecera a sua identidade. Não se podia dizer que fossem desvarios da tenra idade, que só depois, já na tenra idade não vicejava, tomou caminhos impérvios. A decadência foi mote durante tempo sem noção. Houve noites que não soube onde se agasalhou das intempéries invernais. Noites que não deu conta de elas passarem, como se o tempo estivesse suspenso mercê da anestesia dos sentidos.
Perdeu tudo. Tudo o que tinha. Julgava que ganhara outra dimensão: os prazeres proibidos de que era insaciável. E quando a decadência quase o arrebatou para a infinitude da morte, conseguiu arranjar um lampejo de lucidez e estendeu a mão que se agarrou a um cais seguro, sem musgo escorregadio que recusasse a desavença com o que fora de si no tempo pretérito. Soube, então, que a alma se incinerava numa consumição insuportável. Que a anestesia perene tratava de iludir.
Agora tudo era diferente. Já nada estava aprisionado numa luz embaciada. Dantes, viciara-se na luz embaciada porque os sentidos não conseguiam medir as dores do mundo que eram sua consumição permanente. Escondia-se dessas dores que, em não sendo suas, perfilhava como se houvessem radicado dentro de si. O tempo cavernoso e a decadência, que era dolorosa de maneira diferente, acharam préstimo para a mudança de hábitos. Agora tudo era luminoso. Cristalino. Mesmo o que dantes causava importunações insuportavelmente dolorosas deixou de ser mar de fundo que o atirava ao fundo. Os pedaços das palavras traziam uma cintilação que fermentava os dias do porvir. Havia sempre empreitadas para o tempo depois. Já não havia serventia na anestesia dos sentidos, porque retomara os olhos vívidos com fome de vida.
Não sabia ao certo como se iniciara a conversão. Às vezes, a meio do sono, acordava sobressaltado com o mesmo sonho: um serafim viera do nada e, com as seis asas emprestando vigor ao voo, dera-lhe a mão e transportara-o para cais seguro enquanto a decadência o deixara exânime, sem força para dar corda aos sentidos.
Mas, em pensando bem, talvez não fosse mero sonho.

8.10.14

Decálogo para se tornar doente mental

Darkside, "Metraton", in https://www.youtube.com/watch?v=VFfKPZhY16Q
Um: parar debaixo dos hélices de uma eólica e imaginar que o vento era tão forte que desprendia a haste do lugar, adivinhando a catástrofe que viria a seguir.
Dois: ouvir uma música – uma é medida bastante – do David Fonseca.
Três: latir ao ouvido de um cão e ouvi-lo miar enquanto coça as pulgas da orelha com uma das patas da frente.
Quatro: comprar as obras completas de Marinho Pinto e aprender prédicas acerca da moral. Ato contínuo, aprender com o ilustre doutrinador como os homossexuais (vulgo: paneleiros) devem ser afastados das criancinhas, pois em cada paneleiro há um pedófilo potencial.
Cinco: marchar às arrecuas pelas ruas mais inclinadas de São Francisco enquanto a terra treme sob o efeito de um terramoto, transportando na mão um copo com álcool com um pavio aceso que não pode cair sob pena de provocar o efeito de um cocktail molotov em cima das pernas.
Seis: pretender que se é crente e meter as pernas ao caminho até encontrar o primeiro confessionário onde reclama a presença do padre para confessar os pecados e depois ficar em silêncio até que o padre, incarnação de Cavaco Silva, incomodado por lhe roubar tempo, perguntar ao que veio.
Sete: comer papas de sarrabulho embutidas com cominhos, acompanhadas de vinho verde tinto, acompanhado por folclore minhoto servido por uma junta de vozes esganiçadas.
Oito: acordar depois de catorze horas de sono sem saber se é manhã, tarde ou noite, porque alguém pregou paredes às janelas e dentro do quarto está um breu petrificado que faz lembrar a possibilidade de ter descido às masmorras por um crime que não cometeu.
Nove: ouvir o Moita Flores perorar sobre física quântica depois de lhe ter sido pedida opinião (douta, a opinião) sobre Marcuse e Darkside (sem nunca ter lido Marcuse ou ouvido Darkside).
Dez: subir ao cume do vulcão e sentir um tremor que vem das entranhas a contaminar-se às entranhas do corpo, fugindo a sete pés antes que o vulcão vomite das entranhas um frémito de pedras incandescentes, tropeçando nas pedras pontiagudas que há pelo caminho até aterrar, exausto e cheio de sangue derramado pelo corpo, nos lençóis que fecundaram o pesadelo. E perguntar se a doença mental é não conseguir ser louco.