22.1.21

Nem todo o chão dá uvas

TV Priest, “Press Gang”, in https://www.youtube.com/watch?v=XMT9f_apQU4 

“Inventaria-se a safra antes de se saber dos pergaminhos da terra.”

Descolorida sintaxe, esta que transfigura a medula e torna os seres em ilusões de si mesmos. A passerelle compõe-se de figurantes desarmados pela indigência. Não passam de caricaturas de um escol sem pertença. Em terra assim lavrada, só se colhem as pedras que vierem à superfície.

“Se formos ao chão e trouxermos um pedaço de terra nas mãos, tornamo-nos tutores do devir.” 

Não somos o que nos apetece ser. O material fundente que se apodera da noite contamina-se no resto do tempo. Mas somos tutores do nosso devir. Não fugimos do inventário que nos filia. Somos intransigentes com os disfarces que, malévolos, combinam com os conspiradores a tomada de praças fortes. Não fugimos do lugar onde estamos (sem ser o geográfico sentido da palavra). Porque sabemos da lavra de que somos.

“Provavelmente, mudando de sementeira, aparecemos com outro rosto.” 

Só se o magma de que somos feitos se traduzisse numa coisa diferente em virtude de uma semente variegada. Dir-se-ia: se a lava trouxer outra cor, comparecemos como produto de um enxerto de temperamentos. Mas coabitamos numa identidade sem paradeiro. 

“É das marés que fugimos. Não é dos outros que se insinuam em nós. Pois os outros não assimilam as marés que nos afligem.” 

Poder-se-ia sucumbir ao apelo do rosto coberto por fuligem. Continuaria a ser o mesmo rosto. As evasões encenadas deixam-nos desarmados. Se julgamos resistir às provações, acabamos suas presas prediletas. E só o saberemos depois de percebermos que a liberdade se extinguiu no cárcere onde somos aprisionados. A vontade deixa de ser uma manhã à espera de derrotar a noite. É a treva contínua.

“Nem todo o chão está inscrito no oráculo da fertilidade. Há terra não arroteada, terra baldia, terra inacessível, terra indescritível. Não perdem valor por essas circunstâncias.” 

Todas as palavras encerram a sua beleza. Até as que se enfeitam de uma beleza escondida. Se somos terra agreste, que não se apodere de nós um manto lutuoso. As paisagens inóspitas são decantadas por poetas e músicos e pintores. A sua bruta natureza não as amesquinha. Apenas denuncia a sua feição indomável, a expressão máxima dos lugares que os Homens não conseguem colonizar. 

São as terras que não dão uvas e, todavia, pertencem ao ouro de todos os tempos. 

21.1.21

A retalho

Dry Cleaning, “Scratchcard Lanyard” (live at KEXP), in https://www.youtube.com/watch?v=zyjuJ6jLsxA&pbjreload=101

O perfume a jasmim aplaca o dia mau que se pôs. A sucessão de dias soalheiros, embora frios, terá feito anestesiar o que do inverno se padece (descontado o frio, uma vez mais). Nota-se: os cenhos que desarrumam as ruas, como se as pessoas seguissem, contrafeitas, no caudal do dia chuvoso.

Consulta-se o boletim do tempo para os dias vindouros. Não se espera o regresso do sol tão cedo. As pessoas vertem a cabeça no chão, esmagadas pelo peso plúmbeo do céu tomado pelas nuvens cerradas. À medida que os dias sucessivos de chuva se amontoam sobre os corpos pesados, as pessoas combinam trazer apenas os seus retalhos. Guardam o melhor de si para os dias soalheiros. Equivocam-se: se apostam a preferência nos dias povoados pelo sol, deviam pressentir o sol como a centelha que os faz rimar com um espírito afortunado. Escusavam de esperar pelo sol para de si darem o melhor, que o sol (ao que parece) já é essa quimera.

Melancólicas, arrastando os corpos contra a intempérie, afundam-se com a luz sombria que não chega a divorciar-se do dia. Dizem-se a retalho, propositadamente. Não querem exibir o melhor de si se o dia chuvoso não quadra com elas. Avançam contra o tempo como se o tempo contasse a triplicar. É como se o vento tempestuoso, que atira bátegas de chuva contra os seus corpos ensopados, conspirasse; e as pessoas não querem ser cúmplices de uma conspiração de que são vítimas. Escondem o olhar radioso. Escondem os rostos lustrosos. Mostram uns contidos fragmentos do que são. Talvez tenham medo que a tempestade consiga arrancar o melhor que nelas se encontra. Ou medo que a tempestade as dissolva.

Como gratificação dos dias soalheiros que são um prémio raro em invernos sacrificiais, as pessoas elegem os dias invernais como dias maus. Desconhecem a poesia que se disfarça nos interstícios de um dia medonhamente tempestuoso. Recusam, por preconceito, levitar no sortilégio de um dia carregado que mantém a claridade refém. Não são vultos que se escondem nas fundações de um dia chuvoso. Não é a artrose do pensamento que adere ao desarranjo dos elementos à mercê da borrasca. É o perfume do jasmim que desata os nós de um dia que falsamente se estabeleceu como dia mau. Nem que seja do jasmim que há em memória.

O mau do filme em constante rodagem não é a chuva. É o preconceito que a difama.

 

20.1.21

O estatuto médio (short stories #293)

Sleaford Mods (ft. Billy Nomates), “Mork n Mindy”, in https://www.youtube.com/watch?v=iKcbSOjIzjQ

          Ajanotam-se, os aspirantes ao desanonimato. A fatiota mais graciosa, compondo o cabelo ao milímetro e ensaiando o discurso, com as vírgulas no sítio e, de preferência, escassa adjetivação e moderado uso de advérbios de modo. Os tais “cinco minutos de fama” não podem ser desperdiçados com uma entrada de sendeiro. Tudo tem de estar à beira da perfeição. Poderá não haver outro ensejo. Na hipótese de ser gorada a tentativa de subir o corrimão da fama, sobra o anonimato. Podem ficar no umbral da melancolia, entendida como a patologia de quem não consegue sair da cepa torta. Não percebem, estes aspirantes, que o anonimato é o que mais os aproxima de um dom incomensurável. Não tomam consciência, talvez por desconhecimento de causa, que o descaimento dos holofotes sobre as suas pessoas, uma vez extraídos ao estertor da indiferença, termina com as possibilidades de escaparem aos olhares intrusivos que os “conhecem de algum lado”. Se pudessem ir ao estrelato e regressar ao conforto do estatuto médio, dissolviam a ambição de se tornarem públicas figuras. Enquanto figurantes da imensa mole indiferenciada, são mais um entre tantos. Sem outros olhares espiolhando o que fazem e o que dizem. Sem se prestarem aos juízos que sobre si impendem, com a descomodidade de verem outros sentenciarem sobre as suas vidas. Se conseguirem singrar na imodesta proposta que se atribuem e o filão das públicas personagens conseguirem engrossar, sosseguem que não é deformidade definitiva. Na intensa efemeridade do hodierno, tão depressa estão nas bocas do mundo como caem no oblívio. Nessa altura, resgatam o estatuto médio. Podem voltar à rua sem terem olhares estranhos a invadi-los. Podem, sem receios outros que não seja a prestação de contas que se autoimpõem, desandar das convenções. Não digam que o estatuto médio não é o mais apetecível.

19.1.21

O bolça desvalores

Beck, “Everybody’s Gotta Learn Sometime”, in https://www.youtube.com/watch?v=PaI1sLqFOuE&pbjreload=101

        (Qualquer coincidência com uma personagem que enfeita gigantescos outdoors e contamina o espeço público não será acidental)

Há um terreiro empestado de pagãos, no que os pagãos representam de chicória num lugar onde se procuram as melhores linhagens de café. Esse terreiro é um pântano que prospera até quando se atravessam épocas sucessivas de estiagem. No pântano, ladeado de jacarés esfaimados que não hesitam em lançar a dentadura às presas ingénuas, reina o bolça desvalores.

O bolça desvalores é um apóstolo da maledicência. Não sossega enquanto não espalhar o caos e atirar impropérios de variado calibre aos que se lhe opõem. Passeando uma pose triunfante, a do badernista que se autoconsidera muitíssimo na ordem dos humoristas e que se autocertifica numa elevada posição na hierarquia dos inteligentes. 

Todavia, sobressai a lucidez que da sua putativa inteligência diz ser uma mera contrafação. O bolça desvalores ensanguenta, e com sangue fétido, o terreiro imundo. São de sangue pútrido as palavras vis com que ultraja adversários. O terreiro já era imundo antes de ele subir a palco e contracenar no contrabando de valores. Não ora; arrota chistes dignos de um primata, vomita dizeres que julga apoucarem os adversários quando, no fim de contas, são o espelho fidedigno do autor. 

Atrás de si, granjeia um séquito. Ele, o patriarca dos desvalores, e o séquito, sublinhadores oficiais da aleivosia que sobre a confraria se abate. A cada exibição soez do bolça valores, a cada incursão ofensiva sobre um adversário, a horda aplaude-o com excitação onanista. Se os atingidos cometem a imprudência de responder à letra, erguem-se uma maré de fundo e uma cortina de fumo, deitando o bolça desvalores num presépio que serve de cama para as grandes vítimas deste mundo inexplicável. O opróbrio pertence sempre aos outros, que o olvido sobre a primeira pedra atirada pelo bolça desvalores pesa sobre o demais. 

A emergência do bolça desvalores atesta um mal-estar que estava hibernado. Atrás do bolça desvalores pululam os seus pajens que, dantes, fingiam moderação enquanto nidificavam noutros poisos. A zoaria em volta do bolça desvalores contamina o lugar com um odor duplamente putrefacto: o do lugar em que frui o bolça desvalores e seus seguidores e o do lugar onde se normalizam outros apóstatas, de linhagem oposta, que também não cultivam os valores ofendidos pelo bolça desvalores.

18.1.21

Não contem com a nossa apatia

Rhye, “Come in Closer”, in https://www.youtube.com/watch?v=cG2SFddXgBk

Não é sonho, que os sonhos não se materializam em coisas tão mundanas. É um desejo alinhavado na frustração de quem se sente desconfortável no meio vizinho.

A demissão coletiva é uma doença que agrava a patologia mais geral que se abateu sobre o sistema. As pessoas não estão contentes com o que têm, ou então as vozes vivas dessa insatisfação não corporizam o sentir geral, que deve estar cerzido no silêncio de uma putativa maioria. Olhando ao grau de desistência na comparação de diferentes momentos, o coro dos demissionários tem vindo a aumentar. As maiorias que oferecem a caução aos vários regentes que exercem mandato transfiguram-se numa minoria. Os que fogem do sistema participativo exercem um direito: o direito de estarem à margem. Ignorar o coro crescente de pessoas que se coloca voluntariamente à margem é das maiores hipocrisias das personagens com protagonismo no sistema instituído.

Eu gostava que a alienação fosse capitalizada numa qualquer forma de intervenção que sinalizasse um clamor não menosprezado pelos protagonistas. Gostava que os que olham para o lado e interiorizam que são meros agentes passivos do processo mudassem de comportamento. Que não persistissem na insensibilidade que se vira contra si mesmos. Que se insubordinassem, pela voz que fosse, quando argumentam em silêncio em oposição às decisões que julgam ser contraproducentes. Uma qualquer forma de intervenção cidadã para que os protagonistas percebessem que não estão à margem de um escrutínio mais vasto (pois que o escrutínio a que se submetem é frágil, banalizado nos corredores do atual processo, repleto de mútuos rabos de palha).

Podíamos vociferar, com voz escrita num diadema audível, que não podem contar com a nossa apatia. Podíamos passar por cima dos terríveis mecanismos de censura indireta que vagueiam no espaço vizinho de cada vez que alguém “ousa” (na perspetiva de quem defende os regentes) terçar uma crítica às decisões tomadas ou à passividade escolhida. Esse seria o primeiro passo: não ceder à vulgata dos partidários do reino estabelecido, escandalosamente salazarenta, nem ao estigma do pensamento binário: pois que nem os regentes são à prova de crítica, nem a formulação de uma crítica nos coloca nos quadrantes dos que oficialmente se opõem aos regentes. 

Para não sermos reféns desta apatia, devíamos despertar de um torpor que nos amordaça. Devíamos ser cultores da informação, sem a qual a crítica não pode medrar. Devíamos ser rigorosos no escrutínio de quem nos traz a informação, para separar a informação fidedigna da informação manipulada. E devíamos sussurrar aos ouvidos dos regentes e de seus pajens, mas de forma categórica: “não contem com a nossa apatia”.

15.1.21

Dar a cara, ou a generosidade disfarçada

Mogwai, “Ritchie Sacramento”, in https://www.youtube.com/watch?v=VWjzlJEmmxM

Mote: “Apareço aqui, diante de vós, a dar a cara por estas medidas.” (Um primeiro-ministro de um lugar irremediável, um tanto desorientado a tentar disfarçar a desorientação com uma bravura que fica bem no retrato)

Não será a prosa sobre o dito primeiro-ministro, nem as suas táticas de sobrevivência que parecem sobrepor-se à governação do lugar; nem apanharão o autor da prosa no lodo onde campeia a batalha política, numa lógica binária que parece ser uma contaminação (de comportamentos) dentro da contaminação geral (da peste e do medo adjacente) – pois que aos defensores do primeiro-ministro parece intolerável que haja quem o critique, servindo-se da muleta de um presidente em funções que convoca a “unidade nacional” como imperativo circunstancial, logo interpretada como pretexto para silenciar quem faça soerguer uma crítica voz. Comentário único aos fétidos tempos de peste por dentro da peste: mal anda um lugar assim.

De tal lugar se diz ser habitado por uma gesta de gente brava. A coragem ficou tatuada na audácia das conquistas além do mar demandado e persistiu na memória coletiva, com variações temáticas. Sempre gostámos de ser intrépidos anões a desafiar adamastores inomináveis; foi a compensação pela nossa pequenez. Por exemplo, os bravos que lidam touros, passando por cima da lide desigual, são uma das manifestações modernas (melhor seria dito: atávicas) da valentia que arregimenta hostes. 

Dizer “aqui estou, a dar a cara” costuma acontecer quando quem o diz está refém de uma fragilidade de que se quer desembaraçar. É um truque retórico para virar o jogo do avesso, saindo por cima quando se salda a contenda. Para um mendaz, seria mais fácil continuar acantonado no esconderijo. O corajoso dá a cara. Espera, ao menos, que o louvem pelo ato corajoso. 

E a coragem, para além de ser um disfarce, resolve o quê? Mesmo quando a coragem vem abraçada à humildade da aceitação do erro, não resolve nada. “Dar a cara” é um eufemismo do habitual arrependimento, quando a lucidez serve de caução à admissão do erro. Mas o arrependimento – como o desassombro da coragem de quem “dá a cara” – não remedeia o erro. “Dar a cara” é inútil. Quem aparece bravamente a dar a cara está protegido pela cápsula de um monólogo. Não se expõe às possíveis vítimas do erro cometido, que poderiam querer singrar a vingança em direto e diretamente na cara do arrependido.

Dar a cara desta forma e neste contexto não passa de coragem altiva. Uma apólice de seguro para quem se penitencia, mas um logro que atira os olhares para futuras núpcias, compondo uma imagem para memória futura. Dar a cara nestes termos nem devia ser interpretado como valentia: é um adiamento e uma fuga ao passado. Não passa de bravura marialva de quem lida um touro numa lide desigual. 

14.1.21

Uma medida LSD do tempo resolve alguma coisa?

Max Richter, “Dream 3 (in the midst of my life)”, in https://www.youtube.com/watch?v=AwpWZVG5SsQ

Uma manada (parecia de búfalos) atravessa a estepe, correndo furiosamente.  Parece que as reses fogem de algo. Pisoteiam o que está no caminho. À sua passagem, a peugada da destruição; os bichos são de tonelagem apreciável. A poeira fica a adejar. Parece que o tempo foi suspenso na exata medida da poeira que preveniu o ocaso. A penumbra foi travada pela manada em sua fuga estrepitosa. Umas léguas depois, a alvorada desmente o estado lisérgico.

A chuva copiosa interrompe as festividades. Os nefelibatas estão acostumados à correspondência entre as festividades e a rua. Decidem: enquanto a rua estiver colonizada pela chuva conspirativa, as festividades são adiadas. No tempo que medeia as duas instâncias, os nefelibatas emprestam-se ao ócio. À espera do reatar das festividades, não podem dedicar-se a um estado mental que se lhes opõe. O tempo entrou num túnel etéreo à espera do desembaraço da chuva. O calendário continua a ter o seu consuetudinário avanço.

O prazo para o termo das negociações está quase a chegar. Os negociadores não se entendem e a bravata arrasta-se. As delegações não querem comprometer o propósito da reunião. Mas ninguém quer dar o braço a torcer. (A fraqueza diminui a delegação e o país perde cotação na bolsa de influência das nações – e os súbditos não toleram mandantes fraquejados.) No último minuto, o impasse persiste. Manda-se parar o relógio para permitir a continuação das negociações. O relógio congelou: os ponteiros ficaram emoldurados, como numa fotografia. Mas o tempo não deixou de passar. Os mandantes, de tão poderosos, ordenaram ao tempo que se interrompesse. O procurador do tempo naquela solene sala (o relógio congelado) obedeceu às ordens. Fora da sala, ninguém mandou parar os relógios. 

Diz ele, com nostalgia do futuro: “ah! como gostava que o meu relógio parasse”, dando réplica à mulher ao lado, que, admirada, reparou que o seu relógio tinha parado: “deve ter ficado sem pilhas”. Ela põe-no de prevenção: “o relógio parado não resolve nada. O tempo continua a passar em obediência às suas regras”. A ilusão do tempo suspenso consome-se na verificação do tempo que foi esbanjado. Durante o parêntesis do tempo nada se passa, nada se pode fazer e as palavras ditas não ficam seladas em ata. Ficamos reféns dessa desmedida. 

A ilusão do tempo anestesiado é a sua medida LSD. 

13.1.21

Já ninguém pergunta pelo paradeiro de uma rua

Idles, “Reigns”, in https://www.youtube.com/watch?v=fO11I2v4JOY&pbjreload=101

            (Vamos fazer de conta que inventaram o Google Maps)

Já ninguém pergunta onde é uma determinada rua. Ninguém pergunta, a quem passa, como se chega a essa rua. Somos conhecedores da topografia das cidades e das veias que são as estradas, e em vez de mapas transportamos bússolas embutidas no corpo. Pois à voz não damos o uso dos antepassados, quando o desconhecido era desconhecido e para o tirar da penumbra era preciso dar corda à voz para da voz estranha sabermos desenhar o caminho até ao destino procurado.

Agora, os cicerones passaram a ser letra morta. Foram dispensados do serviço. Dantes, brilhavam com a galhardia com que iluminavam o desconhecido aos forasteiros, tirando-os das trevas do desconhecimento e possibilitando que o desconhecido passasse a ser conhecimento para os forasteiros. Se havia maneira de se gabarem, era quando alguém deles dizia conhecerem o lugar como as palmas das (suas) mãos. Pois convencionou-se que todos conhecemos as palmas das mãos de olhos fechados, o que é uma impostura: quem consegue desenhar, sem para elas olhar, as palmas das próprias mãos?

Agora, que trazemos bússolas embutidas no corpo, as palmas das mãos deixaram de ser o selo da cartografia. As linhas que desenhavam as mãos foram apagadas. Pois hoje ninguém precisa de conhecer os lugares como as palmas das mãos: seria sinal de desconhecimento. Se olharmos para as mãos bem abertas, reparamos que são lisas as palmas. Nem para reterem o suor elas servem, agora que foram desapossadas da cartográfica linhagem.

Uma bússola embutida no corpo: os dispositivos eletrónicos onde se aloja a bússola vivem paredes meias com os corpos, são os seus habitantes-forasteiros número um. E como as pessoais bússolas servem de socorro na hora de obter a informação sobre um destino, deixamos de procurar cicerones e de usar a voz para lhes perguntar sobre o paradeiro de uma rua ou de uma estrada. A máquina despersonaliza-nos, outra vez. Substitui-se aos mecanismos humanos da interação entre iguais. Agora, falamos com uma máquina que se colou aos nossos corpos e já não se desaloja, até, das almas. Deixámos de falar como os nossos pares. Voltamos a ser o nosso próprio dogma.

(Vamos fazer de conta que voltava a não haver Google Maps e GPS ao preço da uva mijona: talvez estivéssemos de regresso à voz e aos nossos pares. Os compêndios mostram que muitas amizades – e uns quantos amores – se habilitaram à custa dos forasteiros desorientados que precisaram do fio de prumo dos nativos.) 

12.1.21

Dos usos da casaca

The Limiñanas (ft. Emmanuelle Seigner), “Shadow People”, in https://www.youtube.com/watch?v=CWdeZ4l6xtI

A casaca tão apessoada, vitrina de elegância, sino da solenidade que uma ocasião exige. É a casaca de grilo, com a sua extremidade afunilada a pender pelas pernas abaixo, entrecortada como se fizesse lembrar a cauda de um grilo. Possivelmente os argonautas da moda, quando conceberam a casaca, fizeram esta associação de ideias: o grilo é um bicho nobre e a casaca para os solenes ensejos deve replicar a solicitude do grilo. Se não foi esta a associação de ideias, fico sem saber o que ditaram as sinapses dos argonautas da moda.

Os diplomatas usam a casaca nas vernissages. Os maestros ostentam a sua sumptuosidade a meias com uma casaca de grilo. Há bailes de gala que obrigam os varões a introduzir o torso numa vistosa casaca. Não se sabe se os cobradores de fraque visitam a amedrontada clientela usando estas casacas; não é provável, a moderna versão do cobrador de fraque não leva a expressão à letra, por ser necessário empregar argumentos persuasivos que se socorrem da razão da força, ambiente incompatível com a solenidade da casaca (a casaca seria um estorvo para a função musculada dos cobradores de fraque). 

Mas a casaca também serve para ser cortada. É passatempo da predileção de muita gente. Não podem ver uma casaca e dão o seu melhor para a esfarrapar de cima a baixo. São meticulosos a cortar na casaca: são penhores de uma destrutividade construtiva (ou será um construtivismo destruidor?). Dir-se-ia serem opositores de um certo escol que se faz passear na linhagem de uma casaca. Serão tenazes defensores da igualdade, cortando a esmo as casacas daqueles que as envergam para os nivelar pelo entristecimento dos que não a conseguem vestir. E ainda há quem abjure os cortadores de casacas.

Ser cortador de casacas é uma empreitada espinhosa. É preciso saber por onde começar; como terçar o corte para a casaca se ir desfazendo sem remédio; no exercício da função, o cortador de casacas deve ser implacável: não pode deixar pedra sobre pedra, desfazendo tudo a pó. Há quem diga que são o pior inimigo que se pode ter. Os cortadores de casacas exercem pela calada. Os que trazem uma casaca vestida, depressa dão conta que ela se esfiapou e, talvez, só sobre a nudez. E a nudez não é coisa de se passear em público.

11.1.21

Pelo mar adentro (short stories #292)

Rita Vian, “Purga”, in https://www.youtube.com/watch?v=hLCobrmB710

          Uma certa lágrima orgânica toma conta do céu: não demora e a chuva abate-se para tingir de leveza as almas exponenciadas pelo telúrico pesar. Não digo que não vá a um lugar. Não digo que enjeito uma certa palavra, que a voragem do vocabulário e a impureza dos sentidos assim o determinam. Desamarro a âncora e ordeno-me ao movimento. Decidi: vou pelo mar adentro. Desfazendo o medo que hibernava a vontade. Juntando-me aos poros das marés, por sua vez em comandita com os ventos dominantes. Não serão as tempestades que me travam. Não serão as ondas temíveis. Conjugo o verbo quimérico na manga de onde me faço trunfo. Não tenho a certeza se preciso de ser trunfo; ao meandrar pelo desconhecido, que sejam precatadas as possibilidades. Sigo pelo mar adentro e já não consigo saber do paradeiro que em terra deixei. Ou de terra alguma. Podem ser dias a fio numa demanda contínua e o olhar desabituar-se de escrutinar terra firme. O mar passará a ser a minha terra. Não me constituo náufrago. Posso estar errante, mas não me constituo náufrago. Prossigo pelo mar adentro, mas mantenho os pés firmes no chão que ele é. Desautorizo conspirações. Cesso a tutela dos ultrajes que, fáceis, se urdem na matéria gorda, indesejada. Ultrapasso as intempéries. As noites sucessivas. O luar, quando o céu se deixa caiar pela sua claridade. Cauciono as manhãs que me dizem terem sido maiêuticos os sonos de véspera. Só preciso das mãos para continuar a cavar um fio no destino do oceano atravessado. Sou eu, a memória exilada, eu que desenho as palavras malditas nos lugares ermos e sem gente. Trago em mim o estirador mental que açambarca a poética. Mar adentro, dedicando estrofes às milhas que ainda não sei. Sou esse sortilégio de mim mesmo, sonho estimado enquanto a manhã não destrona a noite agitada.