7.7.15

Cogumelos

Tame Impala, “Eventually” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=jNxDjy2-4VY
Primeiro cenário: os comparsas meteram-se pela floresta. Aqueles dias outonais, quando a humidade sobe nos medidores e os fungos medram no húmus das florestas, são propícios aos cogumelos. Andar pelas florestas é um êxtase para os sentidos. A variedade de cogumelos, a policromia, as formas diferentes, os calibres diversos, deixam os sentidos embriagados. Os comparsas dispunham-se para o festim. Recolheram uma cesta inteira de cogumelos. A caminho de casa, combinaram os detalhes. Pensaram nos convivas com quem iam amesendar. E em como iam cozinhar as iguarias.
No dia do festim, os convivas perderam-se de delícias só de olharem para o pecúlio de cogumelos. Um deles disse: “isto faz lembrar como os olhos comem quando estacionam diante de uma tábua de queijos.” A estética confundia-se com o prazer dos sabores. A noite terminou mal. Foram todos parar à urgência do hospital. Vomitavam, estavam febris, contorciam-se com dores. Alguns deixaram de conseguir andar. Tinham os olhos embaciados, como se estivessem por dentro de um pesadelo (com a diferença de o estarem a viver, sem perceberem). As horas seguintes seriam críticas para alguns que comeram dos cogumelos mais venenosos. Corriam risco de vida.
Segundo cenário: os comparsas combinaram uma patuscada para celebrar o outono. E como o outono é a sagração dos cogumelos, fariam um festim temático. Meteram-se ao caminho. A caminho do mercado, havia alguns quilómetros de estrada sobranceira à floresta. Ambos pensaram, sem o verbalizarem: “ali, entre as árvores, deve estar pejado de cogumelos.” Reprimiram o desejo de estacionar o carro e de se embrenharem na floresta.
O automóvel só estacionou à porta do mercado. O dono era um conhecido apreciador de cogumelos. E sabia do assunto – ia a congressos da especialidade. Dentro do pequeno mercado, na área reservada aos cogumelos, os olhos também se extasiaram com o esteticismo da disposição da variedade de cogumelos. O manjar estava magnífico. Os convivas embriagaram-se com as texturas e os sabores múltiplos da variedade de cogumelos.
No dia seguinte, estavam todos vivos. E davam vivas ao manjar da véspera.

6.7.15

Três dioptrias e meia (efabulações sobre a “verdade”)

Nine Inch Nails, “Terrible Lie” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=sTrVmqrf_1k
Nestes tempos atribulados, em que há antípodas que chocam como rochedos estrepitosos, as ideias abraçam-se ao ponto cardeal do radicalismo. No radicalismo, desvalorizam-se as ideias que vêm de frente contra as que julgamos incontestáveis. Nesta maceração de ideias sem rival, há quem não esconda um certo primitivismo na palavra (e até, às vezes, na ação). A verdade é arregimentada ao sabor das conveniências. Tantas vezes ela é o selo que mata uma conversa: é quando se assevera “a verdade é que...”. Fim de conversa. Quando alguém puxa os galões ao que determina como verdade, dá como impossível de verificação a verdade solfejada pelo adversário. Essa verdade, por impossível sê-lo, é logo atirada para a mentira. E o adversário, de caminho, ganha foros de inimigo.
A verdade é uma grande mentira. Porque ela não se pode absolutizar. E ainda bem. Ou teríamos a grilheta do pensamento único, sem possibilidade de divergência, as dissensões logo apedrejadas pelos solenes protetores da única verdade admitida – “a verdade”. Temos de aprender a conviver com os diferentes de nós. E a parar de lhes impor uma verdade que talvez sirva os cânones por onde nos movemos, que são diferentes dos que servem de bússola a quem se revê em ideias (e não em verdades) que não reproduzem as nossas.
Uma verdade só o é a partir do lugar em que nos encontramos. Pessoas em quadrantes diferentes, ocupando lugares diversos dos nossos, olham para os fenómenos com uma lente diferente. Têm pressupostos diferentes, um raciocínio que pode obedecer a critérios que nos são desconhecidos, e chegam a conclusões que sedimentam uma ideia (mas não uma verdade) que não se revê na nossa.
Como a verdade só existe dentro deste quadro estreito, reclamar um exclusivo da verdade é uma estultícia que desmonta a verdade, que a desfaz a um nada muito mais promissor. Nem adianta reclamar que essa é “a nossa verdade”, como petição de princípio que admite uma “verdade” outra que venha alinhavada por outra medida. Pois em nós mesmos, não é possível garantir que “uma verdade” seja intemporal, que passe o exame do tempo e permaneça intacta na roda do tempo.
A verdade deve levar aspas. Ou carregar com o opróbrio da mentira em que se transfigura.

3.7.15

Ctrl+Alt+Del

Interpol, “Evil” (live in Later on Jools Holland), in https://www.youtube.com/watch?v=fIMyF_FfyPQ
Havia por aí uns terapeutas, talvez apenas disfarçados de curandeiros, a oferecer milagrosa terapia: apagavam-se do passado aqueles fragmentos que continuavam a adejar como fantasmas temerários. Era como se houvesse um botão que carregássemos e voltasse tudo ao zero. Um conta-quilómetros parcial que apaga o registo pretérito e faz renascer o que se fartou de desnascer.
Seduziam os apóstatas que erravam mortificados pelas cefaleias existenciais. Os terapeutas do mal alheio sabiam escolher a dedo os pacientes (ou, dir-se-ia, vítimas?). Havia gente macambúzia, rostos afogueados por uma tremenda melancolia, miséria a rodos que era nutriente do desespero. Ou gente apenas em depressão, assim diagnosticada por terapeutas de idêntica igualha.
O produto era sedutor. Não se interessavam, estes milagreiros, pela origem dos muitos tormentos em que se consumia a gente entristecida. Ofereciam a redenção fácil. Virtuosa. E com custos controlados, que estes terapeutas não eram filantropos mas não estavam (ou diziam não estar) possuídos pela ganância de outros encartados terapeutas que vivem na abastança. Três sessões de terapia bastavam. Uma hora de cada vez. A cabeça ligada a uma assustadoramente complicada máquina, com elétrodos ligados pelo corpo abaixo a amedrontarem os pacientes que se entregaram à promessa de cura. Os terapeutas sossegavam-nos. Não eram choques elétricos o que vinha a seguir. Era uma corrente elétrica contínua, muito moderada. Só iam sentir algum formigueiro e cair no sono.
Ao fim de três sessões, os pacientes saíam do consultório com uma leveza de que já não tinham memória. Os rostos expressivamente sorridentes. Sem arquearem o corpo ao andar, como dantes, em sinal de capitulação perante as contrariedades. Sem as cefaleias existenciais. Nem os súbitos acessos suicidas, quando sentiam que todos os males do mundo se tinham abatido sobre uma só pessoa. Não se lembravam por que andavam aprisionados numa doentia tristeza. Aliás, nem se lembravam que essa era a sua patologia. A memória fez reinício. Como se tivesse renascido. Desapareceram todas as sombras e fantasmas e sobressaltos.
E desapareceu toda a memória, também. Até as boas recordações, o substrato bom que há um cada um. Eram entes vegetativos, deslocados de tudo. Não morreram do mal. Ninguém garantia que não viessem a morrer da cura.  

2.7.15

Contai às criancinhas que os banqueiros são muito maus

David Byrne & Brian Eno, “Regiment”, in https://www.youtube.com/watch?v=h9WyGbSJ__M
As criancinhas precisam de ser instruídas. Precisam de ser metidas nos eixos da verdade, pois que a verdade é aquela que contamos – não interessa que haja quem diga que esta verdade não faz sentido, nós é que sabemos. As criancinhas precisam de saber que há uma casta de gente muito má. Os banqueiros. Só pensam no vil metal. Só pensam em engordar o farto pecúlio, em multiplicar os milhões por outros milhões enquanto o custo da multiplicação é espalhar mais miséria pelos que já são miseráveis e condenar aos alvores da miséria muitos que estavam três degraus acima dela.
As criancinhas precisam de ser educadas a desconfiar dos banqueiros. Não lhes podem confiar o seu dinheiro, a menos que queiram hipotecar a vida. Devem aprender que não devem pedir dinheiro emprestado aos banqueiros. Pois, agiotas, cobram juros. Pior: os banqueiros seduzem a maralha a pedir mais dinheiro emprestado. É assim que trazem na mão os endividados. É assim que fazem fortuna com as necessidades dos que precisam do crédito.
As criancinhas precisam de saber que o povo não precisa de pedir emprestado; são os banqueiros que se insinuam, compram uns agentes infiltrados que propagandeiam as virtudes de muito consumir, de consumir ainda mais – e tudo isto requer crédito, o negócio que enriquece os banqueiros e coloca os endividados no penhor, sem bens e com a alma encardida. Culpa toda dos banqueiros. As criancinhas também precisam de saber que os banqueiros, mais a gente que têm a soldo, se exasperam se alguém sugerir um perdão da dívida, por parcial que seja, ou que o preço do dinheiro emprestado fique menos oneroso para os endividados. Heresia!, exclamam. Não pedissem emprestado!, segue-se outra indignada exclamação. Como se os banqueiros não dependessem deste estado de dependência material que induzem nos pouco mais que miseráveis e nos arrivistas que querem estar dois degraus mais perto dos banqueiros (sem notarem que há toda uma imensidão que os continua a separar).
Temos que educar as criancinhas nestas verdades. Para que o porvir seja a era do despojamento dos banqueiros, que até os mandantes mantêm sitiados. E se as criancinhas, num ato reflexivo que podia ser lição para os educadores perdidos de lucidez, perguntarem se já privamos com banqueiros para termos tantas certezas categóricas; ou se perguntarem se soubemos de tudo isto porque um de nós conheceu o psicanalista de um banqueiro que violou o segredo profissional; nessa hipótese, façamos de conta. Mudemos de assunto. Ou insistamos que os mais velhos, por mais velhos serem, não devem ser desmentidos nas suas verdades. As verdades que só ganham posto por antiguidade.

1.7.15

Sonhos que não eram quimeras

Sigur Rós, “Svo Hljótt”, in https://www.youtube.com/watch?v=YBiZa6tpEtk
Descobriram os sonhos untados com cores emblemáticas. Descobriram que podiam domar os pesadelos e deter o segredo para fechar as portas aos pesadelos que queriam ser intrusos do sono. Descobriram que os sonhos podiam ser presságios avisados. Aliás, descobriram que podiam deter as forças inesperadas dos sonhos, comandá-las e fazer com que os sonhos tivessem uma transfiguração em real – algum tempo depois. Por isso, descobriram como esperar sem demover a paciência.
Descobriram, enfim, que eram senhores absolutos do que eram. Não havia interferências do exterior que pudessem constituir desassossego: pois logo um sonho era encomendado com o mister de dissolver a apoquentação. Não havia proezas sem sentido nem misérias pessoais que trouxessem dano: pois os sonhos eram um biombo por onde se escondiam dos ardis que quadravam com uma qualquer importunação.
Pelos sonhos manejavam os remos de uma balsa que arremetia nas águas tingidas pela bruma densa. Dir-se-ia estarem dentro de um sonho, tanta a penumbra que parecia dizer que as coisas e as pessoas e as palavras que desfilavam diante do olhar e dos sentidos eram pouco mais que ininteligíveis. Sem bússola na mão, apenas com o instinto que tinha mais destreza do que o faro dos cães, a balsa sulcava as águas lamacentas sem se intimidarem com o que viesse trazido pelas águas. A balsa avançava com vagar. A própria noite demorava-se, parecia uma daquelas noites em geografia ártica durante a invernia, quando a luz diurna se ausenta para o lado contrário do mundo. Não paravam de remar, sempre de atalaia aos ardis que as águas pudessem fermentar.
Fez-se alvorada e o sonho terminou. Afinal a balsa não era onírica. Continuavam a navegar as águas paradas entre vegetação densa, com mosquitos a sobrevoarem a embarcação e o suor a escorrer pelo corpo todo. A luz diurna não tinha emigrado. E souberam, de uma vez por todas, que eram tutores dos sonhos. E que os sonhos já não os acossavam. Como se fossem arquitetos desses sonhos. Seus pensadores e, ao mesmo tempo, intérpretes, sem deixarem de ser os espetadores que também eram.
As manhãs, doravante, eram um remanso inteiro, uma ode sem interrupções ao que quisessem homenagear. Pois nas suas mãos residiam os rudimentos de uma planura imensa onde os cereais dourados hasteavam o vento doce.