28.3.24

Salivar o suor desperdiçado

Hania Rani, “F Major”, in https://www.youtube.com/watch?v=bB34_eLCLKo

O boémio esperneia a noite sem fronteiras que se filiou no seu corpo. Descontente com a indiferença do dia, dedica as noites à destravada itinerância. Descontente com o dia, dedicou-se à noite.  

Não tolera zeros e ascetas, sacerdotes de variadas linhagens e fanáticos, dos fieis aos disfarçados. Prefere a frivolidade de uma emoção desgarrada; a tinta garrida que se atira ao ar, mesmo sabendo que será atingido por uns salpicos; a música, seja ela qual for, se for para interromper o silêncio indigente dos que proclamam a noite como um santuário do remanso; a decadência abertamente declarada à encenação meticulosamente esterilizada. Enquanto quase todos dormem, o boémio atravessa as ruas da cidade e vai deixando as ruas molhadas, como se tivesse colhido toda essa água do rio e lavasse as ruas que esperam pela multidão da manhã consecutiva. 

É tanta a sede de contradição que o boémio abandona a função quando as primeiras almas saem do exílio noturno. Não exatamente às primeiras almas: é preciso que o bulício já tenha tingido as ruas, para as pessoas bem formadas olharem para ele em sinal de reprovação. Só para ver os embaixadores dos bons costumes a acenarem com a cabeça enquanto desviam o olhar depois de o terem medido de cima a baixo. E ele, de propósito, simula uma embriaguez. De propósito, exibe o ar descuidado, andrajoso, para os penhores da moral se autossatisfazerem com a literacia da higiene e do ar apessoado com que se deslocam para os escritórios.

O boémio sai de cena a tempo de não ver um punhado de misérias circunstancialmente quotidianas  (o sal formatado pelo bolor indiscreto). As mães que levam os petizes ao colégio, tratando a descendência por “você” – um código de conduta que é um dicionário infalível de pertença social. Jornalistas com a notícia devidamente encomendada, jurando, sob jura de se sentirem ultrajados, a independência todavia apenas protocolar. Gente estulta que trata a empregada do café como criada, omitindo o “por favor” quando concluem o pedido. Jovens estroinas a caminho da escola, linguajando um dialeto que lança âncora no frequente erro gramatical, em comandita com calças descaídas que deixam à mostra restos não declarados de roupa interior. Senhoras que olham pelo canto do olho para o rapaz escultural que entrou na paragem anterior, debitando interiores fantasias impronunciáveis que traduzem lascívia reprimida (que as mães de família se querem cordatamente amansadas e vacinadas contra devaneios).

Sai de cena, o boémio, no tempo certo. O suor desperdiçado começava a ser salivado, tantas as misérias que embarcaram no teleférico a caminho do céu distante. Dorme, enquanto as maravilhosas pessoas de bem, catedrais impecavelmente góticas de virtudes, laboram.

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