13.1.12

“Vamos ser diferentes. Mas temos de ser diferentes?”


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O sol decaía na tarde madraça. Era um dia de trabalho como outro qualquer, exceto para eles os dois, sentados numa esplanada debruçada sobre o mar que se depunha na areia locupletada por seixos. Pouca gente se banqueteava com o mar rabugento, o mar que atemorizava em ondas brutais desfeitas num ápice ao esbarrarem no molhe.
Estavam contemplativos. Maceraram num silêncio demorado. Diriam de tal silêncio que a imponência das ondas convertendo-se em manto espumoso rogava muda contemplação. Ou também poderiam dizer que gastaram todas as palavras que havia para dizer na tarde que se demorava quase até ao ocaso; e que o cortejo de cervejas moldava os pensamentos em voz distorcida, até que as vozes plásticas deram lugar ao silêncio. Um deles rompeu a espessura dos silêncios:
- Achas que temos de andar na vanguarda das coisas em que nos metemos?
- É a nossa pegada genética, ripostou sem convicção, os olhos perdidos no firmamento, anestesiados pelo circo das ondas furiosas.
O silêncio pousou nos minutos que se seguiram. Não convencido com a resposta diletante, insistiu na interrogação mas deu a volta inteira ao texto:
- E se for apenas presunção nossa? E se acharmos que estamos na vanguarda apenas porque metemos na cabeça os pergaminhos de quem arremete contra a maré dominante? Não achas que somos apenas simulacro de uma coisa qualquer, prisioneiros de um artificialismo atávico?
- Tantas perguntas dentro de uma só, balbuciou com um soluço pelo meio. Tanto dilema existencial leva-te a algum lado? Aprecia a tela impressionista diante dos olhos.
Confirmava-se que a ebriedade tem pulsos diferentes. Ora debita introspeções que deixam vir à superfície filósofos reprimidos, ora se espraia na serenidade em que o sentido da existência é o que menos interessa é. Todavia, não ficara convencido com o assunto desviado. Num assalto de lucidez virada do avesso, apeteceu-lhe ser apenas um como todos os outros, embebido na sua perfeita e, talvez, mesquinha normalidade.

1 comentário:

Sami disse...

Gosto mesmo da forma como escreves! Ainda bem que ficaste por cá:)