8.3.12

E todavia os líderes da revolução aburguesavam-se (capítulo XX)


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O bom povo era todo disponibilidade mental nos alvores da revolução. Passava as mesmas dificuldades: a dieta forçada, as roupas e o calçado gastos, o fim do lazer, outras privações que não constavam do cardápio quotidiano antes de se descobrir a calamidade nacional. Até era maior a míngua por causa da secura pela ausência de ricos e pelo boicote dos outros países. O lixo em acumulação nas ruas era como se fosse um berro pela falta de combustível para os camiões que o recolhiam. Deixara de ser considerada prioritária, a recolha de lixo. A terceiro-mundização estava a bater à porta.
Mas as pessoas, na imensa maioria calculada por estima pelos pensadores da junta revolucionária, acreditavam nas virtudes do novo sistema. Já havia uns lampejos de propriedade coletiva. Alguns economistas encartados ofereceram massa cinzenta a preceito, davam uma mão à gestão. Devagar, a produção recuperava. Os proventos eram repartidos pelos trabalhadores. Mas ainda sobrava muita gente desocupada. Não podiam inventar empregos, como se a administração do Estado distribuísse prebendas sem sentido entre os bem colocados na escala dos conhecimentos e dos favores. O desfalecido erário público não deixava.
Um dia, a polémica aterrou entre a melancolia pós-revolucionária. Começou, o boato, a correr de boca em boca. Foi um dos ostracizados camaradas do sector geriátrico e radical que descobriu os vícios privados de um destacado dirigente. Repletos de sinais exteriores de aburguesamento. Charutos, perfumes caros, sapatos exclusivos, garrafeira de whiskies que metia inveja aos conhecedores e aos colecionadores, latas de caviar bem escondidas debaixo de papéis indiferenciados, visitas a clubes noturnos onde abundava a promiscuidade homossexual. Depois do primeiro rumor, mais se seguiram atingindo outros destacados revolucionários enamorados de mundanos hábitos, dispendiosos hábitos, burgueses. A estadia de outrora, quando tirocinaram nos covis dos inimigos, deixara sequelas. Incorrigíveis sequelas.
O povo começou-se a agitar. Ao início, descrente dos rumores, preferiu emprestar o benefício da dúvida. Seriam (foi a voz corrente) infiltrados a semear rumores infundados, apenas para boicotar a unidade dos revoltosos e do povo que o apoiava quase em uníssono. Lá no subconsciente, porém, o bom povo inquietava-se: e se houvesse um fundo nos boatos em circulação? 

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