24.7.13

À vida como uma pega de caras


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Dizias: vou-me à vida como um forcado numa pega de caras. Atiro-me a ela com toda a fúria como se soubesse ser o dia sobrante. Era como se não houvesse futuro, ou como se os amanhãs por vir não interessassem a não ser quando se fizessem hoje. Os mais próximos lembravam que eras perito nos renascimentos para memória futura. Fizeras planos para mudar como se na alvorada seguinte, depois de um sono conselheiro, tudo ficasse transformado mercê de uma varinha de condão pousada nas tuas mãos por um mago qualquer. Insistias. O agora era sempre diferente. E dantes houvera tantos agora. Mas os agora que pertenciam ao tempo pretérito foram ensaios para uma oportunidade que revisitavas como se as anteriores tivessem sido banidas da memória. Eras um asceta do tempo que te pertencera e entretanto ficara património do vazio.
Fazias: as resoluções revolucionárias, aquelas que descompunham a existência de cima a baixo, vindo das cinzas um novo esplendor que haveria de tudo reerguer na sua diferença. Era quando os pés aterravam em solo firme e notavas que o chão era acidentado e áspero, uma dolorosa avenida onde as ilusões se cindiam em pequenos nadas à medida que as resoluções esbarravam na sua impossibilidade.
Voltavas à casa da partida: esboçavas outra bissetriz para o tempo vindouro. Como dantes, e tantos dantes houvera, neste agora seria a rosa dos ventos por fim prometida. Não aprendias que os planos sequestrados pelo mimetismo eram cadastro com adiamento das consequências. Talvez fosses asceta do tempo e em ti a história, a tua pessoal história, fosse esquecida mal se entronizava história, assim inabitada. Rodavas em círculos. O esquecimento impedia de reconheceres os lugares de outrora a que o fado desvairado compelia num regresso que julgavas ser nova casa da partida. Diziam que persistias numa realidade vertical, um mundo paralelo ao que habitavam os demais mortais. Sitiado pela insanidade, acusavas os demais de serem reféns da verticalidade que te imputavam. Eles, e não tu, estavam anestesiados por um medonho faz de conta que não se intuía como simulacro que era.
Reformulavas, enfim: haveriam de ser tantos os sobressaltos, tantos os regressos bastardos, que um dia as cicatrizes do corpo acusaram a demência que frequentaras. Olhavas ao espelho, contavas as cicatrizes uma a uma como mapa dos sobressaltos de outrora. O estado geral de esquecimento não deixava lembrá-los. Deposto perante o tempo que se ausentara das memórias e os sempre que ficavam à míngua à medida do tempo passante, aportaste na resolução que devias ter aprendido dantes. Não importavam as promessas que viriam debruar o fado à espera de o ser. Não importavam as alcateias de vozes sussurrantes que enchiam o horizonte com os imponderáveis deixados lá atrás. Não importava resgatar as memórias sequestradas pelo medo, ou propositadamente metidas em formol a pretexto de não reavivar tempos idos tão cheios de mácula. O que importava era pegar de caras o tempo que viesse pela frente. Esperar por ele e pegá-lo de caras. Em vez de te adiantares ao tempo e o afeiçoar, como se fosse possível seres tutor dos amanhãs.
Já seria uma diferença a fazer a diferença. 

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