17.1.17

O gato que gostava de tomar banho



Indignu, “Capítulo I – Onde as Nuvens se Cruzam”, in https://www.youtube.com/watch?v=xzJWIyr7KF8    
No acampamento-base, com as montanhas telúricas por vigia, enquanto se habituava à falta de ar (efeitos da altitude), notou um gato vadio que passou a ser companhia assídua. Não se lembrava de ter procurado nos compêndios informação sobre a visitação de gatos a altitudes tão elevadas. Fosse como fosse, o gato pardacento era prova viva da possibilidade.
Com a ajuda do intérprete, perguntou a um sherpa se se sabia como ali tinha chegado o gato. Ninguém sabia. O gato andava pela zona há mais de um ano. Sobrevivera a todas as tempestades de neve sazonais. O gato estava bem alimentado; entretanto, passou de boca em boca que o gato trazia sorte às expedições. Os aventureiros, mesmo os que diziam solenemente não serem dados às coisas da superstição, contribuam para o mito que se formou. O gato não só estava gordo como gostava de afagos. Roçava-se nas pernas dos temporários residentes do acampamento-base, refastelava-se no colo de quem se prestava, aninhava-se entre dois sacos-cama desarrumados dentro de uma tenda.
Ninguém sabia onde pernoitava o gato – ou, pelo menos, ninguém se acusava de ter dado guarida ao gato, talvez para não importunar a superstição que afiançava sucesso à aventura de quem fosse atencioso com o gato. Já na posição de mascote oficial, o gato ganhou nome dado pelos sherpas: “bigodes da sorte” (na tradução da expressão correspondente no dialeto dos sherpas). Como se não fosse bastante o insólito de um gato habitante a altitude tão elevada, o gato adorava banhar-se nas águas geladas das pequenas lagoas feitas pelos aventureiros, à custa da água derretida das neves eternas das imediações para terem água para a lavagem das roupas. Não havia semana (na atenciosa observação de alguns sherpas) que o gato não mergulhasse numa lagoa para desenriçar o pelo hirsuto, próprio dos gatos pardacentos. E rebolava-se, exultante, nas águas frias da lagoa, enquanto alguns aventureiros filmavam a epopeia e depois a publicavam em forma de filme acessível à comunidade.
Uma vez, um montanheiro mais emotivo quis perpetuar os laços com o gato – o homem safara-se de boa, ao ser travado de uma escalada que seria assassina (por causa da tempestade inopinada que se pôs) pelo gato que simulou uma doença. O homem levou o gato quando regressou a casa. A montanha nunca mais foi a mesma. Os sherpas recusavam-se subir ao cume, por medo dos demónios que não eram afugentados pelo gato mascote. A confirmar os maus auspícios, alguns aventureiros intrépidos foram atraiçoados pela montanha de mau humor e pereceram. A milhares de quilómetros de distância, o gato sentia falta da água e caiu doente.

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