21.1.26

LXXX

Frankie Goes to Hollywood, “Welcome to the Pleasuredome”, in https://www.youtube.com/watch?v=WzOGLKTmeuY


“Shooting stars never stop even when they reach the top.”


Um salto intempestivo sobre os contratempos afeiçoados pelo caudal do tempo: quem poderia dizer que falha propositadamente a convocatória, sendo-lhe marcada falta de comparência? No idioma das metáforas, diz-se que os audazes dão a cara aos desafios. São as sobras de uma intrepidez muito masculina, na qual a masculinidade transporta consigo um legado de toxicidade. É imperativo ser corajoso e os corajosos nunca escondem o rosto. Nem que depois o mundo inteiro desabe sobre eles.

Já que tanto se apregoa a modernidade (e até se inventaram um punhado de preposições “pós” para esculpir a modernidade a um tempo que parece andar à sua frente), a bravura, como apanágio masculino, devia ser revista por um comité de sábios. Passaria a ser um desatributo, uma condição patológica afim à lucidez que se ausenta dos espíritos que se atiram de frente para as balas, mesmo sabendo que um corpo esventrado pelas balas não sobrevive.

O que falta a esta modernidade, já ultrapassada pelos tempos modernos, é admitir que a coragem cega é própria de uma mitologia obsoleta. Ninguém, no seu juízo, se atira para a frente de um comboio; ninguém se fere intencionalmente (a menos que esteja tomado por outra doença); ninguém se sacrifica convencido de que está penhorado por uma causa própria, quando serve apenas como o soldado encarniçado que é atirado para o campo de batalha por generais que, quanto à posse da coragem, estão em severo défice.

A coragem assim mercadejada é a prova do despojamento do eu, da sua hipoteca aos ventos colhidos pelas mãos juntas que costuram um grupo. Os bancos da escola e os modismos que engrossam o palco onde passam apenas as palavras aceitáveis tratam do resto. Não se cuida de si mesmo sem cuidar primeiro dos grupos a que se pertence. O eu é transcendido pelos deveres de pertença e torna-se irrecusável o embainhar de uma bravura que pode chegar à extravagância de ser suicida. 

Tomados pela loucura da audácia destravada, os bravos forcados mais parecem rapazes destemidos que tripulam as motoretas do poço da morte. Quando já só estiver em falta a elegia, não podem praticar a coragem descompensada que os abateu do contingente dos vivos. Pagaram com a vida o preço exorbitante da coragem sem peias. É tudo o que levam como legado seu: a coragem suicida que amputou vidas que podiam ter sido mais demoradas. 

20.1.26

LXXIX

Badly Drawn Boy, “This is the Day” (live on the Chris Evans Breakfast Show with Sky), in https://www.youtube.com/watch?v=Y6YUhFbdxmI&list=RDY6YUhFbdxmI&start_radio=1


“You smile and think how much you’ve changed 

all the money in the world couldn’t buy back those days.”


Nos processos competitivos há diversos lugares em que nos podemos situar. No património genético da democracia, estão incluídas a pluralidade de posições e um dever – podemos dizer – cívico de aceitar o direito à diferença. Este é um direito que se desdobra nos múltiplos sentidos em que se localizam os diferentes apeadeiros em que se situam as pessoas. Fundamenta-se num direito de reciprocidade: o direito de admissão neste tabuleiro cívico não é simétrico e restrito a uma casta; para sermos admitidos, temos de admitir, em igualdade de circunstâncias, os outros que de nós divergem.

O processo cívico é, por natureza, competitivo nas sociedades abertas. As pessoas escolhem uma posição e defendem-na, se o direito de defesa vier à colação. Tanto vale para afirmar uma posição quanto para se defender dos adversários. Como é um processo competitivo, as posições tendem a ser exacerbadas no calor da argumentação. Desde que não ocorram excessos incompatíveis com o respeito pelo outro e as linhas vermelhas que são pisadas quando a intolerância efervesce, faz parte do processo competitivo ter o mesmo direito a um pronunciamento que têm os que pensam de maneira diferente. Desde que, convém repetir, não sejam ultrapassados os limites da decência e que não haja pessoas abatidas por atos e palavras miseráveis.

O processo eleitoral, por muitos ainda entendido como o momento genesíaco da democracia, é um caldo turbulento em que as palavras derrapam com facilidade para o exagero. As irritações epidérmicas motivam uma sequência de causa e consequência que, por vezes, tem delimitação difícil, não sendo fácil apurar o que é causa e o que é consequência. As palavras fervem a menos dos canónicos cem graus centígrados. As pessoas invocam, com plena legitimidade, o direito à palavra. Às vezes, o exercício desse direito ofende outros. Os destinatários podem ser magoados com ou sem intencionalidade. Depois vem a escalada de ação-reação-re-reação, e assim sucessivamente. 

Se um famoso comentador acusa de colaboracionismo quem não quiser votar no candidato que se opõe ao candidato que pode lesar a democracia, está no seu direito. Pode argumentar que as suas palavras são um repto, não um ultraje a quem se recusa a promover uma decisão eleitoral binária. Podem ser palavras intencionalmente provocatórias, como quem espeta um cocktail de adrenalina para despertar os espíritos adormecidos de uma letargia que pode ser prejudicial ao futuro do sistema político. Os que se sentirem injuriados (“colaboracionismo” carrega um contexto histórico que não pode ser menosprezado) podem devolver a graça à proveniência. Podem, por exemplo, e sem embuço, mimosear o acusador com palavras que exibam a sua deficiência de carácter. 

Nem uns nem outros podem reclamar do exercício da palavra, por mais que uns e outros se sintam ofendidos com a posição de alvo em que foram colocados. É da natureza do processo competitivo que insta os seus participantes a exercerem o poder de encaixe. Sob pena de, ao quererem acautelar a dignidade que acusam estar a ser vilipendiada, castrarem o direito ao exercício das palavras pelos que se situam no outro lado da trincheira. 

Para o caso, tanto uns têm o direito de não votar no candidato que aparece como salvador da democracia, quanto os outros têm o direito de os acusar de apatia (usando uma fórmula diplomática) que pode comprometer o devir da democracia. Como os primeiros têm o direito de reagir contra aqueles que já decidiram sobre o imperativo categórico do voto inevitável, sem serem alinhados, por falta de comparência, com o candidato a déspota que é a alternativa de voto. Lembrando que um não-voto é apenas um não-voto, não é uma indireta manifestação de apoio àquele candidato que foi promovido a voto inevitável. Quando as palavras escorregam para o exagero, o sangue efervesce e as palavras perdem temperança. É intrínseco ao processo competitivo. Preferiam a mordaça que institui o discurso único, sem direito ao contraditório? 

Aos que, sem hesitação, responderem “não” àquela interrogação, fica-lhes destinado tolerar o exercício da palavra dos outros quando dela resulta uma posição incómoda. É o preço de respirarmos um ar despoluído de chancelas de vigilantes em nome do que quer que seja. O preço de nos podermos sentir ufanos por participarmos num processo cívico competitivo.

19.1.26

LXXVIII

The Talking Heads, “Once in a Lifetime”, in https://www.youtube.com/watch?v=5IsSpAOD6K8


“Letting the days go by, let the water hold me down

letting the days go by, water flowing underground

into the blue again, after the money’s gone

once in a lifetime, water flowing underground.”


Abro o jornal e passo, sem ver, a página da necrologia. Não vilipendio os mortos nem os voto à indiferença. Não quero saber dos que deixaram de estar vivos e faço-o como a homenagem possível aos falecidos. Ou pela hipocrisia própria de quem tem um medo de morte da morte.

É por causa da incompatibilidade pessoal com a morte que considero as páginas de necrologia inúteis. De acordo com as convenções, os que morrem têm direito às exéquias instituídas. Durante as exéquias, é bom costume homenagear os que deixaram de fazer parte do inventário dos vivos. É para isso que servem a presença no velório, a assinatura do livro de condolências, desencomendar a elegia que embainha palavras elogiosas e emocionantes num elogio póstumo a destempo (pois elogios destes rareiam em vida), e a ida ao funeral, de preferência testemunhando o momento pungente da descida do caixão à sepultura. Para que o falecido possa ser devidamente homenageado, a mensagem tem de passar de boca em boca. As páginas da necrologia dos jornais, dos jornais que ainda as publicam, servem essa finalidade.

Tiro uma conclusão antes do tempo, mas que se tem confirmado: mesmo que passe os olhos pelas páginas da necrologia, os falecidos cujos rostos estão pela penúltima vez afixados em lugar público (a última é na sepultura) são desconhecidos. Não preciso saber das pessoas que não conheço e que têm funeral marcado para os dias seguintes. Prefiro agarrar-me à tábua de salvação que é a vida. 

Na impossibilidade de vedar a hipótese da morte, ao continuarmos expostos à sentença da finitude irrecusável, ao menos que se esvaziasse o uso social da página da necrologia. Há dias, num café, sentou-se um casal de idosos na mesa vizinha. Ele pediu o jornal local. Abriu na página da necrologia, como se os dedos estivessem treinados para saberem de cor o número da página onde está a página da necrologia. Passaram vinte minutos a comentar os mortos que conheciam (e não eram poucos). Depois da autópsia social dos falecidos, dispensaram as outras páginas do jornal. As outras notícias eram irrelevantes. Só contavam os mortos e, sobretudo, os conhecidos. Tinham pegado no jornal local para atualizarem a agenda dos funerais.

Em vez de inspecionar a página da necrologia, prefiro esta censura seletiva em nome da vida. Se a necrologia está na página oito, o jornal passa da página sete para a página nove. A morte tem tempo para ter o seu tempo. Para que se viva a vida sem o fantasma da morte a abater-se como uma ameaça perene. 

16.1.26

LXXVII

Pixies, “Monkey Gone to Heaven” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=FMH3akt07zs

“The creature in the sky 

got stuck in a hole, now there’s a hole in the sky

and the ground’s not cold

and the ground’s not cold, everything is gonna burn (...).”


Protesto muito com os velhos que não se despacham a conduzir o automóvel. Julgo poder arriscar dizer, em todo o caso, que é mais a gente que se exaspera no meio do trânsito e perde a compostura com facilidade. Nisso, nivelam-se pela igualdade: os raspanetes são para velhos, menos velhos, jovens e menos jovens. 

Quando exerço a retrospeção, a frieza de espírito condena a irascibilidade rodoviária. Faço uma repreensão interior por ser impaciente com os velhos que circulam tão devagar e hesitantemente nas ruas e estradas. Os velhos têm todo o tempo do mundo – ia arriscar o diagnóstico, mas travei a tempo para não cair num lugar-comum que dá o flanco ao idadismo. Mas é um facto: se há algo que os velhos já não têm muito em carteira, é tempo. Paradoxalmente, talvez seja por saberem que o tempo lhes é escasso que se movem tão vagarosamente pelas vias públicas. Se o tempo escasseia para todos e ainda mais para os velhos, é sensato que arrastem a noção de tempo através da circulação lenta quando estão ao volante. 

É-me dado a saber que a impaciência com os velhos é uma mal disfarçada inveja por terem chegado a um tempo que não posso garantir que possa vir a ser meu. Devia aprender com os velhos que a pressa em apressar o tempo, circulando às vezes em velocidade excessiva, é uma tautologia que se joga contra as minhas pretensões. Querer chegar depressa ao destino é adelgaçar o fino fio do tempo que me separa da finitude. Apressar o tempo faz um favor ao tempo que tem pressa de o ser. Pelo caminho, estreitam-se os corredores que pressentem a finitude. 

A teoria das probabilidades soma-se a favor da prudência dos velhos. Ao conduzirem devagar, são menos suscetíveis ao sinistro. E, por mais que a metáfora do atraso persistente paire como anátema sobre os velhos que atrasam o trânsito e, assim, atrasam tudo o resto, o vagar dos velhos devia ser a lição a reter pelos apressados que, quando chegarem à idade deles, vão arrepender-se de  terem sido reféns da urgência de quem não dá valor ao tempo no seu vagar. 

Prometo não perder a paciência com os velhos nas ruas e nas estradas. Pelo menos até amanhã.

15.1.26

LXXVI

The Smiths, “Big Mouth Strikes Again” (live at the Whistle Test), in https://www.youtube.com/watch?v=AitXDDv155A

“(...) By rights you should be bludgeoned in your bed.”


O simples chão que é asilo prepara a indulgência. Não preciso de outros perdões; não preciso da caução alheia para povoar o saber com uma maré a favor. Nos interstícios do tempo, naqueles instantes que parecem emancipar-se do tempo, provocando a sua suspensão, avanço na hibernação que se subleva a favor dos contrabandos possíveis.

Dantes, quando o tempo era tirano e as convenções se abatiam sobre o meu peso, transitava no temor dos julgamentos alheios e não escapava ao exercício da magistratura de costumes. Levou o tempo indispensável para que o arrependimento vindicasse o seu lugar. Em vez de nadar a favor do caudal, comecei a olhar para as águas sob outros ângulos. Senti a autonomia latejar nas veias, tomando conta do sangue, tornando-o indomável. Extingui os laços que habilitavam uma pertença obediente.

A avalanche de perguntas soltou-se das algemas mentais que rimavam com a pose obediente. A existência tornou-se exigente e os sobressaltos contínuos tomaram conta do cenário montado. Pude então reparar que o pretérito se consumira numa apatia todavia serena. Não trocava de lugares e nem sequer desconfio que o tempo de outrora era a geografia certa. 

Do lugar em que me situo, não me escondo das dores pungentes que chegam ao olhar e ao sentir. Não me exilo das palavras condoídas que exacerbam a impunidade de almas órfãs. Não me refugio na contumácia quando o desconforto assobia aos ouvidos. Não transijo com as injúrias contra os que não têm meios de defesa. Não me deixo contagiar pelas pequenas corruptelas que, elevadas à escala gigantesca de uma multidão, se enraízam como usos. Não abençoo pelo silêncio o princípio geral da apatia que autoriza os mandantes a preferir o campo desminado de espírito crítico. 

Sei que, à minha volta, a poesia não se deixa de fazer sentir nos pequenos gestos que são indiferentes aos demais, que a música oferece mil mundos que são outras possibilidades de residência, e que há espíritos descomprometidos que continuam a passar a sua lente exigente pelas camadas do mundo. Sei hoje que um espírito descomprometido não usa o viés para abjurar um lado e ser complacente com o lado contrário quando em meios e fins não se distinguem um do outro. 

E descobri que os pesadelos começaram a rarear nos corredores inconfessáveis do sono. À medida das asas que alaram o pensamento desalgemado.

14.1.26

LXXV

Soungarden, “Burden in My Hand”, in https://www.youtube.com/watch?v=XmIqIVxUuKs

“Crack a smile and cut your mouth 

and drown in alcohol 

‘cause down below the truth is lying.”


A piada era ser como Dionísio e aplicar a teoria do espelho para ir buscar um bumerangue a uma destas partidas lúgubres que subiram ao púlpito da moda. O encarregado de negócios da embaixada seria responsável pelo livro de atas e de nele anotar os termos da reunião. Dionísio nunca ficaria a perder. Sem ele, as partes envolvidas estariam niveladas (assim manda a sagrada igualdade).

Perante um óbice maior, as mãos uniam-se para removê-lo. Era quando se percebia que da cooperação medram os avanços palpáveis. E mesmo que uns sejam mais ganhadores do que outros, ninguém pode legitimamente acusar o pleito de ter gerado perdas tangíveis. Será uma forma de amputar uma doença pueril que criou raízes com alguns protagonistas coevos: dobrar o braço ao adversário até o torcer e sair ufano para que a audiência testemunhe a testosterona dos vencedores. 

Hoje deixou de contar a lealdade, o sentido epicurista de quem aceita colaborar com os outros por intuir que não é a rivalidade que os move. Alguns, iludidos pelos efémeros ganhos e pela visibilidade que não sabem estar condenada à rápida dissolução, apostam-se competitivos. Estabelecem que a competitividade é intrínseca à natureza humana. Confundem os termos, provavelmente radicando no também ilustre desconhecimento da História e de um módico de Filosofia. E assim prosseguem o seu caminho, agarrados às certezas categóricas, os melhores candidatos à súbita deceção.

Quem é a sua guarda de honra? São eles próprios, admirando o envelope que os cobre e esconde a fonte de que provêm. A urgência em saírem do anonimato atira-os para uma visibilidade que lhes será, mais cedo ou mais tarde, malsã. Os asininos pressentimentos cobram do futuro um lugar que ele não garante. Frequentemente desenganados quando o tempo esperado acontece, refugiam-se em pretextos, preconceitos e toda a estultícia que não os confunde com o ontem de que partiram.

Sua é uma partitura puída, feita dos restos da entronização de um eu acima dos demais, como se acreditassem na sua predestinação e não soubessem que, a esse respeito, a igualdade é um genuíno genoma da democracia, nivelando todos por baixo. Passam o tempo todo a fingir, mentindo a si mesmos. Não admira que celebrem Dionísio, quando deviam ser o festim onde são a carne para canhão de quem os arregimenta para o papel de idiotas úteis.

13.1.26

LXXIV

Dry Cleaning, “Hi My Head All Day” (live at WFUV), in https://www.youtube.com/watch?v=Rbvz72f0ISs

“Life, a series of signals and memorials 

telling us this or that 

telling us this or this, think of that (...).”

Sentia como se dentro de mim só houvesse baldios. A vegetação a condizer, arbustos que dificilmente teriam nome a não ser para os botânicos. Mas não queria que os caudais insondáveis que me habitam interiormente fossem espaço ocupado por peritos. Queria continuar a ser um rosto sem nome para os que não soubessem o meu nome.

Sentia que as palavras eram mordaças executadas por vontades divinas. Não que acreditasse em deuses (e o plural não é incidental). A vontade estava penhorada pelas palavras contrafeitas. Invisíveis, como se fossem fantasmas que povoavam o espírito contra a sua vontade, os malfeitores apoderavam-se da serenidade que era convocada para a estrema do dia. Era como se corresse desamparado em cima de uma fina corda sobranceira a um precipício, com a audácia de desviar o olhar para baixo, só para experimentar a improvável ausência de vertigem. 

Nada disto coalescia com a ideia de baldios interiores. Como é de notar por qualquer observador atento, não seria de notoriedade que andava em demanda. Era o contrário: um anonimato heurístico, como se uma demanda interior percorresse as veias e proclamasse a urgência de ser indiferente aos demais. Tal como eles eram indiferentes. A reciprocidade não pode ser adestrada de ânimo leve. 

Na madrugada, parecia que a morada era diferente. Talvez fosse do silêncio que desmentia a roda-viva que suava do lado de fora das janelas. Ou da noite que se demorava teimosamente nos dias mais profundos do Inverno, como se a claridade tivesse de ser postergada para ocultar as sevícias que o mundo lá fora não hesita em cometer. O anonimato dos baldios ajudava a decantar o tempo vagaroso. Naquela solidão madrugadora sirvo em mim o silêncio conciliador, o manancial que alimenta a prodigalidade de um pensamento. Antes que a roda-viva, com a multidão ingente que a alimenta, viesse estilhaçar a serenidade que julgaria campestre, se não soubesse que meus não eram os domínios debaldios. 

12.1.26

LXXIII

Joy Division, “The Eternal”, in https://www.youtube.com/watch?v=gR0ytCjcSL4

“Procession moves on, the shouting is over.”

Para que são feitas as regras? Existem porque os seus criadores sabem que não são de confiar (como espécie). As regras impõem comportamentos e proíbem outros, num tempo e num lugar condenáveis pelo sentir social, ou porque deles se esperam efeitos danosos que deixam uma pegada de vítimas. As regras existem porque as pessoas, organizadas socialmente, precisam de saber como delimitar a certeza e a segurança enquanto vivem como tal. A lógica das regras é que a sua ausência teria efeitos catastróficos no nervo social: a anomia seria o fermento para a desordem e para vingar a lei do mais forte.

Quem estabelece as regras, aquelas que se traduzem em Direito, é o Estado. Ao nível internacional, são as organizações internacionais e os acordos em que participam grupos de países. Os autores das regras sinalizam as garantias de certeza e segurança, naquilo que for caucionado pelas regras e à margem das contingências, que escapam à previsibilidade. Prestam um serviço à comunidade. Fornecem-lhe um cimento que permite que a organização social se mantenha coesa, sem entorses nem adulterações. 

O que acontece quando o autor das regras as rompe? Desaparece a certeza que ampara o funcionamento ordenado da sociedade. O autor das regras sinaliza que as regras, as que ele próprio não cumpre e outras que vierem a preceito, podem ser atropeladas. Pois se é o seu máximo garante que não as cumpre, que obrigação têm os integrantes da sociedade de continuar a obedecer às regras que o seu criador deixou de seguir? 

O privilégio de fazer regras e de impô-las a um grupo fundamenta-se no monopólio de autoridade exercido pelo Estado e pelas organizações internacionais. Quando algumas destas regras são instrumentos para a preservação da paz entre os países, a sua violação é uma extravagância com efeitos ainda mais danosos. Se as regras destinadas aos indivíduos não forem acatadas, o tecido social pode ficar hipotecado pela desordem que se instala; a falência de regras que são um alicerce da convivência pacífica entre as nações pode levar algumas delas à beligerância. Em ambos os casos, quando a responsabilidade pela desobediência é do criador das regras, há um derradeiro efeito que ultrapassa o simbólico: como o próprio criador exerce o monopólio de autoridade sobre a sociedade, se ele deixar de seguir as regras, a sua autoridade estilhaça-se. O criador das regras, ao aparecer como o responsável pelo seu desrespeito, cria o precedente para a dissolução da sua própria autoridade.

A razão das regras fundamenta-se no monopólio de força do seu criador. Ao nível internacional, onde se confirma uma incongruência entre teoria e prática (os países são todos iguais; mas uns exercem mais poder do que outros), a responsabilidade pelas fraturas na frágil ordem estabelecida é assimétrica. Mede-se pelo grau de influência daquele país que sobe a palco com o opróbrio de quem não respeitou as regras. A responsabilidade acentua-se quando as regras que deixaram de ser seguidas são centrípetas para a paz entre os países.

Uma interpretação alternativa parte do pressuposto de que as fragilidades da ordem internacional não permitem estimar os efeitos da desobediência às regras. Embora os países adiram a regras consensualizadas para a preservação da paz, quando surge uma contradição entre os interesses nacionais e as regras que constituem um embaraço a esses interesses, o conflito resolve-se com o sacrifício dessas regras. Fica à mostra um rosário de incoerências dos países, que ora denunciam aquele que não respeitou uma regra, ora se esquecem dessa condenação quando, no dia seguinte, sacrificam aquela regra para não travarem o interesse nacional.

Como o exemplo deve partir de cima, e quem está no topo da hierarquia é a entidade criadora de regras, o estado comatoso em que se encontra o respeito das regras é um mau sintoma do estado da humanidade. Quem pode confiar num criador de regras quando ele é o primeiro a atropelá-las pela conveniência que o atropelo representa para o cumprimento dos interesses do país?

O Homem é mesmo o lobo de si mesmo. Ou então, os anarquistas estão carregados de razão. Continuar a defender as regras como cimento da sociedade (no jargão oficial: Estado de Direito) não passa de um ato hipócrita. 

9.1.26

LXXII

 

The XX and Jamie XX, “Shelter” (live remix), in https://www.youtube.com/watch?v=vE8jbq_XyFc

“I can’t wait till we’re afraid of nothing.”


Disseram que me foi marcada falta de comparência. E que a omissão é pior do que teria sido se tivesse estado presente. Como aceitar que um silêncio possa ser mais comprometedor do que um arsenal de palavras que ferem alguém? 

Fui acusado de falta de comparência e de por ela ter feito uma aliança com os que se nos opõem (chamam-lhes “inimigos”, mas não os tenho nessa tão radical conta). Atónito, puxei a memória atrás para resgatar palavras que tivesse dito ou escrito em apoio dos “nossos” adversários. Não encontrei uma única palavra nesse sentido. O que mais me incomoda é haver um conjunto de pessoas que me atiram para o seu albergue, não tendo a cortesia de perguntar se dou o meu consentimento. Na parte que me diz respeito, não faço parte desse “nós”. Prefiro que me tenham na conta de um espírito rebelde que recusa arregimentações, colagens imperativas operadas de fora para dentro, fidelidades caninas ao grupo que supõem a obnubilação do singular, o cachaço exposto às diatribes que se imponham para preservar a coesão do grupo. 

Mesmo que não fosse esse o caso e de mim propusesse essa adesão, continuei sem encontrar uma correspondência lógica entre o silêncio e a imputação de um apoio aos adversários. A falta de comparência não pode ter os seus efeitos ampliados. Num silêncio, não há sequer palavras escondidas nas entrelinhas, muito menos palavras cifradas apanhadas no radar de diligentes vigilantes de uma causa qualquer e por eles entendidas como traição à causa. 

Quem treslê uma falta de comparência é o pior desamante da liberdade. Extravasa o significado da existência gregária: um suposto devir coletivo não se sobrepõe à idiossincrasia individual apenas porque sim. Deviam entender, estes medonhos abocanhadores da liberdade avulsa, que o silêncio significa isso mesmo, um silêncio. Não se pode virar o silêncio do avesso para descobrir palavras que não foram ditas nem intuídas. Para estes catedráticos autocondecorados, um silêncio pode ser gongórico. Oxalá fosse por causa de uma imaginação prodigiosa. 

A falta de comparência nunca se marca quando o espírito voa livre de amarras e se recusa a ser parte de feudos que delimitam a vontade em varas hermeticamente seladas. O máximo que conseguem os vigilantes que não fazem concessões à liberdade de espírito é que os espíritos intrinsecamente indomáveis não compareçam às demandas. Falham-nas intencionalmente. Militam na única religião que admitem: a falta de comparência. A falta de comparência é a garantia de que esses espíritos não fazem concessões a quem tanto quer domá-los. 

8.1.26

LXXI

Royal Blood, “Lights Out” (live at Later...with Jools Holland), in https://www.youtube.com/watch?v=SAGrejll9s8

Euphemisms on a loop interchanged 

which hands get to turn the final page?”


Quanto do tempo que vivemos é herança dos sonhos? Quantos dos medos perenes são a lavra de pesadelos medonhos? Não contamos com a contingência nos planos hermeticamente selados que somos ensinados a adestrar. Entre o caos, esta latina desorganização que cultiva a improvisação, desaprovamos a panaceia do critério e dos planos que previnem a incerteza do futuro – como se o futuro, na sua intrínseca contingência, autorizasse essa prevenção.

Há um certo conforto interior na ideia de que foram tomadas medidas preventivas para caucionar os imprevistos que colonizam o tempo futuro. Como se fosse um descargo de consciência e tudo pudesse continuar sem vultos a adejar sobre a pele desse tempo. Faz parte de um código de conduta: não sabemos nada sobre os dias consecutivos, prevenimos a indeterminação desse tempo através de almofadas que devem funcionar como um airbag em caso de sinistro automóvel. Por mais incerta que seja a incerteza, num desdobramento da contingência até ao infinito, pois sabemos o que é a incerteza futura, mas não estamos em condições de antecipar a forma concreta como ela se congemina.

Da mesma forma que os sonhos podem ser arquitetos de concretizações com assinatura futura, os pesadelos podem ser presságios da indeterminação que se lança contra nós. Atuamos por estimativa, que nem sequer a tentativa e erro é critério que se possa usar perante a ausência de contornos do futuro. 

Se um pesadelo encena o que nos sobressalta e se não queremos que essa encenação se materialize, tomamos medidas preventivas. Não há desperdício de recursos: se esse mal não for confirmado pelo futuro, os recursos empenhados na sua prevenção tiveram a utilidade de um conforto que se algema à serenidade futura. O risco não foi confirmado, mas estávamos preparados para a sua ocorrência. Só não sabemos se o plano dedicado à prevenção dessa contingência seria suficiente para travar os seus efeitos se ela tivesse passado do papel à prática. Ou então, pode ser tudo fruto da necessidade de encontrarmos passatempos. Sabemos que não temos força nas mãos para travar os efeitos de uma contingência que sobre nós se abata. Ficamos apaziguados ao saber que fomos preventivos e que temos um plano para enfrentar os danos causados por uma contingência. 

Os pesadelos têm esta serventia. São extemporâneas manifestações de um futuro que pode acontecer. Se lhes dermos importância, estamos preparados para lidar com os seus efeitos caso o pesadelo seja teimoso a ponto de se transformar em realidade.

7.1.26

LXX

Fontaines D.C., “A Lucid Dream” (live at 6 Music Live Session), in https://www.youtube.com/watch?v=-3VHD2b8wfY

“And now the foreign corner’s gone and thrown 

are you opposed to being anyone else 

other than you.”


Tenho uma lista de paradoxos. Prezo esses paradoxos, um por um. Mais me incomodam aqueles personagens à prova de defeitos que se ufanam de uma folha limpa e isenta de incoerências. Trago no bornal um inventário pródigo em incoerências. Saber da sua existência é um exercício de pensamento, a mão da autocrítica a deitar-se sobre o seu tutor, desassossegando-o para os tumultos interiores que não são prova de fragilidade. Já os que tutelam a folha exemplar de coerência não percebem, coitados, o estreito corredor mental em que laboram.

Paradoxo do dia: uma personagem que habita há longo tempo a paisagem política insiste em fazer prova de vida com episódicas aparições na imprensa. Os seus detratores puxam do coldre o epíteto “múmia”, como quem recomenda à personagem em causa o recato do silêncio. Uns, exasperados pela longa vida da personagem, excretam a bílis e deixam vir ao de cima acinte e azedume sempre que a personagem dá à costa; outros agradecem as suas aparições: de cada vez que perora, aumentam os anticorpos entre as hostes que antes o idolatraram. No idioma terra-a-terra: assim que abre a boca, espanta a caça.

Nunca tendo militado entre os seus apoiantes, não me irritam as prosas carregadas de imperativos categóricos e de autogenuflexões da personagem. Se fosse cáustico, diria que sua excelência devia ter a noção do atavismo em que se constituiu assim que saiu de cena. Se fosse ainda mais cáustico, ao ponto de me acusarem de idadismo, diria que sua excelência perdeu capacidades com a vetusta idade que tem destes lampejos dilacerantes sobre a lucidez de qualquer pessoa. No idioma terra-a-terra: devia estar a cuidar da horta ou a ler cartapácios sobre uma qualquer ciência social e humana que desprezou durante a sua longa carreira repleta de confusão entre política e tecnocracia. 

Depois, abrando para pensar: ninguém deve ser silenciado sob pena de o silenciador incorrer no delito do censor, mesmo que essa não seja sua intenção. Ninguém deve ser encomendado ao sepulcro intelectual, mesmo que sejam datadas e pouco substanciadas as opiniões vertidas em letra de forma. Sua excelência deve continuar a verter imperativos categóricos, ungidos com uma arrogância intelectual que refinou com a idade (e, possivelmente, com o autoconvencimento de um estatuto acima do comum dos mortais). Da parte que me toca, as aparições episódicas de sua excelência servem para confirmar uma certeza que gosto de ostentar: nunca me enganou, sua excelência, na sua demorada visita à paisagem política.

O sabor doce de um paradoxo serve para atestar que as primeiras ideias nem sempre são as que vingam na maturidade do tempo. 

6.1.26

LXIX

Portishead, “Cowboys” (live from the Roseland Ballroom), in https://www.youtube.com/watch?v=MjGPpXcPlGU

“Did you feed us tales of deceit 

conceal the tongues who need to speak.”


Falho. Dia sim, dia sim, com um intervalo de três ou quatro dias, quando me lembro e quando estou em olvido. Várias vezes ao dia. Falho, intencionalmente ou não. Veículo das fragilidades que se alojam num Homem, falho sem poder recusar a falha, recuso a perfeição vexatória.

Não aceito a falha como anátema. É a condição humana a falar com as sílabas certas e compassadas, os versos errantes alinhados na vetusta indiferença do tempo, na não problemática indiferença dos outros. Todos sabemos que falhamos. Se pudéssemos transpor as fronteiras do ser e sentir as dores sentidas num corpo outro, as doenças da alma, seja por defeito ou por excesso, levar-nos-iam à loucura, tanta a dor a abrasear o sangue. Que não interessem as falhas dos outros. Nem se finja que as falhas dos outros nos atiram para um pedestal onde não estamos. As consumições não transitam. Só sentimos as que não são exclusivas. 

Falho no santuário frequentado por aqueles que sabem que falham. Outros extinguem o fio do dia no fingimento de que são entidades supremas, os super-homens ecuménicos que pairam sobre as falhas dos outros e obliteram as próprias. Arrumam-se a um canto e esbracejam a saliva de quem muito tem a dizer sobre os alçapões cavados pelos outros, as sepulturas onde caem todos os dias e de onde se levantam assim que os pesadelos deixam de os assombrar.

Falho, sem intenção ou com ela, e mergulho de costas no precipício por não querer saber onde vou cair. Na queda, persigno-me na curadoria que contém as fragilidades em que me consumo. Não sou delas, mas elas conspiram para serem meus colonos, como se dessa servidão não me pudesse libertar e todas as falhas fossem a prova viva de uma vida em desacerto. 

As falhas irrompem com a sua métrica e não escolhem a quem vão provocar os danos inatos à ação do verdugo. Falho, com a consciência de às falhas ter recorrido quando elas se mobilizam numa escala maior. As falhas são minhas, não as convoco para serem portadoras da culpa alheia (ou da culpa celibatária). Nas falhas, consumo-me como se a pele estivesse virada do avesso e através dela o vidro transparente tudo à mostra deixasse. As falhas são o ónus da transparência. Os mitómanos só se debatem com as falhas porque a consciência impede a sua revelação através de um periscópio puído. 

Falho, aqui e depois, como agora e algures, e espero que não seja a última vez.

5.1.26

LXVIII

Massive Attack, “Risingson”, in https://www.youtube.com/watch?v=85E9Q5Wx210

 “A revolving wheel of metal chairs

hang on chairs squealing.”


Esconde-se nos bolsos fundos do dia um ouro sem paradeiro. Vem às mãos, em forma imaginada, e derrota todos os corsários que sondam as equações. Mal deixam de sussurrar um lamento: tanto ouro por aproveitar faria as delícias de alguns felizardos. 

Mas não se tecem as teias das ideias por tais pergaminhos. A abundância como critério é um erro – os adversários apressam-se no prognóstico do autoapocalipse dos termos vigentes e da caducidade do capitalismo vigente. 

Os efémeros laivos de prazer esgotam-se na finitude, na apressada finitude, dos que profetizam o vagaroso cataclismo. Se o seu oráculo estivesse certo, seria um estertor agonizante, como um corpo condenado à extinção que se arrasta numa longa e dolorosa decadência. Ficariam quantos para narrar a proeza reivindicada pelos puristas do apocalipse?

Não será contradição de monta espelhar as virtudes do que vige. Os exageros perdem conta entre a lucidez que se torna omissa. A adulteração da humanidade está em curso e parece que somos lídimos candidatos a ver o nosso espetáculo decadente como se estivéssemos por fora de nós e ao mesmo tempo não regateássemos ser os piores críticos de nós mesmos. Essa é uma capacidade que se extinguiu com a capitulação a que fomos conduzidos. 

Acordamos sob o sequestro de vultos sem nome que nos tomam por benfeitores que se esqueceram da estultícia que se encordoa nos dedos. Dizemos: oxalá os versos de uma epopeia futura nos resgatem do emparedamento em que fomos aprisionados. Não queremos ser vítimas das tempestades nomeadas pelos que profetizam o apocalipse. Devíamos conservar um módico de independência que impeça sermos instrumentalizados em nome de uma vulgata – o suicídio programado no fim da ambição que perdeu a medida. 

Corremos a favor do sangue que nos distingue de máquinas. Saibamos conservar as diferenças para não sermos vontades domesticadas por máquinas sem alma.

2.1.26

LXVII

Pond, “Black Lung” (live at Paradiso, Amsterdam), in https://www.youtube.com/watch?v=gArVWWhAOvE  

“Even dreaming makes you sour.”

    Deste lugar incerto provenho, as feridas abertas demandando caridade. Deste lugar incerto as rosas deixaram de ser olorosas. Deste lugar incerto, em que os paradeiros foram extintos, descubro as sílabas de um poema e recupero o mote que o futuro espera. É deste lugar incerto que despojo as inconfidências e tudo amanhece com a luz prístina das quimeras. Não há espadas desembainhadas. Não há granadas deixadas ao deus-dará, no implacável estertor de quem angaria vítimas ao acaso. Não se intimidam os que viraram as palavras do avesso por delas se terem cansado. Deste lugar que se chama incerto, não por geográfica omissão, mas por ser o baldio em que nome nenhum adejou: é nele que arregimento os versos noturnos, onde estendo o corpo intrépido e parafraseio a lengalenga dos intrusos mercadores, e navego sem a circunstância da bússola e serpenteio de cais em cais. Deste lugar incerto, esboço o nomadismo de quem resiste à vagarosa monotonia dos dias. O lugar sem nome que se costura nos dedos que desmentem a sábia condição dos anciãos, o lugar que se evapora do mapa para ser exílio singular e sem paradeiro conhecido, onde apenas os exímios pacientes podem morar. Volto ao lugar incerto, mesmo que desconheça o seu lugar, mesmo que não saiba que força magnética propende para esse lugar. Quero um lugar como os baldios, desapossado de nome, um lugar que não seja possível marcar no mapa, um lugar propositadamente órfão. Um lugar à medida dos sábios. Este é o lugar incerto que se desdobra em múltiplos lugares, os conhecidos e os desconhecidos. O lugar plural onde me encontro com a vibrante matéria de que é feito o mundo. Um lugar guardado em segredo, escondido do olhar tentacular. O cais que resguarda um olhar ímpar, à espera de que seja outorgada a deferência da solidão.

1.1.26

LXVI

Radiohead, “Jigsaw Falling Into Place”, in https://www.youtube.com/watch?v=GoLJJRIWCLU

“As your bad day disappears.”

            Partir do princípio, ou então partir do fim e fazer o resto às arrecuas? Como se fosse um filme puxado da frente para trás. Para se contrariar o curso natural do tempo, que se deixa sequestrar por tentativas provisórias de emoldurar o tempo que se subleva contra os seus párias. Ou apenas porque as arestas vivas magoam a pele à medida que a história vai sendo narrada e nos interstícios do tempo apenas habitam os sonhos que marejam no pensamento intempestivo. As forças vivas tomam conta dos demais, deixemo-los com os sobressaltos que de outro modo em nós encontrariam um cais perene. Deixemos os vulcões respirar a lava há tanto extinta, eles precisam de saber o que é viver sem ser em letargia. Nas fronteiras da audácia, reparar os relógios submersos pode ser um ato de loucura. Quem precisa do tempo reparado? Quem anda a correr freneticamente atrás dos druidas que inventaram os lugares que foram nossos por herança? Um início é a sementeira de um fim. Quando emerge, o fim cola-se ao início, como se tudo não passasse de uma larga circunferência que une os dois pontos que se julgavam nos antípodas. Somos nós que escolhemos o cais onde lançamos âncora. Os cais prometem regalias. Cabe-nos escolher o cais à nossa semelhança. É de lá que vamos estar de atalaia aos escombros que se acamam atrás do tempo gasto. Não despedimos a usura por capricho. Despedimo-la porque não queremos contar as palavras ultrajantes que conspiram contra a usura sem se desaproveitarem como desperdícios com utilidade nula. Partamos antes do fim e rememos ao contrário, só para ver se conseguimos abraçar o tempo que foge entre os sonhos corroídos. Vamos lá atrás para sabermos das cores do presente.