Interpol, “Barricade” (live session), in https://www.youtube.com/watch?v=hm0TUC8rGE4
“Thieves and snakes need homes.”
Não fosse pelas tergiversações, a humanidade já teria ido mais longe – dizias. O feudo da incerteza abate-se sobre a lucidez das pessoas como um freio que as prende à inércia. Receiam o lugar desconhecido que é navegar na maré da indeterminação. Não se estranhe que a cautela das pessoas seja o maior estorvo ao avanço do mundo.
Talvez a lente esteja errada – contrapunhas. Talvez a prioridade não seja ditar os avanços do mundo que amiúde o desarranjam, ou talvez esteja errado fazer corresponder os avanços que cavalgam no horizonte a um imodesto estado febril que diz muito sobre o estado do mundo. Olhando em retrospetiva, o mundo cavalga. Provavelmente, a uma velocidade estonteante, como se traçássemos uma linha evolutiva e ela disparasse no último século. Se esquadrinharmos em fatias de tempo mais curtas, nas últimas duas décadas, ainda mais se nota a velocidade vertiginosa do mundo. É legítimo perguntar se não devemos estar satisfeitos com o estado geral em que se encontra o mundo?
Dirás, em réplica, que as desigualdades ainda são um retrato obsceno de como o mundo progrediu. Há miséria instalada paredes-meias com consumos frívolos; há quem continue a passar fome e outros que se engalanam com hábitos burgueses que combinam com a futilidade da haute cuisine; há quem se autocastre no direito de falar e outros que são gongóricos, insuportavelmente ruidosos, quando tomam a palavra; há viveres frustrantes e viveres excessivos, como continuam a haver mortes indignas e mortes que, ao menos, são absorvidas pelo anonimato.
Mas devemos amputar as ambições de quem não lhes dá quartel sem cair num totalitarismo ridículo? A quem devemos essa militância, senão à lava que se desabotoa da crosta em forma de cicatriz? É legítimo redesenhar os valores e as atitudes dos outros porque deixaram de rimar com as nossas posições? Quem nos encomendou a empreitada?
Dizias: é mais sensato deixar à espreita a vontade de cada um e do seu somatório perceber onde nos leva. Não podemos aceitar que haja cabeças pensantes que valham mais do que outras, e até daquelas que, apáticas, se refugiam no seu também legítimo direito de reservar a não-opinião. Se as vozes que se agigantam legitimam a maré que se cobra a favor da velocidade vertiginosa a que avança o mundo, deixemos o mundo avançar desse modo, mesmo que se aproxime perigosamente do precipício. Lembremos sempre das lições da História, sem cair no exagero de reivindicar a sua iteração indeclinável: a História é o espelho retrovisor que se expande para o momento presente, não é um oráculo do futuro à espreita.
Já sabemos, já aconteceu, talvez vezes demais, que o mundo avançou sem prudência e caiu num abismo, com todos os sacrifícios, outra vez iníquos, que causam. Mas depois o mundo soube como encontrar a bússola que o trouxe de volta ao equilíbrio, mesmo que seja um equilíbrio precário. E sabemos que se as vontades concorrerem para a encomenda do abismo, não serão os lúcidos que a conseguem travar.
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