Portishead, “Cowboys” (live from the Roseland Ballroom), in https://www.youtube.com/watch?v=MjGPpXcPlGU
“Did you feed us tales of deceit
conceal the tongues who need to speak.”
Falho. Dia sim, dia sim, com um intervalo de três ou quatro dias, quando me lembro e quando estou em olvido. Várias vezes ao dia. Falho, intencionalmente ou não. Veículo das fragilidades que se alojam num Homem, falho sem poder recusar a falha, recuso a perfeição vexatória.
Não aceito a falha como anátema. É a condição humana a falar com as sílabas certas e compassadas, os versos errantes alinhados na vetusta indiferença do tempo, na não problemática indiferença dos outros. Todos sabemos que falhamos. Se pudéssemos transpor as fronteiras do ser e sentir as dores sentidas num corpo outro, as doenças da alma, seja por defeito ou por excesso, levar-nos-iam à loucura, tanta a dor a abrasear o sangue. Que não interessem as falhas dos outros. Nem se finja que as falhas dos outros nos atiram para um pedestal onde não estamos. As consumições não transitam. Só sentimos as que não são exclusivas.
Falho no santuário frequentado por aqueles que sabem que falham. Outros extinguem o fio do dia no fingimento de que são entidades supremas, os super-homens ecuménicos que pairam sobre as falhas dos outros e obliteram as próprias. Arrumam-se a um canto e esbracejam a saliva de quem muito tem a dizer sobre os alçapões cavados pelos outros, as sepulturas onde caem todos os dias e de onde se levantam assim que os pesadelos deixam de os assombrar.
Falho, sem intenção ou com ela, e mergulho de costas no precipício por não querer saber onde vou cair. Na queda, persigno-me na curadoria que contém as fragilidades em que me consumo. Não sou delas, mas elas conspiram para serem meus colonos, como se dessa servidão não me pudesse libertar e todas as falhas fossem a prova viva de uma vida em desacerto.
As falhas irrompem com a sua métrica e não escolhem a quem vão provocar os danos inatos à ação do verdugo. Falho, com a consciência de às falhas ter recorrido quando elas se mobilizam numa escala maior. As falhas são minhas, não as convoco para serem portadoras da culpa alheia (ou da culpa celibatária). Nas falhas, consumo-me como se a pele estivesse virada do avesso e através dela o vidro transparente tudo à mostra deixasse. As falhas são o ónus da transparência. Os mitómanos só se debatem com as falhas porque a consciência impede a sua revelação através de um periscópio puído.
Falho, aqui e depois, como agora e algures, e espero que não seja a última vez.
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