Fontaines D.C., “A Lucid Dream” (live at 6 Music Live Session), in https://www.youtube.com/watch?v=-3VHD2b8wfY
“And now the foreign corner’s gone and thrown
are you opposed to being anyone else
other than you.”
Tenho uma lista de paradoxos. Prezo esses paradoxos, um por um. Mais me incomodam aqueles personagens à prova de defeitos que se ufanam de uma folha limpa e isenta de incoerências. Trago no bornal um inventário pródigo em incoerências. Saber da sua existência é um exercício de pensamento, a mão da autocrítica a deitar-se sobre o seu tutor, desassossegando-o para os tumultos interiores que não são prova de fragilidade. Já os que tutelam a folha exemplar de coerência não percebem, coitados, o estreito corredor mental em que laboram.
Paradoxo do dia: uma personagem que habita há longo tempo a paisagem política insiste em fazer prova de vida com episódicas aparições na imprensa. Os seus detratores puxam do coldre o epíteto “múmia”, como quem recomenda à personagem em causa o recato do silêncio. Uns, exasperados pela longa vida da personagem, excretam a bílis e deixam vir ao de cima acinte e azedume sempre que a personagem dá à costa; outros agradecem as suas aparições: de cada vez que perora, aumentam os anticorpos entre as hostes que antes o idolatraram. No idioma terra-a-terra: assim que abre a boca, espanta a caça.
Nunca tendo militado entre os seus apoiantes, não me irritam as prosas carregadas de imperativos categóricos e de autogenuflexões da personagem. Se fosse cáustico, diria que sua excelência devia ter a noção do atavismo em que se constituiu assim que saiu de cena. Se fosse ainda mais cáustico, ao ponto de me acusarem de idadismo, diria que sua excelência perdeu capacidades com a vetusta idade que tem destes lampejos dilacerantes sobre a lucidez de qualquer pessoa. No idioma terra-a-terra: devia estar a cuidar da horta ou a ler cartapácios sobre uma qualquer ciência social e humana que desprezou durante a sua longa carreira repleta de confusão entre política e tecnocracia.
Depois, abrando para pensar: ninguém deve ser silenciado sob pena de o silenciador incorrer no delito do censor, mesmo que essa não seja sua intenção. Ninguém deve ser encomendado ao sepulcro intelectual, mesmo que sejam datadas e pouco substanciadas as opiniões vertidas em letra de forma. Sua excelência deve continuar a verter imperativos categóricos, ungidos com uma arrogância intelectual que refinou com a idade (e, possivelmente, com o autoconvencimento de um estatuto acima do comum dos mortais). Da parte que me toca, as aparições episódicas de sua excelência servem para confirmar uma certeza que gosto de ostentar: nunca me enganou, sua excelência, na sua demorada visita à paisagem política.
O sabor doce de um paradoxo serve para atestar que as primeiras ideias nem sempre são as que vingam na maturidade do tempo.
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