30.1.26

LXXXVII

Sneaker Pimps, “6 Underground” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=XcJBt7DSaME


“(...) I’m open to falling from grace.”


Às vezes é preciso tirar o escafandro do armário quando a submersão evita males maiores. Esta é a posição de quem desvaloriza consumições, como se estivéssemos formatados para a resignação e aceitássemos males menores depois de prevenirmos os maiores. Uma modesta pose de vida.

Mas um mal, seja maior ou menor, não deixa de ser um mal. Intuímos que nada podemos contra as contingências que desarrumam as vidas. Desses males estamos condenados a sobreviver por estima, como vítimas passivas apanhadas num remoinho inescapável. Mas há males que são a safra calculada das nossas ações e omissões. Devemos calcular, nem que seja por estimativa, os danos que lhes podem ser intrínsecos. A probabilidade de a teoria das probabilidades que usamos estar mal calibrada não pode ser posta de parte; por vezes, é o que faz a diferença entre ser vítima de um grande mal ou de um mal menor. Outras vezes, é a apatia que faz perder as rédeas de um dano, que se agiganta de um mal menor num mal maior.

O escafandro pode ser o último recurso para forçar um mal maior a tornar-se um mal menor. Pode garantir um módico de oxigénio que nos mantém à superfície, embora desligados das consumições que agridem. Não é aceitável que nos resignemos a um mal menor porque sentimos que conseguimos banir o mal maior do leque das possibilidades. O escafandro traduz o exílio interior, a fuga das contrariedades que são o rosto continuado dos dias consecutivos. Um fingimento. Na mnemónica dos dias correntes, é preciso estimar as possibilidades e agir à medida dos seus efeitos estimados. Sopesar as costuras que nos prendem à linha do tempo e ter a lucidez para escolher uma ação ou uma omissão. 

Quando nos dizem, com a paciência pedagógica de quem se habituou a transigir com males como se fosse a tradução da humildade, que temos de aceitar um mal menor se ele for alternativo a um mal maior, devemos interrogar se as duas medidas do mal resumem as hipóteses. Estarmos condenados, numa fórmula muito binária, a duas medidas possíveis de mal, é convocar a desistência de outras, mais ambiciosas, possibilidades. É como condenar a iniciativa de quem se insurge contra as possibilidades binárias do mal pela rebeldia de quem teima em acreditar que por fora do escafandro, se avista uma réstia de bem.

A fórmula da resignação é o avesso da interiorização da apatia, um mal constante da civilização em que dizem vivermos.

Sem comentários: