Pond, “Black Lung” (live at Paradiso, Amsterdam), in https://www.youtube.com/watch?v=gArVWWhAOvE
“Even dreaming makes you sour.”
Deste lugar incerto provenho, as feridas abertas demandando caridade. Deste lugar incerto as rosas deixaram de ser olorosas. Deste lugar incerto, em que os paradeiros foram extintos, descubro as sílabas de um poema e recupero o mote que o futuro espera. É deste lugar incerto que despojo as inconfidências e tudo amanhece com a luz prístina das quimeras. Não há espadas desembainhadas. Não há granadas deixadas ao deus-dará, no implacável estertor de quem angaria vítimas ao acaso. Não se intimidam os que viraram as palavras do avesso por delas se terem cansado. Deste lugar que se chama incerto, não por geográfica omissão, mas por ser o baldio em que nome nenhum adejou: é nele que arregimento os versos noturnos, onde estendo o corpo intrépido e parafraseio a lengalenga dos intrusos mercadores, e navego sem a circunstância da bússola e serpenteio de cais em cais. Deste lugar incerto, esboço o nomadismo de quem resiste à vagarosa monotonia dos dias. O lugar sem nome que se costura nos dedos que desmentem a sábia condição dos anciãos, o lugar que se evapora do mapa para ser exílio singular e sem paradeiro conhecido, onde apenas os exímios pacientes podem morar. Volto ao lugar incerto, mesmo que desconheça o seu lugar, mesmo que não saiba que força magnética propende para esse lugar. Quero um lugar como os baldios, desapossado de nome, um lugar que não seja possível marcar no mapa, um lugar propositadamente órfão. Um lugar à medida dos sábios. Este é o lugar incerto que se desdobra em múltiplos lugares, os conhecidos e os desconhecidos. O lugar plural onde me encontro com a vibrante matéria de que é feito o mundo. Um lugar guardado em segredo, escondido do olhar tentacular. O cais que resguarda um olhar ímpar, à espera de que seja outorgada a deferência da solidão.
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