The XX and Jamie XX, “Shelter” (live remix), in https://www.youtube.com/watch?v=vE8jbq_XyFc
“I can’t wait till we’re afraid of nothing.”
Disseram que me foi marcada falta de comparência. E que a omissão é pior do que teria sido se tivesse estado presente. Como aceitar que um silêncio possa ser mais comprometedor do que um arsenal de palavras que ferem alguém?
Fui acusado de falta de comparência e de por ela ter feito uma aliança com os que se nos opõem (chamam-lhes “inimigos”, mas não os tenho nessa tão radical conta). Atónito, puxei a memória atrás para resgatar palavras que tivesse dito ou escrito em apoio dos “nossos” adversários. Não encontrei uma única palavra nesse sentido. O que mais me incomoda é haver um conjunto de pessoas que me atiram para o seu albergue, não tendo a cortesia de perguntar se dou o meu consentimento. Na parte que me diz respeito, não faço parte desse “nós”. Prefiro que me tenham na conta de um espírito rebelde que recusa arregimentações, colagens imperativas operadas de fora para dentro, fidelidades caninas ao grupo que supõem a obnubilação do singular, o cachaço exposto às diatribes que se imponham para preservar a coesão do grupo.
Mesmo que não fosse esse o caso e de mim propusesse essa adesão, continuei sem encontrar uma correspondência lógica entre o silêncio e a imputação de um apoio aos adversários. A falta de comparência não pode ter os seus efeitos ampliados. Num silêncio, não há sequer palavras escondidas nas entrelinhas, muito menos palavras cifradas apanhadas no radar de diligentes vigilantes de uma causa qualquer e por eles entendidas como traição à causa.
Quem treslê uma falta de comparência é o pior desamante da liberdade. Extravasa o significado da existência gregária: um suposto devir coletivo não se sobrepõe à idiossincrasia individual apenas porque sim. Deviam entender, estes medonhos abocanhadores da liberdade avulsa, que o silêncio significa isso mesmo, um silêncio. Não se pode virar o silêncio do avesso para descobrir palavras que não foram ditas nem intuídas. Para estes catedráticos autocondecorados, um silêncio pode ser gongórico. Oxalá fosse por causa de uma imaginação prodigiosa.
A falta de comparência nunca se marca quando o espírito voa livre de amarras e se recusa a ser parte de feudos que delimitam a vontade em varas hermeticamente seladas. O máximo que conseguem os vigilantes que não fazem concessões à liberdade de espírito é que os espíritos intrinsecamente indomáveis não compareçam às demandas. Falham-nas intencionalmente. Militam na única religião que admitem: a falta de comparência. A falta de comparência é a garantia de que esses espíritos não fazem concessões a quem tanto quer domá-los.
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